domingo, 23 de fevereiro de 2014

A engenheira e a faxineira

1

Diante do espelho, caprichava na maquiagem dos olhos para eles não parecerem inchados de choro na empresa, 7h da manhã.
Mulher num mundo masculino. Engenheira num país subdesenvolvido. Conseguir era sua bandeira de resistência.
Então entrou no banheiro a faxineira do batom rosa-choque - aquela que sempre retribuia o bom dia com o maior dos sorrisos.
A engenheira reclamou de começar o dia. A faxineira respondeu:
- Enquanto houver saúde e trabalho para a gente, tudo está ótimo.
Não falou como uma crítica, mas como uma benção. E o tapa na engenheira foi tão forte que sentia o zunido nos ouvidos.
Menina de classe média alta, estudante em uma das melhores universidades do país, salário alto antes do diploma.
Mimada.
Calou-se, disse a si mesma que se calaria para sempre.

2

Porém já havia antes prometido a si mesma que por nada do mundo pediria desculpa por ter sentimentos.

3

Fazer algo diferente é revelar ao mundo aquela possibilidade.
Entre a ordem invulnerável do carro e o vento no rosto e suor da bicicleta, procura sonhos como algodão doce e revolução.
Não achou respostas; sequer as perguntas certas ainda.

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