sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Flores

 As flores da vizinha sempre foram tão bonitas! Por isso, quando viajei, pedi para ela regar minhas plantas. Ela disse que gostou tanto que comprou uma mangueira para facilitar o trabalho, e pediu para continuar a regar quando eu voltei. Me contou:

- Quando eu era criança, menina não podia ficar por aí parada. Tinha sempre que estar fazendo alguma coisa pela casa, aí a gente não podia sonhar. Por isso eu gostava de regar as plantas, eu sonhava! - Molhou o manjericão - estou regando, eu dizia; eu regava e sonhava, por isso até hoje eu gosto tanto de regar. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O que aprendi em um ano vegana

 Algum dia do mês passado (não sei dizer qual) fez um ano que comecei minha jornada vegana. (Importante ressaltar que tem sido uma jornada, e não um fim.) Achei que seria divertido fazer um compilado de aprendizados.

1- Veganismo não é dieta. Na verdade, para mim esse foi um aprendizado de antes do início da jornada, porque se fosse dieta eu nem tinha entrado nessa; que a deusa me livre de privações para o controle do meu corpo. Veganismo não é só sobre não comer animais; veganismo é sobre respeitar seres sencientes. 

2- Uma dieta vegetariana estrita não é necessariamente saudável (e pra mim foi importante consultar uma nutricionista vegana, para me ajudar a ajustar os nutrientes e me prescrever o suplemento de B12 que eu vou tomar o resto da vida - porque dá para tirar todos os nutrientes dos vegetais, menos a B12. E carne tem B12 porque os bichos são suplementados; então eu mesma suplementar é só tirar uma etapa da corrente.)

3- O segredo para uma alimentação vegetariana estrita é não tentar imitar o pratos que tem ingredientes de origem animal. Não é errado veganizar um prato de origem animal, mas a gente precisa saber que nunca vai ter o mesmo gosto. E tudo bem. O paladar muda mesmo, e há toda uma série de sabores a serem descobertos. 

4 - Ninguém será convertido ao veganismo depois de comer comida vegana. O combo jornada veg + pandemia me tornou algo que eu nunca fui: uma pessoa que gosta de cozinhar. E eu estava tão animada com todos os sabores novos que vinha descobrindo que queria mostrar para todo mundo; e o que acontece é que a minha família riu da minha cara quando eu falei que estava fazendo "carne" de casca de banana e "queijo" de amendoim. Eu fiquei bem chateada, mas aí me dei conta que eu já não acho que o que eles comem é comida; por que então eles deveriam achar que o que eu como é? "Carne" de casca de banana tem gosto de casca de banana temperada e "queijo" de amendoim tem gosto de amendoim fermentado; e são gostos maravilhosos, mas não são os gostos da culinária carnista e é preciso quebrar alguns preconceitos para prová-los e aproveitá-los. Se meu objetivo é acabar com a exploração animal, faz mais sentido falar sobre exploração animal do que tentar converter desavisados ao meu bolo sem manteiga e ovo. (importante também dizer que durante as refeições com carne nunca é uma boa hora de falar de dieta vegetariana; e que pregar para quem não quer ouvir é uma perda de tempo)

5-  Não é o fim do mundo ter algumas recaídas. Pouco depois de ter entrado nessa jornada vegana, eu passei uma semana em Minas Gerais, num evento. Eu era louca por queijo, aí eu comi queijo. Mas já comi menos queijo do que comeria se não tivesse começado a veganizar, não comprei queijo para levar e foi a primeira vez que eu comi queijo pensando no sofrimento que aquilo significava. Para mim, foi importante. No Natal do ano passado eu provei o bacalhau e comi brigadeiro de leite condensado. Foi louco ver como meu corpo recebeu aquelas coisas de uma maneira diferente - nem era tão gostoso quanto eu lembrava, e eu fiquei meio enjoada. Neste ano, teve um dia que eu comi um pedaço de salmão. Não me fez mal nem nada, mas também percebi que não era algo que eu precisava pra viver. Eu não me orgulho de nenhuma dessas recaídas, mas também não me culpo, porque foram poucas e esporádicas e não interromperam a minha jornada. Foram importantes para descontruir algumas memórias afetivas com a comida, e entender que veganismo não é sobre privação, é sobre posicionamento político.

6- Não basta uma comida não ter produtos de origem animal para ser apta para pessoas veganas. É preciso levar em consideração também como a comida é produzida. Não dá para a empresa que mais vende carne no Brasil vender também um hamburguer vegano; não dá para ser vegano e ter trabalho escravo.

7 - Veganismo envolve todos os produtos, não apenas a comida. A regra do item 6 também vale para produto de beleza, de higiene, eletrônico... é importante só ressaltar sempre que as escolhas devem ser feitas dentro do possível para cada pessoa - nenhuma carteirinha será cassada por usar camisinha que tem produto de origem animal na ausência de uma sem produtos de origem animal, por exemplo (e na verdade é bem tosca essa ideia de cassar carteirinha).

8- A exploração animal está mais presente na nossa vida do que a gente imagina. Eu fiquei realmente chocada de ver que quase tudo o que eu consumia tinha ingredientes animais. Sério. Olha aí.

9- Não vai dar mais para comprar tudo no supermercado. Porque talvez o supermercado explore mão de obra. Porque os vegetais e legumes são mais frescos e baratos na feira. Porque a gente descobre que não precisa de algumas coisas (eu substitui meu amaciante por vinagre, por exemplo). Isso não quer dizer que eu não faça mais compra nenhuma no supermercado; mas passei diversificar as compras e acabei descobrindo vários pequenos produtores e revendedores.

10- Compras passam a exigir pesquisa. Qual marca não explora animais humanos e não humanos? Existem listas em grupos na internet; para mim a grande mudança foi pensar que não deveria mesmo ser tão fácil consumir; que tudo tem a sua história e seu preço ambiental. 

11- Ninguém vai mudar o mundo apenas alterando o próprio padrão de consumo, mas isso não pode ser usado de muleta para não se mexer. Ações individuais tem um impacto muito pequeno no todo e grandes corporações sem regulação e fiscalização adequadas fazem enormes estragos enquanto eu e você compramos escovas de dente de bambu. Ainda assim, acho que pensar sobre o consumo pessoal é parte de uma ética, além de trazer reflexões que devem ser levadas para o macro.


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Sobre o tempo dedicado às atividades "extras" do doutorado

 Ano passado (mas parece que foi em outra vida), quando eu conversava com uma amiga doutoranda de Minas Gerais em um congresso (bons tempos aqueles, nos quais íamos presencialmente a congressos, metíamos todas as nossas mãos simultaneamente em bandejas de pãezinhos e conversávamos aglomerados sobre a comida em ambientes fechados - era onde aconteciam as melhores trocas científicas; nestes momentos e nos afters) e lamentava (pero no mucho) ter tido que mudar meu doutorado porque o equipamento que eu originalmente usaria deu errado, ela me disse que ei, tudo bem, esse é só o começo da sua carreira científica, você vai ter o resto da vida para fazer esses teste, meu orientador me disse e a gente não acredita, mas devia, que o maior produto de um doutorado não é a pesquisa desenvolvida, e sim um doutor.

(Isso obviamente não quer dizer que a pesquisa é secundária ou que pode ser feita de qualquer jeito; isso quer dizer apenas que a falha e mudança de rumo são inerentes à ciência, e aprender a lidar com elas e a coordenar o próprio projeto - habilidades requeridas de um doutor - são os aprendizados fundamentais do doutorado; e que aprendendo isso os resultados necessários para a tese - e não necessariamente os desejados pela tese - virão. Nenhum trabalho encerra um tópico, então há uma vida pela frente para ir preenchendo lacunas, a partir do aprendizado de como aprender e pesquisar.)

Um doutor, pois sim. Até hoje essa conversa me acalenta, e me ajuda a direcionar meu tempo para aprender o que eu acho necessário para doutora que eu quero ser.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Poema concreto

Dr
ama
drama

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Diário de quarentena - parte 11

Quando isso tudo acabar, a primeira coisa que farei serão planos.

Dois gatinhos, dois daqueles do início deste diário, ainda filhotes mas não mais tanto, apareceram dando rolê à noite na porta da minha casa. Os gatinhos sobreviveram, eu fiquei tão surpresa, alguma casa adotou os gatinhos e eles estão bem.

Na casa dos meus pais eles não assistem mais Jornal Nacional. 

Meus amigos do instagram estavam todos na praia. 
Era domingo, início de inverno, e estava sol depois de uma daquelas semanas tão cinzas e geladas. Coloquei a máscara e fui, um passeio de menos de uma hora na praia a 3 quadras de casa. O por-do-sol estava tão, mas tão lindo. Foi o dia em que batemos oficialmente as cinquenta mil mortes. Guardei a máscara no bolso do short e sentei na areia.

"Não se pode culpabilizar o indivíduo", eu pensei, "Não temos um pacto social que faça sentido. Por que essa galera que pode pagar duzentos reais num almoço pode sentar aqui e eu não? Porque as pessoas que trabalham aqui tem que vir trabalhar aqui, mas não podem passear? Eu ficaria em casa se todos estivessem, mas não faz sentido eu não poder andar a 3 quadras da minha casa enquanto a minha esquina engarrafa. Eu cansei de ficar com raiva das pessoas que não estão em casa, eu não aguento mais ficar em casa, eu acho injusto culpar só as pessoas se não temos um pacto social que faça sentido."

A praia estava lotada, e o céu azul-laranja.

E as pessoas continuam morrendo, mais e mais.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Observação social do dia:
- Donos de kitnet tem carros maiores do que os imóveis que alugam.

domingo, 14 de junho de 2020

A estranha ideologia tecno-científica sempre ressalta que a ciência é neutra de ideologias, mas o desenvolvimento tecnológico é sempre positivo. A não ser quando faz bomba para o inimigo.




Há muitas mais mortes que as bombas, e a tecnologia sempre tem lados.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Diário de quarentena - parte 10

O fim da quarentena se aproxima com a normalização das mortes.


Passei dias e mais dias pensando se ia ou não ao protesto antirracista.

Um amigo me convidou para tomar um café na casa dele. (I said no no no)

O pulmão do meu pai está quase bom.

A empresa do David quer que eles voltem a trabalhar presencialmente. Ele disse que, se voltar, vai também à praia. Não faz sentido a gente se expor aos riscos apenas do capital.

Entendi que não vou mais a UFSC, nunca mais.

Eu sinto muita saudade de fazer planos.

Outro dia abri os envelopes do "save the date" do casamento e chorei por horas pelo diário que eu queria estar fazendo. 2020 varreu meus pés e tantos corpos que não serei eu a falar de sapatos.

agradeço o amor

e termino um paper desde antes disso tudo começar.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Diário de quarentena - parte 9

O proprietário da minha casa achou que era um bom momento para fazer uma obra na antiga casa das Patrícias, agora vazia. O muro que separa a minha casa da entrada da ex casa delas termina abaixo do meu ombro. Os caras da obra ficam entrando e saindo e passando do meu lado. Um casal de mais de 60 anos que não sai há mais de 70 dias mora na parte de cima da casa.

O outro vizinho resolveu seguir o exemplo e reformar a casa também. Meu home office agora tem um barulho adorável.


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Veganizando - parte 1

Não lembro ao certo se foi em agosto ou setembro do ano passado comecei a minha transição vegana. Estou há quase o mesmo tempo querendo escrever sobre. Mas acontece que na minha cabeça o texto teria que ser um tratado mega-referenciado quase mais completo que o meu doutorado, aí obviamente eu acabo nunca escrevendo tal obra tão repleta de sabedoria. Resolvi baixar a expectativa e fazer do textão uma série de textinhos, a ser lançada conforme as possibilidades e sem uma ordem cronológica ou de importâncias de temas. Fica assim factível. Quem sabe um dia eu organizo o todo.

Começando:

Na época que eu decidi veganizar, a gente estava lendo "A política sexual da carne", da Carol J. Adams, no Grupo de Estudos do Mulheres na Engenharia. O primeiro encontro desse livro foi um dos mais lotados que o grupo já teve, cheio de veganas querendo compartilhar suas histórias. Para mim, que ainda estava me despedindo do queijo e do leite condensado, foi bem educativo.

O livro é um dos clássicos do movimento e mostra como a opressão às mulheres e aos animais estão relacionadas - é tão escancarado que basta a gente lembrar que os caras se gabam de comer a gente. O consumo de carne está culturalmente ligado à virilidade e ao poder de submissão masculino. Os animais, as mulheres e a natureza devem ser dominados e devorados. Outro conceito interessante é como ser vegetariano por ter pena dos bichos é visto como algo tolo. Os sentimentos e a compaixão são vistos como femininos, e por isso inferiorizados. A violência é masculina e valorizada.

O principal conceito apresentado pelo livro é o referente-ausente: quando o significado é retirado de algo. Por exemplo: em muitos casos, não chamamos o bicho morto pelo seu nome de bicho vivo, e sim de carne. Ninguém se refere à picanha ou filé de um boi vivo. Isso faz com que a gente não pense que a picanha era um boi enquanto a come, assim descolamos o boi da carne, tornando-o o referente ausente. É por isso que muita gente come bacon, mas não gosta da imagem do porco assado com a maçã na boca.

Lembrei desses conceitos hoje, lendo uma discussão sobre dar nomes de alimentos animais a alimentos vegetais: leite de amendoim, carne de soja. Eu também achava esquisito, mas naquele primeiro encontro do livro conversei com uma nutricionista vegana que me deu uma explicação ótima: comida é cultura e afeto. Ao deixar de comer um ingrediente, você não precisa deixar de comer as coisas que se relacionam culturalmente e afetivamente a ele (desde que seja um alimento da sua cultura, e não uma apropriação, que fique explícito). Por isso, ela (e agora eu) defendo que existe sim maniçoba vegana feita por paraense, e bobó vegano feito por baiano, e brigadeiro de leite vegetal feito por brasileiras. O que acrescento ao que já me foi dito é: aqueles que comem carne se sentem confortáveis de tirar o animal vivo da carne ao dar a ela outro nome, mas não gostam que outros usem seus nomes. Tudo bem chamar rejeito de frango de nuggets, mas hamburguer de lentilha não pode.

Pode, pode sim. E quisera eu que as grandes tretas veganas fossem apenas questões de nomenclatura.

domingo, 24 de maio de 2020

Diário de quarentena - parte 8

Descobri que o nome do que eu estou fazendo é distanciamento social, e não quarentena. Bom, manterei o nome do diário para fins de relato.


Houve mortes, muitas - no jornal e no telefone. E não houve os devidos adeus.

Houve parentes contaminados, muitos também. Mas eu não quero falar disso ainda. As pessoas ficam com pena, eu não gosto que as pessoas fiquem com pena, eu acho um péssimo jeito de acolher.

- Se quiser estar para mim para o que eu precisar, seja cúmplice do meu silêncio.

Houve semanas melhores e piores. 

Fiz um instagram para a Vivi.

Nesta semana respondi um questionário para uma pesquisa e me dei conta que estou no dia 66 em casa, saindo só para o mercado e para passear a Vivi. Sem nenhuma perspectiva de fim disso, com notícias cada vez mais catastróficas.

Cansaço, raiva, choro, tédio.

Moro num bairro turístico, e nos poucos quarteirões nos quais ando com a cachorra há pessoas comendo em restaurantes de luxo e diversas placas com desenhos coloridos chamando as pessoas a virem usando máscaras; como se máscara fosse vacina. Eu desisti de caminhar ao por-do-sol porque tem aglomeração, e caminhar ao por-do-sol era uma das melhores coisas de morar neste bairro.  De repente até o sol se tornou  recurso esgotável. Eu fico com raiva das pessoas que estão roubando meu por-do-sol, e do governo que estimula as pessoas a roubarem o por-do-sol.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Eu fico abismada quando as pessoas chamam de "bondade" algo cujo nome é "civilidade".

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 7

Dentre tantas famílias,
também a minha.

Também foi o cadáver da minha tia
que passou a madrugada no carro
porque a UPA estava lotada
a delegacia fechada
e o IML não aceitava

Amanheceu

E ela foi enterrada sem velório
e todos odeiam velórios,
mas enterrar sem velório é pior.

Dentre tantas famílias,
também a minha,
minha tia foi enterrada sozinha.

O nome dela era Graça. Gracinha.
Ela gostava de fazer festas,
Araújos exilados no sudeste se encontravam em Taubaté.

A gente ria
tomava cerveja
comia maniçoba
dançava brega
e se abraçava.

Naquele tempo podia.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Diário de quarentena - Parte 6

"A resposta para a pergunta que todo mundo está se fazendo — “Quando isso vai acabar?” — é simples é óbvia, mas difícil de engolir. A resposta é nunca." (Aisha S. Ahmad)

Final de semana passado eu teria estado em São Paulo, entregando os "reserve a data" do casamento. Mostrei por vídeo chamada para os amigos mais próximos, porque está bonito; e não falei para reservar data nenhuma.

Voltei a usar minha agenda e anotar meus compromissos e rotina.
-Regar as plantas
- Exercício
- Ligar para meus pais
- Corrigir o artigo
- Escrever um texto
Como de costume, anoto mais compromissos do que sou capaz de cumprir. O que me dá uma paz estranha, ter compromissos inacabados para amanhã.

Retomamos os encontros do Mulheres na Engenharia, agora virtual. Nos primeiros encontros, falamos do corona apenas. Agora voltamos ao livro da Sabrina Fernandes.

Tive até videochamada com o comitê científico da RNC e com meu orientador, e devo participar de uma live sobre mulheres na engenhara esta quarta.

Eu e o David nos perguntamos como será o carnaval ano que vem.
- Todo mundo de máscara, só tira para beijar na boca de desconhecidos.
(Faz tanto sentido quanto as regras do governo do estado de SC e da prefeitura de Floripa, que reabriram restaurante desde que as pessoas usem máscaras, exceto para comer).

No sábado fizemos um date. Ele buscou uma pizza pra gente, eu me arrumei e colocamos uma luz bonita e um jazz e abrimos um vinho. A Vivi queria ir ao banheiro e abrimos o portão de casa, e fomos até a esquina vazia, recolher o cocô com taças na mão. Outro vizinho também escutava jazz e a noite estava bonita. Foi o mais perto possível de passear pela cidade, e foi mágico.

As vizinhas terminaram de fechar a casa e eu não terei mais que regar as plantas delas, o que me deixou triste. 
Tem outra pessoa alimentando os gatinhos, colocou pote e tudo. Nunca mais os vi, acompanhava a ração sumindo. Ontem ela parecia intocada.
- Será que foram movidos? - perguntou o David
- Acho mais fácil terem sido morridos. Podem até ter virado comida de coruja.
- Nesse caso é o ciclo da vida apenas.

Em Belém a crise do covid estourou. Vários familiares com vizinhos contaminados e óbitos conhecidos. Tio com suspeita, sistema de saúde esgotado. Eu estou preocupada, e não há nada que eu possa fazer além de telefonar e ficar em casa.

São 8h, vou fazer café.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Date

Queria saber com que eu trabalhava, e perguntou-me à sua moda antiga:
- Com o que você ganha a vida?
Respondi que ganho a vida entre 15h e 17h - dependendo se era verão ou inverno - quando o sol bate na minha baia. Ainda melhor, ganho a vida quando chego em casa e tiro o sutiã e os sapatos. Ganho a vida aos domingos, quando meu despertador é o vizinho que começou a aprender a tocar guitarra e toca mal, mas eu sorrio porque me lembra a Gabi, quando a gente tinha uns 16, 17 anos. Ganho a vida quando ponho a ração da Joaquina, me faço um sanduíche e calço de novo os sapatos, para a gente passear e aproveitar o cheiro da grama no meio da cidade.
- E o trabalho?
"Nele eu perco a vida", eu pensei, mas em vez disso respondi o nome da empresa e terminei meu prato mais rápido do que precisava, para rachar logo a conta e não ser mais obrigada a ouvi-lo falar seus planos fadados ao fracasso sobre empreender e explorar gente.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 5

Quando eu era criança me disseram que os mortos falam com a gente nos sonhos.

Li que a quarentena está fazendo as pessoas sonharem mais com os mortos. O David tem sonhado com o pai. Nos sonhos, o Davis conta ao pai o que aconteceu com os livros da biblioteca dele.

Estou aguardando os sonhos com a Dorinha, mas só tenho pesadelos com perseguições e comigo dirigindo carros desgovernados. Eu penso o quanto ela estaria com medo de morrer agora, com todas as notícias. Aí lembro que morreu antes. Eu cuido dos panos de prato que ela bordou pra mim e penso que agora eu tenho que saber cuidar de plantas.

Semana passada passou aqui no bairro um catador de recicláveis que eu não conhecia (sou acostumada a outros dois). A prefeitura suspendeu a coleta de lixo reciclável na quarentena, por isso estamos acumulando em casa. A primeira vez que o vi foi quando eu estava passeando com a Vivi. O bairro em que moro é bem turístico e não é normal ver pessoas mexendo no lixo (e e´horrível dar uma localização geográfica para dizer que neste local específico não é normal ver pessoas mexendo no lixo). Eu quis perguntar se ele estava bem, mas fiquei com vergonha.

Vergonha de que?

Fui sair de novo logo em seguida, deixar comida para os gatinhos. Ele estava na minha rua, acho que o vi bebendo o resto de uma garrafa. Tomei coragem e me aproximei. Dei boa noite, ofereci as latinhas que tinha separado em casa e perguntei se ele estava com fome. Ele disse que sim. separei um rango e ele me agradeceu com a voz e as bençãos iguais as de um tio meu, mas mais velho.

- Deus te acompanha.

Desejei que o acompanhasse também.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Melhores posts - Ano Doze

Resolvi aproveitar a quarentena para fazer a lista dos melhores posts entre julho de 2018 e julho de 2019. (Eu pretendia ter  feito esta lista em dezembro, mas faltou tempo).
Devo dizer que meu deu um orgulhinho. É sempre uma surpresa boa reler meus textos depois de tempos e ver o quanto eles estavam bons. (Obviamente não todos, mas vários - a prática leva a melhoria).  Quase todos os posts da época entraram na lista de, se não melhores, menções honrosas. Eu preciso voltar a fazer análises mais profundas e comentar os livros que leio, por mais que muitos itens tão rapidamente fiquem datados, seja porque o tema passou ou porque li mais e mudaria a análise. É sinal de aprendizado, não?
Eu não tinha ainda começado a selecionar os textos, mas já tinha começado a rascunhar este post em janeiro:

2019 foi um ano difícil. Morreu o pai do David, lembrando-me da mortalidade de todos os pais. Depois, foi-se a Dorinha; e perdê-la mudou todas as minhas certezas. Foi um ano politicamente difícil; foi o ano em que voltei a dar aula em cursinho popular; foi um ano cheio de leituras militantes pelo Mulheres na Engenharia - as que lemos juntas e as que nos recomendamos. 

Adendo, que sei que pretendia escrever, mas ficou faltando: foi o ano em que percebi a necessidade de radicalização.




Link dos Melhores Posts

Casa

Sobre engenharia, feminismo, amor romântico e várias digressões

Pequeno conto sobre o homem que fazia chover

Leiam Angela Davis - parte 1

Leiam Angela Davis - parte 2

O que aprendi cuidando de plantas

Sobre a morte

Sobre a morte - parte 2

Sem título [Estou há um mês escrevendo este texto...]


Link das Menções Honrosas

Sem título [Foi só quando aprendi que o tempo é eterno...]

Conclusões sobre o amor livre lendo o livro "Mulheres, estado e revolução", da Wendy Goldman; e batendo papo no coletivo feminista Mulheres na Engenharia

Sobre o "ele não"

Mais um post sobre eleições

Observações pós-eleições - Parte II

Sem título [Em se tratando de coisas do coração...]

Diário de doutorado

Qualificação

Sobre a solitária vida na pós-graduação

Física pós-moderna

Sem título [Estes dias, não sei qual dia ao certo...]

Sobre expor macho escroto - parte 2

Sobre aniversários

Sem título [todos os dias as notícias me dão desesperança...]

Pássaros

Sem título [Em algumas crenças religiosas...]




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quinta-feira, 16 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 4

Ontem foi o primeiro dia em que saí de máscara. Fui a uma agropecuária aqui perto de casa, comprar ração. Comprei as máscaras de tecido de uma amiga da vizinha. Escolhi máscaras com motivos felizes, florzinhas e bolinhas.
A máscara é bem desconfortável para respirar, e se eu coloco errado o meu óculos embaça. O que talvez seja bom, já que indica que eu coloquei errado.
Eu nunca imaginei que a gente teria que usar máscaras. Faz todo o sentido usá-las, eu só nunca imaginei mesmo.

Dia desses conversei pelo muro com a minha vizinha de trás, uma senhora congolesa que mora no Brasil há mais de 30 anos. Ela disse que conversou com a mãe, que tem 90 anos e mora na França; e que a mãe não está impressionada:
- Lembra aquela doença de bolinhas na pele que dava em todo mundo quando vocês eram crianças? Tudo passa.
Minha vizinha tem mais de 60 anos e disse que não vai tomar vacina de gripe porque está com medo de sair de casa.
- Gripe não mata, corona mata.
Hoje teve vacinação de gripe na escola na esquina de casa. A vizinha da casa do lado, setenta e muitos, insistiu pra congolesa ir se vacinar, mas ela não foi.

Eu e o David descobrimos que tem uma família de gatinhos morando no terreno baldio a 3 casas da nossa. Comprei ração pra eles também. São duas pequenas fugas: de manhã, quando tiro o carro da garagem para termos espaço para pegar sol e então caminho até as esquina. No fim da tarde, quando damos a volta com a Vivi no quarteirão.
Eu queria ter um gato.

Nas minhas redes sociais pipocam pedidos de ajuda. É errado ter gastado o dinheiro com ração de gato? Ajudo as pessoas que posso. Me pergunto se isso é verdade. Eu posso ajudar mais? Penso na grana do casamento.

Eu sei que a saída é uma mudança de sistema e que eu estou longe de ser super rica. Mas antes as pessoas precisam comer.

Eu conto a passagem dos dias pelas poucas atividades de rotina. Segunda, quarta e sexta passa o lixeiro e eu rego as plantas de dentro de casa. Na quinta eu tenho que pegar os orgânicos que compramos de uma célula de consumo consciente que entrega na UFSC. No final de semana o David não trabalha, e eu passo raiva tentando acabar um trababalho que eu achava que teria acabado há um mês, e há um mês achava que teria acabado antes.
Na terça eu acabei metade do trabalho e mandei para o congresso desse jeito mesmo porque a deadline chegou. O congresso está marcado para setembro, na Alemanha. Eu não sei se as fronteiras estarão abertas até setembro, nem se o dinheiro da minha taxa de bancada ainda conseguirá pagar taxas em euro. A deadline para pagar a inscrição é maio, e eu duvido que tudo esteja normal mês que vem. Eu ouvi uma das entrevistas do Átila, dizendo que o mundo de janeiro não existe mais. Já tem algumas semanas que estou lendo que isso que a gente está sentindo é luto.

Começo a pensar que talvez tenhamos que adiar a data do casamento.

Como eu trabalhei finais de semana e feriados, dei-me alguns dias desta semana de folga. Ontem eu dormi de tarde, e também cedo à noite.

Eu tenho vários textos que queria escrever, mas ainda não consegui.

Hoje eu consegui me exercitar um pouco. Eu fico com inveja das pessoas se exercitando no instagram.

Hejo foi o segundo dia em que sai de máscara. O dia estava tão lindo. Eu queria caminhar na beira da praia. Tudo parece tão distante.

Conversei com a minha amiga que é minha nutricionista. Ela disse que o organismo usa a B12 para metabolizar o alcool, o que me fez pensar que essa minha deficiencia de B12 talvez date dos tempos de mestrado. E ela me diase que não é bom eu beber muito na quarentena.
Penso nas latinhas na geladeira e suspiro.
Ela sugeriu eu fazer um diário alimentar também, colocando os sentimentos junto.

Ontem eu desenhei a casa em que eu e o David vamos morar quando eu passar num concurso e a gente tiver mais dinheiro. Deu bastante trabalho e foi um ótimo exercício de sonhar futuro.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 3

Nesta quarentena tenho me dedicado a observar as coisas que precisam que eu as deixe quietas; as que acontecem sem minha interferência e tem seus próprios tempos e vontades.

Ligo para os meus pais todos os dias de manhã.

Arranco os matos que nascem debaixo das pedras da minha garagem, vejo minhas plantas crescerem.

Quero essa curva bem achatada; eu tenho medo de altura, afinal.

Meu tomate está ficando maduro.

Desisti de discutir com meu primo liberal preocupado com a economia. Nem eu nem ele faremos as políticas públicas; era orgulho então.

Asso um bolo.

Escuto meu vizinho adulto perguntando aos pais idosos se eles sabem quantas galinhas tem no mundo.

Marco vídeo-conferências, escrevo minha tese.

Converso com o David. Case com alguém cuja companhia te alivie a quarentena e a vida.

Deixo o amendoim de molho por 8h, depois bato, daí espero 24h  o "queijo" de amendoim fermentar. Checo as bolhinhas.

E tiro cochilos com a Vivi no fim do mundo.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Dizem - como se fosse algo ruim -
que nossos pelos são florestas

E que devemos parecer crianças impúberes,
lisas como bonecas
ou desertos

Arranco meus pelos e as ervas daninhas
estética de jardim
ou deixo-os crescer como um terreno baldio?
- suja -

gilete moto-serra
cera quente agrotóxico
laser queimada
depilação cidade estrada
terra estéril

Há algo mais bonito que ser mata?
Cheiro de mata, cheiro de gente
e de buceta

domingo, 29 de março de 2020

Diário de quarentena - parte 2

Ontem minha mãe me contou que Seu Jorge, o gato, morreu atropelado. Eu passei alguns minutos chorando e depois o dia todo mal. Por um bicho que eu mal conheci e pela minha irmã, que todos os dias da semana passada estava brincando com ele quando a gente conversava. Ela apagou as fotos dele do instagram.

Eu não sei como resolver o dilema dos gatos, que gostam tanto da liberdade mas os cuidadores ensinam que a gente não pode deixar sair de casa. Eu sei que isso pode ser uma boa metáfora, desenvolvam aí.

Eu lembrei daquelas comparações toscas daqueles que faziam arminha nas eleições: carros também matam e nem por isso a gente quer proibir os carros.
Eu acho que talvez a gente devesse.

Seu Jorge foi atropelado por uma moto. A irmã da minha amiga morreu num acidente de moto.

Viver não devia ser tão arriscado, e isso abre um debate de direito à cidade e necropolítica que vou guardar para outra vez.

Eu lembrei do dia em que sai de casa e tinha um gato esmigalhado bem no meu caminho, carne no chão. Eu já tinha parado de comer carne e, depois daquilo, não teria mais como voltar.

Eu pensei nos pedaços do Seu Jorge que o papai e a minha irmã recolheram pra enterrar. Mamãe disse que quando aconteceu a minha irmã não parava de chorar.

Eu tive um momento clichê vegano pensando em todos os bichos sem nome que são mortos todos os dias, e aí ficou ainda mais difícil ficar tranquila.

Às vezes o mundo dói tanto que eu sinto que não vou dar conta.

Depois de fazer 30 anos. eu aprendi a tentar sofrer o necessário - nem mais nem menos que isso -; e tentar direcionar o sofrimento social a ações.

Ontem eu fui entregar uma cesta de comida que a gente arrecadou no pre-universitário a uma das nossas alunas. As aulas foram suspensas logo na segunda semana, mas eu lembrava dela porque na noite em que ela foi entrevistada para o processo seletivo era eu que estava recebendo as pessoas, e ela chegou com seu painel de bijouterias hippies a venda.

Ela mora numa kitnet bonitinha, parecida com as que eu morei na graduação e hoje moro. E estava sem comida.

Ela agradeceu e eu percebi que eu ainda precisava sofrer um pouco mais.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Diário de quarentena

Mais um diário temático para a lista, mas talvez essa seja postagem única.
Chamei de diário porque parece mais com meus diários de papel - é tipo uma live, mas de palavras.

Ok.

Tem sido difícil escrever porque meu diário de papel eu esqueci em Belém; e depois de passar 8 ou mais horas trabalhando na frente do computador a última coisa que eu quero é passar mais horas na frente do computador. Minha agenda-caderno rascunho está um lindo caos de post-its, e meu doutorado nunca rendeu tanto. Não tem evento do Mulheres na Engenharia para organizar, não tem aulas nem as inúmeras atividades administrativas do Pré-universitário popular para fazer (embora a gente esteja puxando uma campanha de arrecadação de grana para famílias do Morro da Queimada, mas dessa vez eu contribui só com grana mesmo), não tem nenhuma das atividades que na verdade eu acho mais importantes e mesmo mais formativas que o doutorado para fazer, então eu trabalho no doutorado. E com todo o clima pesado e angustiante que está no ar, um trabalho alienante nunca foi uma fuga tão cômoda. Assim eu não tenho que prestar contas por não estar fazendo ioga ou aprendendo francês, ou redescobrindo meu eu. Estou fazendo a minha tese.

(Uma vozinha no fundo da cabeça não cala a boca. Ela diz que eu não vou terminar isso. Ela diz que o que eu estou fazendo é loucura. Ela me lembra daquele meme do desenho do cavalo, com as pernas bonitas desenhadas sendo o projeto e o desenho ficando cada vez mais tosco sendo a execução. No meu caso como eu mudei de tema eu fui lá e desenhei uma árvore nas pernas do cavalo, e eu acho que sei desenhar árvores porque eu estou lendo sobre; mas isso é tipo aquele outro meme do restauro do Jesus. Eu devia ver menos memes. Ontem no meu insta apareceu uma daquelas correntes de universitário - eu e meus amigos xófens - para dizer qual foi sua matéria favorita e eu pensei "rapaz, nenhuma". Mentira. Eu gostei de cálculo I, e de programação, e de algumas matérias da energia. É só que o esquema de aulas era tão diferente do funcionamento do meu cérebro que no fim eu só queria provar que era capaz de sobreviver, e, bem, estou aqui. Depois o cursinho popular me fez ver que espaços educativos tem que ser lugares de rebeldia e me deu vontade de vencer o sistema só para entrar nele e colocar uma rachadurinha interna; mas a vozinha fica aqui me dizendo que eu estou me torturando à toa)

vou ler um artigo, dois artigos, ajeitar planilhas e tabelas e o artigo que eu pretendo mandar para um congresso na Alemanha que eu não sei mais se vai acontecer.

tem tanta coisa que eu não sei mais como vai acontecer.

recebi um e-mail da gol esses dias. Eu estava com passagem comprada para São Paulo para o final de abril; ia entregar uns save-the-date e convidar pessoalmente uns padrinhos de casamento. Não acho que vai estar rolando viagem no final de abril. Não sei se teremos de adiar o casamento. Espero que não, porque está tão longe.

Eu leio as notícias. Eu estou obcecada com as notícias. Eu leio as notícias sempre que o alarme do pomodoro desperta; eu vejo as curvas de mortes e penso na economia. Ontem uma amiga disse que a gente pode estar presenciando o fim do capitalismo. Achei um sonho ousado.

Ontem consegui fazer meu primeiro brigadeiro vegano decente.

Meus suplementos ainda não estão prontos.

Ontem fiz uma meia hora de exercícios, mais os quinze minutos de respiração com o David.

Estou lendo um conto da Chimamanda por dia. Entre as notícias e memes.

Minhas vizinhas, um casal formado por duas mulheres chamadas Patrícia, vão voltar para a cidade delas. Isso mexeu comigo e o David. Foram elas que organizaram há uns meses atrás o "churras do condomínio", dando um charme extra para a casa dividida em 4 que a gente divide. "Condomínio". Somos a cara da classe média, nos nossos cubículos mal divididos em bairro caro. Eu adoro o bairro, uma pena não poder ir tomar uma cerveja na praça na beira do mar no fim do dia. Ontem fui passear rápido com a Vivi e comprar papel higiênico no mercadinho e os PMs estavam na pracinha. Talvez fosse só a ronda normal, mas fiquei com medo de levar bronca, já que estamos proibidos de permanecer nas praias e praças para evitar contaminação.

Uma das Patrícias disse que elas vão embora pela pandemia, porque não sabem quanto tempo isso vai durar, porque a loja onde a outra Patrícia trabalha mandou ela voltar a trabalhar e ela não quer se expor a ficar doente, porque elas tem uma casa montada na cidade delas e não querem ficar pagando aluguel na crise. A outra disse que não foi por isso, que só quer mudar algumas coisas na vida. Fato é que crises fazem a gente repensar a vida; e embora o David tenha um bom emprego e esteja trabalhando em casa e eu apesar de mal paga tenha graças a meus pais uma grana guardada, dá medo de crise e hiper inflação e de onde a gente vai dormir. A gente mora numa ilha, e nossa rede de apoio é tão frágil.

Fico feliz de saber que minha família está bem e em casa.

Penso em todas as outras famílias.

domingo, 8 de março de 2020

Diário de casamento - F.A.Q. 1

1- Marina, você vai mudar de nome depois do casamento?
Resposta: Sim, vamos mudar de nome. Depois do evento, eu me chamarei David e ele se chamará Marina.

domingo, 1 de março de 2020

Decidi ser cientista

porque achava que a Ciência tudo podia: 
(principalmente e até)
salvar a Humanidade

e passaram-se anos

até descobrir 
cientificamente
que só a humanidade pode - talvez - salvar a humanidade

e
talvez 

também possa a humanidade salvar a ciência

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Como curtir o carnaval em tempos de mimimi?

Semana passada um primo querido porém de direita (o qual eu poderia usar para dizer "não tenho nada contra a direita, tenho até amigos que são", mas seria mentira porque eu tenho sim muitas coisas contra a direita) postou no grupo da família do meu pai uma "piada" sobre como curtir o carnaval nos tempos de mimimi, no qual o personagem fazia uma cantada falsamente rebuscada e excessivamente respeitosa (começava com "Cara senhorita rebolativa..."). E assim começou a discussão.

(Eu saí do grupo da família da minha mãe em setembro de 2014 depois de ler coisas do tipo "temos que compartilhar isso sobre a Dilma, não importa se é verdade, o importante é não deixar aquela vaca ganhar". Saí com o aval da minha psicóloga e uso isso de desculpa para nunca mais ter voltado. Sempre digo que tem pessoas de quem eu gosto muito mais quando a gente só se vê no Natal)

Eu gosto do primo da "piada" do mimimi, gosto realmente. Lá em 2012, quando eu estava super estressada e de coração partido e derrubei acidentalmente uma xícara de água fervente na minha perna ao fazer um chá, foram ele e a esposa que me levaram no hospital e depois para a casa deles para cuidar das minhas queimaduras de segundo grau (nota: demorou ainda alguns anos para eu perceber que coração partido e tristeza me deixam ainda mais propensa a acidentes; e decidir que não queria me machucar mais). Isso é ser família, isso é cuidado. E foi por isso que eu resolvi conversar com ele na militância amorzinho, explicando porque era ruim chamar assédio de mimimi.

Eu tentei de tudo.

Primeiro:

Primo, assedio não é mimimi. A primeira vez que passaram a mão em mim sem minha permissão eu tinha 13 anos e estava esperando o ônibus num dia qualquer (história similar a de muitas amigas). Se num lugar aberto isso já acontece, imagina na muvuca, onde o agressor nem é visto. Fora os casos mais violentos: beijo forçado, o cara que droga a mina, etc. Se o cara não sabe distinguir o que é consentimento do que não é, ele tem problema pra viver em sociedade; e não a mina é "cheia de mimimi".

Depois:

Primo, ninguém é contra a paquera, inclusive o link que mandei é justamente para desmistificar a ideia de que o politicamente correto é contra a paquera. Ninguém é contra piadas também, todo mundo quer conversar, flertar, rir e se divertir. O que as mulheres não querem é serem desrespeitadas, acho que isso ninguém quer.

A piada foi desrespeitosa porque diz que estamos "na era do mimimi". Essa expressão é extremamente desrespeitosa, porque o que se tem visto crescer ultimamente são denuncias de assedio que mulheres sofrem em vários contextos (e homens também, mas vou focar nas mulheres porque somos as vitimas mais frequentes). Quando a piada diz que tem que adaptar a cantada para a era do mimimi, ela diz que as denuncias que fazemos sao mimimi. Isso tira a legitimidade das nossas dores e denuncias. Diz que reclamar de assédio é mimimi.

A piada não falou de transar, mas existem várias outras violencias possiveis alem do estupro, e legitima-las é cultivar a cultura do estupro. Assim, mesmo que poucos homens sejam de fato estupradores, muitos homens (e mulheres também) acham que, se a moça está no bloco, ela está disponível. Se ela está de roupa curta, pode passar a mão. E se ela considera uma cantada invasiva, está de mimimi. E todas essas pequenas violencias legitimam o corpo da mulher como algo que pode ser acessado sem o consentimento dela.

Ficam os questionamentos: como era a cantada do cara antigamente, quando não tinha "mimimi"? Por que ele teve que reformular a cantada? E por que o "mimimi" está incomodando ele? 

E outros: a quem interessa difundir a ideia que o politicamente correto não quer se divertir? A quem interessa chamar lutas anti-opressão de mimimi?

Eu não quero que esse tipo de piada não possa ser feita aqui, eu quero que esse tipo de piada não seja feita, ponto. Eu não posso e nem quero proibir você de fazer, eu quero explicar porque não é legal fazer.

Eu não debato com parede nem com caso perdido, então só estou gastando esse tempo fazendo esse textão porque gosto muito de ti e te considero um cara inteligente, e entendo que infelizmente esses debates ainda não foram feitos por muitas pessoas. Mas acho que precisam ser feitos.

Outros primos e primas e tias entraram na discussão com ótimos argumentos. O primo da mesma geração do da "piada" dizendo que isso não cabe mais. A prima de 18 anos falando do orgulho de ser "geração mimimi" porque isso quer dizer que não aceitam mais assédio e buillyng; o primo e a prima trans falando dos casos de suicídio de adolescentes lgbti por conta de buillying. E o primo da "piada" sempre dizendo que na geração dele as pessoas sabiam se respeitar, que até hoje os amigos chamam ele de gordo e baixinho e tudo bem, que hoje as pessoas procuram pelo em ovo. Difícil.

Última tentativa:

Primo, também te amo 💜

Se na sua infância/adolescencia/farras você sempre respeitou e foi respeitado, isso é ótimo. O "mimimi" de hoje em dia não é sobre você, continue sendo uma ótima pessoa com ótimos amigos 💜 Ninguém quer acabar com brincadeira, flerte, diversão, etc. Nem procurar pelo em ovo.

Infelizmente nem todo mundo teve/tem a mesma sorte, nem naquela época nem hoje. Sempre houve quem desrespeitasee as mulheres no carnaval, sempre houve quem fizesse "brincadeiras" desrespeitosas. De novo: que bom que voce sempre respeitou e nunca sofreu violencia, que bom que seus amigos tem limites. Mas não é sobre você.

Você acha que é uma piada porque voce nao tem medo. Nesse grupo, muita gente tem. E fora do grupo; eu falo do grupo porque acho que é mais facil empatizar com a familia que a gente ama, mas tem mais gente e mais problemas no mundo. E por isso, pela gente e por eles, é desrespeito falar que é mimimi. Como disse o Luan: é brincadeira quando todo mundo se diverte, só que nem a gente nem muitas outras pessoas se divertem ao ter suas dores chamadas de mimimi. E se voce nao tem dores nem inflige dores, naa disso é sobre voce e voce pode simplesmente ouvir que os outros tem dores e não fazer piadas sobre elas. Nao tem porque machucar os outros, nem achar que as reclamacoes sao sobre voce

Adiantou?

Não. Ele continuou falando que era só uma brincadeira e que a geração dele era respeitosa. 

E por fim:

Primo, que voce era respeitoso eu acredito. Agora esse mito geracional de que naquela época tudo era bom e hoje tudo está perdido é só saudosismo, viu? Super justificado ter saudade de uma infancia/adolescencia feliz, mas sua experiencia nao quer dizer que antes todo mundo era educado e bom (mesmo porque a maior parte desse todo mundo ainda tá por aqui, então fica bem visivel que não é todo mundo bom. Nem mau)

Pensei agora numa comparaçao boa: assedio, homofobia, feminicidio, buillyng, etc, são tipo elétrons, gravidade, celulas tronco: coisas que existiam antes de alguem ir lá, ver e colocar um nome. Quando a gente coloca um nome fica mais fácil de entender a coisa, mas não quer dizer que antes de terem nome as coisas não existiam. A galera das ciências humanas trabalha muito pra reconhecer e nomear os fenomenos sociais, mas eles não inventam os fenomenos

Ele disse que não tinha dito que a geração dele era respeitosa, e estava há uns dois balõezinhos acima. Aí eu cansei. Argumentos expostos, as pessoas não mudam de opinião na hora; quem sabe acende uma luzinha.

Isso eu acho que foi quarta e quinta. Na sexta eu saí com umas amigas à noite, e uma delas começou a contar o show de horrores do bloquinho da noite anterior:

- O cara agarrou a nossa outra amiga à força. Ela sempre disse que reagiria se acontecesse, mas ficou tão chocada que nem conseguiu fazer nada. Depois eu vi que um cara tava me encarando. Ele puxou meu braço e perguntou meu nome. Eu disse que não queria dizer, e ele ficou me seguindo no bloquinho, insistindo "poxa, eu só quero o seu nome....", me cercando. Eu disse não, não, não, e depois de muitos não ele me chamou de feia, que eu nem era tudo isso.

Outra amiga:

- Cara, que bosta. Eu achava que isso não acontecia, mas um cara cuspiu na minha amiga quando ela disse não.

E eu me solidarizando com as amigas e querendo esfregar a cara do meu primo no asfalto. Porque a "piada" dele legitima isso. Porque eu gastei um tempão tentando não magoá-lo enquanto minhas amigas e muitas outras mulheres estão sendo agredidas. Agora. E ele acha engraçado dizer que é mimimi. Egoísta, egoísta, egoísta! Ele acha que a experiência própria é universal, e que sua "piada" vale mais para ele que o nosso medo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Diário de casamento - Capítulo 1: Pedido

1

Eu só David já moramos juntos há 1 ano e meio, de modo que algumas pessoas já nos consideram casados, ou quase. Tipo o meu padrinho, que engasgou ao se referir a ele nas últimas férias ("manda um abraço para o seu..."); ou mesmo o meu pai, que reclamou quando eu me referi ao David como meu namorado:
- Tá morando junto há mais de ano e ainda chama de namorado?
Fato é que chamo, chamo sim; porque a gente ainda não casou formalmente e nem fez uma festa, e fazer uma festa de casamento é importante pra mim.
A primeira vez que o David falou "Bora casar" foi ano passado, logo depois do pai dele morrer. Isso acabou sendo uma pequena crise porque eu levei a ideia a sério, mas a verdade é que o David não queria casar. Ele queria que pessoas importantes parassem de não poder comparecer às datas importantes. Eu comecei a fazer mil planos e obviamente ele não estava em condições de pensar em planos; e no lá dois meses seguintes eu entendi na pele quando a Dorinha adoeceu e depois morreu.
Enterramos e pranteamos nossos mortos e guardamos nossos planos.

2

Os meses se passaram e em breve se tornarão um ano. As saudades mudaram, de preto e cinza avermelhado para amarelo sépia.

3

Durante a crise conversamos sobre a importância de fazer uma festa de casamento:
- Mas a gente já mora junto, a gente já decidiu ficar junto o resto da vida. Precisa de uma festa? Gasta tanto dinheiro, dá tanto trabalho, já estou cansado.
- Eu não quero um buffet para 500 pessoas e uma banda famosa. Eu quero uma festa pequena com gente querida para comemorar algo bom que aconteceu na minha vida. Poxa, eu sempre quis encontrar alguém pra partilhar a vida, foi tão difícil te encontrar, eu já me meti em cada roubada, a gente deu tanta sorte! Precisar comemorar não precisa, do mesmo jeito que tem pouca coisa que a gente realmente precisa fazer: acho que só comer, dormir e cagar. No capitalismo também trabalhar pra não morrer de fome, já que não somos herdeiros. Mas eu gosto de datas. Eu gosto de dar significado as coisas. E eu gosto de ter uma desculpa para juntar gente querida, declarar amor, usar uma roupa bonita e bater boas fotos. Eu pensei numa coisa pequena, sabe? Talvez na casa de praia da sua família, no fim de dia, sem igreja porque a gente não frequenta, essas coisas.
Ele concordou, para o dia em que nossos corações estivessem em paz.

4

No fim do ano passado eu finalmente fui de Floripa a Ubatuba, conhecer a casa de praia da família dele. E aí eu vi tudo.
- Amor, eu quero casar.
- Foi por isso que a gente veio aqui, né?

5

A Le, que dividiu casa comigo na graduação e é uma das melhores pessoas do mundo, casou e fez um churrasco. Foi lindo.

6

Daí começamos a pensar quando seria possível por o plano em prática. Ser adulto é difícil com todas as datas. E esse ano é meu ano final de doutorado. Ia ter que ficar pra 2021.
Puta injusto não poder marcar nada no meu ano final de doutorado!
Pera.
Aí eu lembrei que já errei muito e não quero mais cair no erro de achar que meu trabalho é minha vida. Que só depois do doutorado eu poderei ser doutora, mas é muito injusto que eu tenha que parar outros aspectos por isso. Conciliar trabalho e vida afetiva e social não é apenas possível como também necessário.
Abri uma planilha.
Anotei datas possíveis e impossíveis.
Achei.
- David, vamos casar em dezembro?
Mostrei as datas.
Discutimos logística.
Ele topou.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Epifania

Foram necessários 31 anos de capitalismo para me dar conta que uma das maiores desgraças da financeirização da vida é fazer as pessoas acharem que porque estão pagando por algo podem tratar a pessoa que vende ou presta o serviço pior do que tratariam alguém que está fazendo um favor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Pesquisas

Uma das coisas que me acostumei a fazer na universidade foi a assinar os termos de consentimento esclarecido requerido pelos comitês de ética, e então participar de pesquisas. Lembro do tempo em que cursei biologia e fazia iniciação científica no Laboratório de Erros Inatos do Metabolismo, e volta e meia alguém chegava pedindo para os coleguinhas serem doadores de sangue para grupo controle de algo. Foi assim que descobri que sou heterozigota para uma mutação que causa deficiência na produção de uma proteína que agora eu esqueci o nome, por exemplo.
Quando eu fiz intercâmbio nos EUA, a gente tinha inclusive que cumprir uma cota de participação em pesquisas para ganhar pontos na disciplina public speaking. Assim eu fui grupo controle e fiquei reconhecendo padrões em figuras para testar se pessoas que falavam idiomas com múltiplos alfabetos tinham melhor memória visual; e respondi outros questionamentos que não me recordo também.
Fora das biológicas a participação é principalmente em questionários, e eu quase sempre respondo por solidariedade à\ao colega cientista, e nostalgia de testes de revista adolescente.
Hoje eu estava respondendo um para o TCC de uma menina da nutrição, sobre habilidades culinárias de pessoas que compram cestas de orgânicos de um projeto de extensão da UFSC, aí me embolei em uma pergunta:
"Estado de origem": no meu RG diz RJ, mas é óbvio que eu sou paraense. Minha família morou e mora no Pará, foi onde eu cresci e, prova derradeira, é pra onde volto nas férias. Nessa vida de pós-graduanda eu também já me acostumei a conhecer gente de todos os cantos desse Brasilzão e da América Latina; e quando a pessoa começa a se embolar na hora de responder de onde é eu pergunto onde ela passa o Natal. Batata. 
(Vale ressaltar que várias pessoas tem uns laços sanguíneos de difícil convívio e vão passar o Natal com sua família de amor real; é pra mim é óbvio que é de lá que essas pessoas são.)

- Marina, é se quarto ano de doutorado! E aí, tá acabando?
- O prazo tá.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Foi a Nat que me disse que planilhas são ilhas onde guardamos o planos.
Janeiro então é mês de arquipélago.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Açaí tem gosto da minha terra
Cenário marrom feito sépia
Os rios ficam mais bonitos cada vez que eu volto
Marrons feito nossos olhos
É preciso ir longe para aprender a fotografar palafitas
Também sou feita de rio e chuva
Longe o azul do mar acaba nas montanhas,
me apercebi depois de voltar tantas vezes
que aqui o rio é infinito
quero plantar-me de volta
criar folhas gordas e verdes
comida de bicho e de gente de rio.