Semana passada um primo querido porém de direita (o qual eu poderia usar para dizer "não tenho nada contra a direita, tenho até amigos que são", mas seria mentira porque eu tenho sim muitas coisas contra a direita) postou no grupo da família do meu pai uma "piada" sobre como curtir o carnaval nos tempos de mimimi, no qual o personagem fazia uma cantada falsamente rebuscada e excessivamente respeitosa (começava com "Cara senhorita rebolativa..."). E assim começou a discussão.
(Eu saí do grupo da família da minha mãe em setembro de 2014 depois de ler coisas do tipo "temos que compartilhar isso sobre a Dilma, não importa se é verdade, o importante é não deixar aquela vaca ganhar". Saí com o aval da minha psicóloga e uso isso de desculpa para nunca mais ter voltado. Sempre digo que tem pessoas de quem eu gosto muito mais quando a gente só se vê no Natal)
Eu gosto do primo da "piada" do mimimi, gosto realmente. Lá em 2012, quando eu estava super estressada e de coração partido e
derrubei acidentalmente uma xícara de água fervente na minha perna ao fazer um chá, foram ele e a esposa que me levaram no hospital e depois para a casa deles para cuidar das minhas queimaduras de segundo grau (nota: demorou ainda alguns anos para eu perceber que coração partido e tristeza me deixam ainda mais propensa a acidentes; e decidir que não queria me machucar mais). Isso é ser família, isso é cuidado. E foi por isso que eu resolvi conversar com ele na
militância amorzinho, explicando porque era ruim chamar assédio de mimimi.
Eu tentei de tudo.
Primeiro:
Primo, assedio não é mimimi. A primeira vez que passaram a mão em mim sem minha permissão eu tinha 13 anos e estava esperando o ônibus num dia qualquer (história similar a de muitas amigas). Se num lugar aberto isso já acontece, imagina na muvuca, onde o agressor nem é visto. Fora os casos mais violentos: beijo forçado, o cara que droga a mina, etc. Se o cara não sabe distinguir o que é consentimento do que não é, ele tem problema pra viver em sociedade; e não a mina é "cheia de mimimi".
Depois:
Primo, ninguém é contra a paquera, inclusive o link que mandei é justamente para desmistificar a ideia de que o politicamente correto é contra a paquera. Ninguém é contra piadas também, todo mundo quer conversar, flertar, rir e se divertir. O que as mulheres não querem é serem desrespeitadas, acho que isso ninguém quer.
A piada foi desrespeitosa porque diz que estamos "na era do mimimi". Essa expressão é extremamente desrespeitosa, porque o que se tem visto crescer ultimamente são denuncias de assedio que mulheres sofrem em vários contextos (e homens também, mas vou focar nas mulheres porque somos as vitimas mais frequentes). Quando a piada diz que tem que adaptar a cantada para a era do mimimi, ela diz que as denuncias que fazemos sao mimimi. Isso tira a legitimidade das nossas dores e denuncias. Diz que reclamar de assédio é mimimi.
A piada não falou de transar, mas existem várias outras violencias possiveis alem do estupro, e legitima-las é cultivar a cultura do estupro. Assim, mesmo que poucos homens sejam de fato estupradores, muitos homens (e mulheres também) acham que, se a moça está no bloco, ela está disponível. Se ela está de roupa curta, pode passar a mão. E se ela considera uma cantada invasiva, está de mimimi. E todas essas pequenas violencias legitimam o corpo da mulher como algo que pode ser acessado sem o consentimento dela.
Ficam os questionamentos: como era a cantada do cara antigamente, quando não tinha "mimimi"? Por que ele teve que reformular a cantada? E por que o "mimimi" está incomodando ele?
E outros: a quem interessa difundir a ideia que o politicamente correto não quer se divertir? A quem interessa chamar lutas anti-opressão de mimimi?
Eu não quero que esse tipo de piada não possa ser feita aqui, eu quero que esse tipo de piada não seja feita, ponto. Eu não posso e nem quero proibir você de fazer, eu quero explicar porque não é legal fazer.
Eu não debato com parede nem com caso perdido, então só estou gastando esse tempo fazendo esse textão porque gosto muito de ti e te considero um cara inteligente, e entendo que infelizmente esses debates ainda não foram feitos por muitas pessoas. Mas acho que precisam ser feitos.
Outros primos e primas e tias entraram na discussão com ótimos argumentos. O primo da mesma geração do da "piada" dizendo que isso não cabe mais. A prima de 18 anos falando do orgulho de ser "geração mimimi" porque isso quer dizer que não aceitam mais assédio e buillyng; o primo e a prima trans falando dos casos de suicídio de adolescentes lgbti por conta de buillying. E o primo da "piada" sempre dizendo que na geração dele as pessoas sabiam se respeitar, que até hoje os amigos chamam ele de gordo e baixinho e tudo bem, que hoje as pessoas procuram pelo em ovo. Difícil.
Última tentativa:
Primo, também te amo 💜
Se na sua infância/adolescencia/farras você sempre respeitou e foi respeitado, isso é ótimo. O "mimimi" de hoje em dia não é sobre você, continue sendo uma ótima pessoa com ótimos amigos 💜 Ninguém quer acabar com brincadeira, flerte, diversão, etc. Nem procurar pelo em ovo.
Infelizmente nem todo mundo teve/tem a mesma sorte, nem naquela época nem hoje. Sempre houve quem desrespeitasee as mulheres no carnaval, sempre houve quem fizesse "brincadeiras" desrespeitosas. De novo: que bom que voce sempre respeitou e nunca sofreu violencia, que bom que seus amigos tem limites. Mas não é sobre você.
Você acha que é uma piada porque voce nao tem medo. Nesse grupo, muita gente tem. E fora do grupo; eu falo do grupo porque acho que é mais facil empatizar com a familia que a gente ama, mas tem mais gente e mais problemas no mundo. E por isso, pela gente e por eles, é desrespeito falar que é mimimi. Como disse o Luan: é brincadeira quando todo mundo se diverte, só que nem a gente nem muitas outras pessoas se divertem ao ter suas dores chamadas de mimimi. E se voce nao tem dores nem inflige dores, naa disso é sobre voce e voce pode simplesmente ouvir que os outros tem dores e não fazer piadas sobre elas. Nao tem porque machucar os outros, nem achar que as reclamacoes sao sobre voce
Adiantou?
Não. Ele continuou falando que era só uma brincadeira e que a geração dele era respeitosa.
E por fim:
Primo, que voce era respeitoso eu acredito. Agora esse mito geracional de que naquela época tudo era bom e hoje tudo está perdido é só saudosismo, viu? Super justificado ter saudade de uma infancia/adolescencia feliz, mas sua experiencia nao quer dizer que antes todo mundo era educado e bom (mesmo porque a maior parte desse todo mundo ainda tá por aqui, então fica bem visivel que não é todo mundo bom. Nem mau)
Pensei agora numa comparaçao boa: assedio, homofobia, feminicidio, buillyng, etc, são tipo elétrons, gravidade, celulas tronco: coisas que existiam antes de alguem ir lá, ver e colocar um nome. Quando a gente coloca um nome fica mais fácil de entender a coisa, mas não quer dizer que antes de terem nome as coisas não existiam. A galera das ciências humanas trabalha muito pra reconhecer e nomear os fenomenos sociais, mas eles não inventam os fenomenos
Ele disse que não tinha dito que a geração dele era respeitosa, e estava há uns dois balõezinhos acima. Aí eu cansei. Argumentos expostos, as pessoas não mudam de opinião na hora; quem sabe acende uma luzinha.
Isso eu acho que foi quarta e quinta. Na sexta eu saí com umas amigas à noite, e uma delas começou a contar o show de horrores do bloquinho da noite anterior:
- O cara agarrou a nossa outra amiga à força. Ela sempre disse que reagiria se acontecesse, mas ficou tão chocada que nem conseguiu fazer nada. Depois eu vi que um cara tava me encarando. Ele puxou meu braço e perguntou meu nome. Eu disse que não queria dizer, e ele ficou me seguindo no bloquinho, insistindo "poxa, eu só quero o seu nome....", me cercando. Eu disse não, não, não, e depois de muitos não ele me chamou de feia, que eu nem era tudo isso.
Outra amiga:
- Cara, que bosta. Eu achava que isso não acontecia, mas um cara cuspiu na minha amiga quando ela disse não.
E eu me solidarizando com as amigas e querendo esfregar a cara do meu primo no asfalto. Porque a "piada" dele legitima isso. Porque eu gastei um tempão tentando não magoá-lo enquanto minhas amigas e muitas outras mulheres estão sendo agredidas. Agora. E ele acha engraçado dizer que é mimimi. Egoísta, egoísta, egoísta! Ele acha que a experiência própria é universal, e que sua "piada" vale mais para ele que o nosso medo.