quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

E então foi Nataaaaaal...

I

Já era vinte de dezembro, mas eu iria passar mais um final de semana inteirinho estudando para a prova de segunda-feira, já que afinal eu sou uma aluna de mestrado agora. Estava muito focada em arrumar a mesa para tal intento (ou seja: tirar as coisas de cima dela e jogar em cima de uma cadeira para ter algum espaço) quando a minha vizinha apareceu na janela:
- Vamos na feirinha de Natal lá no centro de convivência, Marina?
Obviamente eu fui sem nem parar pra pensar.
E vendo-a comprar presentes me lembrei que iria para Belém na terça, e achei que era de bom tom levar algo para os meus.
O quadro para minha mãe foi uma escolha óbvia - tinha nele a frase "você é uma mãe tão boa que às vezes sinto inveja de mim". O que não havia era o equivalente para o meu pai, e fiquei com medo de provocar uma crise familiar até trombar com a divertidíssima camisa "você pra mim é problema seu".
- E isso aí não vai provocar crise familiar? Levar um quadro todo fofo pra sua mãe e essa camisa pro seu pai? - Perguntou a vizinha. Eu respondi que não. Meu pai é cheio dos dizeres ("o caminho do inferno é sempre o mais florido"; "rapadura é doce, mas não é mole"; "existem dois tipo de pessoas no mundo - as que se garantem e as que não se garantem"; "eu não vou namorar com nenhum de vocês, então vocês não tem que gostar de mim"; etc). E ainda me lembrei da música do Felipe Cordeiro!


II

Daí dia 22 de dezembro enfim o semestre acabou e eu fiz a tradicional faxina pré-viagem - descobrir restos de sabe-se-lá-o-quê na geladeira, limpar a caixa de viagem da Vivi; jogar as coisas aleatoriamente na mala e constatar que não teria roupas limpas para sobreviver em Belém, etc. O mundo desabou em chuva umas 20h e eu deitei para, na ausência de sinal de internet e tv, pensar na vida; e quando me espantei era de madrugada e minha casa estava escancarada com todas as luzes acesas. Fechei tudo e voltei ao sono dos justos até a manhã seguinte.
Chegar em Belém é aquela viagem internacional - chegar em Guarulhos debaixo de chuva passando por aproximadamente 9120128102 acidentes; pegar fila gigantesca de check-in e conquistar todos os corações com a Vivi; esperar para sempre até a hora do voo porque eu sou paranoica e sempre chego muito cedo no aeroporto - aliás, acho que é a minha única pontualidade da vida -; finalmente embarcar e ter ao meu lado um casal com uma criança pequena que foi a viagem inteira tocando aquelas irritantes musiquinhas infantis em um tablet; desembarcar e esperar ansiosamente a Vivi ser desembarcada, achando que ela morreu e ninguém quer me contar antes de todos os passageiros serem desembarcados para eu não fazer escândalo; enfim receber a Vivi, felizmente viva e bem; abraçar minha família e chegar em casa. Casa! Distribui presentes, contar as novidades e dormir na minha velha caminha.


III

Eu nunca tinha chegado em Belém tão tarde. Foi estranho já acordar na véspera de Natal.
Todo ano meus pais compram brinquedos para doar na estrada no dia 25, quando vamos para Bragança. Neste ano, porém, levaríamos conosco dois cachorros - Vivi, minha viralatinha campineira polidáctila; e o Zuck, vira-lata meio dálmata daqui de Belém. Então achamos que não daria para ir parando na estrada, e meus pais decidiram dar os presentes para uma Ong que desenvolve projetos em um aterro sanitário. Dia 24 fui com meu pai acompanhar a entrega. Luana, uma prima, foi junto.
A Luana para mim é uma daquelas pessoas que existem para o mundo ver que não precisa ficar onde está. Ela estudava geografia na UNB; aí um dia resolveu viajar e não voltou nunca mais. É uma menininha de menos de um metro e meio de altura, e já rodou o Brasil de carona de caminhão fazendo arte de rua.
No dia da entrega dos presentes, ela levou seus malabares. Brinquei -sem muito sucesso - um pouco com eles enquanto esperávamos no ponto de encontro antes de irmos para o aterro.
- Qual o segredo? - Perguntaram, ao vê-la fazendo suas artes,
- Não se irritar quando cai no chão. E não ter vergonha de ser ruim.
Acho que é o segredo da vida, na realidade.
Fui com a Luana comprar um café e quando voltei prestei atenção na camisa do meu pai.
- Pai! Isso lá é ocasião pra usar essa camisa?
- Ué, filha, você me deu de presente...
Exatamente. Meu pai estava indo entregar presentes em um aterro sanitário usando uma camisa onde se lia "você pra mim é problema seu". Talvez eu devesse ter pensado melhor no presente, afinal.
- Pai!
Ele virou a camisa do avesso, e com a camisa do avesso seguimos viagem.
No aterro, a Luana, vestida de duende, fez todo o sucesso com seus malabares e tiradas de palhaça.
- Ela é boa, né? - comentou meu pai.
- E vocês queriam que essa menina fizesse geografia! - retruquei.
Era de fato mágico vê-la. Pediram para tirar foto. Os olhos das crianças brilhavam como se aquela fosse uma das coisas mais incríveis do mundo. Talvez tenha sido. Acho que a Luana roubou as atenções da festa; e olha que a estrela da festa era ninguém menos que a Gaby Amarantos, que era amiga de alguém da Ong e ganhou meu selinho "estrela-gente-como-a-gente" ao andar no meio de todo mundo, cantar no palquinho improvisado, distribuir os presentes, falar o tempo todo que só estava ali de convidada e que quem merecia parabéns era a organização e abraçar todo mundo.
Saí de lá com aquela sensação de Natal - não, todos os problemas não vão se resolver do nada; há tanta coisa a ser feita no mundo! Mas é importante que haja um dia de alegria absurda, um dia diferente e incomum; um dia para rever quem se gosta e ter boas surpresas. Um dia de Natal.


IV

Cheguei em casa mais vermelha que pimentão por causa do sol. Cochilei (morri?). Andei de bicicleta com os cães. Me arrumei para a ceia. Revi todo mundo, soube fofocas de todos, abracei e sorri e comi desesperadoramente. Ah, gente, eu adoro o Natal. Ano novo é chato, mas Natal é lindo.
No dia seguinte, esprememos em um carro quatro humanos adultos, três cães vira-latas (dois deles - Vivi e Zuck - com mais de 20kg; a da Luana juntou-se a nós) e trinta presentes (pedidos pela minha tia) em uma viagem de 3h rumo a Bragança. Chegou-se a cogitar deixar os presentes, mas não deixei. Era Natal...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Desconversando

Se a gente nunca conversar sobre, a gente nunca vai saber que discorda.
Se a gente já sabe que discorda, melhor nem conversar sobre.
E assim todas as mesmas ideias continuam as mesmas nas mesmas cabeças.
E a gente reclama que tudo está sempre igual e critica a intolerância do mundo.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Conta-gotas

- Sou daquelas que se afogam.
- A vida está te ensinando a ser conta-gotas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Lágrimas

Se fosse para serem exatas, lágrimas seriam rígidas - rasgariam os olhos, arranhariam a pele.
Lágrimas escorrem feito sentimento capaz de moldar-se e ser vários ao mesmo tempo.
(Há tanto a se chorar por essa bobagem que não vale a pena! Há tanto mundo nesse momento!)
Lágrimas deixam os olhos mais limpos. A vida não é seca.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Dois dedinhos de filosofia barata

A vida parece um cubo mágico, mas sem aqueles macetes que as pessoas usam para montar tudo em três segundos. A vida parece um cubo mágico porque, se você foca em uma única face, ela de fato fica certinha; mas o resto todo continua misturado e sem sentido. Tá tudo irremediavelmente interligado, então pra resolver um problema do outro lado a gente tem que dar nossas voltas e mudar a ordem por aqui. Às vezes dá a impressão de estar piorando tudo, mas faz parte. E na última volta tudo encaixa.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sobre feminismo e amor

O feminismo me ajudou a construir um amor que me tentaram roubar - o amor próprio. Pelos quadris tamanho especial, pés quase numeração exclusivamente masculina, óculos. Pelos meus desejos, todos eles. Pelo que eu quero e posso ser.
Me dar conta que a minha busca pelo amor romântico era em grande parte busca por validação foi um dos meus maiores choques de auto-conhecimento. Afinal, amor não me falta na vida. Nem companhia. Eu queria alguém para dizer que eu valho a pena; e escrever isso é tão bobo que dá até vergonha. Que sentido há em deixar nas mãos de outra pessoa o julgamento sobre a minha importância?
Eu felizmente nunca tive um relacionamento abusivo; meus ex-namorados são (quase todos) pessoas ótimas pra quem eu de verdade desejo tudo de bom. Ainda assim, quando eu paro para pensar, eu vejo todas as vezes que eu doei partes de mim que eu não dava conta; que concordei com situações que não me faziam bem por medo de perder aquela pessoa que colocava minha vida no eixo; que mesmo depois de terminar fiquei pensando se não devia ter insistido mais, sido mais tolerante. Como se querer uma relação que se encaixasse nos meus desejos fosse intolerância! Meus grandes términos foram também rupturas de vida, porque eu realmente não fazia ideia do que fazer em nenhum sentido.
Numa sociedade onde meninas crescem vendo histórias sobre ser salvas por príncipes, descobrir que se pode ser feliz sozinha é um empoderamento.
Às vezes eu me sinto uma fraude, com esse cabelo curto pintado de vermelho e braço recém tatuado, vestidinho curto florido e discurso tão bem resolvido. (Quando alguém diz que eu sou bem resolvida eu considero um tremendo elogio). Mas é essa que eu quero ser, então continuo tentando. Mesmo que eu me pegue com inseguranças tão bobas que de novo dá vergonha de escrever.
Hoje sou mais segura de mim; hoje eu sei o que eu quero de um relacionamento amoroso porque sei que não preciso de um relacionamento amoroso, então não preciso ficar me contorcendo para encaixar na caixinha de alguém ou retorcer a realidade para alguém caber na minha caixinha. Mas eita exercício difícil! Um belo dia eu esbarro em alguém com um discurso mais bonito e pegada mais encaixada; e quando dou por mim estou me perguntando se eu devia ter bancado a difícil ou não ter ido àquela festa com meus amigos ou insistido mais do que já insisti. Aí me dá o estalo: Não! Eu não devia nada, absolutamente nada. As pessoas se interessam pelas outras pelos motivos mais diversos; e bem, se me quiser eu sou assim. E se julgou "fácil" é um babaca. E meu interesse já está claro, se me quiser agora tem meu telefone. E se ainda não me chamou pra sair de novo... o mundo está cheio de experiências a serem vivenciadas.
Acho que amar é um desafio pra todo mundo, independente do que você acredita - monogamia ou amor livre, hétero ou homo, feminista ou não. O feminismo é um escudo contra violência e abuso e uma ferramenta de auto-respeito e libertação (meu corpo, minhas regras); então eu quero mais é que todo mundo seja feminista e que (se) ame e (se) respeite mais. Acho que é um bom passo para um mundo com mais amor.

PS: Fiquei com vontade de escrever esse texto depois de um bate-papo/chororô-sobre-rapazes com uma amiga feminista. Concluímos que nossas vidas são bem maiores que isso e que depois de desabafar era melhor mudar de assunto.

domingo, 16 de novembro de 2014

Tatuagem



São duas engrenagens porque eu passei os últimos cinco anos e meio da minha vida para conseguir esse diploma de engenheira mecânica; e esses cinco anos e meio foram os mais loucos até então. Não gosto desse papo de que a universidade são os melhores anos da vida porque acho que a gente tem que tentar viver o melhor sempre; mas a Unicamp sem dúvida fez quem eu sou hoje. E eu gosto.
Dentro das engrenagens são mandalas para lembrar que a engenharia pode ser bonita e pouco convencional e diferente do lucro pelo lucro com tão pouco raciocínio que eu já vivenciei. Se minha engrenagem pode ter mandalas, eu posso fazer qualquer coisa com o conhecimento e com a vida.
O desenho eu adaptei (bem pouco, na realidade só tirei uma terceira engrenagem porque se não nem caberia no meu braço; e olha que meu plano inicial era tatuar o pulso) de um que achei no google imagens digitando "gear tatoo". Nem salvei o link...
Demorou duas horas para ficar pronta e não doeu muito; e eu tenho aflição de agulha, então acho que qualquer pessoa com vontade garante se tatuar (embora já tenham me dito que a costela é mil vezes pior).
Na mesma noite eu cheguei em casa e minha vizinha me ofereceu brigadeiro de panela. Quase terminamos a dita cuja. No dia seguinte fui ler com calma as recomendações de restrição alimentar e descobri que chocolate estava na lista. Bom... nada aconteceu. Acho que isso nem tem princípio científico nem nada.
Estou super satisfeita com meu braço.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O pessoal é político

- Não vou destruir o patriarcado esperando ele vir falar comigo.

(Melhor passar vergonha do que passar vontade.)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Conselho

- Eu tenho essa mania de me jogar de cabeça nas coisas.
- Ah... Às vezes é melhor começar molhando só o pézinho.

sábado, 8 de novembro de 2014

Desprendimento

- O pior que acontece é dar tudo errado, aí a gente desiste de vez e tenta fazer outra coisa da vida.

Resumo da festa de quinta feira:

- Isso aqui até que é divertido, mas eu preferia estar jogando Civilization.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Proseando

No meu passeio matinal com a Vivi, hoje fui interpelada por uma velhinha na frente de sua casa preocupada com seu gatinho que tinha fugido e impressionada com a fofura da minha cadelinha. Como não resisto a dois dedos de prosa, passei alguns minutos conversando com a senhora de sotaque forte e jeitinho simples.
- Você é daqui de Campinas? - Dada hora ela me perguntou.
- Não, sou de Belém, vim estudar.
- Longe, né?
- Sim.
- Estude, que faz muito bem.
- Pode deixar. E a senhora, é de onde?
- Sou italiana.
- E por que veio para o Brasil?
Ela olhou para cima, deu um risinho e respirou fundo:
- Por que eu vim? É uma boa pergunta, olha! Já faz tanto tempo... Eu vim porque os jovens gostam de passear pelo mundo, né?
Na despedida ela me perguntou se eu era católica. Respondi que não, mas que acreditava em Deus.
- Ah, nada disso importa, né? O que importa é as pessoas ajudarem umas as outras.
Voltei pra casa com um sorriso no rosto e um convite para um café um dia desses.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Crônica eleitoral

A família estava dividida, mas a parte que apoiava o candidato A predominava no grupo de whatsapp e dizia coisas de corar meme e comentarista de portal. No segundo turno eu apoiava a candidata C, mas com ressalvas o suficiente para não entrar em briga com primo distante (mesmo porque eu sempre tive recalque de ser a prima distante; então ler atrocidades meio que alimentava a desajustada dentro de mim - sério que era por essas pessoas que eu queria tanto ser aceita e vista como igual?). Discuti -bem de leve- apenas com comentário machista; porque alguém tinha que dizer que aquilo não era ok.
Depois de uma montagem onde o candidato A espancava a candidata C, meu pai não deu conta, xingou muito no twitter reclamou dos absurdos e saiu do grupo, seguido por uma prima que vota em A, mas achou que aquilo estava passando dos limites. Adorei ver. Pensei em pegar o bonde e sair também - eu dizia mesmo que gostava mais de muitas daquelas pessoas quando as via apenas no Natal! - mas respirei fundo. Tinha me posto como meta não me fechar em uma bolha; e havia a alimentação para minha desajustada... Calada como sempre, fiquei. Mas vibrei, confesso.
Na véspera da eleição, todos nos encontramos em uma cidade para onde tivemos que pagar caras passagens de avião, para a linda e caríssima festa de casamento de um primo. Nos abraçamos, batemos foto para postar no facebook e em vez de votar justificamos nossos votos no dia seguinte.

(Obviamente não me orgulho de nada disso. Mas tinha que compartilhar)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

História de acordar

Era uma vez uma moça que descobriu que a felicidade vinha dela e portanto independia de status de princesa ou maldição de bruxa ou benção de fada ou amor de príncipe encantado.
Ela viveu feliz o quanto pôde, e pôde muito.

domingo, 19 de outubro de 2014

Nuca fresca

1

Decidi  que queria cortar o cabelão e tinha que ser naquela hora.
Primeiro salão:
- Temos horário apenas para amanhã.
Segundo salão:
- Temos profissional, mas acabou a água.
(Acabou a água! Depois eu me surpreendo de ter virado quase uma comentarista de portal - apenas com partido diferente -; aproveitando qualquer assunto para falar mal do Alckimin e do PSDB. Estamos sem água, gente!!! Não é culpa de São Pedro!!!)
Terceiro salão:
- Sim, pode ser agora.
Uhul!
- Sente-se para a gente lavar.
- Então, eu vou doar, então tem que primeiro tirar o excesso.
A cabeleleira me olhou como se eu fosse alguma espécie de heroína. Eu fiquei meio encanada. Ela queria deixar o cabelo um pouco maior do que eu queria, também. No fim aceitei uma dica e apesar da nuca-batida-joãozinho deixei o bico um pouco maior; ficou charmoso, mas ela ainda me disse quando fui embora:
- Fica tranquila, seu cabelo cresce rápido. É assim quando a gente faz algo de coração.
Não falei nada porque ela estava sendo gentil, mas a última coisa que eu quero é que ele cresça rápido.
Eu disse que ia cortar porque enjoei dele longo, porque morro de preguiça e mão de vaquice de cuidar de cabelo e porque o clima está infernal. Não disse, mas resolvi doar porque era um desperdício jogar no lixo e porque acho que deve ser horrível ter que explicar para as pessoas o que a sua criança careca tem. Só que ainda tenho uma pontinha de angústia pensando que o problema é dos outros adultos indiscretos que valorizam tanto essa droga de cabelo. Mas certo, temos uma família lutando contra o câncer, ter que militar por aceitação do corpo ao mesmo tempo é exigir algo absurdo.
Teremos uma menininha ruiva por aí, então. Que espero que se cure e cresça e um dia lembre da peruca como algo que apoiou num momento ruim, mas que não era necessária.

2

Ano passado eu, de cabelo comprido, reencontrei um caso antigo e saímos juntos. E eis que o boy me diz:
- Eu preferia seu cabelo curto.
E eu, com a delicadeza que me é peculiar, respondi:
- Problema seu.
Porque estava fazendo uma tarde linda, eu estava super feliz da gente ter se esbarrado de novo nessa loucura que é a vida e esse foi um comentário absolutamente desnecessário.

3

Daí agora eu cortei o cabelo de novo, postei no facebook e um cara que nem é amigo próximo nem nada comentou a minha foto com uma carinha triste.
Parem com isso, sério. O cabelo é meu e eu faço com ele o que eu quiser.

4

Já ouvi também que a maioria dos homens prefere cabelo comprido. Bom: eu não tenho interesse na maioria dos homens e eu prefiro que não se metam na minha vida.

5

Ah, e cabelo curto é um delícia de usar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Arte

Pertinho da minha casa, na praça onde eu passeio com a Vivi, tem uma intervenção artística que eu adoro: três quadros negros enormes, com a frase "antes de morrer, eu quero..." e giz a vontade para os passantes escreverem. Daí tem de tudo: "passar em medicina", "achar meu grande amor", "viajar o mundo num balão", "servir a Deus", etc. Lá perto tem também uma escola, então de vez em quando aparece algumas piadas que eu, que estou ficando velha, não entendo; mas são claramente piadinhas adolescentes. Hoje eu passei e tinha "Ser magra e gostosa". E eu fiquei olhando aquilo, vendo naquela frase a menina insegura que eu era, e pensando em todas nós, inseguras do mundo, com essa ideia forjada e enfiada goela abaixo de que beleza irá resolver a vida. E pela primeira vez escrevi na lousa. Peguei um giz e fiz uma seta: "Você não precisa seguir o padrão. Você é linda".

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Das importâncias

Cansada de encarar o computador, deitei ao lado da Vivi no chão e comecei a fazer festinha.
- Sabe, Vivi, a gente devia trocar de vida. Você ia resolver a minha lista de exercícios do mestrado e eu ficava aqui, roendo pregadores de roupa roubados.
Ela pediu carinho na barriga e balançou o rabo. Respirei fundo.
- Vivi, na verdade a minha lista de exercícios tem tanta importância quanto os seus pregadores.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O primeiro porre a gente nunca esquece

Eu estava de vestido florido, sandália de barraquinha hippie e a echarpe que meu amigo que está mochilando pela América Latina me mandou não sei de onde, mas que uso sempre que posso feito um amuleto de que a vida deve ser leve e ao mesmo tempo importante; menos regras e mais vida.
Minha amiga buzinou na porta e eu fui pegar a sacola térmica e colocar as cervejas dentro - ah esssa vida de estudante; esse capitalismo que chega pesado em festa de humanas e essas brejas tão caras. E nessa pressa a garrafa mais cara, que meu pai comprou na época da minha formatura e não bebeu, estatelou-se no chão. Cacos e caos para todo lado e as rápidas lambidas da minha cadelinha.
- Vivi, sai!
Eu com medo que ela comesse vidro, limpando a cerveja com o pano que estava no banheiro e depois papel toalha, porque a casa estava limpa como não ficava já há algum tempo, e por isso todos os panos de chão estavam sujos.
- Mari, quer ajuda?
- Tranquilo, estou terminando.
- Certeza?
- Sim.
- Muito massa seu poster feminista!
- Obrigada!
Chão razoavelmente limpo, papel toalha acabado, cadela ainda filhote razoavelmente bêbada, sandália encharcada, pão esfregado no chão para recolher os cacos de vidro como a antiga Roomie me ensinou, cheiro misturado de veja e cerveja - até rima, olha só. (Mas só no som, que fiquei claro. Se bem que alcool desinfeta).
A festa foi boa, mas saimos cedo. E no dia seguinte eu acordei com a Vivi vomitando no meu lado, na nossa cama.
- Tá vendo como é bom?
Melhor ideia do mundo: não ter trocado o lençol após a faxina do dia anterior.
Ainda fui procurar "sintomas de hemorragia interna" no Google, com medo que ela tivesse morrendo por ter comido vidro. Mas era apenas uma tradicional ressaca.
- Aprendeu com a mamãe! - Disse outra amiga, quando contei a história.

sábado, 6 de setembro de 2014

O que eu quero:

Menos "pelo menos..." e mais "isso é demais!"

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sobre balada alternativa tocando axé:

- O que, R$10 a long neck? Cês tão doidos??? A gente não precisa de bebida, a festa é open bar de música risada.
(Dançando e cantando "carrinho de mão, bada-bada-baradá")

Ainda sobre a formatura

- Para mim o momento mais épico foi quando você saiu do ambulatório se apoiando em dois bombeiros, e as pessoas apontavam "Olha a Morango!"
- Não me arrependo de nada.
- Só faltava os bombeiros serem bonitos.
- E não eram? Claro que eram, eram lindos! Aliás, eram aqueles dançarinos fortões tipo gogo boys que estavam com a banda. E estavam só de sunga vermelha, chapéu de bombeiro e suspensórios. A falta de memória é minha e eu preencho como eu quiser!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Formatura 3 - Meu discurso de homenagem aos pais

(Acho que fica mais bonito assim, escrito; do que na minha voz tremida e apressada angustiada porque o palanque era pequeno e minha coluna estava torta e procurando uma posição para deixar o papel sem ser coberto pelo microfone)


Em primeiro lugar, gostaria de dar boa tarde a todos - colegas formandos, mesa, família, amigos. Em nome dos formandos, agradeço por estarem aqui compartilhando mais este momento com a gente. Agradecemos também a todas as pessoas que gostariam de estar aqui hoje, mas que, por algum motivo, não puderam vir. E, principalmente, agradecemos a nossos pais - tanto os pais de quem herdamos os genes quanto aqueles que assumiram esse papel em nossas vidas.

Obrigada.

Agora enfim é verdade; verdade verdadeira - nós somos mesmo engenheiros!

Vazio ainda estará o canudo;
mas o envelope, ah envelope, estará cheio de um tudo!
Um tudo pelo qual nós lutamos um tanto!
E não só nós aqui na frente; mas vocês aí, com cara de encanto;
(um tantinho de olhos em pranto?)
Vocês aí no canto, vocês aí no fundo;
vocês que lutaram para nos dar o melhor e nos deram o mundo.

Agradecemos pelos conselhos valiosos,
pela gana quando faltou grana,
por nos mandarem arrumar a cama;
mesmo que nunca a tenhamos arrumado.
Agradecemos a pela noção de cuidado

Agradecemos por acreditarem em nosso potencial e capacidade
tantas vezes tão mais do que a gente;
ao mesmo tempo que um dia sem ligações os deixava doentes,
fazia vocês acharem que havíamos morrido ou mudado de cidade
e nossa capacidade de operar uma máquina de lavar os deixava descrentes

Ah, mães e pais, por sangue ou por colo!
Sim, crescemos, alçamos voo solo
Mas, pássaros que somos,
só chegamos onde chegamos
porque houve um ninho.
Tão protetor e tão sábio
que nos deu astrolábio
para procurar nossas próprias estrelas,
nosso próprio caminho
sabendo que, se necessário
sempre haveria um beijo nos lábios,
um cantinho, um carinho.

Amamos vocês

Formatura 2

Ninguém teve mais festas de formatura do que eu. Primeiro, um churrasco com a família em Belém. Três semanas depois, a colação festiva em Campinas. No dia seguinte, A Festa. Daí mais seis dias e... colação formal. Nossa, nem eu aguento mais colar grau!
Vou fazer um móbile com meus canudos (o da colação festiva, o da colação formal e o meu favorito - o rolo de papel toalha no qual a minha irmã escreveu "engenheira Maricotinha". Os três estavam vazios, porque o diploma vem num envelope).

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Formatura

Dizem que a formatura é um momento inesquecível. A minha foi imemorável. O que dizer? Eu estava com dois metros de altura - 1,75m meu, 10cm do salto e 15cm do meu topete ruivo enorme que o cabelereiro perguntou se podia fazer menor e as pessoas do salão olhavam escandalizadas de eu ter pago por aquilo; e que eu adorei totalmente. Eu estava me achando o máximo e papai disse que eu fui mal-educada ao dizer "não, obrigada" quando o fotógrafo perguntou se eu queria foto sem óculos. Oi, com licença, eu quero uma foto minha, e eu uso óculos e estou maravilhosa com ele.
As três horas que eu me lembro foram fantásticas, com tanta gente querida por perto, duas bandas ótimas, a valsa, decoração linda. E, depois de uma dose de rum, uma caipirinha, duas doses de uisque e um número de jager que aumenta cada vez que encontro alguém para tentar reconstituir a noite... o resto são as histórias que me contam.
- Não chorei pelo meu ex nem dei em cima de nenhum amigo, dei?
- Não.
- Ah, então tá ótimo!
Quer dizer, mais ou menos:
- Eu só percebi que você estava bêbada quando você caiu de cara e derrubou a mesa e quebrou o vaso.
- Isso foi depois de quase derrubar o espelho, lembra?
- Lembra do carinha desconhecido que você beijou no pub? Depois daquela conversa que a gente teve...
- Seu amigo ficou preocupado, mas foi depois que você foi parar no ambulatório. Agradece ele amanhã.
- Você não parava de rir.
- Eu não sabia que dava para ficar daquele jeito só com álcool.
- Você não conseguia falar nada. Menos nas três vezes nas quais tocou Valeska Popozuda. Aí você ficava "keep calm e deixa de recaaalque..."
- Queriam te levar pro hospital, mas eu não deixei e briguei com a cara da cozinha pra te darem sal quando você começou a ficar gelada.
- Você vomitou muito. Muito. Muito.
Acordei com o final da banda, o paletó do meu pai e o cheiro da dignidade perdida. E voltei ao nascer do sol, como eu queria.
Pretendo fazer de novo? Não. Eu nunca tinha ficado mal sem me dar conta. Mas eu nunca mais vou me formar na vida...
Domingo acordei com bem mais do que apenas olhos de ressaca. Mas muito, muito, muito, muito feliz.

Meu útero é um livro aberto

Eu acho o máximo ser filha de ginecologista e ter um papo tranquilo sobre sexo em casa. Mas às vezes até eu acho meio absurdo.
Os causos recentes:

1

Em junho, ao celular no meu tom de voz super singelo pelas ruas de Campinas:
- Mãe, to voltando da ginecologista nova. Pra ser sincera, não gostei dela, não. Ela esperou eu estar toda aberta em posição ginecológica para me avisar que não faz preventivo pelo plano! E disse que vai ter que fazer outro exame esquisito, porque talvez tenha que cauterizar meu útero. Eu achei isso meio bizarro..
- Filha, você tá pra vir pra Belém, a gente olha isso aqui. Ninguém vai cauterizar nada antes de eu dar uma olhada.

2

Na minha ginecologista de Belém, amiga da minha mãe:
- Marina, seu colo do útero está lindo! Não sei o que a outra profissional viu, não tem nada de errado aqui não. Super epiteliado, saudável, bonito mesmo de se ver. - Daí chamou a minha mãe, que esperava na ante-sala - Quer vir aqui dar uma olhada? O colo dela tá lindo!
E minha mãe foi lá averiguar.

3

No mesmo dia, meu pai chegando em casa:
- E aí filha, quais as novidades?
- Fui na gineco hoje e descobri que sou bonita por dentro. Sou tão linda que até meu colo do útero é lindo.
- Isso é falta de uso, é?

4

Ainda no mesmo dia, naqueles links patrocinados do facebook apareceram uns dois sites de relacionamento.
Facebook, vai cuidar da sua vida, tá bom?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

20 razões pelas quais Vivi e Zuck sentirão saudades das férias

A primeira vista pode até ter havido estranhamento ou um certo ar blasé


 Mas esta já é a terceira casa para a qual eu levo a Vivi. E ela se sente em casa rápido.


 Daí o Zuck a sentiu em casa também


 Cochilando quando ela vigiava


 (Vigiava ele, inclusive)


 Ou cochilando junto.


 Dividindo colchão e osso.


 Fomos juntos para a praia!


 A Vivi nunca tinha visto nada tão grande.


 Tanto que não resistiu a um bom milanesa, com piscada de olho e língua sapeca.


 O Zuck já estava mais acostumado...


 ...a andar na beira do mar...


 ... ou molhar as patinhas.


 Chamou Vivi para a água


 Ela não se fez de rogada


 e eles correram muito.


 Até lugares inexplorados.


 Ela acabou encharcada.


Depois, um cochilo exausto.


 Mais junto.


Classe médias sofre também no avião

Todos os passageiros haviam embarcado. Atrás de mim nascia uma nova amizade entre um rapaz que queria privatizar a Petrobras, porque os aeroportos privatizados são um bom exemplo de sistema que funciona bem; e uma mulher que acha que nos Estados Unidos tudo é melhor, inclusive a saúde; e que político e tudo corrupto, mas a culpa é mesmo dos petralhas.
O tempo foi passando e nada do avião decolar.
- Atenção senhores passageiros, houve um problema no computador de bordo...
Meia hora. Uma hora. Uma hora e meia.
- Isso é um absurdo! - Disse a mulher. Concordei mentalmente, pensando se deveria acordar os dois passageiros do meu lado para pedir para descer do avião. Um pequeno tumulto começava a se formar. - Brasileiro é tudo acomodado mesmo, não faz nada, aceita tudo... - Ela resmungou, e continuou sentadinha no corredor.

(Bônus - direto do Fb: Não entendo de verdade esses comentários do tipo "brasileiro é desonesto" ou "a população é preguiçosa". Gente, quem é esse brasileiro genérico de quem vocês estão falando? Com esse tom impessoal, ele parece um alienígena que desceu do espaço ao nosso país para bagunçar tudo... O brasileiro é você, sou eu.
Não estou tirando de ninguém o direito (dever?) a autocrítica (apesar desse tipo de comentário nunca parecer autocrítica - não a mim, pelo menos). Só acho que a gente - eu também, óbvio - devia se responsabilizar mais por nossas ações e nosso meio, em vez de culpar entidades etéreas (e antes que digam: políticos estão longe de ser entidades etéreas. Mas nós somos a política; e dizer "todo político é ladrão" ou "sempre voto nulo" e tão efetivo quanto ir para uma ilha deserta e se isolar do mundo). "Ah, mas mudar sozinho não resolve quase nada". É, mas resolve algo; e juntar gente com atitude em vez de reclamação vazia de elevador muda muita coisa. No ideal? Muda tudo.)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ouvindo boquiaberta: as fantásticas histórias do meu dentista

“E a aí, Marina, que tal os dentes? Ah, pelo sorriso já vi que estão mais brancos, vamos começar de novo então... Nossa, acabei de voltar do Suriname. Égua, cada vez que eu vou lá é uma história; ainda vou escrever um livro. Dessa vez entrou um cara baixinho, de uns 50 anos no máximo, brasileiro, e me perguntou:
- Doutor, você se importa se meus seguranças entrarem?
E eu disse sim, que podiam entrar, eu lá vou barrar segurança, nem são meus. Aí vieram uns três armários deste tamanho, ficaram dois nas portas e um dentro do consultório comigo. Eu vendo aquela arrumação. O senhor me disse então:
- Doutor, deixe eu lhe explicar. Eu sou traficante, e sou dos grandes. Eu fui indicado por uma pessoa, acho que o senhor sabe quem.
E eu disse que sim, porque sabia; porque tem outra traficante que eu atendo lá, né? Esse foi o primeiro brasileiro só.
- É, foi ela mesmo. Ela disse que o senhor faz um trabalho bom. Então eu preciso que o senhor faça seu serviço nos meus dentes, mas os meus seguranças tem que ficar por aqui. Pela minha segurança e pela sua, né? Eles sempre estão comigo, e eu só ando de blindado. Eu tenho um helicóptero blindado. Então o senhor vai fazer o seu trabalho direitinho, e eu não posso ficar mais de uma hora aqui. Não se preocupe com dinheiro, que quanto custar não vai ser nada pra mim – nessa hora eu fiquei meio ofendido, égua, o cara tem helicóptero blindado, mal aí; e diz que meu trabalho é merreca. Mas continuando – eu não vou lhe dizer meu nome nem onde eu moro nem telefone; pela minha segurança e pela sua, né? Mas a gente marca os horários aqui e o dinheiro eu pago normalmente. Afinal é um trabalho com outro qualquer, e o senhor vai fazer direitinho, né?
E nem se eu não soubesse fazer direitinho eu aprendia, com aqueles armários comigo. Nossa, cada vez é uma história! Sabia que eu atendi até o presidente do Suriname? Eu fiquei besta de ver, veio cheio dos seguranças também, fizeram plano de fuga até. Depois que eu fui perguntar para a menina que trabalha comigo que palhaçada exagerada toda era aquela, quem ia atacar o presidente do Suriname? E ela me explicou que era porque ele é condenado por uma penca de crime de guerra, que matou gente pra caramba, daí tem muito lugar onde ele não pode pisar. Só de familiar de gente que ele matou... Ele veio aqui no Brasil pra abertura da copa, a Dilma convidou todo mundo e ele veio também. Mas só pode vir porque tem um lance de imunidade diplomática nesses eventos, porque senão ele ia preso. Na Europa e nos Estados Unidos ele nem pisa. Diz que quando ele vai viajar, ele pega voo comercial. Ele decide que vai pegar o voo e ninguém pode embarcar, fica todo mundo, o voo dele. Eu fiquei abismado com isso; o país tem dinheiro pra um jatinho, né? Aí a menina me explicou que é porque ele precisa de avião de longo alcance, porque tem uma penca de lugar que ele não pode parar pra abastecer e tal. Ele anda desviando de lugares no espaço aéreo onde poderia ser preso ou abatido... daí ele precisa de avião de longa distância mesmo. Ah, o filho dele também não é boa figura, está preso no Panamá por tráfico. O cara vem de um país onde o que mais se tira é ouro é vai se meter com tráfico. Diz que tão querendo mandar ele pros Estados Unidos, pra acusar de terrorismo, aí não sai mais né?
Nossa... ah, eu fui checar no Google a sua ponte! É, você acha que eu não iria? Marina, eu sou um curioso; eu queria era ir no show do milhão, iam me perguntar onde eu aprendi tanto e eu diria que na internet. Achei o máximo a ponte de palitos de picolé que vocês fazem!” (Na consulta anterior, minha mãe tinha contado que eu estava me formando em Engenharia mecânica na Unicamp e ele perguntou se eu fazia robôs; eu falei que eu não, embora houvesse equipe de robô e carro e tal; eu só tinha feito barquinho a vapor e uma ponte de palito de picolé – bom, na realidade depressor bucal, aquele palitinho que os médicos usam para abaixar a língua e ver a garganta – que aguentava mais de 100kg. Aí ele ficou bastante impressionado e disse para eu lembrar dele quando estivesse na Nasa ou na Fórmula 1, porque ele adora Formula 1, inclusive já tinha ido algumas vezes em Interlagos ver. O problema da Formula 1 brasileira, ele me garantiu, é o espírito do Ayrton Senna, que era um cara muito competitivo e o Galvão Bueno não deixa desencarnar e ir para o outro plano, aí ele fica provocando acidentes e impedindo pilotos brasileiros de prosperarem.)
“Vi também  que tem cadeira de papelão, premio de design e tal... nossa, muito legal! E aquelas construções enormes, meu programa favorito agora é Grandes Construções! E as pontes... eu tenho um paciente que constrói ponte, ele disse que é muito besta fazer ponte. Eu não acreditei e ele me explicou, eu disse:
- É?
Incrível. E é fácil cair também, nossa, dá medo de andar em ponte.
Pode cuspir... Tá sentindo algo? Não? certeza? Ah, que bom, vamos continuar.
Meu filho fez um ano agora, o moleque é uma figura! Tu acreditas que ele já sobe escada? E não é escada de degrau não, é escada de subir em parede, sabe? Minha mulher me olhava desesperada. Porque eu sempre gostei de esporte, sabe? Eu sou meio doido, eu gosto dessas provas longas, que duram umas oito horas, que é pra sofrer mesmo. Já a família da minha mulher é todo mundo preguiçoso. Eu te contei da última vez que a minha sogra faz caminhada e podia competir com lesma, né? Todo mundo é preguiçoso! Eu tenho um sobrinho, e eu não quero que meu filho seja como ele, tadinho, ele não tem culpa, foi sempre acostumado assim, não larga o tablet. Eu digo, vamos fazer qualquer coisa, e ele diz depois; égua, eu pergunto:
- Tem alguma hora que tu sais dessa cama e desse tablet?
- Ah tio, só pra estudar mesmo...
Ele corre e você vê que é todo molinho, tadinho. Moleque preguiçoso.
Meu filho não, eu quero que seja esportista. Eu já disse pra minha mulher que eu quero que ele seja um tripinha, esses moleques que a gente conta as costelas, só tripa.
- Ai, credo! Meu filho vai ser gordinho... – ela disse; mas nada, vai é ser tripinha. Basta ver agora, um ano, já subindo a escada, escalando, sabe? Ele subia e olhava pra mim e subia; ela em pânico; eu disse pra deixar o menino e ele conseguiu! Andar todo moleque anda, mas escalar? Agora ainda é mais difícil que ele tá aprendendo, mas logo tá correndo e se esfolando. Quero mais é que fique sempre todo esfolado! Eu quando era criança tava sempre machucado. Eu não queria só andar de bicicleta, eu tinha que fazer cavalo de pau e descer rampa. Eu não podia só andar de skate, tinha que fazer manobra. Tadinha da minha mãe, ela perguntava:
- Moleque, tu não podes só andar?
- Não tem graça, mãe. Tem que fazer o melhor.
Abri a cabeça umas cinco vezes, eu só chegava em casa e avisava:
- Mãe, abri a cabeça!
- Queres ir tomar ponto?
- Não precisa...
E ficava por isso mesmo.
- Mas quebraste como, menino?
- Meu amigo me jogou uma pedra.
- Menino, como teu amigo te jogou pedra?
Era nossa brincadeira, jogar pedra um nos outros!
Mas, sabe eu nunca quebrei nada. Perna, braço. Quer dizer, teve só a vez que eu quebrei quatro dedos de uma vez só, mas foi besteira minha. Eu curtia lavar a bicicleta, ai um dia eu prendi os dedos. Saíram todos tortos...
Teve também a vez que eu desmaiei caindo de rampa de skate. Nossa, eu adorava skate. Eu morava perto da Praça Brasil, naquela época não passava carro lá final de semana e a gente construía rampa. Moleque não presta, né? A gente ia à noite em construtora roubar compensado. A gente olhava e decidia que tava velho e eles não precisavam mais, aí roubava pra fazer rampa. Sei fazer até hoje! Meu sobrinho ganhou um skate e veio me contar todo feliz. Fui ensinar ele a andar, ele não acreditava que eu sabia fazer as manobras... eu assisto programa de skate até hoje, aí eu sei os nomes. Ele disse que não acreditava e eu subi no skate fiz umas besteirinhas que anda lembrava, ele ficou impressionado. Aí eu disse que ia ensinar ele a pular rampa. Fomos comprar... é, a gente cresce, dessa vez eu comprei o compensado e fiz a rampa, meu concunhado ficou besta:
- Como tu saber fazer isso?
- Ei, tu não tiveste infância?
- Tive, mas disso eu não lembro...
- Pois é, eu aprendi.
Fiz uma rampa baixinha e fui ensinar o moleque. Na primeira tentativa ele se esfolou todo e começou a chorar e eu disse que era normal, que a gente se esfola e continua.
- Tio, é muito difícil, eu quero só ficar no chão...
Mas eu segurei ele e ele aprendeu, ficou todo feliz. Sabe pular de rampa.
Eu sempre gostei de esporte, de todos. Teve uma vez que eu tomei um pé na bunda, eu fiquei arrasado. A gente já namorava há um tempão, era muito legal sabe? O pai dela era médico, era ginecologista e obstetra, mas ele fazia aborto. Aí ele era muito rico por isso, tinha um monte de carro, carro parado que ele nem usava, sabe? Uma vez ele veio comigo, eu não tinha carro na época:
- Quero te pedir um favor. Eu tenho um carro parado lá no sítio, que se continuar parado estraga. Tu podes ficar usando ele um período pra mim?
Eu não entendi como isso podia ser um favor, eu fiquei meio besta. Mas ele ligou pro meu pai explicando que precisava vender o carro e que ele não podia estar parado, e que era um favor mesmo! Ai eu fiquei cuidando do tal carro, era um carrão! Top de linha! Cheguei lá em casa oferecendo carona pro meu pai... acho que eu gostava mais do que o namoro me proporcionava do que da menina!!! É, eu sentiria falta de ir tomar minha coca-cola no sítio...
Mas ela terminou comigo e eu fiquei arrasado, e pensei: égua, eu preciso de um esporte novo pra esquecer. Aí eu resolvi que ia fazer wind surf e comprei o equipamento. Sem fazer aula nem nada, eu só fui. Fui pra Mosqueiro, que é perto. Subi no equipamento e fui indo, indo... ir é fácil, o vento vai levando. Mas eu não sabia voltar! E eu fui indo e indo e indo... aí eu torci pras pessoas que tavam comigo repararem que eu não tava voltando e irem atrás de mim. Fiquei seis horas a deriva! Só me acharam porque um cara passou numa canoa e achou estranho ver um cara sentado na prancha de wind surf e ligou pros bombeiros, deu a indicação de como me achar. Os bombeiros me resgataram e se abriram de mim, riram mesmo! Mas o que eu ia fazer, eu não sabia voltar... no máximo eu chegava no Marajó.
Quando eu cheguei em casa e a minha mãe perguntou porque eu tinha demorado, eu disse:
- Égua, nem te conto...
E ela não queria mais que eu fizesse wind surf.
- Égua mãe, mas agora é que ficou emocionante...
Eu continuei, e a primeira coisa que eu aprendi foi a voltar.
Eu já surfei também. Eu morei em São Paulo um período. Eu fiz mestrado em Campinas, mas morava em São Paulo. Aí eu precisava de um esporte novo e o pessoal ia surfar. Na época eu era estudante pobre, comprei uma prancha surrada velha e acabada e todo sábado a gente descia pro Guarujá. A gente ia pra uma praia escondida que diziam que tinha cação, sabe, tubarãozinho? A gente dizia que eles iam comer a gente, mas eu só vi uma vez. O pessoal gritou apavorado, mas eu nem me assustei. Quer dizer, é um peixe grande, mas não faz mal.
Outra vez naquela praia eu vi uma sombra, sabe, alguém passando por baixo da minha prancha. Aí eu fui pegar quem tava de brincadeira, e não era uma pessoa! Era um bicho enorme, tão grande que parecia as costas de alguém, mas era tipo uma água viva, não sei o nome, amarelo, e ele foi se enrolando no meu braço... Dessa vez eu me desesperei e ia puxar, mas por sorte tinha um surfista mais experiente por perto, que gritou:
-Não!
E me mandou ir desvirando o braço devagarinho, e o bicho soltou. E depois ele disse:
- Bicho, tiveste muita sorte, porque se tu puxasses ele ia soltar veneno e tu podias perder braço até.
Aí eu não voltei praquela praia nunca mais, apavorado.
Mas eu adorava surfar. Ia todo sábado às seis e voltava ao meio dia, para passear no shopping com a mulher.”
 Nisso o relógio despertou.
“Nossa, Marina, já passaram os minutos! Que rápido, não?”


Bônus: Eu, no dentista. Para vocês acreditarem no que eu digo.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Dos desafios: críticas

1

Ele disse "seu trabalho poderia estar melhor"; e eu ouvi "você é incompetente". Ouvi também ele dizendo que me detestava, e chorei quieta, desistindo de tentar meu sonho bobo e também dele, porque nenhuma dessas coisas poderia dar certo.

2

Ela me mostrou o trabalho e estava mesmo mágico, mas havia arestas. Sempre há. Mas eu não tive coragem de apontá-las; não porque aquilo era mesmo maior que arestas, mas porque eu tive medo que apontar arestas pudessem-na cortar.

3

Ele fez um comentário preconceituoso e eu o questionei. Eu nem questionaria se não me importasse com ele e não o achasse uma pessoa ótima; eu tenho tanto medo de confronto e tão pouca paciência para quem acho que não está disposto a me ouvir - não que isso seja o certo; ou o errado. Mas ele escutou que eu o achava mau-caráter e discordava da sua essência; aí revidou e eu achei que ele estava me chamando pessoalmente de mimada e desmerecendo toda a minha luta, que sequer era dele. E se por redes sociais houvesse uma maneira de unir os dedos para cortar amizade nos o faríamos; dois adultos de cinco anos de idade no jardim da infância.

4

- As pessoas precisam entender que, quando eu aponto um comentário ruim, eu não estou dizendo que te detesto ou que te acho ruim. Foi só um comentário, sabe? Eu só quero te dar um toque. Do mesmo jeito, eu espero que você me der um toque se eu fizer o mesmo, porque eu faço o tempo todo.
- Nossa, é verdade!
Eu mal podia acreditar que alguém concordava.

5

Repetir diante do espelho:
- Críticas não são xingamentos. Não as escute ou fale como se fossem.
Todos os dias, ao acordar e antes de dormir.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Viajando com a Vivi

- Quem arranja filho tem que cuidar - me disse a minha mãe, quando eu comentei que estava gastando mais com a comida da Vivi do que com a minha durante a semana (afinal, eu como no bandejão e ração de filhote é caro!) e estava comprando a terceira roupinha dela, enquanto não comprava uma para mim há meses (comprei a segunda porque ela cresceu; mas a terceira foi porque, segundo a minha irmã, a Vivi é fashionista - eu dormi ela estava vestida normalmente; acordei ela estava de um ombro só - outro rasgado; saí de casa e quando voltei para o almoço ela estava pelada. Até cogitei deixá-la sem roupa, mas ela passa parte do dia fora de casa e imagino que sinta frio com aquele pelinho curto. Quando chego à noite, as orelinhas estão geladas...)
E como quem arranja filho tem que cuidar, eu não podia deixar a minha filhote para trás quando eu vim passar quase um mês de férias em Belém.
Saiu mais caro que a minha passagem - a casinha já foi bem cara, e por isso eu comprei uma enorme porque ela ainda está crescendo; o que eu não lembrei é que eu pago a viagem dela por quilo e uma casinha maior é também mais pesada; nos aeroportos todos achavam que eu estava transportando um dog alemão e riam quando eu abria a caixona e de lá saia uma viralatinha de uns 10kg só, com carinha de filhote assustado ainda e que eu carrego no colo. Aí além da casinha teve o atestado médico de viagem, que foi o A4 com tinta de bic mais caro que já comprei. E por fim a passagem em si, cujas regras eu tinha entendido errado e daí quase tive que declarar falência. Mas, como disse um amigo, a Vivi é uma fonte inesgotável de dinheiro fora e amor, e o amor compensa.
Eu ia sair de Viracopos 10h, e tinha que chegar no máximo 8:30h. Estava pensando em chegar às 8h; mas minha única carona disponível só podia me deixar às 6:30h e, dado o preço dos táxis, topei. Chegamos no aeroporto eu e a Vivi e de tão pesado eu mal conseguia empurrar o carrinho. Fiquei chateada por estar chovendo e eu não poder passear com ela; daí a tirei da caixinha e fiquei brincando com ela sentada no meu colo.
É bonitinho ver as pessoas se encantando com meu bichinho.
- Qual a raça dela?
- Vira-lata.
- Sério?
Claro que é, olha a carinha dela. Mas parece que ser vira-lata não é chique o bastante para viajar de avião.
Na hora do check-in, as moças do balcão foram umas fofas:
- Oooooh!
- Parece a sua!
- Eu quero muito ter um cachorro! Você adotou? Quero adotar também...
E aquela vozinha de bebê.
Já na sala do embarque, eu, caindo de sono (tinha dormido menos de 4h porque tinha ficado arrumando a mala e a casa), achava que estava tudo resolvido. Coração apertado de imaginar a Vivi no porão. Eu sempre sou uma das últimas a entrar no avião, aí quase tive um treco quando fui interceptada ao entregar meu bilhete:
- Era a seis delta, né? - para a outra funcionária. E então para mim - Você está levando o AVIH?
O "AVIH" era a Vivi.
- Sim...
- Houve um problema, por favor se dirija ao balcão de check-in...
Meu coração parou. Problema? Meu Deus, será que a Vivi morreu no caminho até o avião????
(Afinal, eu jamais pensaria em algo mais leve do que morte, não é mesmo?)
Cheguei lá meio zonza, e a atendente fofa me explicou:
- Tivemos um problema, o avião não tem aquecimento no porão, daí sua cachorrinha não pode ir. Estamos mudando vocês de voo.
- Mas eu tinha marcado com antecedência!
- Foi um problema de última hora, sua cachorrinha poderia congelar... Mas vamos realocar vocês, fica tranquila.
Aí eu fiquei, porque ela parecia realmente preocupada com o bem-estar da Vivi.
- Tem que pegar as duas bagagens dela no embarque - disse o chefe da moça, que estava tentando me realocar.
- Cachorrinho não é bagagem! - Ela disse, e eu decidi que era mesmo a minha atendente aérea favorita. Ele riu.
- Certo, tem que pegar a bagagem e o cachorro.
Em alguns minutos a Vivi estava comigo, todos preocupados que ela estava com sede. Tirei ela da caixa, dei água e ela logo começou a fazer xixi no tapete da companhia aérea... corri com ela para fora do aeroporto, mas ainda estava chovendo e ela fez xixi na calçada.
Daí foi-se uma hora sentada no chão brincando com a Vivi e ouvindo os "oooh" dos passantes até me realocarem para um voo em Guarulhos, saindo 19h... Ganhei táxi para casa e de casa para Guarulhos. Foi um dia bem perdido na minha vida, mas fomos super bem tratadas.
Finalmente, no embarque em Guarulhos, o rapaz também parecia encantado com a fofura da Vivi:
- A pelagem dela é dourada, né? - Disse, preenchendo o formulário.
Concordei. Dourada, que luxo! Eu sempre achei que fosse cor de terra suja. No máximo, cor de palha.
Ele deixou eu ficar passeando com ela na frente do aeroporto até 10 minutos antes do embarque. E eu fiquei aliviada de ver a carinha dela assustada porém muito saudável na caixinha na esteira rolante do desembarque em Belém. E os "ooh, um cachorro!" também.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um diploma para chamar de meu


Essa era eu, com vinte aninhos na cara (alguns a mais do que a maioria dos meus coleguinhas de curso), chegando de muda em Guarulhos, rumo à Campinas. De lá pra cá, o que mudou? Na foto dá pra ver que mudou a resolução da câmera (aleluia; se bem que a câmera do meu celular continua uma bosta); e uns bons centímetros de cabelo que vieram e foram e vieram de novo, e as tonalidades de tintura - hoje o mesmo da época, misturado com loiro dourado. Como quase todo mundo que sai de casa, devo dizer que também ganhei uns quilos. Mas claro que o que mudou foi muito mais que isso, nesses cinco anos e meio que ao mesmo tempo passaram tão rápido e foram uma vida toda.
(Eu costumava me sentir mal ao ver que muitos dos meus amigos dos tempos de escola já estão casados e com filhos enquanto eu ainda tenho vida de estudante; mas agora percebo que minha vida também está sendo uma aventura cheia de realizações. E que cada um escolhe seus caminhos, e que o objetivo são os caminhos, não os fins)
Sair da minha terrinha para fazer engenharia há quase 3000km de distância, em uma das melhores universidades do país, me ensinou coisas muito, mas muito maiores do que cálculo, mecflu e resmat. Me ensinou a cuidar de mim - das coisas mais bestas, tipo usar uma máquina de lavar (é, eu não sabia) às mais profundas, como levantar, lavar a cara e seguir a vida sozinha, por minha conta e com um coração partido. Me mostrou que o mundo é muito maior do que a bolha que eu conhecia; e com isso me trouxe empatia e um desejo de mudança e melhoria. Graças à Unicamp eu conheci gente dos cinco continentes; mas o mais importante foi aprender a olhar as pessoas que estão do meu lado - aquelas que hoje me envergonho de dizer que não via, ou via como seres totalmente distintos de mim.
Ficar longe de casa me trouxe aquele amor doído de saudade; e também me fez criar uma família nova. Me fez me abrir para experiências e ideias que antes eu achava absurdas, ao mesmo tempo que me ajudou a construir novos e fortalecer velhos princípios.
Na Unicamp eu fiz de tudo: kung fu, musculação, tae kwon do, forró. Fui monitora, fiz intercâmbio e iniciação científica. Fui nas palestras mais nonsense. Me envolvi com coletivo feminista, movimento estudantil e cursinho popular. Fui em festa, dormi na biblioteca, li jogada na grama, passeei com minha cadelinha, dei beijos absolutamente apaixonados e outros nem tanto, virei noite construindo ponte de palito de picolé, fiz barquinho e foguete, conversei por horas a fio comendo batata frita, amei perdidamente e por isso viajei para o outro lado do mundo, roubei giz, tomei litros de suco, conheci algumas das melhores pessoas do mundo, distribuí panfletos e barquinhos de papel. Não sei como alguém pode não se apaixonar por aquele lugar. Mais do que as cinco casas em que eu morei na minha graduação (sem contar com a de Belém e a nova a qual acabei de me mudar!), a Unicamp é, há cinco anos e meio, meu lar.
Então hoje, depois de todas as noites mal-dormidas estudando a base de café e energético, de todas as listas feitas e as copiadas, de todas as notas vermelhas e azuis, de todas as vezes que eu chorei achando que eu era um fracasso e que jamais conseguiria, de todas as aulas que eu matei por preguiça, da prova que eu perdi porque não sabia que estava acontecendo, de todas as pilhas da minha HP, de todas as folhas de sulfite e grafites, de todos os resumos e trabalhos e provas, de todas as ajudas e abraços... Eu sou uma engenheira mecânica!
E, embora eu seja uma pessoa diferente daquela menina de vinte anos chegando em Guarulhos, eu estou absolutamente apavorada ainda. Depois de achar que eu nunca me formaria, posso dizer com certeza: se formar dá medo.
Mas, se deu tudo tão certo para ela, vai dar pra mim.
E, se é para o bem de todos e felicidade da nação, diga à Unicamp que fico!
Que venha o mestrado!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Vivi

Trecho de um post de 2009, meu primeiro ano de Unicamp:

"Estudantes de engenharia mecânica, conversando à toa. Até:
- Qual o seu objetivo?
Ela não entendeu a pergunta.
- Objetivo. - Ele explicou. - O que você quer fazer quando acabar isso aqui.
- Ah. Eu quero me formar, arranjar um emprego, casar. E você?
- Eu quero ter um cachorro."


Não era eu a garota da conversa, mas rimos juntas quando ela me contou. Não por mal, mas pelo inusitado.
Cinco anos se passaram, e eu me vejo sendo o rapaz da história.
Há dois meses da minha formatura, o que eu mais queria, agora, era um cachorro.

(um emprego eu consegui e odiei. Decidi fazer mestrado. E para casar... eu preciso de um noivo. Antes, um namorado; antes, alguém que goste de mim; antes... gostar mais de mim mesma.)

(Minha psicóloga disse que tem pacientes com relacionamentos tão ruins que ela se pergunta porque essa pessoa não arranjou um cachorro)

Conversei com o pessoal da república onde moro e consegui autorização. Fui atrás de ongs que cuidam animais abandonados. Eu queria uma fêmea, filhote.
Depois de alguns problemas de percurso (uma moça que me prometeu o cachorro e deu pra outra pessoa. Uma feira de adoção que não existe mais. Uma feira que não estava acontecendo justo naquele dia. Falta de fé por parte da ong na minha capacidade de cuidar de um bichinho, já que moro em república), consegui!
Uma viralatinha de três meses, cor de terra suja.

Brainstorm nomes. Por um milésimo de segundo (o último livro que li foi "A insustentável Leveza do ser") pensei em Karenin; mas ninguém quer ser Tereza.
A cadelinha chamava Pepê.
- Se não puder mudar, vou chamar só de Pê. - Eu disse, no carro, indo buscá-la.
- De provisório, que nem o RA? - Perguntou meu amigo.
Ri.
Cor de terra suja. Pensei em cotia. Ela parece uma cotia.
Minha irmã disse para chamar de Dó. Por esta foto:



Antes, eu tinha pensado em Vivi. Por ser uma viviralata.

No fim, ela se chama Penélope Cotiana Vivi de Dó Weyl.
Mas podem chamar de Vivi.

(Me acordou andando em cima de mim hoje - não tenho cama, só um colchão no chão)
(Não me sinto mais sozinha)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dez anos (Ou: Sobre término, desemprego e o arco-íris depois da chuva)

1

Há algumas semanas atrás assisti um filme que fala sobre o reencontro de seis amigos depois de dez anos. Fiquei me perguntando o que mudou em mim em dez anos - muito, sem dúvida; mas cri estar tão perdida quanto a menina de dezesseis anos que era em 2004.
Na dúvida, fui em busca dos meus velhos diários.

2

Há dez anos eu... estava terminando com meu primeiro namorado.
E devo dizer que me senti orgulhosa de reler o que se passava na minha cabecinha adolescente. Mesmo antes de conhecer o feminismo, eu já sabia que algumas coisas eram inadimissíveis ou simplesmente ridículas. Meus namoros formais depois desse também terminaram em términos (e não em "e viveram felizes para sempre"), mas creio que todos me acrescentaram coisas boas. Nutro carinho pelos rapazes. Diferente do primeiro, do qual sempre que me lembro, me pergunto "onde, diabos, eu estava com a cabeça???"
Então lembro porque tudo é aprendizado. Eu sei exatamente onde eu estava com a cabeça.

3

Dez anos depois, acabo de ficar desempregada. Pedi demissão do meu primeiro emprego. E posso traçar tantos paralelos entre esses dois começos - namoro e emprego - que chega a ser espantoso.

4

2004: Todos os meus amigos já tinham namorado, menos eu. É claro que eu era uma aberração feiosa.

2014: Todos os meus amigos já trabalhavam, menos eu. É claro que eu era uma aberração folgada.

2004: (Na verdade, nem todos namoravam. Outros tinham uns relacionamentos destrutivos. Mas, na minha cabeça, eu estava errada e solitária; e ainda demorariam muitos anos para eu me dar conta que, mesmo sem perder um quilo ou tirar os óculos, eu poderia ser bonita - inclusive do modo convencional)

2014: (Na verdade, nem todos trabalhavam. A maioria tinha empregos informais. Mas, na minha cabeça, eu estava errada e desempregada - apesar de desde os dezenove ter passado mais tempo com renda do que sem - em laboratórios, monitorias e bolsa de estudos; coisas que ninguém considera trabalho)

2004: A oportunidade surgiu pela primeira vez! Um rapaz novo entrou na escola; e por ser novo não sabia que eu era esquisita, e por ser bonita resolveu me cantar.

2014: A oportunidade surgiu pela primeira vez! Acabei finalmente as matérias mais difíceis do curso, mandei currículos e fui chamada para uma entrevista em multinacional.

2004: Verdade seja dita, o rapaz parecia meio maluco. Escrevia cartas falsamente melosas e prometia coisas que não se promete a quem você conhece há uma semana. Mas era meu primeiro contato mais sério com o sexo oposto, eu não sabia o que esperar.

2014: Verdade seja dita, o emprego era na área automobilística, que eu nunca curti muito; e eu teria que viajar mais de 2h de carro todo dia, por minha conta e despesa. Mas era o meu primeiro contato mais sério com o mundo corporativo, eu não sabia o que esperar.

2004: Arranjei um namorado! Sucesso! Meta concluída! Na época, eu nunca tinha me apaixonado, mas me encantei com a ideia de amor.

2014: Arranjei um emprego! Sucesso! Meta concluída! Eu achava que nunca tinha trabalhado, mas me encantei com o salário.

2004: Mas sair com o namorado era meio chato. Ele era bem chato, fazia umas piadas sem graças. E era machista. Mas como eu ia saber que não era normal ser machista?

2014: Mas o emprego era meio chato. O trabalho era bem chato, e o ambiente era cheio de piadas sem graças. E era machista. Era normal ser machista?

2004: Um dia, ele pegou meu celular e quis ver quem eram os contatos e deletar os meus amigos homens. Perguntei porque ele achava normal fazer isso e chamar outras meninas de gostosa. Ele disse que era instinto de preservação da espécie. Eu gritei, bati na mesa, chamei ele de imbecil e fui embora. Hoje me orgulho disso, mas ainda não foi dessa vez que terminei com ele.

2014: Um dia, os caras estavam zoando "coisas de mulher" e olhando as "gostosas" que passavam - as moças que trabalhavam com a gente. Pela primeira vez, tomei coragem para falar que aquilo não era legal. Um dos caras achou muito engraçado e ligou as piadas no máximo. Me fiz de surda. Não soube reagir.

2004: Um belo dia, me dei conta que não gostava dele. Ele apenas ocupava meu tempo, e me envergonhava na frente dos meus amigos. Pra que eu precisava de um namorado?

2014: Um não tão belo dia, me dei conta que não estava fazendo nada direito. Não tinha mais tempo pra nada nem ninguém, o tal do salário estava indo todo em gasolina e estava sempre triste. Pra que eu precisava de um emprego?

2004: Claro que eu ainda queria gostar de alguém. Quem não quer? Mas eu queria algo que fosse de verdade. Olhei minhas reservas emocionais e vi que nada daquilo valia a pena. Terminei.

2014: Todo mundo precisa trabalhar, eu não sou especial. Mas vi que o sofrimento era maior - que, além de gastar tudo em gasolina e comida, logo eu teria que gastar tudo em antidepressivo e cirurgia bariátrica. Olhei minha poupança - e nisso eu sei que sou privilegiada - e vi que não precisava viver daquele jeito meus últimos três meses de universitária. Me demiti.

5

O rapaz é um monstro? Não, mas é alguém com valores diametralmente opostos aos meus.
O emprego é um lixo? Não, mas a empresa não valoriza o que eu valorizo. Tem quem adore; eu não.

6

Outros amores vieram. Outros empregos virão. Tem experiências pelas quais a gente precisa passar para aprender do que não gosta e ver o que nos importa de verdade.
Cada um é mundo único.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Todo o terror do mundinho sintetizado em uma conversa casual

- Já comecei umas cinco faculdades. Acho que na verdade a gente nunca descobre o que a gente quer. A gente começa algo, ganha dinheiro... e acaba passando a vida fazendo isso.

Analisando amores antigos (imaginários ou não)

O fato de uma pessoa não querer ficar com você não faz dessa pessoa uma pessoa ruim. Mas faz dessa pessoa uma pessoa ruim para você.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

"Tudo na vida acontece por um motivo. Às vezes, o motivo é que você fez algo imbecil" 
(Li algo do gênero em algum lugar. Acho que é frase de camiseta. Lembrei hoje, depois de passar 2:30h dirigindo perdida e no final não chegar ao meu lugar objetivo. O detalhe é que eu já tinha ido lá... ontem).

Pois é. Existem habilidades inatas; e mesmo essas tem que ser treinadas para alcançarem a plenitude. Já para as dificuldades inatas, a gente tem mais é que admitir que é meio tapado e não leva jeito pra coisa e ser precavido. (Não, chorar em posição fetal não é uma possibilidade)

É, minhas habilidades espaciais são sofríveis.

Nota mental 1: antes de sair rumo ao desconhecido (ou mesmo rumo ao mais ou menos conhecido), eu devo ver o caminho com calma, imprimir o caminho, anotar o caminho, carregar o celular e ligar o GPS dele com o caminho, ver se o GPS dele bate com o meu caminho, sair com o dobro do tempo estimado do percurso de antecedência e... comprar uma barra e chocolate, porque açúcar é necessário em momentos de stress assim. Aliás, por precaução, é melhor comprar duas.

Nota mental 2: Dizer as pessoas que estou chegando e não chegar nem atender telefone porque o GPS do celular me mandou para o lugar errado e depois o celular descarregou faz elas acharem que eu morri.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A engenheira e a faxineira

1

Diante do espelho, caprichava na maquiagem dos olhos para eles não parecerem inchados de choro na empresa, 7h da manhã.
Mulher num mundo masculino. Engenheira num país subdesenvolvido. Conseguir era sua bandeira de resistência.
Então entrou no banheiro a faxineira do batom rosa-choque - aquela que sempre retribuia o bom dia com o maior dos sorrisos.
A engenheira reclamou de começar o dia. A faxineira respondeu:
- Enquanto houver saúde e trabalho para a gente, tudo está ótimo.
Não falou como uma crítica, mas como uma benção. E o tapa na engenheira foi tão forte que sentia o zunido nos ouvidos.
Menina de classe média alta, estudante em uma das melhores universidades do país, salário alto antes do diploma.
Mimada.
Calou-se, disse a si mesma que se calaria para sempre.

2

Porém já havia antes prometido a si mesma que por nada do mundo pediria desculpa por ter sentimentos.

3

Fazer algo diferente é revelar ao mundo aquela possibilidade.
Entre a ordem invulnerável do carro e o vento no rosto e suor da bicicleta, procura sonhos como algodão doce e revolução.
Não achou respostas; sequer as perguntas certas ainda.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Quase pulei para trás quando me disseram que eles, mais novos que eu, estavam planejando o casamento.
- Bom... É o que falta para zerar a vida. - Uma amiga disse brincando, quando contei a história.
Faculdade completa. Emprego arranjado. Coração compromissado. O que mais faltaria?
Depois a casa, os filhos, as viagens no verão.
Vida padrão.
O que mais faltaria?
Viver é jogo?
A mim, falta fogo.
Me dá medo ver que também estou seguindo o roteiro esperado; e me reverbera a alma a bronca que tomei de um amigo quando questionei se devia - eu, que tive todas as chances reclamando do que me foi dado!
O que mais faltaria?
Conhecer os cinco continentes.
Mudar o mundo.
Aprender francês. (E alemão? Dizem que a vida é muito curta para aprender alemão; mas quem sou eu para acreditar...)
Mergulhar.
Criar um cachorro.
Escrever um livro.
Aprender um instrumento.
Experimentar.
Mudar de ideia. De novo e de novo. E sempre ter e conhecer e começar algo novo.
Marina, Marina, cresça; mas não enlouqueça.
Ainda há tanto a se conhecer do mundo e de mim.

(Que fique bem claro que sou chorona de casório, não acho que ninguém morre ao trocar aliança e tenho raiva de quem acha. Não é o véu branco de noiva que me assusta - é o véu cinza do mundo sem cor de fazer tudo o que já foi feito e sempre será.)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Coisas que de tão óbvias hoje para mim são senso comum, mas que demorei mais tempo para descobrir do que gostaria de admitir:

1- Você não precisa lutar pelo seu conservadorismo. O mundo todo o está validando. Não há nada de inovador em defender o status quo. Nem de charmoso.

2- Você não precisa da aprovação de pessoas que julgam apenas pela aparência. Aliás, você não precisa da aprovação de ninguém.

3- Quase sempre aquilo que criticamos nos outros é algo que nos incomoda em nós mesmos. Ou ao menos está intimamente ligado.

4- Você teve muita sorte de poder lutar pelas coisas que lhe foram mais difíceis de conseguir. Agradeça por isso e não julgue quem não teve o mesmo sucesso.

5- Criticar as pessoas não te faz alguém melhor. Saber ouvir críticas construtivas faz.

6- Duas pessoas podem discordar em praticamente tudo e ainda serem boas pessoas e se gostarem muito.

7- Sucesso e felicidade são conceitos absolutamente pessoais. Dor também.

Nomeação

Praia de Ajuruteua.
Como de costume, eu e meu pai fomos passear perto do mangue.
- O Felipe vai gostar desses bichinhos - Disse o papai, coletando caramujos para o meu priminho de cinco anos.
- Qual o nome dos xicagôs? - Perguntou a tia, já na casa de praia; porque ao chegar os caramujos foram identificados escargots. OU xicagôs.
- Felipe segundo. - O menino respondeu.
- E esse?
- Felipe também.
- Todos chama Felipe?
- Sim. - O fato mais óbvio do mundo; adultos e suas perguntas estranhas.
- Tem um que é menina...
Olhar desconfiado.
- Qual deles? - Perguntou.
- O que está de saia e batom.
Obviamente a moça foi rapidamente identificada por essas características.