sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Definição de segredo:

Aquilo que a gente conta pras pessoas que não conhecem as pessoas envolvidas na história.

(O risco: em pequenas comunidades, todo mundo mais ou menos se conhece. E, antes que se perceba, algum novo amigo está te contando num bar um caso de um amigo de amigo que quem protagonizou foi você)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Encanto

(Para Nat)

O apartamento antigo foi o primeiro canto
de quem sai de sua terra fazer barulho na terra alheia
a terra alheia entremeia.

Ela floreceu na terra alheia.

Havia uma árvore na janela há um quarteirão da Avenida Paulista e da Augusta.
não é todo mundo que tem árvore em apartamento de um quarto.
1/4 de século, um quarto de sonho.

A terra não era mais alheia, era dela
assim como as flores e os frutos dos sonhos,
mas não o apartamento.

O proprietário pediu a casa,
morreu a árvore do vizinho,
pequenos ciclos se fecham,
abrem-se novos caminhos.

Aproveite o caminho.

Na árvore da janela, mora um passarinho.
Ela logo irá para outro ninho,
outro voo,
outro canto,
outro encanto.


domingo, 23 de agosto de 2015

Tudo mais que eu trouxe da Bahia

1

Vi o sol nascendo no horizonte, na janelinha do avião. Ao vivo é infinitas vezes mais bonito que na câmera do celular. Não tinha como a viagem dar errado depois disso.

Percebi que eu era alguém que mora há muito tempo em São Paulo e acaba de chegar à Bahia quando peguei meio correndo meu mochilão na esteira de desembarque e fui a passos largos rumo às indicações de parada de ônibus. Chegando lá, ainda às pressas, atravessei a rua e fui falar com o motorista.
-Calma, minha linda. - Disse ele, com aquele sotaque-delícia - O ônibus só sai daqui há vinte minutos, e a gente para lá na frente...
E lá fui eu, sentar e lembrar que não sou paulista.
Logo fui abordada por um moço do transporte alternativo que, depois de algum vai e vem e bate papo, se propôs a me levar ao alojamento do outro lado da cidade cobrando só R$20. E eu, que tenho pavor de me perder, topei. Rachei o carro com um senhor que tinha ido a Salvador para um congresso da CUT, e fomos ouvindo axé no rádio enquanto o motorista - que ultrapassou um sinal vermelho, mas era um amor de simpatia, parando no banco para o homem da CUT e pedindo informação até me deixar na porta do alojamento que nem eu tinha entendido muito bem onde era - falar como baiano dirige mal.


2

Fui para Salvador para o ENEDS - Encontro de Engenharia e Desenvolvimento Social. Descobri o evento ano passado, quando rolou um regional em Campinas e eu só fiquei sabendo no último dia - para chopada todo mundo manda convite no FB, mas pra evento assim, nada. Acabei nem indo - pilha de conclusão de curso; mas depois assisti uma palestra promovida pela galera do evento e fiquei encantada de ver que eu não era a única engenheira em crise, justo na época em que eu pedi demissão do meu "excelente emprego" em multinacional e resolvi "fazer voto de pobreza" e ficar pro mestrado, meio que pra ter mais tempo pra pensar na vida. 
Sério que o objetivo era trabalhar 44h por semana, gastar mais de 2h diárias em trânsito, para adaptar tecnologia alemã e explorar mais chineses e assim vender mais carros aqui no Brasil (ainda não está engarrafado o suficiente)? Sério que era normal ser olhada pelos caras como um pedaço de carne, ser cantada por cara casado, e ver que o chefe com filho recém-nascido ficava na empresa com frequência até depois das 22h?
Não podia ser.
Daí eu, com todo o privilégio social que tenho e que me permitiu fazer esse tipo de coisa, pedi pra sair (na brilhante definição de um amigo meu, "o objetivo era sair como um power ranger: cair fazendo uma pose, enquanto o mundo explode atrás"). 

Meu stencil favorito. Fica na FE-Unicamp, mas achei que cabia aqui

3

Eu fui sozinha para a Bahia, então tratei logo de ligar meu modo extrovertida, já que eu não queria passar a semana desaprendendo a falar. Mas (que alívio!), foi fácil, fácil. Um moço até me arrancou um sorriso ao dizer que eu era muito simpática!
No dia em que cheguei ainda não havia evento. Montei minha barraca no alojamento na UFBA (que se fala "ufiba", tudo junto; e não separadinho como "u-efe-pê-a"), conheci e troquei meia dúzia de palavras com um capixaba que mora no Rio e fomos, dois turistas com todo o tempo do mundo, dar um rolê a pé na cidade, começando em Ondina e acabando no Pelourinho (um pouco mais que 7km). Foi minha segunda visita a Salvador e devo dizer que acho a cidade incrível. Morro de inveja de quem tem praia. Adoro o batuque. A cidade é tão viva! Lamento não ter batido mais fotos - no alojamento foi difícil carregar o celular. Mas estou até hoje (uma semana depois da volta) com ressaca da Bahia; pele ainda bronzeada enquanto mesmo o sol de Campinas parece meio cinza, eu sem muita paciência para pessoas e atividades que não abrilhantam a vida. É por um lado o que sempre acontece quando se respira outros ares, a consciência de que o que se tem como normalidade não é a única realidade possível e de eu mereço mais cores. É por outro lado tudo aumentado porque foram dias muito lindos, e aconteceu tanta coisa que estou há uma semana tentando escrever esse post e ele não fica pronto nunca, porque parece que nunca consigo me expressar.

Coqueiro na Praia da Barra


Por-do-sol no Pelourinho, depois da tarde de caminhada


4

Toda noite tinha festa no alojamento, o que quer dizer que foram várias noites mal-dormidas em seguida - ou porque eu estava participando da festa, ou porque a minha barraca estava no meio dela. Para quem não sabe, barracas funcionam como amplificadores de som: lá fora, o vento forte do inverno baiano fazia necessário as vozes se aumentarem; lá dentro, o som do vento não chegava, mas as altas vozes, sim.
Na primeira noite, exausta da noite anterior quase virada arrumando mala e da caminhada, eu me perguntei se ainda tinha idade pra dormir em colchonete que mais parecia edredom enquanto a molecada gritava.
Na segunda noite, eu turbinei minha simpatia com álcool (eu sóbria sou legal, mas eu depois de duas latinha de cerveja sou a pessoa mais sociável do mundo) e conversei com o alojamento inteiro; a ponto de no dia seguinte as pessoas me cumprimentarem e eu ter dificuldade de lembrar com exatidão nomes e instituições. Fui uma das últimas a dormir e desabei feito pedra, achando o edredom cama box king size. É claro que ainda tenho idade pra alojamento!
Tanto tenho que na terceira e na quarta noites, um moço com colar de peixe-boi juntou seu colchonete emprestado no meu e dormimos abraçados, suados e ponderando a necessidade de tapa-ouvidos e a ideia de correr sem roupa no temporal.
Na última noite, de novo sozinha, passando mal de tudo depois de um bobó ("Justo hoje que não bebi!", eu disse; e me fizeram ver que não é porque eu não tinha bebido em um dia específico que todo o álcool dos dias anteriores não tinha feitao efeito de me enfraquecer para a intoxicação alimentar), estendi meu edredom no chão do aeroporto, abracei minha mochila e dormi lá, como se fizesse aquilo todos os dias da vida.
Isso explica porque domingo passado para mim não existiu - cheguei em casa 11h e dormi até às 18h; daí fiz supermercado, comi, fiquei à toa e 22h dormi de novo.


5

Era muita gente boa reunida.
Nunca tinha visto tanta engenheira feminista junta. Nunca tinha visto meninos se beijando em festa de engenharia. Nunca tinha visto tantx engenheirx de esquerda. Nunca tinha visto tantx engenheirx discutindo política. Nunca tinha visto tanto inconformismo e tanto sonho na engenharia. "Vai avançar, vai avançar, a rede de engenharia popular".
E foi por isso, e não pelas cervejas, que eu me senti tão livre e tão acolhida; tão mais não estranha com meus vestidos floridos. Minha primeira tatuagem (as engrenagens-mandalas, meu presente de formatura pra mim mesma e a lembrança de que a engenharia pode ser diferente e bonita) nunca foi tão elogiada.
Conversei com tanta gente com tanta ideia. Anotei tanta coisa no meu caderninho.
E finalmente entendi que o melhor da universidade é o que a gente compartilha dela. Finalmente entendi meu descontentamento com o encastelamento da minha pesquisa e minha paixão pelo cursinho popular onde dou aula. Continuo na luta pela democratização da universidade. Ensino ainda é meu pé favorito do tripé universitário. Mas, mesmo fazendo parte dela há quase três anos, eu nunca tinha olhado direito para a extensão. Eu ainda achava que a salvação estava na pesquisa. Que a gente ia conseguir tornar a ciência acessível e fazer bom uso dela. Bom, esse ainda é um desejo. Mas quem suja a mão não é a pesquisa, quem suja a mão é a extensão. E ninguém muda o mundo de mão limpa, teorizando cenários. Como pós-graduanda, faço ciência. Mas do que eu gosto mesmo é de dar aula no projeto de extensão.

Parede da UFBA


6

As mesas foram muito legais.
Eu, engenheira, acostumada a contar nos dedos mulheres e negrxs nos eventos que participo (e conto de verdade; isso não é uma figura de linguagem, infelizmente), achei lindo só de ver que não tinha só homem branco falando lá na frente. Achei lindo ouvir vozes que não costumam ser ouvidas, achei lindo ouvir exemplo de como o conhecimento é repleto de ideologia, como não existe neutralidade, como há um embranquecimento de quem produz o saber. Achei lindo ver alguém gritando ao fundo de um auditório lotado com umas 300 pessoas, quando o palestrante perguntou como se bancaria a educação se não fossem os royalties do petróleo:
- Tira o lucro dos banqueiros!
Fico devendo links e referências aqui no blog. Mas deixo relatada a sensação.


7

Claro que teve as coisas ruins também.
Na minha pele, relato o machismo. Primeiro na cantada de rua ouvida no instante em que fiquei sozinha na Bahia - eu estava andando com um moço, e numa esquina que nos separamos, a falta do rapaz ao meu lado foi suficiente para que o cara se achasse no direito de avaliar minhas pernas. Depois no homem que conhecemos num bar e que começou a me tocar demais, falando que eu era linda; e que me fez voltar pro alojamento mais cedo, incomodada, pensando "estou sozinha num lugar estranho, melhor voltar enquanto não é tarde, é perigoso ficar por aí..." O rapaz com quem eu tinha saído ficou no bar até de madrugada, sem medo de ser estuprado.
Houve machismo no próprio alojamento, em músicas inadequadas e discussão descabida; "é só uma música, não sou machista, adoro mulher, tenho até namorada". E na mesa do dia seguinte houve intervenção das meninas, e foi lindo. Mas não impediu de naquela noite eu estar conversando com um amigo e outro rapaz se aproximar de nós e se dirigir a ele:
- Posso chamar ela pra dançar?
Fiquei meio incrédula:
- Cara, você devia perguntar pra mim, não pra ele.
- Desculpa, é que achei que ele fosse seu namorado.
- Mesmo que fosse.
Fui dançar porque gosto de forró. O moço continuou tentando se justificar:
- Desculpa, é que achei que ele tava me olhando feio, não sabia se podia falar com você...
Não me aguentei:
- Cara, você tem que falar comigo, não com ele. Eu só tô dançando com você, naõ vou ficar com você. E eu que decido com quem danço e com quem fico...
E sai do salão, meio chocada. Ainda temos um longo caminho até sermos consideradas pessoas com autonomia. Mas tô na luta.

Parede de um restaurante vegano maravilhoso no Pelourinho


8

No dia que vim embora, amarrei no tornozelo direito uma fitinha roxa de Nosso Senhor do Bonfim e fiz três desejos.
Tá tudo errado, mas não precisa estar.
Voltei com a fé no mundo renovada, e com muita vontade de lutar.
Por mais feminismo - um feminismo inclusivo e revolucionário, e não apenas para nós, moças brancas de classe médias, ganharmos o mesmo que os rapazes e continuarmos a reproduzir outras opressões.
Por mais cooperativas autogestionadas e menos multinacionais.
Por mais educação pública, gratuita e de qualidade.
Por uma engenharia mais bonita, mais justa, mais humana.


9

Bônus: mais fotos bonitas que bati no Pelourinho.






E a frase pichada em um muro da UFBA, que não consegui fotografar: "Amanhecendo para não morrer de ontem."

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Aprendizado

- Se as pessoas não aprendem, o problema é do método, não das pessoas.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Meus vinte e poucos anos

Vamos viver pra sempre. Somos imunes a drogas e a batidas de automóveis.
Queremos tudo pra ontem. Não precisamos de terapia, mas tomamos anti-depressivos.
Não queremos preocupar ninguém, por isso não ligamos. Por isso sumimos.
Trepamos sem amor. Sem compromisso. Preliminar é passar dedo no Tinder.
Queremos mudar o mundo, mas não limpamos o nosso banheiro.
E há tanto tempo, todo o tempo. Podemos tudo. Podemos o mundo.
Menos ver nossos pais ficarem velhos - era gíria deles; chamarem nosso avós de "velhos".
Menos perder a família que de tao longe nem era mais família; eram "aquelas pessoas reaças do watsapp".
Menos ver nossos amigos, tão imortais como nós, morrerem. De droga, de batida de automóvel, de depressão, de tudo isso misturado.
Não temos tanto mundo, não vamos viver pra sempre, e não sabemos mais beijar apaixonadamente.
Quero um abraço.

domingo, 9 de agosto de 2015

"Amor é presença"

- "Amor é presença", me disse alguém uma vez. Fiquei puta. Acredito que haja amor na ausência. Acredito em presença na ausência. O que é ausência, afinal?

(Não sei se é pela minha história de aeroportos; mas achei uma discussão tão pertinente! E que cabia a todo mundo se responder)

Educação

- Se eu ainda tivesse idade, teria uma criança agora. - Disse ele, careca lustrosa e braços fortes enfim enfraquecendo lá pelos seus noventa anos.
- Pra que? - Perguntou sem maldade a moça.
- Para eu educá-la, e ela me educar.

sábado, 8 de agosto de 2015

"A morte é a melhor conselheira"

- Ele tinha uma visão de mundo tão bonita, falou tanta coisa! Sobre a morte, por exemplo. Sobre como a gente tem medo e não fala dela, quando na verdade ela é a melhor conselheira. "Se eu pudesse dizer pra vocês que vocês morreriam daqui a três dias, vocês estariam aqui?", ele perguntou. A gente pesou um pouco. E ele disse que, se a resposta fosse "não", a gente tava no lugar errado. Falou sobre viver a vida, estar onde se quer, fazer o que se ama... Não de uma maneira afobada, mas se respeitando, sabe? Me encantei.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sobre muitaquitã e mortes

Eu já estava deitada na cadeira do tatuador, short um pouco abaixado para deixar bem amostra o ossinho do quadril. Para minha segunda tatuagem, escolhi um muiraquitã, amuleto de sorte amazônico, coisa de índia guerreira.
Estava nervosa quando fiz minha primeira tattoo, tenho medo de agulha; mas não foi nada demais. Para a segunda eu já estava mais tranquila, mas dizem que tatuar ossinho dói mais. Se bem que sou um tanto acolchoada...
Estava pensando em tatuagem e sorte e ossinho do quadril quando me chegou um e-mail (eu estava com celular na mão para ficar batendo papo furado no whatsapp e vendo aleatoriedades e não olhar para a agulha na minha pele) do meu orientador, com o título "Falecimento do Vitor". E meus olhos se arregalaram e abri o e-mail num choque, porque o "Vítor" não podia ser o Vítor... Mas era.
Aí eu não sei se a tatuagem não doeu porque, como o tatuador disse, "hoje tatuagem não dói muito, pelo material que a gente usa". Ou se foi porque ela é tão pequena que parece tatuagem de chiclete. Acho que não doeu porque eu estava toda meio amortecida de surpresa.
Era um moço de vinte e tantos anos e não era meu amigo próximo, mas fazia mestrado feito eu, e sempre foi educado quando em respondeu e-mails. Almoçamos juntos uma semana inteira e ele me deu carona por meia São Paulo num dia que eu precisei. E então morreu, sabe-se lá do que. E de repente eu me senti uma tia velha, daquelas que só dão más notícias, mandando mensagens a torto e a direito para tentar entender o que aconteceu.
Neste ano, a morte resolveu me lembrar que existe.
Primeiro em um feriado meio à toa no qual eu estava em Campinas e tomei um bolo de um moço e que, depois de uma bronca passiva-agressiva, me disse que não estava no ânimo de sair porque descobrira que a mãe, que mora em outro estado, estava com um câncer terminal. Eu me senti péssima e ofereci ouvidos e abraços. Lembrei-me que pais morrem.
Depois eu mesma acordei com notícia de morte. Foi-se minha madrinha, jovem e saudável de tudo, do nada. Família morre e nem avisa antes. E eu lá, morando há quase três mil quilômetros, perdendo os almoços de família, reclamando de picuinha de whatsapp, dizendo-me cientista e sendo estimulada a ambicionar o mundo; mais longe, como se o que houvesse perto não fosse mundo, como se a vida fosse um eterno ir-se embora em busca de algo, perdendo alguéns pelos caminhos. Antes eu achava que a distância só me roubava namorados. Hoje acho que rouba a mim mesma.
Daí agora o Vítor. Um lembrete da minha própria mortalidade. Como se minha ansiedade precisasse de lembretes! Como o tempo escorrendo em uma ampulheta cujo tamanho eu não vejo. O que realmente importa? O que eu quero da vida? Será que algo faz sentido?
Fiquei mal. Ainda não achei respostas. Fiz uma oração. Decidi que formalmente sou alguém que fica. Decidi que sempre priorizarei as pessoas. Decidi que preciso decidir minha profissão sem sofrimento. E agradeci pela família e amigas.
O muitaquitã ficou bonito. Tatuagem de chiclete. Amuleto de sorte amazônico. Lembrança de onde eu venho, e pra onde quero ir. Na minha pele pra sempre, seja lá quanto "sempre" dure.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Sobre Cotijuba e manas

Que ninguém venha me falar de turismo de aventura antes de andar de moto-táxi de chinelo, sem capacete, com um mochilão com uns 30kg nas costas (sei porque 30kg é quanto eu ainda consigo carregar; e o mochilão eu quase não erguia do chão - nota de volta das férias: preciso me render à academia), com sacos plásticos com frutas amarrados nele; em uma rua de barro esburacada, na chuva. Na moto da frente, também de chinelo, também sem capacete, uma mãe leva uma bebê linda; a coisa mais natural do mundo.

Mas valeu a pena, tudo vale a pena; e ir para um encontro de mulheres em Cotijuba foi legal demais. Me rendeu um maior repertório feminista, mais gosto por culinária vegetariana e fotos lindas - minha nova paixão.

Eu queria compartilhar aqui a paz de espírito que eu senti naquela casa de madeira pintada de verde-água; ali no meio das árvores, com tanto desenho na parede e mandalas e tanta rede de dormir. Ali, com os pés quase na praia, onde minha prima fez top less e a gente correu na chuva - único frio, e brando. Ali mulheres tinham pelos e nossos corpos era reais e amados. Ali as mulheres se tratavam de "mana", e a expressão típica paraense era a mais genuína expressão de sororidade. Ali tinha também mãe amamentando e criança se pendurando no tecido de circo e cadela com filhotes e era todo o amor e fofura deste mundo.

Compartilho o link do documentário sobre o clitóris. Não achei links para o também ótimo documentário sobre menstruação, nem para músicas cantadas. Mas deixo minhas fotos, e a sensação que nós mulheres devemos nos organizar e que eu não nasci para morar em lugar onde faça frio ou fique longe de praia.

 Onde a vida está.

Interação entre filhotes

Overdose de fofura

As cores do barco

A floresta e as ruínas



PS: Na volta para casa, abri meus e-mails e vi que um congresso me respondera. "Prezado autor Marina"... Mulheres engenheiras, tão invisíveis que não valemos um "if"! Resolvi mandar e-mail. Exercício de escrita. Primeiro comecei me desculpando por se tratar de um problema menor, mas apaguei. Representividade é sim importante e eu não estou pedindo um favor (sou contra falsa simetrias; mas imagina o auê se os rapazes recebessem e-mails "Prezada João..."). Depois comecei a discorrer sobre a importância da luta feminista, mas embora a discussão seja fundamental, achei que não precisava me justificar para algo tão simples como ser tratada no feminino. No fim, apenas disse que me sentia desconfortável com o tratamento masculino, e que era algo simples de ser resolvido. Acho que não vai dar em nada, mas vejamos.