Lá pelo meio de maio eu vou fazer mais uma vez a minha mala enorme (que provavelmente terá virado duas até lá) e voltar para o Brasil. E depois que isso acontecer, eu não sei quando vou ver neve de novo na minha vida.
(Dizem que vou deixar de ver neve antes de voltar, porque o clima vai mudar aqui em Fargo e ela vai derreter. Eu realmente quero acreditar nisso; mas está difícil, quando olho para fora e tudo está cada dia mais branco em pleno final de fevereiro).
Assim sendo, tenho que viver a neve intensamente e fazer tudo o que manda o figurino. Tendo isso em mente, no domingo eu fui esquiar.
Fui com os outros alunos internacionais, mais uma vez naquele ônibus amarelo escolar (que é uma graça, mas aperta meus joelhos). Metade de nós nunca tinha subido em esquis na vida, outra metade sabia o que estava fazendo. Um amigo meu me perguntou se eu era boa nisso, tive que lembrá-lo que lá de onde eu venho não tem neve. Aliás, não tem nem morro; então mesmo que tivesse neve...
Eu estava apavorada, na verdade. Eu ainda caio andando pelo menos uma vez por semana. Imagina em cima de esquis!
Mas como manda o figurino...
Coloquei as botas pesadas de esqui. E subi nele. E logo percebi que não conseguia pará-lo, quando me estatelei na neve e derrubei uma outra garota junto.
Mas eu não ia desistir de primeira, né?
Estava nevando e ventando muito, mas ainda assim eu suei.
E caí uma penca de vezes em diversas posições. O esqui pesa horrores e me ajeitar para não torcer nada exigiu muita flexibilidade.
Se teve uma coisa que eu aprendi foi a tirar os esquis e colocá-los de novo.
Eu caí subindo o morrinho de treinamento, segurando a linha que nos levava lá pra cima. Mais de uma vez. E na segunda vez o operador simplesmente não parou o aparelho e de repente todo mundo caiu atrás de mim, que nem dominó. Eu caí tentando esquiar. E quando eu finalmente arranjei coragem para subir no teleférico que levava ao morro maior, eu tive que respirar fundo e me lembrar que um engenheiro tinha projetado aquilo e pensado em todas as forças atuantes - o meu peso, os dos esquis, dos outros bancos, o vento - e que as medidas, mesmo em pés, tinham sido todas tomadas e então que nada ia bater nem cair. Fazia tempo que eu não lembrava o quando tenho medo de altura.
Foi só aí que eu me dei conta do quanto eu estava com medo de verdade. E que em parte era por isso que eu não estava conseguindo esquiar - sempre que eu começava a ganhar velocidade, a esquiar de fato, eu ficava apavorada e não caia - me jogava. Eu estava com tanto medo de cair que estava me jogando no chão.
Se fosse um filme, a partir daí eu viraria uma esquiadora nata. Na vida real, estava tarde e meus braços estavam doendo, e eu continuava apavorada. Mas perceber que eu estava me sabotando me fez pensar que eu tenho que perder de uma vez essa mania de "não vou conseguir" que tenho com algumas coisas. Porque todo mundo estava caindo, e cair faz parte. Porque talvez eu não conseguisse mesmo; mas eu precisava acreditar para tentar!
Antes de ir embora, consegui descer esquiando um pedaço um pouco maior. Mas o fato de eu ter que ficar repetindo para mim mesma que eu não deveria ficar apavorada fez eu decidir que esquiar não é mesmo pra mim - nem tanto por não conseguir; mas neve e árvores passando depressa não me são uma boa combinação. Agora já posso dizer que uma vez eu já esquiei, e já me é o suficiente.
Isso e não me jogar mais no chão.
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