sábado, 29 de janeiro de 2011

Tonight is the night

Eu estaria exagerando se dissesse que o final de semana passado foi o pior da minha vida, mas com certeza ele entra no páreo. Eu ia sair na sexta, mas meus amigos desistiram; cheguei no ap e descobri que minhas roomates tinham viajado, daí em diante foi um final de semana inteiro na minha própria companhia.
E, sinceramente, eu não me aguento por tanto tempo.
Ah, e eu mencionei que estava de TPM?
Conversei com minha família pelo skype por um tempão, o que foi bem legal; mas tem algo de muito errado em estar nos EUA e o ponto alto do seu dia ser na frente do computador. Fiz meus deveres de casa, lavei roupa, comi e fiquei vendo filme da disney na tv. Daí 1h da manhã, quando fui dormir no sábado, descobri que tinha uma mensagem no celular me convidando pra sair 8h da noite e me senti uma imbecil.
Aí eu prometi pra mim mesma que nunca mais teria um final de semana assim.
No domingo encontrei por acaso num refeitório um cara que eu conhecia e ficamos um tempão batendo papo. Descobrimos que moramos no mesmo dormitório e combinamos de jantar juntos; e de noite também por acaso tinham uns brasileiros amigos dele no refeitório e foi legal conversar; e eu comecei a distribuir meu telefone planejando finais de semana melhores. Na volta vim batendo papo com meu amigo (latino) e outro sulamericano. O clima estava um pouco melhor e viemos brincando na neve, o que foi divertido - a neve é banal pra todo mundo, eu ainda não tinha achado quem brincasse nela comigo.
- Cheguei aqui no verão - ele disse em inglês - Não dava pra acreditar que o clima ia ficar assim, as pessoas andavam por aí sem camisa, jogavam volei de praia. E tinham um bando de coelhinhos e esquilinhos por aí.
- Sério?
- Sim. Eu pensei que eles iam todos morrer quando começou a esfriar.
E na minha cabeça: "mas esquilos e coelhos não tem geração espontanea! Eles tem que ir pra algum lugar para voltar na primavera..."
- Estão escondidos agora, meio que hibernando - ele concluiu.
- São mais espertos que a gente. - Comentei.
É, vai ver é por isso que aqui eu sinto tanta fome e tanto sono. Se eu durmo 7h em uma noite, fico estragada no dia seguinte (e no Brasil 6h por noite sempre me foi o suficiente. Exceto em finais de semana). Meu corpo queria estocar gordura e hibernar...
Ou talvez seja culpa do café aguado mesmo. Eu bebo umas quatro xícaras por dia, misturando café e cappuccino, mas é tão fraquinho...

A semana foi boa, com longas conversas e deveres de casa e academia. Estou fazendo quatro matérias na engenharia mecânica e uma aleatória, public speaking (oratória) e essa semana foi minha primeira apresentação. Foi uma tragédia - eu comi 30 segundos dos meus 2 minutos de treino e não faço ideia de como isso aconteceu. Quer dizer, faço; e essa é a pior parte. E muitas das outras pessoas deram verdadeiros shows. É a língua delas e isso ajuda muito mas... Ah, sei lá, fiquei desanimada.
Mas tirando isso correu tudo bem, e consegui alcançar meu objetivo: tive que recusar excesso de convite para sair na sexta. No Brasil eu não sou tão popular!
Eu ia direto da aula para uma reunião de um grupo latino americano e de lá para a Pink House, que é uma casa que oferece jantar para estrangeiros toda sexta e onde todo mundo se reune para conversar, jogar joguinhos e, claro, comer. Programa bem comportado e divertido. Sem exagero, todo estrangeiro que eu conheci (e a maioria das pessoas que eu conheço é estrangeira) me perguntou se eu ia pra lá ontem, então o lugar estava lotado e foi bem legal.
Mas voltando: como eu ia sair de noite, quis me arrumar um pouco mais. Eu estou com um ligeiro complexo de menina feia nos EUA, porque:
1 - Eu cheguei usando o casaco do meu pai e botas de soldado, e as outras meninas estavam com sobretudos lindos e botas combinando. Agora eu tenho botas lindas e sobretudos, mas tem aquilo da primeira impressão, né? E eu ainda acho que meus acessórios não combinam entre si. Cores demais.
2- Eu sou gordinha. Não balofa, não enorme, mas gordinha. E saio de casa usando mais de 10 peças de roupa. Corpo de americana é diferente, elas tem peitão e perna fina; todos os meus quilos extras estão na parte debaixo do meu corpo e com um casacão eu pareço enorme. Ok, todo mundo parece, mas... Ah, não gosto.
3- Americanas usam muita maquiagem. 8h da manhã e a mulherada está com sombra colorida e lápis e delineador forte. Eu tenho olheiras e com lápis forte parece que eu levei um soco; e, principalmente, eu não tenho paciencia para acordar mais cedo pra isso. Eu gosto de dormir, e aqui mais ainda.
4 - Meu cabelo. Capítulo a parte. Meu cabelo sempre foi uma das minhas partes favoritas, escorrido e bem comportado independente do quanto eu o maltrate. Pois bem.
Aqui, meu cabelo está sempre muito arrepiado.
No início eu realmente não entendia. Passar a mão sempre foi o suficiente! Eu já viajei sem escova nem pente!!!
Putz. Meu gorro. De lã.
Eu estou sempe colocando e tirando meu gorro de lã para entrar e sair dos lugares. Atritando ele como meu cabelo.
PQP. Meu cabelo está sempre eletricamente carregado.
Sério. Vários fios ficam fazendo 90 graus com a minha cabeça. Não desce. Ou eles grudam na minha cara.
Maldita eletricidade!
Eu tomo uns 5 choquinhos por dia tocando em superfícies metálicas. E quando eu tiro a calça de lã que uso por baixo do jeans, ouço estalos.

Voltando à arrumação de novo...
O clima melhorou muito semana passada, vi chão que ainda não tinha visto e a neve derreteu um pouco. Tudo virou uma sopa, mas eu podia atravessar a rua de casaco aberto (com camisa de lã por baixo), sem gorro nem luva, o que é fantástico. Ah, e o sol agora se poe 17:30h, e não antes das 17h.
Então, num ato de extrem atrevimento climático, ontem substitui minha calça jeans por um legging de malha por cima da minha calça de lã, e coloquei uma camisa de malha, manga comprida com decote. Joguei meu sobretudo por cima e saí com uma camisa de lã na mochila, por segurança. E sobrevivi!
Na Pink House algumas amigas minhas estavam de meia calça e saia. Lá fora: -8C.
Aí quando todo mundo estava indo embora um amigo meu me ligou me chamando para ir a um clube. O clima estava piorando de novo (a partir de amanhã as mínimas voltam a ficar abaixo de -20C) e estava ventando pra caramba, mas eu estava me achando bonita e não tinha muito tempo, então só joguei minha mochila em casa e saí de novo.
Fomos de carona com um amigo dele. E quando ele estava estacionando eu vi caras andando na neve de camiseta. Meu Deus. E então: uma garota correndo rumo à boate, de shortinho e camiseta de alcinnha, costa nua.
LOUCA!!!
A amiga do meu amigo que estava com a gente me disse que as garotas daqui são assim mesmo, e que eventualmente vão parar no hospital com hipotermia.
Quando entrei no clube, entendi o que ela estava dizendo.
Pergunta rápida: você acha as brasileiras vulgares?
Eu não gosto de chamar outras mulheres de putas ou derivados. O corpo é seu e você faz o que você quiser com ele.
Mas eu tenho que dizer que as americanas estavam seminuas. Não todas, mas uns 90% delas. As saias mal cobriam a bunda, o decote acabava no mamilo. Ao mesmo tempo. Vi mais de uma calcinha. E elas dançam se esfregando nos caras. Realmente.
O país é livre, o corpo é seu, mas eu sou uma boa menina e estava chocada.
E lá foram estava muito frio. Lá dentro tinha onde deixar seu casaco, mas as pernas pelo menos tinham vindo expostas. Não importa se elas nasceram e se criaram no frio, ninguém aguenta isso.
Mulheres e danças a parte, boates são iguais em qualquer lugar do mundo. E eu precisava de uma bebida.
O bar ficava no andar de cima, e você precisava ter mais de 21 para subir. Mas o segurança nem olhou meu passaporte.
- Quer um sake-bomb? - (acho que escreve assim) me perguntou o amigo do meu amigo.
- O que é um sake-bomb?
- Você vai gostar.
Era um copo de cerveja com dois hashis em cima apoiando uma dose de sake. O objetivo era bater na mesa para derrubar o sake na cerveja e beber tudo de uma vez.
Valendo!
Eram umas 23h e eu estava com fome porque tinha jantado às 18h. Que prático, economizar calorias e dolares ficando bêbada de estomago vazio. Exceto pela parte que isso faz mal pra caramba.
Quer dizer, devia fazer. Porque depois do sake-beer eu continuei achando a festa chata. Aquilo era alcoolico mesmo?
Um cara chegou dançando por trás e passou a mão na minha cintura. PQP. Antes de tudo eu tenho um namorado, mas mesmo que não tivesse. Eu odeio quem chega pegando.
Aí eu me lembrei porque não costumo ir pra boates: porque eu não gosto.
Que coisa.
Mas minha carona estava agarrado em uma loira e enchendo a cara, então dança, Marina, dança.
Meus amigos estavam cansados também.
Dançamos.
1:30h as luzes foram acesas. É, festa americana acaba antes das 2h. E fomos convidados a nos retirar. E estava ventando muito.
E cadê o carona?
Meu amigo ligou.
Ele ia ficar com a loira e mandou a gente se virar.
Uau.
Que legal. E que bom que a gente teve que ligar pra ele avisar.
E quem disse que os táxis atendiam?
E lá foram aquelas meninas sem roupa se amontoavam, dizendo que morreriam de frio. E eu achava que morreriam mesmo, e pensava se a culpa seria delas por andarem sem roupa na neve ou do dono do lugar por expulsá-las assim. Eu mesma, com meu casaco, estava batendo os dentes.
Finalmente um táxi atendeu e quando ele chegou duas das meninas sem roupa entraram nele com a gente.
Tomei um banho quente 3h da manhã e vesti dois moletons pra dormir. E hoje acordei meio quebrada. Minha garganta dói. Joguei meu casaco por cima, calcei minhas botas e fui absolutamente horrorosa tomar café. Claro que encontrei gente que conhecia.
Aí concluí que devia ter ido com dois moletons pra festa, porque aí o cara não passaria a mão na minha cintura e eu não sentiria frio; e de camisa decotada pro refeitório, para não parecer que tinha sido atropelada. Se bem que dizer que tinha saído na noite anterior fez eu parecer menos looser. Apesar da festa ter sido a coisa mais looser da noite (a Pink House foi muito mais legal). Ninguém precisava saber disso...

Quando estava voltando do refeitório pra casa, vi um esquilo.

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