domingo, 30 de janeiro de 2011

Três motivos para odiar dolares:

1 - As notas são todas da mesma cor e do mesmo tamanho, então você tem que olhar o número quando vai procurá-las na carteira (eu nunca tinha me dado conta do quanto é mais fácil simplesmente pegar uma nota rosa).

2- As moedas são todas prateadas, com exceção da de 1 cent, que é cobre. A de 1 cent tem exatamente o mesmo tamanho que a de 10 cents, que é só um pouquinho menor que a de 5 cents (sim, a de 5 é maior que a de 10), que por sua vez é um nadinha menor que a de 25 cents. E o valor delas está escrito em letras miúdas. Dá tanto trabalho que dá preguiça e vergonha, e quando você se pergunta "onde foi parar meu dinheiro?" se dá conta que sua carteira pesa uma tonelada e tem 5 dolares em moedinhas
(Na tentativa de resolver isso, comecei a andar com exatamente 1 dolar em moedas, sabendo quais tenho na carteira. Vamos ver se começo a gastá-las...)

3- 1 dolar vale quase 2 reais, então aquela blusinha linda que custa menos de 20 dinheiros daqui são quase 40 dinheiros lá de casa. Ah, e os impostos só são cobrados no caixa, então a hora de pagar tem sempre uma desagradavel surpresinha...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Tonight is the night

Eu estaria exagerando se dissesse que o final de semana passado foi o pior da minha vida, mas com certeza ele entra no páreo. Eu ia sair na sexta, mas meus amigos desistiram; cheguei no ap e descobri que minhas roomates tinham viajado, daí em diante foi um final de semana inteiro na minha própria companhia.
E, sinceramente, eu não me aguento por tanto tempo.
Ah, e eu mencionei que estava de TPM?
Conversei com minha família pelo skype por um tempão, o que foi bem legal; mas tem algo de muito errado em estar nos EUA e o ponto alto do seu dia ser na frente do computador. Fiz meus deveres de casa, lavei roupa, comi e fiquei vendo filme da disney na tv. Daí 1h da manhã, quando fui dormir no sábado, descobri que tinha uma mensagem no celular me convidando pra sair 8h da noite e me senti uma imbecil.
Aí eu prometi pra mim mesma que nunca mais teria um final de semana assim.
No domingo encontrei por acaso num refeitório um cara que eu conhecia e ficamos um tempão batendo papo. Descobrimos que moramos no mesmo dormitório e combinamos de jantar juntos; e de noite também por acaso tinham uns brasileiros amigos dele no refeitório e foi legal conversar; e eu comecei a distribuir meu telefone planejando finais de semana melhores. Na volta vim batendo papo com meu amigo (latino) e outro sulamericano. O clima estava um pouco melhor e viemos brincando na neve, o que foi divertido - a neve é banal pra todo mundo, eu ainda não tinha achado quem brincasse nela comigo.
- Cheguei aqui no verão - ele disse em inglês - Não dava pra acreditar que o clima ia ficar assim, as pessoas andavam por aí sem camisa, jogavam volei de praia. E tinham um bando de coelhinhos e esquilinhos por aí.
- Sério?
- Sim. Eu pensei que eles iam todos morrer quando começou a esfriar.
E na minha cabeça: "mas esquilos e coelhos não tem geração espontanea! Eles tem que ir pra algum lugar para voltar na primavera..."
- Estão escondidos agora, meio que hibernando - ele concluiu.
- São mais espertos que a gente. - Comentei.
É, vai ver é por isso que aqui eu sinto tanta fome e tanto sono. Se eu durmo 7h em uma noite, fico estragada no dia seguinte (e no Brasil 6h por noite sempre me foi o suficiente. Exceto em finais de semana). Meu corpo queria estocar gordura e hibernar...
Ou talvez seja culpa do café aguado mesmo. Eu bebo umas quatro xícaras por dia, misturando café e cappuccino, mas é tão fraquinho...

A semana foi boa, com longas conversas e deveres de casa e academia. Estou fazendo quatro matérias na engenharia mecânica e uma aleatória, public speaking (oratória) e essa semana foi minha primeira apresentação. Foi uma tragédia - eu comi 30 segundos dos meus 2 minutos de treino e não faço ideia de como isso aconteceu. Quer dizer, faço; e essa é a pior parte. E muitas das outras pessoas deram verdadeiros shows. É a língua delas e isso ajuda muito mas... Ah, sei lá, fiquei desanimada.
Mas tirando isso correu tudo bem, e consegui alcançar meu objetivo: tive que recusar excesso de convite para sair na sexta. No Brasil eu não sou tão popular!
Eu ia direto da aula para uma reunião de um grupo latino americano e de lá para a Pink House, que é uma casa que oferece jantar para estrangeiros toda sexta e onde todo mundo se reune para conversar, jogar joguinhos e, claro, comer. Programa bem comportado e divertido. Sem exagero, todo estrangeiro que eu conheci (e a maioria das pessoas que eu conheço é estrangeira) me perguntou se eu ia pra lá ontem, então o lugar estava lotado e foi bem legal.
Mas voltando: como eu ia sair de noite, quis me arrumar um pouco mais. Eu estou com um ligeiro complexo de menina feia nos EUA, porque:
1 - Eu cheguei usando o casaco do meu pai e botas de soldado, e as outras meninas estavam com sobretudos lindos e botas combinando. Agora eu tenho botas lindas e sobretudos, mas tem aquilo da primeira impressão, né? E eu ainda acho que meus acessórios não combinam entre si. Cores demais.
2- Eu sou gordinha. Não balofa, não enorme, mas gordinha. E saio de casa usando mais de 10 peças de roupa. Corpo de americana é diferente, elas tem peitão e perna fina; todos os meus quilos extras estão na parte debaixo do meu corpo e com um casacão eu pareço enorme. Ok, todo mundo parece, mas... Ah, não gosto.
3- Americanas usam muita maquiagem. 8h da manhã e a mulherada está com sombra colorida e lápis e delineador forte. Eu tenho olheiras e com lápis forte parece que eu levei um soco; e, principalmente, eu não tenho paciencia para acordar mais cedo pra isso. Eu gosto de dormir, e aqui mais ainda.
4 - Meu cabelo. Capítulo a parte. Meu cabelo sempre foi uma das minhas partes favoritas, escorrido e bem comportado independente do quanto eu o maltrate. Pois bem.
Aqui, meu cabelo está sempre muito arrepiado.
No início eu realmente não entendia. Passar a mão sempre foi o suficiente! Eu já viajei sem escova nem pente!!!
Putz. Meu gorro. De lã.
Eu estou sempe colocando e tirando meu gorro de lã para entrar e sair dos lugares. Atritando ele como meu cabelo.
PQP. Meu cabelo está sempre eletricamente carregado.
Sério. Vários fios ficam fazendo 90 graus com a minha cabeça. Não desce. Ou eles grudam na minha cara.
Maldita eletricidade!
Eu tomo uns 5 choquinhos por dia tocando em superfícies metálicas. E quando eu tiro a calça de lã que uso por baixo do jeans, ouço estalos.

Voltando à arrumação de novo...
O clima melhorou muito semana passada, vi chão que ainda não tinha visto e a neve derreteu um pouco. Tudo virou uma sopa, mas eu podia atravessar a rua de casaco aberto (com camisa de lã por baixo), sem gorro nem luva, o que é fantástico. Ah, e o sol agora se poe 17:30h, e não antes das 17h.
Então, num ato de extrem atrevimento climático, ontem substitui minha calça jeans por um legging de malha por cima da minha calça de lã, e coloquei uma camisa de malha, manga comprida com decote. Joguei meu sobretudo por cima e saí com uma camisa de lã na mochila, por segurança. E sobrevivi!
Na Pink House algumas amigas minhas estavam de meia calça e saia. Lá fora: -8C.
Aí quando todo mundo estava indo embora um amigo meu me ligou me chamando para ir a um clube. O clima estava piorando de novo (a partir de amanhã as mínimas voltam a ficar abaixo de -20C) e estava ventando pra caramba, mas eu estava me achando bonita e não tinha muito tempo, então só joguei minha mochila em casa e saí de novo.
Fomos de carona com um amigo dele. E quando ele estava estacionando eu vi caras andando na neve de camiseta. Meu Deus. E então: uma garota correndo rumo à boate, de shortinho e camiseta de alcinnha, costa nua.
LOUCA!!!
A amiga do meu amigo que estava com a gente me disse que as garotas daqui são assim mesmo, e que eventualmente vão parar no hospital com hipotermia.
Quando entrei no clube, entendi o que ela estava dizendo.
Pergunta rápida: você acha as brasileiras vulgares?
Eu não gosto de chamar outras mulheres de putas ou derivados. O corpo é seu e você faz o que você quiser com ele.
Mas eu tenho que dizer que as americanas estavam seminuas. Não todas, mas uns 90% delas. As saias mal cobriam a bunda, o decote acabava no mamilo. Ao mesmo tempo. Vi mais de uma calcinha. E elas dançam se esfregando nos caras. Realmente.
O país é livre, o corpo é seu, mas eu sou uma boa menina e estava chocada.
E lá foram estava muito frio. Lá dentro tinha onde deixar seu casaco, mas as pernas pelo menos tinham vindo expostas. Não importa se elas nasceram e se criaram no frio, ninguém aguenta isso.
Mulheres e danças a parte, boates são iguais em qualquer lugar do mundo. E eu precisava de uma bebida.
O bar ficava no andar de cima, e você precisava ter mais de 21 para subir. Mas o segurança nem olhou meu passaporte.
- Quer um sake-bomb? - (acho que escreve assim) me perguntou o amigo do meu amigo.
- O que é um sake-bomb?
- Você vai gostar.
Era um copo de cerveja com dois hashis em cima apoiando uma dose de sake. O objetivo era bater na mesa para derrubar o sake na cerveja e beber tudo de uma vez.
Valendo!
Eram umas 23h e eu estava com fome porque tinha jantado às 18h. Que prático, economizar calorias e dolares ficando bêbada de estomago vazio. Exceto pela parte que isso faz mal pra caramba.
Quer dizer, devia fazer. Porque depois do sake-beer eu continuei achando a festa chata. Aquilo era alcoolico mesmo?
Um cara chegou dançando por trás e passou a mão na minha cintura. PQP. Antes de tudo eu tenho um namorado, mas mesmo que não tivesse. Eu odeio quem chega pegando.
Aí eu me lembrei porque não costumo ir pra boates: porque eu não gosto.
Que coisa.
Mas minha carona estava agarrado em uma loira e enchendo a cara, então dança, Marina, dança.
Meus amigos estavam cansados também.
Dançamos.
1:30h as luzes foram acesas. É, festa americana acaba antes das 2h. E fomos convidados a nos retirar. E estava ventando muito.
E cadê o carona?
Meu amigo ligou.
Ele ia ficar com a loira e mandou a gente se virar.
Uau.
Que legal. E que bom que a gente teve que ligar pra ele avisar.
E quem disse que os táxis atendiam?
E lá foram aquelas meninas sem roupa se amontoavam, dizendo que morreriam de frio. E eu achava que morreriam mesmo, e pensava se a culpa seria delas por andarem sem roupa na neve ou do dono do lugar por expulsá-las assim. Eu mesma, com meu casaco, estava batendo os dentes.
Finalmente um táxi atendeu e quando ele chegou duas das meninas sem roupa entraram nele com a gente.
Tomei um banho quente 3h da manhã e vesti dois moletons pra dormir. E hoje acordei meio quebrada. Minha garganta dói. Joguei meu casaco por cima, calcei minhas botas e fui absolutamente horrorosa tomar café. Claro que encontrei gente que conhecia.
Aí concluí que devia ter ido com dois moletons pra festa, porque aí o cara não passaria a mão na minha cintura e eu não sentiria frio; e de camisa decotada pro refeitório, para não parecer que tinha sido atropelada. Se bem que dizer que tinha saído na noite anterior fez eu parecer menos looser. Apesar da festa ter sido a coisa mais looser da noite (a Pink House foi muito mais legal). Ninguém precisava saber disso...

Quando estava voltando do refeitório pra casa, vi um esquilo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Procrastination

Sabe como é: nos Estados Unidos, você não deixa de fazer seu dever de casa para ficar batendo papo, vendo um filme ou fofocando enquanto pinta as unhas. Você apenas decide praticar mais o seu inglês...

PS: A palavra procrastination existe de verdade! Que coisa, não é mesmo?

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Você percebe que já está com uma noção deturpada de temperatura quando...

...Pensa "puxa, hoje não está tão frio!" quando está fazendo -8C e não está ventando, e fica feliz de ver que o clima está melhorando muito quando a previsão diz que depois de amanhã a temperatura vai chegar a -1C.

("-1C, gente!!! A água quase fica em estado líquido na pressão atmosférica... Não é mágico?)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Absorvente noturno

Certo, esse é um papo meio estranho, mas eu realmente tenho que comentar: hoje saí para comprar absorventes. Como tudo nos EUA, as embalagens são enormes - todas equivalentes a 4 brasileiras. Se bem que para absorventes isso faz sentido; quem usa só oito num mês? Enfim.Fiquei aliviada de ver que havia a marca que eu costumava comprar no Brasil, e comprei um noturno.
Ok, acabo de abrir a embalagem. E eu já fiquei horrorizada com o tamanho da embalagenzinha individual do dito-cujo, gigantesca.
Ah não...
Mulherada. O troço é gigante!!! Sem exagero, são dois brasileiros. Dois noturnos. Tem abas, mas como raios se espera que você prenda aquilo na calcinha? Tipo... Ele é quase maior que a calcinha! É com certeza maior que muito biquini brasileiro. É uma fralda geriátrica e esqueceram de identificar. Eu poderia colocá-lo no sutiã e usar de colete à prova de balas, e minhas costas estariam protegidas também. Ele estancaria harakiri.
Ok.
Fargo, domingo, 11h da noite, -10C.
Meta para amanhã: comprar absorventes decentes.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Contabilizando: primeiras três semanas em Fargo

~ Caros amigos leitores, desculpem a demora para este post sair. É meio que um ciclo: eu preciso de tempo para escrever tudo que acontece; aí não tenho tempo e não escrevo, e no tempo que não tenho para escrever acontecem mais coisas... Em suma, estou vivendo demais! Este é mais um post gigantesco, e acho que último da série - depois destas três semanas, acho que posso dizer que sim, cheguei em Fargo! E a vida segue gelada e diferente de tudo, mas já começando a virar um diferente... comum? Não, comum não é a palavra; mas pelo menos já não me perco tanto na universidade e sei o que esperar da comida.
Ok, vamos lá!


(Ah, e este também é um post ilustrado. Tenho batido algumas fotos e pareceu uma boa ideia postá-las... O Riscos não tem bem um molde, mas estes posts definitivamente estão fora dele)

 
Nas minhas duas primeiras semanas em Fargo eu...

Conheci muitos... coreanos! Eles estão em todo lugar, com seus olhinhos puxados e jeitão simpático. Nunca tinha conhecido um coreano na vida, agora posso dizer que são boíssima gente. (E que quando te conhecem te perguntam a idade, porque se respeita os mais velhos - mesmo que alguns meses - usando pronomes de tratamento específicos)

Conheci também: chineses, japonesa, francesas, norueguesas, australiana, hondurenho, haitiana, chilena, dois malasios que moravam na China, venezuelano, mexicano, alemã, cingaleses, indianos, zimbabuanos, mais brasileiros... ah sim, e americanos. E mais uma vez vi que gente é apenas gente, e que ninguém é tão diferente.

Fiquei sabendo que: vários orientais tem hábito de dividir pratos em refeições (por isso minha nova amiga malaia estava pegando 4 fatias de bolo e disse para comermos todas juntas na nossa mesa de meninas onde, tirando eu, todas tinham olhos puxados. E eu de costas, com meu cabelo preto escorrido, até enganava). E que na Noruega pirataria é tão comum quanto no Brasil e eles tem um "joguinho" que consiste em roubar coisas absurdas de bares e fotografar para provar (e eventualmente devolver depois).

Aprendi a dizer "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" na língua da Malásia (ou pelo menos tentei, e anotei na minha agenda); ensinei a malaia e uma coreana a contarem até cinco em português (elas gostaram do som do quatro) e também palavras super relevantes a uma das minhas companheiras de apartamento, americana: "oi", "tchau", "merda".

Sim, a orientação foi muito boa, mesmo eu tendo cochilado em uma palestra e pensado que poderia estar dormindo em outras - houve também as muito boas, e conheci gente, e me senti muito bem recebida e com vergonha de nós, braisleiros, com tanta fama de acolhedores, não fazermos nada assim para os nossos gringos que chegam.

                        Memorial Union, onde foi a orientação e onde passo grande parte do meu tempo

Uma das coisas mais surpreendentes para mim foram os americanos. Que imagem você tem deles? Eu os imaginava fechados e sisudo; qual não foi a minha surpresa ao descobri-los boa gente! Extremamente receptivos, conversam com você sozinha no café da manhã, no ponto de ônibus ou esperando a academia abrir 8h da manhã debaixo de neve, te dão o número de celular para o caso de vocÊ precisar de alguma coisa... E acabaram de te conhecer! Não sei se é porque Fargo é cidade pequena, mas é muito gostoso receber bom dia em todo canto, e apesar de eu estar tão longe de casa foram poucas as vezes em que me senti sozinha.

E quanto ao american way of life...

Já no banheiro do aeroporto eu me surpreendi que as privadas não tinham tampa, e tomei um susto quando me levantei e a dita cuja deu descarga sozinha. Fiquei encanda com as lixeiras pequenas e depois fui pesquisar no google para descobrir que o papel higiênico vai para a descarga. No meu banheiro do alojamento universitário tem banheira; e o chuveiro, em vez de ser vertical, joga água em parábola. É meio baixo e você só molha o cabelo se realmente quiser. Não é ruim, mas prefiro o nosso.

Ainda comentando coisas diferentes: no primeiro dia descobri que precisaria comprar um adaptador de tomada enquanto conversava no skype e meu notebook descarregou. E quando fui ao supermercado fiquei um tempão procurando o leite até lembrar que aqui ele é vendido em garrafa (meu amigo americano disse que americanos dizem que o leite deles é muito melhor. Eu não vi diferença...). Todas as embalagens nos EUA são enormes, e eu estou sendo forçada a entender libras e pés para me comunicar. Deu um tremendo trabalho comprar botas de neve, porque eu não sabia meu número e tive que ficar calçando e tirando até me encontrar. Cheguei aqui usando um casaco do meu pai e coturnos de soldado, mas depois de um banho de loja posso dizer que já fico apresentável aqui. Um urso polar apresentável. Na rua é como vestir um cobertor; ando com os braços meio abertos.

O lugar onde estou morando é bem legal. Pelo que dizem é o melhor dos alojamentos; mas fica "longe" (quando aqui dentro tem caleifação e lá fora está fazendo -15C, o outro lado da rua fica longe. Ah, e a história da caleifação é mais ou menos verdade. Aqui dentro é confortável, mas eu ainda estou sempre de moleton, meia e calças compridas. Mas as outras meninas estão sempre de shortinho e camiseta). Somos 4 meninas em um apartamento com sala e cozinha grandes; duas meninas por suíte. Tem assinatura de jornal, internet, tv a cabo e lavanderia. E eu, com meu 1,75m, sou a mais baixa. Sério.
Como eu cheguei no apartamento antes do início das aulas, as outras meninas ainda não estavam (o que foi bem estranho; ver as coisas delas aqui e elas não). Achei tudo uma graça, mas me sentia em um hotel. Eu não trouxe edredon e na primeira noite dormi direto no colchão. e que colchão bom! mais comprido que os brasileiros; eu coloco a mão atrás da cabeça e meus pés não saem da cama! No segundo dia fui ao supermercado (levada num ônibus amarelo escolar pelos estudantes internacionais, olha que simpático) e comprei edredon, travesseiro e luminária. No resto da semana gastei minha imaginação e 10 dolares em decoração (vinil para parede, fotografias). No final, acho que meu novo quarto ficou fofo. Olhem só:


Como o voo atrasou, consegui chegar efetivamente no alojamento quase 5h da tarde. O cara super simpático que me deu as chaves e me apresentou o lugar disse que tinham restaurantes do outro lado da rua se eu quisesse jantar; aí eu me lembrei que não tinha almoçado. Depois que ele foi, coloquei meus coturnos de soldado, outra blusa de lã sobre a primeira e o agasalho do meu pai e saí na neve.
- Como é? - Perguntou meu namorado, mais tarde no mesmo dia.
- Sabe o freezer da sua casa? Imagina ele grande.
Sério.
Que frio!
Não consegui andar uma esquina. Pensei que ia ser feio morrer de hipotermia já no meu primeiro dia, e parei na McDonalds, minha vizinha (que grande clichê, não é mesmo? Estar nos EUA e ter uma McDonalds bem do lado de casa) e comprei um trio.
- Só isso? - A mulher me perguntou, enqunto eu olhava esfomeada aquelas absurdas 1300 calorias.
Mas meu amigo gringo estava mentindo. A McDonalds americana é melhor que a brasileira. Tudo tem mais gordura e mais sal, e sua saliva se delicia com suas artérias entupindo. Delícia!

No dia seguinte tive que pegar um ônibus para chegar a universidade. Saí de casa 7h da manhã e ainda estava de noite. Sabe, eu não tenho nenhum problema em acordar cedo, mas odeio acordar quando ainda está escuro. E aqui o sol nasce às 8h e se poe 5 da tarde. O céu de dia é branco, e de noite às vezes fica acinzentado pelas nuvens. Mas ontem estava fazendo uma lua linda. E neva quase todo dia. A neve começou a cair do céu já no meu segundo dia. Linda. Olhei para o meu braço, e num momento muito nerd pensei "nossa, um fractal!" E pensei também sobre as portas, que saõ quase sempre duplas, para o calor não sair.

                                Foto batida em um ponto de ônibus, com o mascote da NDSU

Há algo muito óbvio que nunca tinham me dito sobre a neve: ela é escorregadia. Não tanto quando é muita, porque parece areia e você anda afundando os pés; mas quando forma um filme de gelo sobre o chão (aliás, eu ainda fico surpresa quando vejo o chão. Geralmente é tudo branco; eu demorei um tempo para aprender o que era rua, o que era calçada e o que era estacionamento). Então:
~ Vezes em que eu quase caí na neve: perdi a conta. A primeira foi no meu primeiro dia e eu achei que fosse culpa das minhas botas, mas aí me disseram que simplesmente não existem sapatos adequados para a neve. E...
~ Vezes em que vi outras pessoas quase caindo na neve: inúmeras, também. Aí comecei a acreditar que não é culpa minha. Quer dizer, mais ou menos, porque...
~Vezes em que eu efetivamente caí na neve: umas cinco ou seis... A primeira já no segundo dia; teve dia que caí mais de uma vez.
~ Ossos quebrados: por enquanto nenhum. E pretendo me manter assim. Depois da segunda queda, eu aprendi que é só levantar, espanar o gelo da calça e esperar os hematomas sumirem. Nesta semana pelo menos eu não caí nenhuma vez.

Nos primeiros dias eu me peguei cantando o refrão daquela música do Bee Gees, "ha ha ha, stayin' alive, stayin' alive". Já consigo andar na neve agora; já não acho mais que vou morrer de frio. De vez em quando ainda acho que vou ter que amputar os dedos ou as orelhas (na orientação tivemos uma palestra sobre sobrevivência na neve na qual nos ensinaram a nos vestir em camadas e que, caso um membro ficasse amarelo ou roxo, talvez precisassemos de assistência médica...); mas parei um dia desses para olhar os americanos e vi que eles são inteiros. Então talvez seja possível eu voltar inteira daqui. Realmente acho que, se sobreviver a Fargo, sobrevivo a tudo. Pessoas que moraram aqui a vida inteira perguntam o que eu vim fazer aqui. Não que ela não gostem do lugar, mas é ofensivamente frio. E ainda assim já vi vários meninos de bermuda e garotas com jeans rasgado e perna exposta. Na neve, com -15C. É, eu sou fraca...

                                       Me diz se você não se sentiria num filme de Natal...
Nos meus primeiros dias, comida foi um problema. Eu optei por contratar um plano de alimentação da universidade, mas ele só começaria a valer no início das aulas, então tive que me virar na primeira semana. O café da manhã era ofericido na orientação. Muffins com manteiga, bolo, essas coisas. Fiquei feliz de ver um iogurte, a parte estranha é que ele abre pelo lado inverso que no Brasil. Ah, e tinha aquele café horrível. E perguntei e descobri que na Coréia é assim também.
Em dois dias teve almoço na orientação. No primeiro deles, pizza. É, pizza. É normal aqui almoçar pizza. Aí eles me chamaram pra almoçar e ue vi aquele bando de pizzas abertas e me perguntei onde estavam os guardanapos e os talheres. Então o  primeiro americano foi e pegou uma fatia de pizza da caixa com a mão e começou a comer, e eu muito abismada imitei... Aqui não se usa guardanapo pra pegar as coisas e no refeitório tem um gelzinho meio escondido para você higienizar as mãos. Sei lá, sou das antigas; gosto de pia... Outro dia o almoço foi macarrão, e em um dia compramos almoço nos restaurantes da universidade e tivemos que optar entre sanduiche, pizza ou salada. Eu fiquei com a salada porque estava com vontade de verdade. De noite eu não tinha o que jantar e em mais um dia comi Mc Donalds. No outro, jantei meio pacote de doritos. Achei que fosse morrer desnutrida nos EUA e fiquei realmente com medo do tal refeitório, porque foi carinho e eu peguei pela praticidade, mas vai que a comida não é comestível...
Muito amedrontada, fui lá na segunda de manhã.
Que sonho!
Máquina de cappuccino. Máquina de sorvete. Leite, achocolatado. 19 tipos de cereal (eu contei). Muitos tipos de pão. Geléia. Máquina de wafles. Aqueles syrups que a gente vê nos filmes. Hot dogs. Nachos. Molhos. Saladas infinitas. Queijo, presunto, peito de peru. Doces.
Quem se importa que o almoço é hamburguer?
Ok, lá pelo quarto dia eu me importei que o almoço era hot dog. Aliás, que hot dog horrível! Muito gorduroso, eu não consegui comer! E olha que eu como besteira, não é como se eu fosse saudável, olha pra mim.
E aí eu comecei a querer comida de verdade. E achar um absurdo ter fritura no café, almoço e janta; e nenhum dos cereais não ter açucar. Meu reino por um prato de feijão! Aí um dia teve feijão ao molho agridoce, que horror!!!
Nessa semana acho que comecei a aprender a comer aqui. Basta saber escolher e ignorar o fato da proteína ser frita. Eu não preciso comer o doce só porque ele está lá. Eu preciso de iogurte, frutas e salada. Misturando o cappuccino com o café fica menos doce; preciso começar a contar minhas calorias para não engordar. Uma amiga minha já disse que engordou morando em Nova York (ela é coreana e estava estudando inglês lá; fugiu pra cá porque não aguentava não conseguir falar inglês pelo excesso de coreanos... Não que tenha adiantado muito, mas segundo ela Nova York não é América). Conheci também outro americano que morou no Brasil e ficou super empolgado de poder treinar seu português comigo, e ele disse que emagreceu 5kg lá sem fazer nada, só de comer arroz com feijão. Olha pra mim. Eu não posso ganhar 5kg!!!
Por incrível que pareça, a maioria dos alunos não é gordo. Já vi muita gente comendo só salada, mas também muitos meninos com 2 hamburguers e batata frita. Comecei a resolver o mistério ontem, quando fui à maravilhosa academia disponibilizada pela universidade aos alunos. Ela é gigante, e estava lotada. Tenho direito a uma avaliação física e a um programa de musculação. Eu já entrei e saí de academia um milhão de vezes desde que tinha 14 anos, e nunca nenhum instrutor tinha pegado tão pesado comigo. Ele não deu a mínima para o meu leve sobrepeso nem para o fato de eu estar sedentária. Eu gosto de dar o meu máximo e tive que pedir para baixar peso. Ele alternou musculação com aeróbica e eu saí completamente exausta, com as pernas tremendo. Quase não aguento terminar o programa e hoje mal conseguia andar. É, assim dá para quem é magro almoçar pizza...

A universidade é bem legal. É um pouco menor que a Unicamp e a UFPA (mas fica enorme com a neve. 15 minutos a pé é uma maratona na neve), e sinceramente eu acho a FEM (faculdade de engenharia mecânica da Unicamp) muito mais legal que o Dolve Hall daqui; mas aqui tem um prédio (o Memorial Union, o mesmo em que foi a orientação) que tem um salão enorme cheio de poltronas pra aluno ficar à toa, estudando, batendo papo ou mesmo dormindo; e em todo lugar tem wi fi e eu tenho direito a 500 impressões e usar aquela academia enorme... Tudo incluso na mensalidade. Aqui eles valorizam muito vivência universitária; e tem boliche e bilhar na universidade e vários clubes que vão desde "clube dos indianos" a "viva a Grécia antiga", passando por "mulheres engenheiras" e "judocas".
Tem muitos indianos por aqui. Dois dos meus professores são indianos, o sotaque é engraçado, w com som de v. As aulas são bem aprecidas com as brasileiras, mas tem muito dever de casa para entregar! As meninas europeias com quem conversei disseram que se sentem de volta ao jardim de infância, mas eu acho um método válido de ensino. E sim, estou conseguindo entender as aulas em inglês. Para ser muito sincera, o pior para meu inglês é restaurante, porque eu nunca sei dizer o que qeuro e eles começam a dar opções que eu não faço ideia do que sejam...

Prédio da mecânica. Esse foi um dos dias mais quentes, dava para ver o chão e as bicicletas não estavam soterradas... Não é todo dia que me atrevo a tirar as luvas para fotografar.

Em suma, estou bem. No primeiro final de semana conheci uns amigos do meu pai; final de semana passado viajei a Minneapolis com outros alunos estrangeiros e eu não faço ideia do que vou fazer amanhã mas... Estou feliz.

Esta não é uma boa foto, mas é difícil bater fotos de si mesmo no frio... É só para dar uma ideia da vestimenta.

Ufa, é isso.

(Com certeza esqueci de muita coisa, mas... Fica para a próxima. Parabéns pra você que leu até aqui. Prometo fazer mais textos de menor tamanho daqui pra frente...)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Rumo a Fargo

~ Este post gigantesco na verdade é muitos em um

Neste exato momento, estou sobrevoando o oceano, quase entrando nos EUA. segundo a televisãozinha em frente à minha cadeira (a qual me encantou deveras - tem filmes para serem assistidos - tipo "scott pelgrin" e "a rede social"; e séries e músicas e mesmo joguinhos. Isso é que é entretenimento à bordo! Não que eu tenha aproveitado, já que possuo o dom de dormir feito pedra e o voo saiu de Brasília meia noite e vai chegar em Atlanta o equivalente à 9h da manhã).
A longa viagem está sendo surpreendentemente curta - em parte pelo supracitado sono, em parte pelas tarefas a serem executadas - filas de check in, interrogatórios ameriacanos ("Você está levando armas?"), ir ao banheiro do aeroporto para colocar a calça de lã por baixo da jeans e a segunda meia; percorrer todas as lojinhas do aeroporto de Brasília em busca de crédito para meu celular e no final ter que pedir a meu pai para carregá-lo de Belém, porque não tinha crédito em lugar nenhum (!!!), comer, passear em livraria, falar com namorado e família, escrever para o Riscos...
Meu percurso está sendo o seguinte: às 13h de Belém (que não tem horário de verão) saí rumo à Brasília, com escala em Marabá. (Dormi o voo inteiro. Brasília é logo ali). Cheguei em Brasília 18h de lá (17h de Belém), fiquei executando as já mencionadas tarefas (o detalhe é que o check in da companhia só abriu 20h). Meia noite de Brasília parti rumo a Atlanta, devo chegar 5:55h de lá (8:55h de Brasília e 7:55h de Belém). Lá retiro minha bagagem e passo pela Alfândega. 7:30h de Atlanta pego outro avião rumo à Minneapolis, onde chego 9:23h (como se esses horários fossem realmente tão exatos para serem dados tão quebradinhos. Tsc tsc, empresas aéreas não estudam algarismos significativos); então 11:30h pego mais um avião rumo a Fargo, onde finalmente chego 12:37h de lá. O pessoal da universidade vai me buscar no aeroporto e me levar ao alojamento estudantil, que é onde vou morar estes 5 meses.
Nesta primeira semana vou assistir várias apresentações para estrangeiros (não é russa, mas é reversal - nos EUA, que é gringo é você!) sobre a universidade e o american way of life (sim, isso estava escrito assim no panfleto que ganhei, onde constava também informações climáticas e sobre vestuário dos estudantes, descrito em detalhes como calça jeans e suéter e dito casual), fazer teste para tuberculose, ser apresentada a bancos e seguro de saúde, levada às compras para adquirir roupas de cama e um bom casaco e participar de boliche e pizza. Estou ansiosa.
O avião começa a pousar, escrevo mais mais tarde.

~ Mais tarde: Let it snow!

Agora já estou em Minneapolis, esperando ser (brevemente) chamado para o último voo do dia e chegar a Fargo. É, fiz piada com a minha irmã: "Far, far go..."
A chegada aqui foi uma das coisas mais bonitas que já vi.
Mais uma vez dormi o voo inteiro (alguém está surpreso? Pausa para uma observação: Quando cheguei dei um pulo no banheiro, esperando me deparar com uma cara amassada e indisposta; e foi uma feliz surpresa ver que estou muito bem apresentável, com uma bela cara de saúde - com excessão dos cabelos terrivelmente oleosos, que pedem urgentemente um banho, mas ainda assim estão bonitos; eu adoro meus cabelos que continuam a ser legais comigo independente do que eu faça com eles - nem parecia que eu estava a quase um dia fazendo uma viagem intercontinental. Aí eu me lembrei que, antes de ser uma garota em viagem intercontinental, e sou uma garota que passou o último dia paticamente dormindo. Impressionante a cara boa que descanso dá pra gente!). Acordei quase com a comissária de  bordo avisando que os procedimentos de pouso iam começar, e olhei para a janela. Lá embaixo tudo branco, como se fosse areia de praia, da minha querida Ajuruteua... Quis perguntar para o homem sentado a meu lado se aquilo era areia, um enorme deserto?, ou... ou era neve, a primeira vez que eu via neve, tão branca!; mas ele tinha caras de poucos amigos - especialmente porque eu cheguei correndo na última chamada do voo por causa da parada na alfândega e nem pude guardar minhas infinitas coisas no compartimento superior, então era um armário ambulante com casacão e mochila e netbook e pasta com passaporte; e um armário que senta na janela. Eu fiquei olhando intrigada lá para baixo; neve, será mesmo que tudo isso é neve? E bati essa foto aqui:


O gringo que conheci semestre passado disse que achava engraçado as pessoas dizerem que tinham vontade de ver neve, porque a ele, criado em Fargo, neve era a última coisa que desejava ver na vida. Mas a mim, criada em Belém do Pará... Eu amo calor, amo baía, rio, igarapé e praia; mas tenho em mim aquela gigantesta atração pelo novo e desconhecido. Neve! Gelo caindo do céu! Meus amigos de Campinas já riram de mim quando eu disse que queria ver granizo...
Então descemos um pouco, e vi as primeiras casas. Areia não sobe em casas. Neve!!!
Bati essa foto:




O avião começou a pousar de verdade e tive que desligar a câmera, e fiquei com um enorme sorriso besta na cara, vendo todo aquele branco se aproximar e a cidade surgir, feita de brinquedo. Árvores, casinhas. Um rio congelado! Neve.
Eu estava mesmo indo para a neve. Quis agradecer à pessoa que fez minha reserva de voo, e me pos na janela.
Ainda não pisei na neve, não a toquei. Mas ela está lá, do outro lado desse janelão onde está também meu avião. E quando eu desci daquele voo, mesmo naquele corredor de minhoca no qual a gente desembarca isolado do mundo, bateu um vento muito gelado, e eu o atravessei rindo e soprando para ver a fumacinha saindo da boca.


~ Mudando de assunto: detalhes de viagem

Tem várias coisas que me sinto na obrigação de relatar sobre essa viagem. Estou levando essa história de relatora de intercâmbio a sério - ah, é divertido! E sempre pode servir de dica (embora antes de tudo seja divertido). Planejava escrever neste post detalhes de toda a aventura que foi conseguir o intercâmbio em primeiro lugar; acaba que meu sono não deixou (não que isso seja um problema, foi realmente muito bom conseguir dormir tão bem)... Vamos ver o que consigo contar.
Sobre a saída de Belém não há nada peculiar, apenas o abraço forte da família. Em Brasília as curiosidades já foram narradas. Até chegar a hora do segundo embarque.
Gente, que coisa mais fora da realidade é voo internacional. É minha segunda vez saindo do Brasil, nunca tinha vindo aos EUA. Um pouco antes do meu voo, estava saindo outro rumo a Miami. Quantas madames indo às compras! Contei quatro MALAS Louis Voitton. Duas das quais estavam com a mesma moça (ela não deveria ser muito mais velha do que eu, e usava também uma bolsa Channel). Na minha frente no avião estava sentada uma menina que devia ter uns 13 anos e estava discutindo com os pais se era a quinta ou sexta vez que ia à Disney. Eita Brasilzão desigual, de luxo e lixo!
Dei a gigantesca sorte de não sentar ninguém na cadeira do meio, então eu e a garota sentada no corredor fomos quase de primeira classe na nossa executiva, ê vidão. Tenho certeza também que as cadeiras são mais espaçadas do que em voos nacionais, meus joelhos adoraram.
Na hora de fechar as portas, primeiro sinal de saída do país! A aeromoça falou um português enrolado, americana. E eu acostumada com o nosso inglês ruim!
O jantar estava muito gostoso, um franguinho bom. E o copo de bebida já era maior que o brasileiro. E a viagem (e os sonhos) começaram, depois dos formulários de imigraçãoe alfandega serem entregues.
Não bati fotos deste voo porque ele foi todo noturno, e embora nisso haja um charme - por vezes parece que estamos no espaço, como se as cidade lá embaixo fossem estrelas - eu estava por demais perto da asa. E cansada. Tirei meus desconfortáveis coturnos de couro (os que eu usava no senai - nós, alunos de engenharia mecânica da unicamp, fazemos um semestre de técnico basiquíssimo, apenas para nos familiarizarmos com maquinaria), que meus pais me convenceram a vir usando por ser impermeável à neve (em Fargo compro algo mais adequado e confortável), e desabei. Acordei com o café da manhã sendo servido no dia seguinte, e comi a banana com gosto, porque é minha fruta favorita e acho que não verei muitas boas por aqui... Já o café americano é terrível.
A chegada em Atlanta foi uma correria, eu tinha menos de uma hora para passar pela alfandega, pegar minhas malas e embarcar em um novo voo. Felizmente deu tempo. Fila de chegada é algo muito interessante, aquela torre de babel. Um homem que trabalhava no aeroporto foi extremamente gentil comigo, me ajudando com minha mala de 30kg. Eu tive que tirar meus coturnos novamente para passar pelo raio x e caminhei um percurso de meias, para ganhar tempo. E que coisa absurda é o tamanho destes aeroportos! Tantas lojas! E metrô para ir de um canto a outro.
Como disse, embarquei correndo. Mas embarquei. E a chegada foi linda.
Com mais calma, passeei em lojas e gastei meus primeiros dólares em uma bota lindíssima de lã, meio caseira (tive que abrir minha agnda para descobrir meu número); e em café da manhã, porque a banana já tinha sido digerida. Comi um pão com chedar e ovo, que é pão com chedar e ovo em qualquer lugar do mundo, então não há o que dizer; e um café, outro café horroroso e aguado, é, creio que terei de arranjar um novo vício.
Queria ligar para meus pais para dizer que estava bem, mas não consegui me entender com telefones. Então fiqui sentadinha escrevendo e esperando o tempo passar, e torcendo para a minha mãe não morrer de coração nem me matar.
Dentro do aeroporto o clima estava agradável, nada do meu tão temido frio. Abri a camisa e enrolei as mangas. Começo a crer queme disseram a verdade quanto a caleifação, e quem passa frio no inverno é brasileiro, que não tem aquecedor.
Fiquei olhando os americanos com meus olhos de turista, tentando vê-los louros e gordos, tão diferentes de nós. Mas não são. Nem tão louros, nem tão gordos (certamente mais louros que nós, mas não mais gordos). Apenas gente. Talvez porque seja aeroporto, e aeroporto não é amostra boa; mas talvez... Talvez aconteça comigo o mesmo que aconteceu com agora não lembro quem (meu amigo gringo, talvez?), e as maiores surpresas não sejam as diferenças, e sim as semelhanças.
Enquanto escrevia embarquei. Mais uma olhada na neve; ela estava no cantinho do corredor-minhoca, eu poderia pisá-la... Daqui a pouco pego meu último céu. Último por enquanto...

~ Alguns minutos depois: mudança.

Qual a probabilidade de uma pessoa pegar 4 voos consecutivos e todos serem pontuais? Bem pequena, eu acho; então na minha viagem estava faltando emoção. Alfândega e imigração foram por demais tranquilas...
Emoção acaba de chegar. Fomos todos convidados a sair do avião (que a essa hora já devia estar chegando em Fargo, que é logo ali); a aeromoça fica dando avisos. Aparentemente teremos outra aeronave, ela daqui a cinco minutos dará notícias novas...
Vamos ver.
Fico pensando se não deveria estar aproveitando agora para me aclimatar, acostumar essa minha cabecinha brasileira a pensar em inglês. Tenho tantas coisas a dizer e tantas coisas por viver!

~ Uma semana depois: um desfecho para o post, um começo de semestre

O avião atrasou duas horas; fiquei com medo de não ter ninguém me esperando. Mas tinha, uma mesa com NDSU (minha faculdade aqui) escrito; uma garota indiana veio falar comigo, me dar o material da orientação (uma bolsinha amarela com papelada dentro). Peguei minha mala, e ficamos esprando uma coreana que veio no mesmo voo que eu. Ela logo chegou e era uma menina bonita miúda com uma mala muito maior do que a minha e outras duas já meio grandes (durante a semana conversamos várias vezes; e ela contou que estava em Nova York e que o excesso de bagagem foi mais caro que a passagem). Então um garoto coreano nos guiou até lá fora; e era tudo tão gelado e lindo. Entramos em um carro enorme, e eu não conseguia parar de sorrir.
Eu. Em uma universidade americana. Falando inglês. Na neve.
Surreal.

~ Amanhã quero acordar cedo para resolver algumas coisas; as aventuras desta semana ficam para o próximo post. Mas não consigo resistir a vontade de postar mais uma foto:


Apenas um prédio no campus... Lindo. Branco. Gelado.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Marujada do Glorioso São Benedito

Desde sempre todo dia 25 de dezembro meus pais me acordam no finzinho da manhã para arrumar minha mochila. Lá pelo meio da tarde, depois de arrumar e desarrumar muitas coisas, finalmente partimos rumo à Bragança, uma cidade que dista de Belém 3 horas de carro com direito a parada para comer pão de queijo e comprar queijo de bufála. Minha família por parte de pai é de lá, e uma tia nos hospeda sempre que vamos em busca de mar ou bar.
Lá dia 26 é o dia principal e final e das festividades de São Benedito, que é o santo protetor da cidade. Muito bonito de se ver e gostoso de participar. Neste ano pela primeira vez saí de maruja, que é a roupa típica - para as mulheres uma saia longa vermelha, uma camisa branca, uma faixa vermelha, muitos colares e um enorme (e a mim surpreendentemente pesado) chapéu dourado enfeitado com plumas, lantejoulas e fitas coloridas; para os homens (marujos) camisa de botão e calça branco, uma fita vermelha no braço e um chapéu branco com uma rosa vermelha. Participei da procissão (calçada contra a tradição; mas veja bem - eu sequer tenho um Deus exato, mas ele certamente não quer destruir meus pés nem se irrita com quem usa havaianas. Aliás, nem existiam havaianas quando começou a procissão...); ano que vem planejo não me cansar e conseguir dançar no barracão e entrar meia noite vestida na igreja...
Atendendo a pedidos, vou postar fotos.
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Na noite do dia 25, dois marujos dançam em um quadro iluminado pelo charmoso lustre do Benquerença, o restaurante na esquina da praça defronte do rio Caeté
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Na frente do rio Caeté, um parquinho de filme brasileiro nordestino com Selton Mello revela todo o charme de cidade interiorana
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A festa acontecia já no antigo barracão. Vejam os detalhes das paredes




Então chegou o dia seguinte, e eu meu pai e minha irmã nos metamorfoseamos em marujos de São Bené (intimidade com santo é outra história...)

Reparem nas nossas faixas e flores. Lá pelo meio da procissão percebemos que havia algo de errado com a gente... Por um pequeno problema de lateralidade, haviamos invertido os lados!
Destrocamos.








E vamos à procissão!


Procissão com coração e sensatez - começa no final da tarde, quando o sol da linha do equador amaina.


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Mamãe também estava lá, embora não caracterizada








Reparem no tamanho do chapéu (e na fita, já corrigida)








Duas marujas exaustas (e uma prima bonitona. Ela está procurando o príncipe encantado, se alguém se habilitar...)



Ao fundo, a igreja (e o tradicional Rex bar)


O lado de fora do antigo barracão, de dia


Ê sono!


Mais uma vez a igreja


Marujos e rio


Quantas primas (e primo) conseguem sentar em uma cama?


Dentro da igreja, diante do altar (reparem que estou no andar debaixo, para nivelar a foto...)



Foto com a Dorinha não podia faltar!

E enquanto voltávamos exautos para casa, incansávies marujos dançavam no barracão.


Viva o glorioso São Benedito!


À meia noite, marujas abraçam a igreja


E a gente, já não-marujos, ainda dançou no show do Junior Soares!



A noite Bragança: o Rex, o coreto, a roda gigante, o rio.

Aviso

Por motivos de mudança maior (para Fargo, ND, EUA), o Riscos está com vários posts atrasados. Portanto, durante um período indeterminado, será mais comum que o normal posts novos no Riscos com data antiga - ou seja, coisas escritas há algum tempo sobre eventos ocorridos há algum tempo.
(Não que ele tenha tido uma regularidade exata algum dia; o blog é meu e eu posto quando eu quiser. Ou quando puder...) 

PS: E os posts agora estão em novo fuso-horário, também.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A esposa do meu tio:
- Então você vai na segunda já para Azaléia?

Você percebe que virou meio nômade quando...

... Compra uma agenda nova, e não sabe como preencher nos dados pessoais a parte do endereço.