sábado, 22 de janeiro de 2011

Contabilizando: primeiras três semanas em Fargo

~ Caros amigos leitores, desculpem a demora para este post sair. É meio que um ciclo: eu preciso de tempo para escrever tudo que acontece; aí não tenho tempo e não escrevo, e no tempo que não tenho para escrever acontecem mais coisas... Em suma, estou vivendo demais! Este é mais um post gigantesco, e acho que último da série - depois destas três semanas, acho que posso dizer que sim, cheguei em Fargo! E a vida segue gelada e diferente de tudo, mas já começando a virar um diferente... comum? Não, comum não é a palavra; mas pelo menos já não me perco tanto na universidade e sei o que esperar da comida.
Ok, vamos lá!


(Ah, e este também é um post ilustrado. Tenho batido algumas fotos e pareceu uma boa ideia postá-las... O Riscos não tem bem um molde, mas estes posts definitivamente estão fora dele)

 
Nas minhas duas primeiras semanas em Fargo eu...

Conheci muitos... coreanos! Eles estão em todo lugar, com seus olhinhos puxados e jeitão simpático. Nunca tinha conhecido um coreano na vida, agora posso dizer que são boíssima gente. (E que quando te conhecem te perguntam a idade, porque se respeita os mais velhos - mesmo que alguns meses - usando pronomes de tratamento específicos)

Conheci também: chineses, japonesa, francesas, norueguesas, australiana, hondurenho, haitiana, chilena, dois malasios que moravam na China, venezuelano, mexicano, alemã, cingaleses, indianos, zimbabuanos, mais brasileiros... ah sim, e americanos. E mais uma vez vi que gente é apenas gente, e que ninguém é tão diferente.

Fiquei sabendo que: vários orientais tem hábito de dividir pratos em refeições (por isso minha nova amiga malaia estava pegando 4 fatias de bolo e disse para comermos todas juntas na nossa mesa de meninas onde, tirando eu, todas tinham olhos puxados. E eu de costas, com meu cabelo preto escorrido, até enganava). E que na Noruega pirataria é tão comum quanto no Brasil e eles tem um "joguinho" que consiste em roubar coisas absurdas de bares e fotografar para provar (e eventualmente devolver depois).

Aprendi a dizer "bom dia", "boa tarde" e "boa noite" na língua da Malásia (ou pelo menos tentei, e anotei na minha agenda); ensinei a malaia e uma coreana a contarem até cinco em português (elas gostaram do som do quatro) e também palavras super relevantes a uma das minhas companheiras de apartamento, americana: "oi", "tchau", "merda".

Sim, a orientação foi muito boa, mesmo eu tendo cochilado em uma palestra e pensado que poderia estar dormindo em outras - houve também as muito boas, e conheci gente, e me senti muito bem recebida e com vergonha de nós, braisleiros, com tanta fama de acolhedores, não fazermos nada assim para os nossos gringos que chegam.

                        Memorial Union, onde foi a orientação e onde passo grande parte do meu tempo

Uma das coisas mais surpreendentes para mim foram os americanos. Que imagem você tem deles? Eu os imaginava fechados e sisudo; qual não foi a minha surpresa ao descobri-los boa gente! Extremamente receptivos, conversam com você sozinha no café da manhã, no ponto de ônibus ou esperando a academia abrir 8h da manhã debaixo de neve, te dão o número de celular para o caso de vocÊ precisar de alguma coisa... E acabaram de te conhecer! Não sei se é porque Fargo é cidade pequena, mas é muito gostoso receber bom dia em todo canto, e apesar de eu estar tão longe de casa foram poucas as vezes em que me senti sozinha.

E quanto ao american way of life...

Já no banheiro do aeroporto eu me surpreendi que as privadas não tinham tampa, e tomei um susto quando me levantei e a dita cuja deu descarga sozinha. Fiquei encanda com as lixeiras pequenas e depois fui pesquisar no google para descobrir que o papel higiênico vai para a descarga. No meu banheiro do alojamento universitário tem banheira; e o chuveiro, em vez de ser vertical, joga água em parábola. É meio baixo e você só molha o cabelo se realmente quiser. Não é ruim, mas prefiro o nosso.

Ainda comentando coisas diferentes: no primeiro dia descobri que precisaria comprar um adaptador de tomada enquanto conversava no skype e meu notebook descarregou. E quando fui ao supermercado fiquei um tempão procurando o leite até lembrar que aqui ele é vendido em garrafa (meu amigo americano disse que americanos dizem que o leite deles é muito melhor. Eu não vi diferença...). Todas as embalagens nos EUA são enormes, e eu estou sendo forçada a entender libras e pés para me comunicar. Deu um tremendo trabalho comprar botas de neve, porque eu não sabia meu número e tive que ficar calçando e tirando até me encontrar. Cheguei aqui usando um casaco do meu pai e coturnos de soldado, mas depois de um banho de loja posso dizer que já fico apresentável aqui. Um urso polar apresentável. Na rua é como vestir um cobertor; ando com os braços meio abertos.

O lugar onde estou morando é bem legal. Pelo que dizem é o melhor dos alojamentos; mas fica "longe" (quando aqui dentro tem caleifação e lá fora está fazendo -15C, o outro lado da rua fica longe. Ah, e a história da caleifação é mais ou menos verdade. Aqui dentro é confortável, mas eu ainda estou sempre de moleton, meia e calças compridas. Mas as outras meninas estão sempre de shortinho e camiseta). Somos 4 meninas em um apartamento com sala e cozinha grandes; duas meninas por suíte. Tem assinatura de jornal, internet, tv a cabo e lavanderia. E eu, com meu 1,75m, sou a mais baixa. Sério.
Como eu cheguei no apartamento antes do início das aulas, as outras meninas ainda não estavam (o que foi bem estranho; ver as coisas delas aqui e elas não). Achei tudo uma graça, mas me sentia em um hotel. Eu não trouxe edredon e na primeira noite dormi direto no colchão. e que colchão bom! mais comprido que os brasileiros; eu coloco a mão atrás da cabeça e meus pés não saem da cama! No segundo dia fui ao supermercado (levada num ônibus amarelo escolar pelos estudantes internacionais, olha que simpático) e comprei edredon, travesseiro e luminária. No resto da semana gastei minha imaginação e 10 dolares em decoração (vinil para parede, fotografias). No final, acho que meu novo quarto ficou fofo. Olhem só:


Como o voo atrasou, consegui chegar efetivamente no alojamento quase 5h da tarde. O cara super simpático que me deu as chaves e me apresentou o lugar disse que tinham restaurantes do outro lado da rua se eu quisesse jantar; aí eu me lembrei que não tinha almoçado. Depois que ele foi, coloquei meus coturnos de soldado, outra blusa de lã sobre a primeira e o agasalho do meu pai e saí na neve.
- Como é? - Perguntou meu namorado, mais tarde no mesmo dia.
- Sabe o freezer da sua casa? Imagina ele grande.
Sério.
Que frio!
Não consegui andar uma esquina. Pensei que ia ser feio morrer de hipotermia já no meu primeiro dia, e parei na McDonalds, minha vizinha (que grande clichê, não é mesmo? Estar nos EUA e ter uma McDonalds bem do lado de casa) e comprei um trio.
- Só isso? - A mulher me perguntou, enqunto eu olhava esfomeada aquelas absurdas 1300 calorias.
Mas meu amigo gringo estava mentindo. A McDonalds americana é melhor que a brasileira. Tudo tem mais gordura e mais sal, e sua saliva se delicia com suas artérias entupindo. Delícia!

No dia seguinte tive que pegar um ônibus para chegar a universidade. Saí de casa 7h da manhã e ainda estava de noite. Sabe, eu não tenho nenhum problema em acordar cedo, mas odeio acordar quando ainda está escuro. E aqui o sol nasce às 8h e se poe 5 da tarde. O céu de dia é branco, e de noite às vezes fica acinzentado pelas nuvens. Mas ontem estava fazendo uma lua linda. E neva quase todo dia. A neve começou a cair do céu já no meu segundo dia. Linda. Olhei para o meu braço, e num momento muito nerd pensei "nossa, um fractal!" E pensei também sobre as portas, que saõ quase sempre duplas, para o calor não sair.

                                Foto batida em um ponto de ônibus, com o mascote da NDSU

Há algo muito óbvio que nunca tinham me dito sobre a neve: ela é escorregadia. Não tanto quando é muita, porque parece areia e você anda afundando os pés; mas quando forma um filme de gelo sobre o chão (aliás, eu ainda fico surpresa quando vejo o chão. Geralmente é tudo branco; eu demorei um tempo para aprender o que era rua, o que era calçada e o que era estacionamento). Então:
~ Vezes em que eu quase caí na neve: perdi a conta. A primeira foi no meu primeiro dia e eu achei que fosse culpa das minhas botas, mas aí me disseram que simplesmente não existem sapatos adequados para a neve. E...
~ Vezes em que vi outras pessoas quase caindo na neve: inúmeras, também. Aí comecei a acreditar que não é culpa minha. Quer dizer, mais ou menos, porque...
~Vezes em que eu efetivamente caí na neve: umas cinco ou seis... A primeira já no segundo dia; teve dia que caí mais de uma vez.
~ Ossos quebrados: por enquanto nenhum. E pretendo me manter assim. Depois da segunda queda, eu aprendi que é só levantar, espanar o gelo da calça e esperar os hematomas sumirem. Nesta semana pelo menos eu não caí nenhuma vez.

Nos primeiros dias eu me peguei cantando o refrão daquela música do Bee Gees, "ha ha ha, stayin' alive, stayin' alive". Já consigo andar na neve agora; já não acho mais que vou morrer de frio. De vez em quando ainda acho que vou ter que amputar os dedos ou as orelhas (na orientação tivemos uma palestra sobre sobrevivência na neve na qual nos ensinaram a nos vestir em camadas e que, caso um membro ficasse amarelo ou roxo, talvez precisassemos de assistência médica...); mas parei um dia desses para olhar os americanos e vi que eles são inteiros. Então talvez seja possível eu voltar inteira daqui. Realmente acho que, se sobreviver a Fargo, sobrevivo a tudo. Pessoas que moraram aqui a vida inteira perguntam o que eu vim fazer aqui. Não que ela não gostem do lugar, mas é ofensivamente frio. E ainda assim já vi vários meninos de bermuda e garotas com jeans rasgado e perna exposta. Na neve, com -15C. É, eu sou fraca...

                                       Me diz se você não se sentiria num filme de Natal...
Nos meus primeiros dias, comida foi um problema. Eu optei por contratar um plano de alimentação da universidade, mas ele só começaria a valer no início das aulas, então tive que me virar na primeira semana. O café da manhã era ofericido na orientação. Muffins com manteiga, bolo, essas coisas. Fiquei feliz de ver um iogurte, a parte estranha é que ele abre pelo lado inverso que no Brasil. Ah, e tinha aquele café horrível. E perguntei e descobri que na Coréia é assim também.
Em dois dias teve almoço na orientação. No primeiro deles, pizza. É, pizza. É normal aqui almoçar pizza. Aí eles me chamaram pra almoçar e ue vi aquele bando de pizzas abertas e me perguntei onde estavam os guardanapos e os talheres. Então o  primeiro americano foi e pegou uma fatia de pizza da caixa com a mão e começou a comer, e eu muito abismada imitei... Aqui não se usa guardanapo pra pegar as coisas e no refeitório tem um gelzinho meio escondido para você higienizar as mãos. Sei lá, sou das antigas; gosto de pia... Outro dia o almoço foi macarrão, e em um dia compramos almoço nos restaurantes da universidade e tivemos que optar entre sanduiche, pizza ou salada. Eu fiquei com a salada porque estava com vontade de verdade. De noite eu não tinha o que jantar e em mais um dia comi Mc Donalds. No outro, jantei meio pacote de doritos. Achei que fosse morrer desnutrida nos EUA e fiquei realmente com medo do tal refeitório, porque foi carinho e eu peguei pela praticidade, mas vai que a comida não é comestível...
Muito amedrontada, fui lá na segunda de manhã.
Que sonho!
Máquina de cappuccino. Máquina de sorvete. Leite, achocolatado. 19 tipos de cereal (eu contei). Muitos tipos de pão. Geléia. Máquina de wafles. Aqueles syrups que a gente vê nos filmes. Hot dogs. Nachos. Molhos. Saladas infinitas. Queijo, presunto, peito de peru. Doces.
Quem se importa que o almoço é hamburguer?
Ok, lá pelo quarto dia eu me importei que o almoço era hot dog. Aliás, que hot dog horrível! Muito gorduroso, eu não consegui comer! E olha que eu como besteira, não é como se eu fosse saudável, olha pra mim.
E aí eu comecei a querer comida de verdade. E achar um absurdo ter fritura no café, almoço e janta; e nenhum dos cereais não ter açucar. Meu reino por um prato de feijão! Aí um dia teve feijão ao molho agridoce, que horror!!!
Nessa semana acho que comecei a aprender a comer aqui. Basta saber escolher e ignorar o fato da proteína ser frita. Eu não preciso comer o doce só porque ele está lá. Eu preciso de iogurte, frutas e salada. Misturando o cappuccino com o café fica menos doce; preciso começar a contar minhas calorias para não engordar. Uma amiga minha já disse que engordou morando em Nova York (ela é coreana e estava estudando inglês lá; fugiu pra cá porque não aguentava não conseguir falar inglês pelo excesso de coreanos... Não que tenha adiantado muito, mas segundo ela Nova York não é América). Conheci também outro americano que morou no Brasil e ficou super empolgado de poder treinar seu português comigo, e ele disse que emagreceu 5kg lá sem fazer nada, só de comer arroz com feijão. Olha pra mim. Eu não posso ganhar 5kg!!!
Por incrível que pareça, a maioria dos alunos não é gordo. Já vi muita gente comendo só salada, mas também muitos meninos com 2 hamburguers e batata frita. Comecei a resolver o mistério ontem, quando fui à maravilhosa academia disponibilizada pela universidade aos alunos. Ela é gigante, e estava lotada. Tenho direito a uma avaliação física e a um programa de musculação. Eu já entrei e saí de academia um milhão de vezes desde que tinha 14 anos, e nunca nenhum instrutor tinha pegado tão pesado comigo. Ele não deu a mínima para o meu leve sobrepeso nem para o fato de eu estar sedentária. Eu gosto de dar o meu máximo e tive que pedir para baixar peso. Ele alternou musculação com aeróbica e eu saí completamente exausta, com as pernas tremendo. Quase não aguento terminar o programa e hoje mal conseguia andar. É, assim dá para quem é magro almoçar pizza...

A universidade é bem legal. É um pouco menor que a Unicamp e a UFPA (mas fica enorme com a neve. 15 minutos a pé é uma maratona na neve), e sinceramente eu acho a FEM (faculdade de engenharia mecânica da Unicamp) muito mais legal que o Dolve Hall daqui; mas aqui tem um prédio (o Memorial Union, o mesmo em que foi a orientação) que tem um salão enorme cheio de poltronas pra aluno ficar à toa, estudando, batendo papo ou mesmo dormindo; e em todo lugar tem wi fi e eu tenho direito a 500 impressões e usar aquela academia enorme... Tudo incluso na mensalidade. Aqui eles valorizam muito vivência universitária; e tem boliche e bilhar na universidade e vários clubes que vão desde "clube dos indianos" a "viva a Grécia antiga", passando por "mulheres engenheiras" e "judocas".
Tem muitos indianos por aqui. Dois dos meus professores são indianos, o sotaque é engraçado, w com som de v. As aulas são bem aprecidas com as brasileiras, mas tem muito dever de casa para entregar! As meninas europeias com quem conversei disseram que se sentem de volta ao jardim de infância, mas eu acho um método válido de ensino. E sim, estou conseguindo entender as aulas em inglês. Para ser muito sincera, o pior para meu inglês é restaurante, porque eu nunca sei dizer o que qeuro e eles começam a dar opções que eu não faço ideia do que sejam...

Prédio da mecânica. Esse foi um dos dias mais quentes, dava para ver o chão e as bicicletas não estavam soterradas... Não é todo dia que me atrevo a tirar as luvas para fotografar.

Em suma, estou bem. No primeiro final de semana conheci uns amigos do meu pai; final de semana passado viajei a Minneapolis com outros alunos estrangeiros e eu não faço ideia do que vou fazer amanhã mas... Estou feliz.

Esta não é uma boa foto, mas é difícil bater fotos de si mesmo no frio... É só para dar uma ideia da vestimenta.

Ufa, é isso.

(Com certeza esqueci de muita coisa, mas... Fica para a próxima. Parabéns pra você que leu até aqui. Prometo fazer mais textos de menor tamanho daqui pra frente...)

4 comentários:

Anônimo disse...

Beijos minha linda
Irene

Unknown disse...

Oi Má! Amei o texto! *-* Seu quarto ficou uma fofuraa! Eu pensei q fosse frio, mas é inacreditavelmente freezer. Não diminui o tamanho dos textos, adoro ler os detalhes. Os seus comentários são a melhor parte hehehe
Beijinhoooos

Dica disse...

Oi Marina! Com teu texto me senti na neve com vc.
Beijos tia Dica.

Ariel Martins disse...

Olá. Estou em um processo de seleção para uma empresa em Fargo, ND. Vc pode me passar seu e-mail, ou anotar o meu? Tenho algumas dúvidas, derrepente vc poderia me ajudar.

abraço.

Ariel