1
Logo que comecei a andar pelo bairro sozinha, aprendi a atravessar a rua quando via muitos homens juntos numa calçada. Ou olhar pra baixo e apressar o passo.
2
Eu tinha uns 12, 13 anos. Era de tarde e eu estava na parada de ônibus. Um velho passou a mão na minha perna.
3
Eu tinha 15 anos e toda a insegurança do mundo. Meu primeiro namorado chamava outras minas de gostosa na minha frente e bancava o ciumento comigo. Dizia que era instinto de preservação da espécie.
4
Eu tinha 16 anos. Festa da galera da escola, verdade ou consequência. O bonitão da turma teve que me beijar.
- Tenho um amigo corno! - Disse, rindo, depois.
Todo mundo sabia que eu tinha terminado o namoro. Mas para os caras, eu continuava sendo do ex.
5
Eu estava na graduação. Minha casa ficava a 15 minutos de caminhada do portão da universidade e eu adoro caminhar, mas sempre que eu tinha aula à noite eu ia de carro porque tinha medo de voltar sozinha.
Houve uma noite em que eu estava sem carro, não lembro o motivo. O namorado me disse para vestir meu moletom da engenharia, gorro e tudo. Eu sou grande, olhando de longe eu até parecia um cara. Era mais seguro.
Hoje moro um pouco mais longe, mas ainda prefiro ir vir de bicicleta. Mas tenho meus horários limites, feito Cinderela - só que bem antes da meia-noite. Houve uma noite que fiquei esperando a chuva passar e sai da universidade só às 23h. Foi uma delícia pedalar aquela noite. Foi a única vez. Tenho medo.
6
Eu era estagiária numa multinacional onde os caras abriam pornografia durante o expediente e ficavam descrevendo a bunda das mulheres dos outros departamentos e como as comeriam. Um engenheiro casado, lá pelos seus 50 anos, veio puxar papo comigo no chat da empresa. Falou da gente sair. Eu achei que "a gente" era o departamento. Ele perguntou se meu namorado não ficaria com ciúmes. Eu, na época solteira, inventei um namorado e disse que ele era ciumento. Me levantei, fui até o banheiro e fiquei sentada lá longos minutos, sem saber o que fazer.
7
Eu estava solteira, meu amigo também. Numa bela noite, resolvemos sair e dar uns beijos.
- Vamos lá pra casa. - Ele convidou, e eu fui.
Chegando lá, passou minha vontade.
- Tudo bem. - Ele disse. - A gente só dorme então.
No dia eu achei isso muito doce, e não apenas algo que qualquer pessoa decente faria.
8
Eu e uma amiga viajamos juntas num carnaval. Ficamos num camping. O tempo todo perguntavam se nós tínhamos ido sozinhas, como se fosse um grande ato de coragem. Não vi ninguém perguntar isso pra grupos de caras.
Houve um dia em que fiquei com um cara que fazia medicina. Ele me chamou pra casa dele. Não fui por medo. Eu, aluna de mestrado em engenharia na Unicamp. Ele, numa casa cheia de futuros médicos da Unesp. A tal elite intelectual do país. Todos bêbados. Não quis arriscar. Eu já ouvi histórias.
9
Eu era a única mulher de uma disciplina de pós da engenharia. O colega de classe "gentilmente" veio me avisar que a minha saia era transparente e todos estavam olhando a minha bunda. Os mesmos caras que dizem que pra mulher é tudo mais fácil de conseguir.
10
Eu e outro amigo começamos a nos beijar na festa. Ele parou:
- Você faria isso sóbria? - Ele perguntou.
- Sim, claro.
- E você não está bêbada demais pra dizer isso?
- Não. Olha: - dei meu copo pra ele segurar e fiz o 4 com as pernas. Ele riu e me beijou de novo.
Mais um momento em que vi doçura. Mais um ato que deveria ser óbvio.