sexta-feira, 30 de junho de 2017

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Vitamina:D

Tem aquela frase erroneamente atribuída ao Galeano, das utopias serem como o horizonte: impossível de ser alcançado, mas aquilo que nos move.

Mas... e quando alcançamos?

Haverá sempre outro sol na linha dos olhos; mais luminoso e belo.

Mas
Pelo menos num instante
vou me permitir
comer meu sol conquistado
e lambuzar-me de raios
de brilho de mim.

Amanhã
terei indigestão
vomitarei luz
e talvez descubra
que o sol é só mais uma estrela à toa
que vai morrer como todas as outras

e
no pior talvez
descobrirei que o sol era na verdade luminária noturna
e minhas entranhas estarão cheias de cacos de vidro

Mas
hoje?
Hoje eu conquistei o sol
e o sol me é tudo.

e ele tem gosto
de champagne
farinha de mandioca
creme de sonho
e filme com final feliz.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Neste feriado recebi a visita de um amigo de longa data; e apresentei-lhe a cidade como quem apresenta o namorado aos pais.
E se ele não gosta?
Pois a cidade não se fez de rogada e vestiu-se de sol; pleno fim de outono. Como se tivesse guardado seu melhor calorzinho para que eu pudesse exibir aquela que já é minha praia favorita em todos seus tons de mar.
Hoje amanheci morrendo de frio com meus shorts. Em algum momento da madrugada, a temperatura caiu uns bons dez graus. Tudo bem, Floripa. Abraçarei seus dias ranzinzas molhados em retribuição à gentileza. Você cede, eu cedo; nós juntas tarde. Talvez estejamos mesmo começando nosso amor.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Auto-gentileza

Uma grande amiga se pos de meta de ano-novo ser mais gentil com ela mesma. Simples assim. Nada de planos mirabolantes, nada que não coubesse a ela. Apenas um abraçar-se. Os defeitos, os erros e as dores.
Achei tão simples e bonito que tomei para mim também. Menos auto-crítica destrutiva, mais auto-reconhecimento.
E é assustador me dar conta do quão facilmente entro num ciclo:
Julgar-me-me errada.
Sentir-me culpada.
Às vezes peço um conselho como quem pede um tapa.
Mas, para minha enorme surpresa, ninguém bate.
- Faça o que te fizer feliz. - Eles me dizem, um de cada vez. E não é sequer uma decisão misericordiosa de reunião, são só as pessoas que gostam de mim fazendo o que sabem fazer melhor: não julgando. Por empatia. Por amor. Ou só porque todo mundo está muito ocupado cuidando da própria vida (e se não está, deveria; mas essa sou eu julgando, olha só).
Sinto até culpa pela culpa. Uma amiga chama de meta-crise.
Daí me lembro: está tudo bem. Não tem problema.
É um dos segredos dos adultos: tá todo mundo perdido porque não existem respostas certas ou erradas, só escolhas. E todas válidas. Eu gosto de pensar que há algo de destino me levando a alguns lugares porque são o melhor para mim; mas talvez seja apenas eu andando sozinha e tendo que tornar minhas escolhas as melhores para mim. Como diz outra amiga: estamos todos presos na solidão das nossas escolhas.
Sentir é a melhor e pior parte de ser gente.
Seja gentil.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Só cai na segunda

[Post atrasado por motivo de viagem]

Classe média sofre, e eu quase caí no choro no Poupa Tempo de Campinas, indo pegar o licenciamento do meu carro:
- Moça, você pagou no caixa eletrônico e hoje é sábado, só cai na segunda. Você vai ter que voltar na segunda.
- Não tem como resolver?
- Só cai na segunda.
- Eu viajo na segunda... Não tem mesmo como resolver?
- Só cai na segunda.
- Mas se o dinheiro ainda não caiu, não tem como eu cancelar e pagar aqui?
- Só cai na segunda. Pergunta lá na receita federal.
Fui na receita federal, contei o drama.
- Você pode pagar duplicado, mas vai demorar uns seis meses para você reaver o dinheiro, e vai ter que entrar com o processo,e...
- Gastar oitenta reais pra reaver os oitenta reais.
Abri o internet banking. Os oitenta reais também não estavam mais na minha conta. Perdidos em algum computador. Dinheiro é uma bosta de números em databases. Eu queria poder viver de amor.
Voltei para o Detran:
- Não tem mesmo como resolver? Eu viajo na segunda.
- Só cai na segunda. Você devia ter pago no banco aqui dentro.
- Mas ninguém me avisou, como eu ia saber?
- Só cai na segunda. Você tem o carro há quanto tempo?
- Quatro anos.
- Há quatro anos você paga licenciamento, você deveria saber. Só cai na segunda.
- Mas eu nunca paguei aqui, sempre pedi pra entregar. A questão é que mudei de Campinas. Ainda tem como pedir pra entregar?
- Não. E só cai na segunda.
- Moço, eu viajo na segunda!
- Só cai na segunda. Qualquer parente de primeiro grau pode vir pegar.
Foi aí que eu quase chorei:
- Moço, minha família mora em Belém do Pará, eu não tenho ninguém na droga dessa cidade, foi por isso que eu fui embora!
Acho que gerei algo de comoção ou de escândalo, porque outro atendente veio perguntar que horas eu viajava e me falar de procurações.
Parei para pensar na fortuna que já gastei em procurações na vida.
"Qualquer parente de primeiro grau pode".
Nada contra a família tradicional - até tenho uma que é. Mas nessa vida meio mambembe, tudo seria muito mais fácil se eu pudesse simplesmente me casar com umas três amigas. Para atribuir funções e quem sabe um dia dividir plano de saúde, essas coisas de casal.
"Não tenho ninguém na droga dessa cidade" foi uma mentira das grandes. Se tem uma coisa que eu tenho em Campinas são corações muito bem escolhidos.
- Queria poder escolher três pessoas - expliquei a um amigo outro dia.
- Família deveria ser que nem conta no netflix - ele respondeu.
Lembrei da defesa do meu mestrado, quando duas amigas me deram um arranjo de flores.
Já passamos da fase de casamentos arranjados, não é mesmo?
Que enorme sorte, ser de uma geração que está reinventando o amor.
Precisamos desinventar a burocracia.