quinta-feira, 28 de julho de 2016

Não acho que morrerei de saudades, e é essa sobrevivência que me dói.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Fome

Prometi a mim mesma que não repetiria o processo, que pensaria no meu futuro com calma e não impulso. Agora vejo que pensar com antecedência para mim não tem nada a ver com calma, e sim com crises de ansiedade. Pensei, repensei, dormi mal; as borboletas do estômago tiveram todo seu ciclo de vida - nasceram lagartas tímidas, arrastaram-se, deram-me um pouco de paz em seus casulos e então eclodiram; belas borboletas de ansiedade comendo-me por dentro, reproduzindo-se, mais lagartas mordendo-me as entranhas, cadáveres de borboletas pesando em mim; tantas borboletas voando que me entupiam a garganta e zonzeavam a cabeça. Ansiolítico deve ser veneno de borboleta. Álcool as dopa. "Farmácia é biqueira com CNPJ", já dizia o muro. Muros são sábios quando não aprisionam. As borboletas querem voar para longe, mas nasceram dentro de mim. Tenho medo de virar muro, estátua, pedra. Tenho mar em meu nome; do tipo que tanto bate que fura a pedra. Tenho água em mim e tenho medo de virar gelo. Não gosto de frio.
Fora de mim há tanto mundo. Dentro de mim há tantas cores. Amo o mar; o mar está tão longe. Amo um distrito de alguns quarteirões facilmente percorriveis de bicicleta. Sou paraense, mas não na certidão de nascimento. Aprendi a ler em Campinas. Aprendi a amar Campinas. 
Tenho medo de envelhecer num sofá mofado olhando pela janela as crianças brincando na rua e me crendo uma delas, achando que meu olhar me faz parte. Tenho medo de ter uma vida feita de partidas. Jogos. Despedidas. Quero ser parte, mas não do verbo partir. Ele parte. Eu parte. Tenho medo de virar muro, mas quero construir algo. Talvez sejam os trinta se aproximando. Talvez seja meu histórico de despedidas. Nisso sou vitimista. Pela primeira vez me olhei no espelho e vi que fiquei boa demais em dizer adeus. A vida bate e eu sempre desando, entre mole e dura demais. Cozinho para subsistência e sempre erro meu ponto. Tá na hora de puxar a cordinha?
Indecisão é privilégio de quem sabe que não vai passar fome e tem o estômago cheio de borboletas. 

domingo, 10 de julho de 2016

Indecisão

Futuro tem gosto de cardápio com descrição bonita que faz salivar. Futuro tem gosto de papel.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O Rio de Janeiro continua...

Entreguei minha dissertação de mestrado para a banca. Então comprei uma passagem de ônibus só de ida e fui para o Rio de Janeiro. Arrumei minha mochila em vinte minutos. Esqueci shampoo e levei roupas que não faziam sentido.
Meu futuro me encarava como olhos de Rio, e eu com aquela mochila arrumada às pressas porque preferi ir a uma festa antes do embarque do que pensar direito no que precisaria ter comigo. Ou talvez não - talvez eu possa dizer que precisava mesmo ter um tequinho daquela festa comigo. Era a reinauguração do bar que eu sempre frequentava, fechado há meses por problema de alvará. O bar mudou de lugar. Eu talvez mude de lugar.
- Não tô sabendo lidar. - Eu disse aos amigos. - Olha essa decoração! Tá tudo bonito, arrumado! Gourmetizou.
- Gourmetizou nada. - Alguém contra-argumentou. - Aqui antes era um restaurante de frutos do mar e eles mantiveram a decoração. Você por acaso vê algum sentido nesses camarões de plástico pendurados na parede?
Eu ri e me senti mais segura. Eu não sei lidar com mudanças. Eu to apavorada. Eu também teria mantido aquela decoração de frutos do mar.
Sai da festa cedo da noite e de dia cedo cheguei ao Rio, tirando o casaco na rodoviária. Ah, tão mais quente que Campinas! Me senti vitoriosa ao conseguir chegar à casa do meu amigo que me hospedaria. República de artistas, no alto de Vila Izabel. Casa enorme e linda, com tudo coletivo e chuveiros que não aquecem.
O Rio de Janeiro me continua uma aventura.
Fui à UFRJ, me inscrever no doutorado. Sim, eu podia ter feito pelo correio, mas quis ir sentir o ambiente. Aquilo parece feito pra carro, e não pra gente. Tem interfone demais, rua demais, gramados enormes e vazios sem ninguém deitado. Unicamp me acostumou mal, tropeçando em intervenções das artes pelo caminho. Lá parecia que não haveria caminho, só estrada; e me apertou o peito de uma maneira que eu quase peguei o primeiro ônibus de volta para Campinas, para me encolher e abraçar meu travesseiro. Nada me garante que serei aceita no doutorado, mas até de torcer me deu medo. Vida torcida. Nada me garante que serei aceita em nada.Talvez tenha sido bom ter ido com o cabelo bem verde e as roupas sem sentido. Meu possível orientador me perguntou por que eu queria sair da Unicamp como se eu fosse uma fugitiva da polícia.
O chuveiro da casa não aquecia e de repente eu me dei conta que estava sim frio. O por-do-sol era lindo da lage; mas ainda eram cinco e pouco da tarde. Ai, que saudade do verão! Era Rio, mas era inverno. Eu sabia que existia o mar, mas só vi o trânsito. Tudo tão longe e engarrafado. Eu era mensagem na garrafa-ônibus no mar de carro do Rio. Sem destinatário. Perdida feito bala. Meu amigo me disse que já ouviu várias vezes os tiros.
O Rio de Janeiro continua o Rio de Janeiro. Durante minha estadia, pensei sobre futuro e sobre tudo.
Postei no Insta uma foto do por-do-sol, com duas canecas na janela. Era um república; talvez as canecas estivessem fazendo aniversário naquela janela. Achei bonito, mas parecia uma cena romântica. Pensei se não afastaria meus crushes. Lembrei que meus crushes se afastam sozinhos.
Um dos caras de quem mais gostei na vida curtiu a foto. Achei engraçado. Ele mora no Rio. Não nos falamos há anos. Ele tem uma namorada. Comentei com meu amigo, que estava organizando uma festa para arrecadar dinheiro para a casa:
- Ele é paraense, né? Nossa festa também. Vou convidar.
- Migo, não. Ele nem conhece vocês.
- Por isso mesmo. Vou sim.
- Cara...
- Convidado. Mandei inbox.
Dei os ombros. Talvez ele nem visse o inbox do coletivo desconhecido. E francamente, eu não sei onde eu vou morar daqui a um mês; tenho problemas mais urgentes para resolver do que ter vergonha de paixão antiga.
Naquela noite, eu e meu cabelo verde fingimos que éramos artistas, e fomos para reunião com outro coletivo. Pensei que era algo que todo mundo da academia devia fazer - tentar entender coletivo. Quebrar hierarquia. Escolhi uma das profissões mais individualistas do mundo, e ainda resolvi ser a mina de saia florida e cabelo verde. Foi um ano de terapia para conseguir usar saia na engenharia, não abro mão. No meio de tantas dúvidas, sei que sou engenheirA. E amo e tenho mil críticas à academia, e é por isso que quero ficar nela e faço tanta questão das saias floridas. E de organização horizontal.
No dia seguinte, eu e meu amigo subimos o morro do Vidigal, favela pacificada - primeiro numa perua cuja porta não fechava em uma rua onde também passava caminhão e não parecia caber de modo algum uma perua e um caminhão. Depois uma trilha a pé que eu fiz de havaianas enquanto gringos usavam roupa de escalada; e então feito Cinderela perdi um lado pelo caminho. Sim, estava descalça. Coração acelerado de medo de altura e sedentarismo. E então a vista. Ah, a vista! Ah, Rio, não faz isso comigo, minha estadia tem prazo; para de ser tão lindo, acho que não vão me aceitar no doutorado, não estou pronta pra me apaixonar. Minha cinderelisse não tem príncipe para achar meu sapatinho; comprei uma havaiana nova ao pé do morro e acabamos a tarde no por-do-sol de Ipanema; um mergulho de congelar os ossos e os problemas lavados de sal. Metrô lotado e eu cheia de areia; banho gelado é meu nome, fomos a uma festa em prédio do SUS ocupado. Entre discotecagem paraense e bebidas, a constatação de que as pessoas eram outras, mas as mesmas que eu tanto amava e fugia; as mesmas do bar de Campinas com decoração de frutos do mar. Alguém me passa um trago, a vida traz e eu trago; peço que a vida traga o que for melhor. Lembrei do moço que me disse não acreditava em mudança de lugar para mudar a vida. Eu acredito; descobri tanto de mim ao sair da minha zona de conforto lá em Belém. Por outro lado, lá estava eu, no Rio, dançando brega, vendo aquelas pessoas que eu não conhecia, mas que poderia; porque elas eram tão parecidas com as minhas pessoas de sempre. E veio a angústia, porque se aquelas pessoas eram tão parecidas com as minhas pessoas qualquer pessoa poderia ser especial, mas ao mesmo tempo nenhuma era. Éramos todos tão iguais nas nossas roupas hipsters: óculos de aro grosso, cabelos alternativos iguais, ideologia de esquerda. Tão produzidos em série e substituíveis. Mandei áudios de amor a amigos em grupos de whastsapp. Talvez eu realmente estivesse bêbada. Eu realmente preciso de amor e um lugar no mundo.
Mais um dia, fui sozinha andar na praia. Estava mais frio. Ah, Rio! Tanto trânsito, tudo tão longe, mas tem o mar. Eu quero me mudar? Eu sei que sou forte, me viro sozinha desde os vinte. Só estou cansada de me sentir sozinha. Digo que queria um amor, ainda quero. Mas me dei conta que o que mais quero são raízes. Sinto que as tenho; mas tão finas e frágeis, raízes aéreas de mangue, raízes de vasinho de flor vendido no Pão de Açúcar - não o morro, mas o supermercado. Em Belém me restam tão poucos amigos; em Campinas me falta família; no Rio eu não teria nem um nem outro, mas teria o mar e meu talento para recomeços. Percebo pela primeira vez que a fragilidade das raízes é tão culpa minha, eu que por temer tanto a mutabilidade vejo nela um fato imutável e por isso me recuso a comprar uma cafeteira, para não ter mais coisas para levar quando for me mudar. Marina, suja seus pés de areia; raízes brotam dos seus pés.
Naquela noite houve a tal festa na república onde eu estava. Ajudei na portaria e no bar, acompanhei drag se montando, fiquei amiga das gay, respondi questionamentos:
- Fulano é hétero? - Um cara me perguntou.
- Não, pode chegar junto. Tem algum hétero aqui?
- Ele é. - Apontou o amigo, e fingiu sussurro criminoso  - ele até chupa buceta.
O Hétero deu os ombros:
- Faz parte de ser hétero.
- Conversem, héteros.
Conversamos. Sotaque nordestino, doutorado; sim, são as mesmas pessoas; mas que beijo bom. O vizinho interrompeu porque nossas cabecinhas estavam visíveis pelo muro e ele mandou a gente chamar o dono da casa para diminuir o som.
Hétero pediu meu número e mandou mensagem no dia seguinte.
- Cara, você fez anatomia, saberia sumir com meu corpo fácil. Não leva a mal, mas eu não vou pra casa de alguém que eu acabei de conhecer em uma cidade na qual eu não sei me locomover direito.
Fomos passear em Copacabana. Moço simpático, beijo bom; cheio de "vou te ver de novo? é uma pena você já estar indo..." e eu com sono e frio e vontade de ir pra casa. Me despedi e fui encontrar uns amigos, perguntando em que momento da vida meu coração virou gelo.
Em momento nenhum, talvez; mas moço, eu nem te conheço. Com os amigos eu sou feita de amor. Hétero mandou mensagem com corações demais.
Achei que minhas aventuras de Rio tinham enfim terminado, então meu amigo me disse que aquele moço que curtiu a foto, o que foi um dos que mais gostei na vida, estava respondendo todo educado o convite no face, pedindo desculpas por não ter ido à festa e oferecendo uma xícara de açúcar caso fosse preciso. E então... "A Marina mora com você?". Bom, depois dessa lá fui eu explicar a situação:
- Hey, quanto tempo! Como você tá? Eu tô numa crise de riso. Fiquei super sem jeito de você ter sido convidado para a festa, não quero que a sua namorada me ache louca...
Conversamos por horas.
- Não lembro porque paramos de nos falar. - Ele disse. Eu lembrei dele me mandando mensagem bêbado de madrugada dizendo que estava apaixonado por mim e eu perguntando no dia seguinte se ele lembrava e ele dizendo que não. Lembrei de não saber como responder e não respondendo; da nossa história sempre geograficamente enrolada, minha especialidade em matéria de coração.
- Nem eu. - Respondi.
- Quer tomar uma breja amanhã? - Ele perguntou.
Eu planejava ir embora cedo, mas não não tinha passagem comprada ainda.
- Quero.
No dia seguinte, fui conhecer a PUC; duas horas de metrô e ônibus com meu mochilão nas costas. Despedi-me do amigo e do coletivo, agradeci a maravilhosa hospedagem; e naquela noite tomei dois chopes com o moço. Foi o desfecho síntese da minha estadia no Rio - paixão antiga, charmoso e impossível; a verdade é que a gente simplesmente não combina. Adoro rir e conversar, adoro o mar; mas morar? Tenho cabeça de  bicicleta e cidade pequena, ainda quero casar e ter filhos um dia, trânsito me dá aflição. O Rio também sabe que não sou para ele, o Rio  não me recebeu bem na UFRJ; o Rio continua lindo no verão mas morar exige amar inverno. Estou há tanto tempo em Campinas que dei apenas um beijo (e não dois) no rosto ao me despedir do moço e do Rio de Janeiro. Enfim, depois de tanto tempo, podemos virar bons amigos.  Posso não saber ao certo o que quero da vida, mas sei que: Rio, você é amor de carnaval.

Bônus: Fotos que bati na viagem