segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Presente

O único problema da vida é que ela acontece o tempo todo, em lugares demais.
Na dúvida o melhor é ir (porque não há nada mais previsível do que meus lençois cor-de-rosa de sempre).
Perca menos tempo tentando descobrir quem é, esteja mais.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ainda na tarde em que eu não aprendi a esquiar


Só para constar: Eu estava subindo, não descendo de costas...

E este post é continuação (ou, melhor dizer: ilustração) do anterior.



terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Metáfora barata sobre a vida na tarde em que eu não aprendi a esquiar

Lá pelo meio de maio eu vou fazer mais uma vez a minha mala enorme (que provavelmente terá virado duas até lá) e voltar para o Brasil. E depois que isso acontecer, eu não sei quando vou ver neve de novo na minha vida.
(Dizem que vou deixar de ver neve antes de voltar, porque o clima vai mudar aqui em Fargo e ela vai derreter. Eu realmente quero acreditar nisso; mas está difícil, quando olho para fora e tudo está cada dia mais branco em pleno final de fevereiro).
Assim sendo, tenho que viver a neve intensamente e fazer tudo o que manda o figurino. Tendo isso em mente, no domingo eu fui esquiar.
Fui com os outros alunos internacionais, mais uma vez naquele ônibus amarelo escolar (que é uma graça, mas aperta meus joelhos). Metade de nós nunca tinha subido em esquis na vida, outra metade sabia o que estava fazendo. Um amigo meu me perguntou se eu era boa nisso, tive que lembrá-lo que lá de onde eu venho não tem neve. Aliás, não tem nem morro; então mesmo que tivesse neve...
Eu estava apavorada, na verdade. Eu ainda caio andando pelo menos uma vez por semana. Imagina em cima de esquis!
Mas como manda o figurino...
Coloquei as botas pesadas de esqui. E subi nele. E logo percebi que não conseguia pará-lo, quando me estatelei na neve e derrubei uma outra garota junto.
Mas eu não ia desistir de primeira, né?
Estava nevando e ventando muito, mas ainda assim eu suei.
E caí uma penca de vezes em diversas posições. O esqui pesa horrores e me ajeitar para não torcer nada exigiu muita flexibilidade.
Se teve uma coisa que eu aprendi foi a tirar os esquis e colocá-los de novo.
Eu caí subindo o morrinho de treinamento, segurando a linha que nos levava lá pra cima. Mais de uma vez. E na segunda vez o operador simplesmente não parou o aparelho e de repente todo mundo caiu atrás de mim, que nem dominó. Eu caí tentando esquiar. E quando eu finalmente arranjei coragem para subir no teleférico que levava ao morro maior, eu tive que respirar fundo e me lembrar que um engenheiro tinha projetado aquilo e pensado em todas as forças atuantes - o meu peso, os dos esquis, dos outros bancos, o vento - e que as medidas, mesmo em pés, tinham sido todas tomadas e então que nada ia bater nem cair. Fazia tempo que eu não lembrava o quando tenho medo de altura.
Foi só aí que eu me dei conta do quanto eu estava com medo de verdade. E que em parte era por isso que eu não estava conseguindo esquiar - sempre que eu começava a ganhar velocidade, a esquiar de fato, eu ficava apavorada e não caia - me jogava. Eu estava com tanto medo de cair que estava me jogando no chão.
Se fosse um filme, a partir daí eu viraria uma esquiadora nata. Na vida real, estava tarde e meus braços estavam doendo, e eu continuava apavorada. Mas perceber que eu estava me sabotando me fez pensar que eu tenho que perder de uma vez essa  mania de "não vou conseguir" que tenho com algumas coisas. Porque todo mundo estava caindo, e cair faz parte. Porque talvez eu não conseguisse mesmo; mas eu precisava acreditar para tentar!
Antes de ir embora, consegui descer esquiando um pedaço um pouco maior. Mas o fato de eu ter que ficar repetindo para mim mesma que eu não deveria ficar apavorada fez eu decidir que esquiar não é mesmo pra mim - nem tanto por não conseguir; mas neve e árvores passando depressa não me são uma boa combinação. Agora já posso dizer que uma vez eu já esquiei, e já me é o suficiente.
Isso e não me jogar mais no chão.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Grama


Conforme o prometido pela previsão do tempo, semana passada esquentou. E Fargo como eu conheço começou a derreter. E uma nova Fargo começou a se descobrir.
Num dia, pedrinhas. Quem diria que ali tinha pedrinhas? E então: GRAMA! Fazia seis semanas que eu não via grama. E de repente decobri que Fargo é cheia de gramadinhos.
A parte ruim disso tudo é a lama. Água não evapora a seis graus (sim, chegou a seis graus!!! Positivos!!!), e toda aquela neve tem que ir para algum lugar. E esse lugar pode ser o chão de grama, mas às vezes é a rua mesmo. Minha bota de neve branca ("botinha de astronauta", segundo um amigo) está marrom. Mas quem se importa, se tem até esquilos de novo?


As pessoas começaram a sair sem os casacões pesados. Minhas roomates perguntaram por que eu ainda estava com aquilo; e deve dizer que na hora do almoço de três dias, e depois em um dia inteiro, senti que ele era demais. Mesmo aberto, sem gorro nem luva nem cachecol. Mas eu tenho medo demais do frio para me atrever.
Já quem nasceu e se criou aqui... Meninos de bermuda e camiseta, a três graus. E alguns segurando o agasalho, como que dizendo "por que raios eu sai com isso?"
Esse povo morreria em Belém do Pará.

Tudo bom, tudo lindo. Por quatro dias inteiros. E então começou a esfriar de novo. E então eu senti que precisava do meu casaco, gorro e cachecol. E da outra blusa de lã por baixo. Aí hoje eu acordei e vi o estacionamento de novo assim pela janela:


Tudo branco, mais uma vez. Neve combrindo o carro, mais uma vez... E neve passando pela gente quase na horizontal de tanto vento.
Minha roomate disse que ficou feliz de hoje não ter aula, porque ela certamente não iria.
Estou pensando como vou arrumar coragem mais tarde para ir almoçar...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pelada

Sexta-feira sorteamos na minha aula de public speaking (oratória) a ordem dos nossos segundos speechs (discursos), que serão segunda, quarta ou sexta da semana que começa amanhã. Claro que eu peguei o número 3. E, como ninguém pegou o número 1, serei a segunda. Ai.
A partir de agora teremos um dress code (código de vestimenta).
- Como é? - Perguntei a meu professor.
- Simples. Nada de jeans, camisetas ou roupas justas.
Putz.
Revisão mental de todas as roupas que tenho aqui em Fargo.
É. Apenas jeans, camisetas e roupas justas. E casacos gigantes e moletons.
Sabe, esse é um dos motivos pelo qual as pessoas vivem achando que eu tenho menos do que meus 22 anos. Porque eu me visto como uma moleca.
Ok. Havia 3 soluções possíveis para o problema:
1 - Deixar quieto e perder os pontos de vestimenta, que nem são muitos mesmo;
2 - Pedir roupas emprestadas. Uma das minhas roomates parece ter quadris do tamanho dos meus...
3 - Ir às compras.
Claro que escolhi a número 3. Porque, apesar de me vestir como um moleca, eu adoro roupas. Tenho milhares das minhas camisetas estampadas e coloridas.
Logo que cheguei a Fargo usando o casaco do meu pai e botas de soldado, uma amiga do meu pai me levou para comprar roupas quentinhas. Primeiro ao shopping, e shoppings são iguais em qualquer lugar do mundo (na verdade, o de Fargo é pequenininho). E depois ao Savers.
O que é o Savers?
Um dos lugares dos meus sonhos. Um brechó gigante que doa parte dos lucros para caridade e vende roupas absurdamente baratas. Com menos de 40 dolares comprei dois casacões de frio, um suéter, dois gorros, cachecol e luvas.
Aí hoje descobri o caminho do ônibus e fui lá atrás das minhas roupas de mulher crescida.
Uau.
Foram três horas escolhendo e experimentando muitas coisas que não eram o que eu estava procurando. Como eu me diverti.
E uma das coisas que vi foi um sobretudo preto. Lindo. Corte perfeito, acinturado gola em v. Botões bonitos. Exatamente do meu tamanho, eu fiquei maravilhosa nele.
Mais como era pesado!
Eu estava diante do espelho quando me deu o estalo: "isso é pele de verdade?"
Era.
Meu Deus.
Mulheres contra casacos de pele nunca experimentaram um. Como eu estava bonita lá dentro!
Ai.
Eu sou uma onívora convícta. Mas casaco de pele? Matar bichinhos para fazer roupa? Não é necessário...
(Vegetarianos argumentariam que comer carne também não. Mas para mim é o ciclo da vida, biologia...)
Eu uso couro...
Mas pele? Ah, parece tão errado usar pele! Eu nunca me informei direito, nunca refleti a respeito; me criei nos trópicos, para que eu ia querer um casaco de pele?
Estava tão elegante. Tão mulher.
E estava tão barato!!!
Não.
Não preciso de um casaco de pele. Não tenho opnião formada, não quero me arrepender. Eu já mato bichinhos demais.
(Sem falar que não posso simplesmente jogá-lo na máquina de lavar...)
Deixei o casaco e fui.
Refletir sobre consumismo destrói a consciência da gente.

PS: Comprei minhas roupas de mulher adulta. No plural; vão ter outras apresentações... E eu estava tão tão lá dentro! E comprei outras coisinhas também...

PS2: As calças jeans estavam em promoção e resolvi experimentá-las. Mais uma vez eu não fazia ideia do meu número americano (tinha visto na minha agenda, mas ele estava errado para sapatos, daí achei que estivesse para calças também), então simplesmente escolhi no olhômetro. Qual não foi a minha surpresa ao chegar no provador e ver que tinha pego calças maiores do que eu! Eu me vejo maior do que realmente sou? Ou simplesmente não estou acostumada a pegar um tamanho intermediário, em vez de o maior da loja? Americanos vendem roupas enormes...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Olha só que positivo:

Sexta-feira passada completou um mês que cheguei aqui em Fargo. E hoje, pela primeira vez, meu gadget de temperatura previu uma máxima acima de zero!!! Será sábado, depois de 39 dias negativos (ou no máximo no zero).


Talvez o inverno esteja mesmo começando a ir embora. Embora eu já saiba que aqui a temperatura fica subindo e abaixando...
Nunca na minha vida achei que fosse dizer isso, mas 0C é uma delícia depois que você teve que sair 7h da manhã a -30C.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Homesick

Todo lusófono com o mínimo de orgulho linguístico vangloria-se da palavra saudade. Aqui aprendi que, mesmo com pouquíssimas conjugações verbais e uma estrutura rígida que só serve para dar graça ao Yoda, em inglês há também sentimentos.
Homesick.
Uma daquelas palavras exatas, sabe?
Sim, estou doente por casa.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Eu realmente não sei o que esses americanos fazem, mas ontem eu comi o primeiro peito de frango gorduroso da minha vida. E ele nem estava frito.
De verdade, estou com medo da balança. E do espelho.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Paraense não consegue ficar muito tempo longe da Joelma...

Salão de beleza na universidade




(Sim, eu sei que antes de existir a banda calyyyyyyyyyyyypsoooooooo havia a lenda grega...)

Desculpa, EUA (I´m having the time of my life)

Ontem, apesar da tosse chata que insiste e não passar apesar de eu estar tomando direitinho o remédio que minha mãe me fez trazer de Belém pro caso de adoecer (mãe sabe das coisas; mãe médica, mais ainda...), emendei a Pink House com a casa de um africano convidada por coreanos e com carona de uma americana que depois eu descobri que mora no meu dormitório. Éramos 4 continenetes sentados no carpete bebendo e comendo pizza. E depois fui a um pub e me diverti por demais (e todos estavam com roupas!)  e quando a festa acabou 2h da manhã eu realmente lamentei e andei um bom pedaço de rua sem casaco a uns -3C, porque estava pingando de suor. E emendamos pra casa de outro coreano e ontem só acabou hoje de manhã.
Desculpa pelos posts anteriores, EUA. Eu realmente gosto de você.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Os doces estudantes de engenharia americanos

Estou fazendo uma disciplina de laboratório, e nesta semana foi meu primeiro experimento. Numa sala com 14 alunos onde eu era a única garota.
Sobrei na formação dos grupos, o que não era nada além do esperado quando se é novata, ok. Aí fui ao grupo que precisava de um integrante, e o professor chegou para explicar o que teriamos que fazer e ninguém se apresentou.
Repetição enfática: não sei o nome dos meus companheiros de grupo.
Aí eles calados tomaram as medidas ignorando solenemente a minha presença apesar de eu perguntar.
- Vamos nos reunir amanha na salinha de computação pra fazer o trabalho. - um deles disse.
- Onde é a salinha de computação? - Perguntei.
- Lá em cima.
Claro, porque o prédio é pequeno e lá em cima é uma indicação óbvia, muito obrigada.
Aí hoje passei um tempão em uma sala de computadores até me dar conta que era a errada. E quando cheguei na certa eles já tinham dividido quem faria o quê. O menino falava baixo e pra dentro e era muito difícil entender. Me senti muito tapada pedindo pra ele repetir.
5 minutos depois de chegar, eles me disseram que eu podia ir embora.
Nada como se sentir acolhida...