Gostava de tomar banho de mangueira, de descobrir músicas desconhecidas, de acarinhar a gata velha da sua mãe, de planejar conversas que nunca aconteceriam de verdade, de sair com o cabelo molhado quando o dia estava quente, de batatas fritas, de filmes com final mais ou menos feliz - aquele feliz que você não imaginava no começo, sabe? Aquele feliz que parece mais real.
As pessoas estranhamente reparavam muito na parte das batatas fritas.
Dela, diziam que era simpática; e ela, como todos, sabia que simpatia não substitui beleza como salada não substitui fritura.
Dizia que não ligava. Era gente, e não comida.
A gata da sua mãe morreu de velha e foi como perder um ente querido. Depois que alguém morre, a gente aprende que as conversas que acontecem na nossa cabeça precisam ser jogadas no mundo. A gente entende que vai morrer, mas não vai ser disso.
Foi quando enterrou a gata no quintal que se apercebeu que fazia muitos anos que não tomava banho de mangueira, e aquilo era um estranho ritual de passagem.
Jogou as palavras e o corpo no mundo.
Descobriu que a simpatia era uma arma, afinal; mas a pior delas. A simpatia era um tapete vintage descoberto numa casa mofada alugada sem mobília.
Ninguém se importa.
As pessoas ligavam tanto para as batatas fritas que ela comprou a maior porção e comeu tudo sozinha com todo o molho que conseguiu, encarando de volta quem a encarava. Nunca tivera o coração partido por batatas fritas. Naquela época já estava fora de moda sofrer por amor; e foi a única vez que verdadeiramente lamentou não ser modelo.
Só anos depois descobriu que mesmo as modelos sofrem, porque são todas dotadas de um coração e do medo de serem simpáticas. Naquele dia a gata morta já era saudade como água de mangueira e o primeiro coração partido era uma playlist dolorosa de tão boa. Naquele dia descobriu que não estava sozinha e a empatia mútua poderia ser dita mais bonita que o sorriso, mas essa era uma comparação irrelevante.