sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O silêncio diz muita coisa. A gente é que se recusa a ouvir.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Da ignorância e do que pensamos dela

O problema maior não é você ser ignorante, é você ter orgulho disso.
Conhecimento e cultura são produzidos o tempo todo e estão aqui desde que a gente é gente; então mesmo os maiores gênios sempre serão ignorantes em muitíssimos aspectos (mesmo porque o conceito de genialidade muitas vezes vem acoplado com algo muitíssimo específico; gênios possuem sua "área de genialidade"). Todos somos ignorantes. A maior parte das pessoas sequer tem acesso a uma educação boa e a uma cultura além da de massa; então permanecer na ignorância não é uma opção.
Pior do que isso é ouvir o rapaz que tem uma das maiores notas da minha turma (engenharia Unicamp; lugar de gente muito bem criada) dizer de boca cheia e peito estufado:
- Fui ver o filme tal e achei uma merda. Aquilo lá é só pra quem entende de cultura, eu não tenho nada de cultura. Não vou ver outro tal filme porque é preto e branco. Ler tal livro? Não! Não leio livro nenhum, hoje em dia eu só leio legenda. E texto recomendado, apostila.
Isso tudo em uns três minutos de conversa. Talvez ele estivesse brincando, mas que graça tem? E eu fiquei engasgada com meu livro best-seller infanto-juvenil na mochila e minhas notas abaixo da média da turma. Não me acho melhor do que ele nem do que ninguém. São cidadãos assim que uma das universidades mais conceituadas do país está formando? É com essa cabeça que seremos a "elite intelectual do país"?

Caso o autor da frase leia este texto: por favor, não se sinta ofendido. Não quis comentar na hora e nem quero brigar agora. A gente fala muita coisa sem pensar.  O texto é  só para a gente refletir sobre o que está se tornando. Sobre o que a gente vai ser quando a gente crescer.

domingo, 12 de agosto de 2012

Férias na Europa

Depois de um final de semestre absolutamente terrível que acabou com a minha saúde, auto-estima e possibilidade de me formar em cinco anos (que já era bem remota, diga-se de passagem; eu nem queria mesmo...), eu estava realmente precisando de férias. E neste ano, graças ao pós-doutourado do meu pai e os plantões extras da minha mãe, eu fui ser super chique e viajei com a minha família para a Europa. Começamos pela Suécia, onde meu pai estava morando: Estocolmo. Depois fomos para Paris, então Londres em clima olímpico e por último Portugal, onde visitamos uma série de cidades e cidadezinhas. Abaixo segue meu longo relato.
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Suécia: Estocolmo
 No verão de Estocolmo é dia o dia inteiro. Fiquei encantada: o sol só ia embora quase meia-noite, e ainda assim nunca ficava realmente escuro; a noite vira um breve entardecer. Um dia o jetlag me acordou duas e meia da manhã e o sol estava brilhando como se fosse de dia. E foi justamente por todo esse sol e cansaço de viagem que uma manhã perdemos a hora - minha irmã olhou o sol lá fora, achou que ainda fosse cedo e voltou a dormir; e quando nos espantamos era meio-dia.
Dá para ver como o pessoal de Estocolmo idolatra o verão. Me lembrou de Fargo (a cidade americana quase no Canadá onde fiz meu gelado intercâmbio); aquela gente toda na rua feito formiguinhas, deitada no chão dos parques pegando sol. Em Fargo os universitários brincavam de tudo ao ar livre; em Estocolmo a população de um modo geral faz pequinique na rua e leva a criançada para passear. Nem dá para acreditar que a natalidade do país é baixa, com tudo aquilo de carrinhos de bebê. Para eu e minha família, paraenses que somos, ainda estava friozinho - camisetas durante o dia; casacos até bem pesados quando as horas indicavam que anoitecia. Os nativos estavam sempre de camisetas, claro.
Os suecos são menos louros do que eu imaginava. Há bastante negros e muçulmanos; e na Europa como um todo, diferente dos Estados Unidos, é super comum ver casais homem negro - mulher branca e vice-versa.
Até que havia um bom número de turistas (inclusive brasileiros; não houve um único dia que não encontrássemos algum), e Estocolmo me impressionou. Esperava um lugar gelado e cinza, e lá há muito verde. Fomos um dia parar por acaso em um parque aberto que era a coisa mais linda do mundo; minha irmã o descreveu como o lugar de onde tiram todas aquelas imagens clichês: cisnes - check; balões ao por do sol - check; flores e borboletas - check... Gamalstan, o bairro antigo, é um charme. E a cidade fica em um arquipélago, onde o lago Mälaren encontra o mar Báltico (thank you, Wikipedia!); e eu adoro água e achei tudo lindíssimo; tem barco que é transporte público e você acha errado ser bonito assim pegar o equivalente a um metrô.
Visitei vários museus. Meu favorito foi o Vasa, feito para abrigar um navio naufragado do século XVII que foi resgatado no início do século XX. É impressionante ver aquele barco gigantesco, e é visível que o museu como um todo é mantido por apaixonados - tudo é detalhista e bem feito. Gostei muito também do museu-zoológico Skansen, que tem lobos e ursos e focas. Achei chatos o museu da realeza e o sightseen de barco; e o museu nórdico e até interessante, mas feito para os nórdicos - em Estocolmo todo mundo - do vendedor de hot dog à senhora passeando na praça - fala inglês muitíssimo bem; e justamente no museu deles havia várias partes só em sueco... Já o museu nobel é bem simplesinho, mas bem motivador falando que vitórias são feitas de insistência após fracassos (go go engenharia!)
Como meu pai estava morando lá o semestre, foi legal que pude sentir um pouco como é viver de verdade na cidade. E a cidade custa uma fortuna. E todo mundo é irritantemente certinho. E você pode beber água da torneira. E você paga metrô por períodos (dia, semana, mês) e não por percursos. E quando eu estava lá o metrô parou porque estava em obras e a viagem tomou o triplo do tempo, 1h da manhã, e ninguém tulmutuou nem reclamou. A comida típica é almôndega. Come-se muito salmão, legumes. Todas as frutas e legumes são importados. Todo mundo é magro (mas, gordinha que sou, o que mais gostei de comer foram muffins de mirtilo. E cerejas frescas, que me lembraram o namorado... Meu pai as comprou sem saber o que eram, e como ninguém me acreditava que eram cerejas, chamei-as de cerejovisks. Passamos o resto da viagem comendo cerejovisks.) Você paga suas consultas médicas se forem poucas, mas se forem muitas o governo te banca. O governo não regula o preço dos táxis e existem várias empresas e cada uma cobra quanto dá na telha. Conheci uma simpatissíssima professora turca. As placas de trânsito são amarelas. E tanto mais a se dizer...
Um dia estávamos andando à toa em uma praça e uma bandinha se arrumava para tocar no palco. Vários senhores e senhoras de cabelos brancos estavam sentados em bancos em frente, esperando. Enquanto o show não começava, uma caixa de som tocava jazz. E meu pai brincando puxou minha mãe para dançar. Fizeram alguns passos e uma casal lá pelos seus 65 anos foi falar com eles sorrindo - meus pais estavam no lugar errado; o local de dançar era na pista! Apontaram um chão branco colocado em frente ao palco, entre os bancos. E logo a banda começou a tocar e vários casais de velhinho foram dançar. Alguns devagarinho em seus sapatos confortáveis; outros com pinta de dançarinos profissionais, com sapato de dança e tudo. Depois de algum tempo entraram alguns casais mais novos. Dois jovens moderninhos lá pelos seus vinte anos; tanto o rapaz quanto a moça de jaqueta de couro e cabelo moicano, divertiam-se um monte inventado passos e dançando a música instrumental. Tocou garota de Ipanema. Duas meninininhas dançavam juntas. Era uma festa de salão a céu aberto, no que deveria ser de noitinha mas era dia claro; e se repetia toda semana. Achei muito representativo da cidade, e uma delícia; junto com os parques gigantes.
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França: Paris
Em Paris você entende porque Paris é Paris. A cidade é errada de tão bonita, com todas aquelas contruções antigas e monumentos megalomaniacos a cada quarteirão; os artistas de rua fantásticos a cada esquina deixando tudo mais charmoso ainda (se é que é possível); e a multidão de turistas que chega às vezes a ser incômoda; gerando empurra-empurra. Tinha tanto brasileiro que eu achava que estávamos planejando tomar Paris e que a língua oficial da cidade era português. Concorriam conosco apenas orientais (japoneses e coreanos em maioria, acho eu), oniporesentes com suas roupinhas divertidas e máquinas fotográficas gigantescas no pescoço.
E por falar em roupas, já que estamos no capital da moda: na viagem, mamãe leu em uma coluna de moda de uma revista brasileira que o que estava em voga agora eram vestidos assimétricos; com a parte de trás maior que a da frente (cauda). A revista só fazia uma ressalva: tais roupas ficavam melhores em mulheres altas e magras. Eu achei esse comentário hilário. Quer dizer: é claro que o tal do tipo de vestido fica melhor em mulheres altas e magras. Assim como sacos de batata, tapa-olhos e espinha na testa no dia da formatura... Enfim. O fato é que tais vestidos estavam sendo bastante usados na Europa, a quem interessar possa...
(Eu e minha irmã gostamos de roupa, mas não nos ligamos em alta-costura. Então passeamos na Laffayette como manda o figurino, mas gostamos mesmo foi dos brechós e lojas baratas nos arredores do Pompidou)
Paris é tão cara quanto Estocolmo, mas vale a pena. É suja como uma grande metrópole que é, e ainda assim belíssima. Tem gente pedindo esmola, todo mundo pula metrô, e você mesmo assim se apaixona. E diferente do que dizem as lendas, os franceses (pelo menos nos lugares turísticos) se esforçam para falar com você em inglês, ou alguma coisa que você entenda... Eu e minha irmã fizemos alguns semestres de francês e tentávamos arranhar algo. Faziamos-nos estendenter, mas aí o interlocutor achava que seria entendido e despejava uma tonelada de frases muito acima do nosso nível. Era engraçado nos dar conta que estávamos misturando francês com inglês (franglês?) e a sempre muito útil linguagem mímica. Já no aeroporto paramos para nos informar sobre um passe para museus e a vendedora disse que ele combria tudo, menos a Torre Eiffel; e segundo a minha irmã o sotaque dela era tão forte que minha irmã perguntou:
- Que torre?
- Ah... A Eiffel.
- Ah.
Primeiro mico de Paris. O outro fui em confundindo as palavras e dizendo "merci" (obrigada) após pisotear o pé de uma pobre mulher na tulmutuada galeria Laffayette.
Em paris pegamos nosso primeiro calor europeu. Ganhei as primeiras de muitas marcas de sol que estou levando de volta para o Brasil (e que, segundo a minha irmã, não vão deixar ninguém acreditar que eu fui para a Europa e não para a praia. Estou até com marca de relógio de pulso!). Penei.
No dia que fomos subir a Torre Eiffel, um dos dois elevadores estava quebrado. Pegamos duas horas de fila, em pé no calor. Mas isso tudo fez com que a gente subisse quase 22h, quando o sol estava começando a se por. E foi a coisa mais linda ver o sol se por do alto da Torre. E valeu fila e ingresso e tudo. E vimos as luzes dela se acenderem, e lá embaixo as luzes da cidade luz. Lindo. E nunca conseguiriamos se fosse o planejado...
Uma noite estávamos indo para o metrô e na praça estava tocando música eletrônica alta, como se fosse uma aparelhagem de Belém. Ao redor, vários jovens dançavam totamente desengonçados. Minha irmã disse que encontrou seu lugar, onde ninguém sabe dançar. Alguns deles estavam feliz demais e fiquei me perguntando que substâncias ilícitas eles tinham consumido. Mas paramos e logo eu, totalmente sóbria, estava me divertindo dançando feito uma louca; então talvez alguns feles estivessem apenas alegres...
Um dia ligamos a tv no hotel e estava passando "O clone". Dublado em francês.
Outro dia, tomamos vinho e comemos queijos e presuntos a beira do Senna. E em todo lugar havia nutella, muita nutella; o que para mim é mais um motivo para amar aquele lugar.
Fizemos os passeios tradicionais. Me perdi no Louvre, aquele museu tão enorme que se precisaria de pelo menos uma semana para conhecer. Você sabe que está se aproximando da Monalisa pelo aumento do burburinho. Com tudo aquilo de gente, cheguei a passar por galerias vazias! Só eu e as cadeiras do século XVIII... Fomos no Pompidou, e minha irmã, estudante de design, foi à loucura. Eu me encantei com uma bandinha de rua formada por japoneses tocando música celta. Passamos um tempão nos inválidos, vendo os artigos de guerra; e depois demos um pulinho no museu Rodin. Andamos na Champs Elysées, subimos o arco do triunfo, fomos na Notredamme e em Montmatre. Esticamos até Versalles para ir no palácio, e foi ao mesmo tempo lindo e nosso maior passeio-furada - não dava para andar lá dentro sem tomar cotovelada. Tomamos sorvete Berthillon (todos os sabore são de fato ótimos!). Enfim: fomos turistas encantados com a cidade, com máquina no pescoço e cara de bobos, como Paris pede. Compramos lembrancinhas e nos divertimos vendo a criatividade parisiense. O que mais ri foram as camisinhas (devia ter batido uma foto) com dizeres do tipo "Está vendo a torre?", "Coma meu baguete", e o "Voulez-vous coucher avec moi ce soir?"; além da não parisiense com desenho do Darth Vader, "I´ll not be your father".
Fomos de Paris para Londres e de Londres voltamos para Paris. E no nosso último dia na cidade-luz, paramos para ver as olimpíadas em um telão, deitados no chão de uma praça com almofadas patrocinadas. Pronto: Já posso dizer que vi as olimpíadas na minha viagem!
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Inglaterra: Londres
Quando saímos de Paris, já estava fazendo calor. Mas Londres é famosa por seu clima nublado, então eu levei casaquinho e blusas de manga. Tolinha. Aparentemente, pegamos os dias mais quentes do ano na capital inglesa. O sol estava de matar, insuportável. Eu, paraense, me rendi e comprei um short, e ganhei novas marcas de sol. Em todo lugar se via mulheres de vestido e tênis de ginástica, o típico vestimento de uma viajante derretendo. A cidade não tem nenhuma infra-estrutura para calor. Não tem ar-condicionado no metrô, e como tudo estava lotado pelas olimpíadas, eu realmente me sentia uma sardinha em lata. E olha que o sistema de metrô londrino é gigantesco. O de Paris também. Deixam São Paulo envergonhadíssimo.
Londres é uma legítima metrópole, e as olimpíadas deixavam tudo maior (chegamos lá faltando quatro dias para a abertura, saímos na véspera). Fiquei pensando realmente como será a do Rio - ingleses tem sua fama de organizados, e tudo parecia meio fora do lugar; guardas meio perdidos quando alguém (muitos alguém) pegava o metrô para uma zona não inclusa na sua tarifa, metrôs superlotados. Mas me impressionou ver a infra-estrutura e a maquiagem da cidade. Não tinha gente pedindo esmola. Não tinha lixo no chão (o que era particularmente impressionante pela dificuldade que era achar uma lixeira quando se precisava!). Tudo estava policiado, e os guardas típicos londrinos eram simpáticos com turistas. Fomos ver a troca da guarda real e eu fiquei com dó dos típicos guardinhas vermelhos, com aquelas roupas pesadonas. E o mesmo policial que emprestou o chapéu para uma turista bater foto e fez piadas de Napoleão com francesas, prendeu muito rápido um homem que tentava bater carteiras na multidão. Assustadoramente eficiente.
E talvez pelo clima olímpico, em todo lugar havia gente se exercitando correndo. Não trotando, correndo mesmo, alucinadamente. Curiosamente, quase sempre com mochilas nas costas.
Começamos nossa estadia em sightseen num ônibus vermelho, e acho que valeu a pena. Não tivemos tempo de visitar todos os pontos turísticos (e eu, fã crescida de Harry Potter, me arrependi de não ter feito reserva para conhecer o set de filmagem, obviamente já não tinha vagas...), mas deu para ver o Big Ben (pequeno, ha!), o London Eye, o Tate Modern (eu batia pé para ver as antiguidades; minha irmã, as artes modernas), St Paul... Passamos uma tarde no museu britânico, que é sensacional. Eu, que já quis ser arqueóloga quando era criança, passei 2h nos egípcios. É assustador pensar que tudo aquilo foi saquado - imagina visitar Cairo e ver um pedaço do Big Ben e de Notre Damme! E explica muito da megalomania parisiense lembrar que expedições napoleônicas pegaram parte daquilo. A viagem foi também uma grande aula de história, e eu gosto muito de história.
O fato dos ingleses dirigirem na direita ("we drive on the right side") torna tudo confuso, mesmo que não tenhamos entrado em carro algum. O metrô vem do lado errado. As pessoas andam nos corredores e descem e sobem escadas no lado errado. A gente mal sabia para onde olhar para atravessar a rua!
A comida típica inglesa é o sem-graça fish and chips (literalmente peixe frito e batata frita, e só), mas o que me chamou foi  o enorme número de redes de comida saudável. Minha irmã achou Londres muito parecida com Nova York, mas os londrinos certamente vão viver mais.
Os londrinos (e os turistas) também gostam do verão. E para mim o mais esquisitos foi ver gente sem roupa nos parques. Ok se jogar na grama, eu curto. Biquini e sunga? Fantástico, também faria. Mas ficar só de cueca ou calcinha e sutiã??? Ok, na realidade cobre a mesma quantidade de corpo. Mas de onde eu venho isso é estranho, muito estranho. (e lá em Londres era bem comum, ninguém nem olhava).
Ah, claro que encontramos muitos brasileiros. Mas nada supera Paris.
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Portugal: Porto, Lisboa, Guimarães, Óbidos, Coimbra e mais...
Portugal é o Brasil na Europa. Começa pela língua, que em tese (muito em tese) é a mesma que a nossa. (Meu cérebro deu tilte na hora de comprar algo no aeroporto quando chegamos - eu não sabia mais em que língua falar). Depois vem as pessoas, mais baixas e gorduchas com seus cabelos negros (se nossa herança genética europeia é majoritariamente portuguesa, por que raios importamos um padrão de beleza nórdico?). O preço das coisas é muito mais convidativo, com pratos de 3 euros (em parte pela crise; há cartazes de protesto espalhados em todo lugar. Desmprego em 15%!). Vende suco de laranja natural e isso é super comum. Há frutas variadas. As pessoas param em fila dupla e ligam o pisca-alerta, e isso também é supercomum. É um povo mais espalhafatos e barulhento. As porções de comida são enormes. Tocam nossas músicas ruins. Tem caipirinha. Ninguém toma sol em parque, porque eles tem praia. O sol "já" se punha às 21h. Depois dos passeios tão chiques, a gente vai começando a se sentir mais em casa. E antes de te aperceberes, estás a falar com um vocabulário mais formal e correto do que o de costume. (Moro há quatro anos em campinas e me orgulho de continuar com sotaque paraense. Mas acho que pegaria algo do sotaque de Portugal.)
Em Portugal não havia tantos turistas brasileiros. Havia, sim, muitos franceses. Se duvidar, mais do que na França, que estava tomada por turistas.
E eu me impressionei de verdade com Portugal. Confesso que se tivesse sido eu a decidir o roteiro das férias, não sei se escolheria passar por lá, e teria sido uma grande bobagem. O país é incrível! Meu pai já passou por lá várias vezes a trabalho, e alugou um carro e nos levou para vários lugares. Portugal tem castelos enormes do século XII, fortalezas de pedra que contrastam absurdamente com os castelos frufrus franceses. E como me era muito inesperado, eu arregalei os olhos. Em Guimarães, a primeira fortaleza que vi esta lá, aberta para quem quiser entrar. Você sobe pelas escadas aquelas muralhas de uns cinco metros de altura e fica andando... Em Óbidos as muralhas que envolviam a antiga cidade estão todas preservadas, e nós a circundamos. Eu, que tenho medo de altura, só faltei morrer do coração andando por aquelas pedras lisas sem proteção nenhuma entre eu e a queda/morte iminente. COnseguia ver as manchetes, "Universitária braisleira morre ao desabar de muralha medieval". Ainda assim, fascinante. Nunca tinha visto nada parecido.
No Porto, visitamos igrejas e ficamos a beira do rio Douro, lindo... Fomos a uma praia próxima e eu me choquei com a organização; há uma passarela de madeira para você ir até a areia e ninguém leva a areia da praia para a rua... E vimos mais um lindo por do sol. À noite passamos pela área onde os universitários costumam se reunir, mas estava vazio pelas férias e por ser terça-feira. Ainda assim, minha irmã riu ao ver que eles bebiam um vinho barato - um bom vinho português...
Em Lisboa comemos pasteis de Belém (a Belém deles...), visitamos o fantástico mosteiro e subimos a torre de Belém, que eu elegi como o lugar mais bonito de Portugal. É linda demais para ter sido usada como fortaleza! A favor da torre, o dia estava lindíssimo e o Tejo brilhava azul (e tinha acabado de encharcar meus sapatos - eu me aproximara do rio e uma onda sorrateira me acertou). Eu não queria mais sair dali.
Também fomos ao aquário, para minha irmã me apresentar suas amadas lontras.
Passamos também por Coimbra e sua impressionante biblioteca (e na cidade uma pomba fez cocô em mim. Espero que signifique sorte eterna, e não apenas que eu tive que gastar 4 euros em uma blusa nova). Vimos várias igrejas, e é fascinante ver que elas são uma colcha de estilos arquitetônicos. Triste algumas delas não estarem tão conservadas quanto as francesas, mas nisso há também um charme - você olha as paredes e consegue ver resquícios de tinta, e eu e minha irmã nos divertimos criando teorias para marcas nas pedras.
Nas viagens de uma cidade a outra, também vi fazendas eólicas. Achei o máximo, nunca tinha visto tantas turbinas ao vivo. E eu quero trabalhar com energias renováveis.
Ocorreu conosco um causo:
Um dia minha mãe viu uma roupa que gostou em uma vitrine. Entramos na loja, procuramos a roupa e não encontramos. Fui falar com uma vendedora:
- Onde encontro a blusa da vitrine?
- Só há aquela.
- Você pode pegar ela para mim?
- Não. - E eu fiquei com cara de tacho - Só quem pode pegar roupas da vitrine é a vitrinista.
- Hã... E como eu posso falar com a vitrinista?
- Ela não está, só vem de vez em quando. Eu só posso mexer na vitrine com a vitrinista e autorização da loja.
- Ah... Obrigada.
Sim. Em Portugal, as roupas da vitrine não estão necessariamente à venda.
O português deles é uma diversão a parte. Ri um monte vendo uma revista feminina ensinando a "diminuir as ancas". No alto da torre do clérigo, no porto, uma menininha de uns cinco anos disse ao pai: "veja os carros, que minúsculos!". E em um banheiro público sujo e feio havia uma papel pregado escrito a mão: "avariado". A campanha de doação de sangue era com pessoas sorridentes dizendo "dar está no sangue". No nosso primeiro café da manhã, meu pai pediu uma tosta e uma meia de leite e eu não entendi nada até ele me explicar que era uma torrada e um café com leite. As comidas, aliás, eram um vocabulário totalmente a parte. Fiambre, por exemplo, é presunto.
Eu comi muito bacalhau. E, para rimar, fui também muito feliz em Portugal.



A depois dessa delícia de férias, voltamos ao Brasil. Eu com um semestre já começado me esperando, e os problemas exatamente onde os deixei. Mas também com muitas boas coisas por vir. Já estão vindo.



PS: Eu pretendia colocar fotos nesse post, mas escrevê-lo já foi muito longo. Talvez coloque depois. Mas estou de volta! Pretendo voltar à rotina de pelo menos um post por semana.

PS2: O Riscos fez cinco anos! Eeeeeê!!!