segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Dezembro

Vir para o norte no fim de ano me deixa ainda mais sentimental.
Deus não tem barba, não cultuo virgindade. E minha Belém...
Fui aos céus, do azul para o preto. São tantos aviões e tantas horas. É até outro fuso-horário. As pessoas do sul e sudeste não entendem quando me digo estrangeira.
- Eu conheço alguém de Belém... - Isso alguém sempre diz. Minha teoria é que é porque paraense não consegue manter um dialogo de mais de vinte minutos sem falar da terrinha.
Já faz quase uma década da minha primeira volta. Esperava o familiar bafo quente da madrugada, mas só veio nuvem.
No inverno da minha Belém só chove.
Chove como aquela música do Tom Zé: "Menina, amanhã de manhã/ quando a gente acordar/quero te dizer que a felicidade vai/desabar sobre os homens vai..."

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sobre o final de semana que passei ajudando a construir uma casa em uma aldeia Guarani

Tem amigo que te convida pro bar. A Júlia também, mas só nos dias de tédio. A gente se conheceu no coletivo de mulheres da engenharia da UFSC, e desde então já fomos: 1) discutir revolução brasileira com possível candidato à presidência; 2) tentar ajudar a reerguer movimento social que luta por mobilidade urbana; 3) tentar fundar coletivo de esquerda nas exatas; 4) passear com cachorro, comer no RU e pra bar e festinha, porque afinal somos universitárias.
Pois bem.
Era quinta, tínhamos saído de um picnic do coletivo e estávamos sentadas na grama da universidade, aproveitando essa coisa maravilhosa que é o sol, quando ela me diz:
- Vou passar esse final de semana em uma aldeia guarani, em um rolê de bioconstrução. Quer ir junto?
E é óbvio que eu disse sim.
E foi assim que fui parar na aldeia Piraí, perto de Joinville.



Eu e mais oito pessoas chegamos na aldeia sábado de manhã. Quem tinha feito o convite à Júlia tinha sido a Nat, uma bióloga carioca que passou o último ano morando com os guaranis, dando aula na escola de lá.
- O que você aprendeu de mais importante nessa experiência? - Alguém perguntou dada hora.
- É difícil dizer. - ela disse. - Sinto que tudo ainda vai reverberar em mim por muitos anos. Mas acho que o que fica mais forte é a noção do privilégio branco, todas as coisas que para mim são comuns e aqui não são. A gente não tem ideia, não tem ideia. E que o ritmo da cidade vicia.


A aldeia me era estranhamente familiar, como estar em uma vila do interior do Pará. O chão de terra e as casas de pau a pique, madeira ou tijolo sem tintura me lembravam a vizinhança do sítio do meu finado bisavô. As casas não tem banheiro, mas há alguns coletivos  espalhados pela aldeia. Os traços indígenas me são tão caseiros; e eles escutavam bregas que eu ouvia na infância/adolescência. Foi uma surpresa ouvir tecnobrega em uma aldeia indígena em Santa Catarina; e a Laís, a moça de Sergipe que nos deu carona reconheceu mais músicas que eu.


Na aldeia moram cerca de 300 pessoas distribuídas em 25 famílias. O cacique me disse que o que eles mais precisam é que a terra deles seja demarcada - gostariam de poder viver de agricultura e caça, e não da venda de artesanato nas cidades e doações da FUNAI.
- A terra nos dá tudo: planta, quati, capivara. Quati foi o primeiro animal que Nhanderu nos deu pra comer. Hoje temos que ir no supermercado comprar carne e frango...
Eles criam galinhas e patos. Fiquei chocada de ver galinhas empoleiradas em árvores realmente altas, me perguntei como bichos que não voam chegaram ali. Além disso, há muitos cachorros e gatos pela aldeia - vários são abandonados pelas redondezas, e, como não há controle, eles proliferam. Não há a relação de pet, o que talvez seja até uma questão de saúde porque muitos bichos parecem bem doentes; mas eles recebem restos de comida e algumas crianças brincam com eles.




Logo que chegamos fomos tomar café na escolinha, que à noite também foi onde alguns de nós montamos acampamento. Levamos pães, biscoitos, frutas e outras coisas para dividir; e comemos chipá (não confundir com as chipas paraguaias, que são parecidas com pães de queijo e tem a sílaba tônica diferente), uma receita típica guarani que na verdade é bem nova - uma adaptação do original mbju, feito com farinha de trigo em vez de farinha de milho. A farinha de trigo chega nas aldeias junto com as cestas básicas doadas pela FUNAI. O mbju é assado, já o chipá é frito, como uma massa de pastel. Os guaranis comem chipá com coisas salgadas, tipo feijão; já nós, brancos, colocamos melado e outras coisas doces. Pensei no resto do Brasil colocando leite em pó e granola no açaí.
Chamaram-me a atenção o texto em guarani na porta da geladeira (um versículo da Bíblia, explicaram-me depois), os trabalhos nas paredes e a linha histórica correta na frente dos livros, desde a invasão portuguesa em 1500.



Juruá, é como eles chamam os brancos. Juruá, é o que sou.
Os indígenas que nos receberam disseram palavras muito simpáticas, com seu português com forte sotaque guarani. Perguntei se era o mesmo guarani que se fala no Paraguai, mas me disseram que não - os guaranis da aldeia Piraí são Guaranis Mbya, que não são os mesmos do Paraguai. Por outro lado, são os mesmos de várias aldeias dos arredores, e eles costumam se mudar - o Cacique Ronaldo, por exemplo, contou que nasceu no Rio Grande do Sul; e o Gabriel, um dos guaranis que acompanhou a gente, é da Argentina.
- Essas divisões foram inventados por Juruá. - Nos disse o Cacique na noite seguinte, na Casa de Reza. - Brasil, Argentina, Paraguai. Nada disso existe. O que existe é a terra. Juruá chegou, chamou de Brasil, inventou bandeira. O que é uma bandeira? Algo que você toca fogo e destrói tão rápido. Nossa bandeira é o chão, a terra, algo que não vão conseguir destruir.
A terra. Nessa mesma noite, a Tainara, uma menina de uns dez ou doze anos, tinha me mostrado os trabalhos que eles faziam nas aulas de artes. Ela e a melhor amiga tinham desenhado a terra coberta de muitas árvores e rios e algumas casas esparsas. Ela tinha me explicado que aquela era a bandeira Guarani.


Todos os guaranis tem nomes em português, porque tem que ser registrados ao nascer. As mulheres grávidas continuam trabalhando normalmente até dar a luz, porque as crianças são vistas como continuação dos pais e uma mãe em repouso geraria um filho preguiçoso. O nome verdadeiro os bebês ganham em uma cerimônia de "batismo" ("batismo" é como chamamos nós que somos juruás, o cacique me explicou que várias palavras do guarani não tem equivalentes em português e mesmo a Nat, que aprendeu um pouco de guarani morando na aldeia, disse que a língua é muito mais sentida do que explicada. Li num dos livros guaranis que, por ser apenas falada, a língua não tem escrita unificada), que ocorre uma vez por ano. Nela o pajé olha a criança e fica sabendo quem ela realmente é, e é assim que ela recebe seu nome - não como algo escolhido, mas algo que ela é, e que guiará sua criação e seu futuro.


Nós juruás e alguns guaranis passamos os dias construindo uma casa para pesca à beira do açude; uma estrutura que fizesse sombra, mas sem paredes. E quando eu falo construindo, quero dizer construindo mesmo: começamos entrando na floresta para cortar os troncos, que trouxemos carregando nos ombros por trilhas com trechos íngremes e escorregadios (troncos são pesados e demorei para aprender a encaixar o tronco na dobrinha do pescoço e no ponto certo para o transporte ser mais questão de jeito do que de força, e por isso e porque sou menina da cidade ainda hoje meus ombros estão um pouco doloridos, e eu só carreguei troncos no sábado. Tenho um roxo nas pernas pelas duas quedas, também). Buracos foram feitos no chão para fincar os troncos, e o resto da estrutura da casa foi moldada pregando as madeiras. Esse foi o primeiro dia.








No segundo dia, um dos guaranis subiu em palmeiras para cortar folhas verdes (as secas não servem), e coube a nós desfiar as folhas do jeito certo para prepará-las para serem o telhado da casa (e foi assim que eu, menina da cidade, ganhei muitos calos nas mãos). Havia algumas telhas de barro resto de uma construção, assim a casa ficou mista - metade com teto de palha amarrado com cipós e metade com teto de telha.


Troncos de bambu foram cortados para fazer o trançado que segura o barro das paredes. E então a parte mais divertida, o barro; feito apenas cavando terra do chão, jogando água e pisando para a mistura ficar homogênea.
- Isso pedia uma música. - eu comentei, pisando forte em círculos e com lama até nos recantos mais escondidos da alma.
- Existem músicas guaranis pra isso, mas eu não sei cantar. - Disse a Júlia. - Acho que o coco do nordeste é pra isso também.
- Eu não sei cantar coco, mas posso cantar carimbó lá do Pará. Não é pra isso, mas pelo menos é animado...
E assim ficamos pisando enquanto eu desafinava no "embarca morena embarca/molha o pé mas não molha a meia"...
Por fim, colocamos o barro no trançado de bambu. Eram 19h, a casa estava pronta pra secar e eu só pensava que quem inventou a história dos três porquinhos nunca fez uma casa na vida; e lembrei de quando eu era criança e brincava com os tijolos no quintal da minha avó.


 


No final do primeiro dia fomos tomar banho num rio que ficava "logo ali", do outro lado da estrada, depois de algum mato e uma ribanceira. Lá de onde eu venho os rios ficam em planos; e meu medo de altura torna todas as subidas e decidas pequenas aventuras. Havia também a proposta de um futebol, mas, apesar do sol estar se pondo depois das 20h, não houve tempo; porque o tempo da aldeia é outro.


Nas duas noites que passei lá fomos à Casa de Reza, uma grande construção de pau a pique sem janelas onde a comunidade se reúne todo fim de dia. Eu me sentia exausta do sol e construção e pequenos machucados. Havia cheiro da fumaça do cachimbo e fiquei descalça no chão de terra batida.
A aldeia estava bastante esvaziada porque vários indígenas estavam viajando para outras aldeias. Ainda assim, na primeira noite um indígena albino que estuda na UFSC fez um pequeno discurso, pedindo desculpas pelo seu português. Depois as crianças chamaram nós juruás para dançar. Havia uma musiquinha em guarani e alguns passos ritmados, e depois ficamos em círculos no que parecia uma brincadeira. Um dos meninos passava com o chocalho e tínhamos que pulá-lo, depois passar por baixo. Um a um, fomos chamados para o centro da roda, num desafio de se encarar e saltar. Tivemos que saltar um menino abaixado. E, por fim, ficar pulando em roda feito sapinho. A dança terminou e eu fui sentar suada e feliz pensando que todo rito religioso devia ser assim. Só então explicaram que essa era a versão mirim da dança do guerreiro, feita para treinar. Lembrei de um comentário feito pelo meu namorado há algumas semanas:
- O catolicismo é uma religião que desconecta as pessoas de seus corpos. Toda religião tem algo de físico. Veja as filosofias orientais, ligadas a artes marciais e a modos de vida. Faz muito mais sentido.
Ali, no meio dos guaranis, pensei em todo o meu sangue apagado; "Weyl" parece tão metido, mas não sei qual nome é de fato meu. No mato, divindades ancestrais parecem fazer mais sentido - a pedra não é uma representação de deus; a pedra É deus.
A bandeira dos guaranis é a terra; sinto-me tão desconectada do meu corpo, eu preciso me aterrar.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Melhores Posts - Ano Dez

~ Enfim, com algum atraso, concluo a comemoração pelos  dez anos do Riscos e apresento meus melhores posts entre 20 de julho de 2016 e 19 de julho de 2017. Por serem posts mais recentes, essa foi uma lista mais difícil de ser feita - ainda tenho muitas das emoções em mim e não consigo avaliar os textos com distanciamento. 

Devo dizer que o processo de organizar o Riscos foi muito bom - reler dez anos de textos me permitiu ver as mudanças na minha escrita, e me motiva a continuar postando (eu tinha escrito "me motiva a continuar escrevendo; mas escrever me é como respirar). Sem dúvida isso e a frequência dos posts é algo que levo de mudança positiva de 2017, e fico feliz de ver que tem mais gente vindo aqui também. Um dos objetivos dessa organização toda era descobrir sobre o afinal que são os meus textos, e hoje posso afirmar que agora sei: tenho uma escrita autobiográfica, e falando sobre mim acho que falo sobre o mundo. É pessoal, mas quero que seja cada vez mais público.

Obrigada a todas e todos que me apoiam. O Riscos existe por vocês. E vai continuar sempre crescendo, um post por semana às segundas; e agora uma coletânea de melhores posts em cada aniversário.

Boa leitura :)

PS: Ano passado eu fiz meu mochilão, e considero que esses posts são um livro. Para eles não monopolizarem a lista, ganharam uma categoria própria, hors concours.


Links dos melhores Posts:





Link das Menção honrosas






segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O que morar em uma cidade de praia está me ensinando sobre a vida

1


Em uma audiência pública com o antigo reitor (aquele que se matou) sobre os cortes do CNPq, houve um aluno - não me lembro quem - que fez uma daquelas falas que eu vou levar pra vida:
- Nós estamos aqui vendo um daqueles casos muito graves em que falamos de situações geradas por seres humanos como se fossem eventos da natureza. "Houve cortes em educação e tecnologia" como se fosse "vai chover amanhã". Enquanto humanidade, não temos controle sobre a chuva. Mas sob as alocação das verbas destinadas para a nossa universidade nós deveríamos ter. Não é uma catástrofe natural.

2

A combinação de final de semestre letivo e dias de sol me faz pensar que ritos acadêmicos só fazem sentido em prédios centenários de cidades cinzentas.
Já trabalhei por dias cinzentos demais.
Provas semana que vem podem esperar.
Hoje eu vou à praia.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Por motivo de: estou surtando na universidade em final de bimestre, a lista dos melhores posts do décimo ano do Riscos será postada apenas sexta que vem, dia 08/12. Agradeço a compreensão :)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Compilação (ou: papo político do final de semana)

Eu disse que o feminismo abriu meus olhos para as desigualdades do mundo e me trouxe para outras lutas. Ele disse que entende, mas que a transição tem que ser rápida. Que a luta contra opressões é pequena e tira o foco. Ele disse que temos que focar em lutas mais universais.
E eu só consigo pensar que privilégio dos caralhos é ser definido como universo. Tudo tido como universal diz respeito a essa masculinidade branca.
Eu não estou dizendo que não há outras lutas. Se estou aqui é porque também quero lutar essa que você está falando agora. Quem disse que não há outras lutas foi você, ao dizer que a minha luta feminista não importa. Eu acredito em somar forças.
Feminismos são plurais e discordamos entre a gente. Eu por exemplo quero distância da transfobia; acho que quem tem que decidir sobre regulamentação da prostituição são as prostitutas e o que elas disserem eu apoio; e acho que a gente tem que ficar atenta o tempo todo para nossa luta não terminar virando apenas merchandising de batom. Não quero lutar para mulheres terem apenas o direito de explorar outras mulheres.
Mas aí você me diz que não precisa discutir feminismo ou lgbtfobia ou negritude. Que a igualdade virá naturalmente com a queda do capital. Do mesmo jeito que cota pra você é tiro no pé, porque é aceitar a meritocracia. "Ensino superior devia ser universal", você me diz. E eu concordo, mas é fácil concordar quando vim de uma família classe média e já estou no doutorado. Pra mim já é universal, já é meu universo. Quero ver concordar com 18 anos e nehuma perspectiva. Você diz que a gente não pode abrir mão de nada e possivelmente me chama de reformista. Eu acho que seus ideais de esquerda são tão estáticos que quase casam com a direita. Eu quero ensino superior para todos, mas enquanto eu não consigo isso eu vou lutar o que eu puder pra colocar mais pobre e preto na minha redoma de marfim universitária e comemorar cada cota aprovada.  
Minha amiga estava lendo um livro sobre veganismo e exploração. Sobre como a exploração animal certamente seria reproduzida contra trabalhadores se não houvesse regulamentação e luta. Então ficar calada contra os abusos que sofro por ser mulher é me colocar na mesma posição de vulnerabilidade que uma vaca, sem conseguir me expressar e esperando que os homens percebam que estão errados e parem.
Já encontrei esquerdomacho demais nessa vida pra acreditar no conto do revolucionário desconstruído. Eu fui até na casa do Che que transformaram em museu. O cara era foda, mesmo. E um pai de merda.
Estou discordando de quase tudo o que você diz, mas devo dizer que estou aprendendo com essas discordâncias, obrigada. Não sei se volto, sabe como é, domingo; e verão pede praia e tenho livros pra por em dia. Mas eu nunca tinha ouvido ninguém falar essas coisas, olha. Não em voz alta. É antropologicamente fascinante. O que me irritou de verdade foi seu atraso. Guardemos nosso amor para pessoas e continuemos a discutir ideias e unir forças onde houver consensos. O problema da esquerda é que discordância ideológica vira ódio pessoal e picuinha. E a gente precisa de gente pra pintar papel pardo, ocupar espaços e emprestar isqueiro e vinagre.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Flerte universitário

Escolher um curso universitário traz a fantasia de ter escolhido o conjugue num encontro às escuras.
A universidade faz do conjugue a pessoa mais chata do mundo.
A universidade sistematiza o conhecimento e o apresenta a mim como um catálogo.
Aprender apenas a reproduzir é como aprender apenas a reproduzir é como aprender apenas a reproduzir é.
A universidade destrói o tesão pelo conhecimento porque dá aos estudantes apenas os pedaços dos cadáveres dissecados e lhes exige um Frankstein.
Eu não quero mais costurar entediada pedaços de cadáveres de ideias e fingir que aquele morto-vivo tem algo do meu sangue. Nunca quis.
O conhecimento, senhoras e senhores, não é um cadáver. Ele está muitíssimo vivo. Seu sangue pulsa, e ele é sexy.
Você não vai estudar o amor da sua vida obcecado em responder perguntas que já tem resposta trancado numa sala por 2h sem consulta.
É o amor da sua vida.
Não importa quem já o descobriu antes. Não somos esse tipo de puritano. O conhecimento já existia antes e somos gratos. O conhecimento irá dormir com a cidade inteira e é isso que quero. Mas queremos também desnudá-lo com toda atenção e cuidado.
Todos os conhecimentos passeiam distraídos indo a bancos e a festas e deitados na grama num dia de sol.
Nos encontramos pela primeira vez.
Quero olhar o conhecimento nos olhos e quase enrubescer ao me dar conta que estou diante da questão mais fascinante de todo o universo - viva, pulsante e misteriosa; e não um membro pálido e disforme de algo que já foi.
Eu a desejo!
Quero aquela paixão quase obsessiva.
O conhecimento é desconhecido e  belo e quero pensar nele 24h por dia.
Quero descobrir como abordá-lo. Como começar a conversa. Como descobri-lo.Como chamá-lo prum café.
Quero fazer mil perguntas e fotos dele com o ex não vão me responder.
Quero fazer mais mil perguntas até vê-lo como ninguém nunca viu.
Aquela pinta.
Quero decifrá-lo antes de despi-lo, entendê-lo e absorvê-lo em cada célula de mim.
Quero ter um filho do conhecimento; quero conhecê-lo tão a fundo que minha alma gerou dele algo nosso, algo novo. Algo que a universidade não esquartejará. Algo que encontrará inteiro seu lugar no mundo e eu procurarei outro conhecimento para me apaixonar.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O dia em que descobri que não precisava gostar de todas as pessoas

A amabilidade é uma daquelas características ditas femininas; e uma das quais tenho mais dificuldade de me livrar do peso.

(Características ditas femininas são como depilação:
1) algo que aprendemos desde cedo que é bonito e correto;
2) algo que muitas vezes vai contra nossa natureza e que só pode ser alcançado com dor e/ou despesa;
3) algo que seremos julgadas por não cumprir;
4) algo que podemos optar por seguir mesmo sabendo de tudo isso. Desde que sabendo que se pode desistir)

Pois enfim.

E queria dizer só coisas boas das pessoas. O mal eu sabia que existia; mas estava distante como links. Do mal eu falava, mas não dos maus. Não sou Deus para julgar os maus, mas me julguei Deus para amar.
Fracassei.
O que eu mais gosto é de ouvir histórias e de abraços. A casa era como um parquinho de jardim-de-infância, e desenhei solidão com giz de cera.

Ele construiu ao redor de si um fosso de silêncio e eu cai. Eu dizia que não, mas queria ser que nem aquelas modelos da revista, aquela indiferença tão cool. 

...

Não é mau, não precisa ser para eu desgostar. Não farei mal, não preciso me justificar.

ENTÃO EU QUIS GRITAR.

Enfim descobri que não preciso gostar de todas as pessoas, e agora posso ser amável como uma metralhadora:
-Não gosto dele. - Disse, em voz alta.

E então ele tornou-se uma cadeira qualquer e não estou mais com medo que a música pare e eu saia da festa porque fiquei em pé.
Eu gosto é de dançar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Post da semana: Día de Los Muertos, um poema lá no Talvez Fosse Amor.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Melhores Posts - Ano Nove

~ Penúltimo post da comemoração pelos  dez anos do Riscos; orgulhosamente apresento meus posts favoritos entre 20 de julho de 2015 e 19 de julho de 2016. A lista é gigantesca porque eu gosto de muitos posts e espero que vocês também :)

Links dos melhores Posts:

Sobre Cotijuba e manas

Sobre muiraquitãs e morte

"A morte é a melhor conselheira"

Educação

Aprendizado

Tudo mais que eu trouxe da Bahia

Portaria

Liberal

[Sem título 3]

Das despedidas

Melhor

Cerca

Das pequenas ironias

Música

Sobre ajudar a amiga arte-terapeuta na mudança

Coisas de mãe

Sobre trabalho e brigadeiro de nutella

"Qualquer coisa eu te aviso"

Eu lidando com meus problemas

Bateu na porta é missão

Militância amorzinho

Nós

Multa

[Sem título 4]

~ todos os textos de fevereiro, que são causos de quando morei no Paraguai

Depois de tanto tempo

Lições que aprendi nesses dois anos e meio de solteira

Sobre ideais, métodos e caráter

Algumas conversas sobre o dia da mulher

Como alegrar uma galinha branca

Medos

Medos (texto expandido)

Fotopost e alguns causos: Amsterdã e Praga

Ansiedade




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Chuva

Se tivessem me dito que chovia tanto nessa cidade, eu teria repensado minhas escolhas.
Não me entenda mal, sou paraense e portanto em vez de pulmões tenho brânquias. Mas lá no Norte a chuva tem suas lógicas próprias de floresta, e conhecê-las nos torna deuses da chuva (embora em ônibus abafados com as janelas fechadas para proteger dos respingos pós-almoço). Lá a chuva tem até hora marcada, duas da tarde. 
Nem sempre tão pontual assim, verdade; não somos ingleses e Big Ben é uma rede de farmácias amarela que até onde eu sei está indo à falência. Mas é à tarde, sempre à tarde, toda tarde. Vem, desagua, ensopa e vai-se, como um amante que me possui, veste-se e volta ao lar e à esposa; deixando-me ainda nua. A chuva da tarde de Belém é rápida e intensa como uma paixão, mas sempre volta.
Temos duas estações: a que chove todo dia e a que chove o dia todo. Assim, quando chega novembro, nosso amor molhado me engole num beijo de três meses, e os cachorros de rua ficam todos cor de barro. Em julho são nossas férias mais longas e as paixões mais curtas; e as chuvas às vezes demoram três ou quatro dias para vir e os mais abastados vão pra Salinas flertar enchendo a praia de lixo e carros-som.
Gosto das chuvas do Norte porque são ritualísticas.
Aqui em Florianópolis os dias mudam de cor tão depressa que eu sempre pareço que não li o traje recomendado para a festa; short em polícia federal (que crime são nossas pernas!). Desprevenida, comprei dois guarda-chuva em umas duas semanas (e daria o troféu "empreendedor do ano" ao cara vende guarda-chuva na saída do RU). É quase novembro e ainda há noites em que durmo de moletom; e as praias da ilha ficam à distância de um temporal.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Hey, Sexy Frida! (Ou: Relato antropológico-feminista da Oktoberfest em Blumenau)

Ir à balada padrão fez inseguranças com meu corpo ressurgirem como espinhas no meu rosto. Por algum tempo incontável pela virada do horário de verão e pelos muitos choppes, pensei que nunca serei tão bonita quanto aquelas moças com cara de europeia e decote profundo. O norte dos meus genes é outro - equatorial, moreno, quente. Meus seios tem o tamanho de metades de laranja.
Tirei o sutiã de bojo antes de chegar na oktoberfest, em um banheiro de posto na estrada, depois que entraram - saídas de outro ônibus, mas aparentando ter saído de alguma fantasia masculina - umas quinze mulheres loiras padrão com roupas alemãs muito sexys. Eu estava com uma fantasia improvisada do meu guarda-roupa e o sutiã me machucava as costas. Decidi que me livraria do sutiã ao chegar em casa. Por que eu ainda tinha a droga daquele sutiã?
- Posso ver sua bolsa? - Pediu a segurança na entrada da Vila Germânica.
Abri:
- Carteira, celular, casaco, sutiã. - Falei, com medo que ela sentisse o ferrinho do bojo e achasse que fosse, sei lá, uma arma. Daí eu pensei no meu corpo e na minha auto-imagem e conclui que era uma arma mesmo, mas ela só riu.
Tinham me falado que era meio micareta; e um amigo meu, monogâmico em um relacionamento à distância, libertava sua tensão sexual cantando toda e qualquer mulher que passava "para arranjar para os amigos". Uma delas parou e riu de alguma piada que ele fez, depois disse que ia embora e ele segurou o braço dela, "vou junto". 
Segurei o braço dele:
- Deixa a moça ir. 
Ela foi, e eu virei a empata-foda da noite na rodinha masculina que eu integrava.
- Se ela parou é porque queria. - Um disse.
- Ela pode até ter quisto, mas aí ela disse que queria ir. - Respondi.
- Você não entende as mulheres daqui. - Outro.
- Vocês homens realmente querem me explicar como mulher pensa?
- Você é diferente. Você é difícil e ela é fácil. - Me disse o terceiro.
Se eu não estivesse tão frustrada de ter que ter aquela conversa, eu teria rido de ter sido chamada de difícil. Eu passaria o contato de todos os meus casos e contaria todas as minhas aventuras. Mas aí eu cairia em outra armadilha; a que me prende ao ter que provar que sou sexualmente livre; a que torna a possibilidade de pegação uma obrigação. 
- Essa conversa não vai colar comigo, amigão.
Isso foi tão cedo e meu ônibus ia embora tão tarde que eu não tive outra escolha além de encarar aquilo tudo como uma experiência antropológica e me divertir. 
Foram muitos choppes.
O rapaz que me chamou de difícil topou conversar e no fim acho que foi produtivo - a gente se conhece há tão pouco tempo e estamos tão perdidos em Floripa que precisamos no mínimo de companhia pra ir pro bar; e ele estar disposto a me ouvir contou muito. Quem sabe com o tempo ele entende que separar mulheres em categorias é de uma babaquice sem tamanho; e que não quer dizer não. Senti muita falta das minhas amigas e meus rolês alternativos; mas por ser engenheira me enfiar numa bolha é mais difícil e ajudar na desconstrução do coleguinha é uma das partes mais fundamentais dessa tal de militância. O moço é boa gente, afinal.
Observar o cara monogâmico caçando me fez valorizar meu namoro aberto. Rigorosamente falando ele não estava traindo a namorada; estava apenas aproveitando uma brecha legal no contrato de namoro - do mesmo jeito que está no tinder "para fazer amigos", ou que adiciona mulheres que acha bonitas no FB. Cada um sabe de si e da sua relação; mas se fosse comigo eu ficaria bem chateada (no mínimo) de descobrir essas coisas. Acho que a pior parte da monogâmia é fingir que desejos não existem e pra mim traição é perder confiança. Me dei conta que, muito mais do que física, a abertura que prezo é a de poder falar sobre sentimentos e sensações, e então decidir o que fazer com eles sem se privar nem machucar quem a gente ama.
Contei para os rapazes que já fui em um carnaval-pegação com uma amiga e que tinhamos um critério bem simples: você tinha um minuto para me fazer rir e não ser babaca. 
- Vocês ficariam surpresos com quantos não conseguiam. Não sendo um babaca, você já está acima da média.
- O que é ser babaca? - Perguntou o amigo de um amigo.
Contei do cara que falou que eu e minha amiga éramos bonitas demais para estarmos desprotegidas e sozinhas, e dos universitários que cantavam "pode ser gorda/pode ser feia/só não pode ser gorda e feia". Ele concordou e começou a falar sobre machismo e foi simpático e de repente eu me perguntei se ele não estava sendo simpático demais. Talvez eu tenha viajado, eu definitivamente não sei me portar em balada padrão. Sai de fininho. Estou tão cansada de sexualizar afetos!
As horas foram passando e o grupo foi se perdendo em pegação ou vômito (quem foi fazer o que foi algo que só fui descobrir na troca de mensagens do anoitecer do dia seguinte). 
- Oi, tudo bem? - Disse-me um cara.
- Tenho namorado. - Respondi.
Apenas num contexto de balada isso é um diálogo que faz sentido, e não devia.
Vi casais de caras se formando e pensei que, pelo índice de babaquice masculina na festa, se eu tivesse ido no ânimo de pegar alguém (e eu não tinha), eu beijaria uma mina. Daí pensei que seria mega fetiche e, mais uma vez, que bosta, até nisso rola privilégio masculino.
Um cara gay apareceu meio perdido do meu lado, a banda estava boa e dançamos juntos, e foi divertido. As bandas estavam bem divertidas, eu devo dizer. Mas meu raio problematizador não se desliga, e todas aquelas referências às Fridas sexys (Frida é o nome feminino genérico) me aborreciam. Eu ainda estava chateada por ter me comparado às loiras bonitonas da estrada; eu que tenho anos de leitura feminista e sei o quanto competição feminina é contraproducente e o quanto o capitalismo lucra com as nossas inseguranças. 
Se eu estivesse mais sexy, teria medo de assédio.
Eu nunca seria tão sexy quanto elas.
Eu queria ser sexy pra aquele bando de babaca?
"Você é difícil"
Tenho medo de morrer só.
É tudo uma armadilha.
Eu me sentia inadequada.
Comi uma batata recheada, tomei meu último choppe e esperei amanhecer pensando neste texto.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sonho de criança (cuidado com o que você deseja)

Dente do siso é a prova de que juízo só serve para ser arrancado pela raíz, e então se entupir de sorvete.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Gatilho

O reitor se jogou do quarto andar do shopping. Estatelou-se como um saco de batatas, mas com sangue. Cobriram o cadáver com uma tenda para o trabalho do IML. O shopping passa bem.

A universidade está de luto por três dias. Meus amigos de laboratório alternam papos sobre causos não relacionados da graduação e o placar dos esportes do final de semana. Tenho um PDF de paper aberto na minha frente e uma caneca cheia de café como em todos os dias.

Fito as paredes.

A comissão de mobilização da pós-graduação contra os cortes do CNPq está apagando os vídeos do reitor das redes sociais. Tinha um bem engraçado que fazia memes do absurdo dele falando:
- A cobrança da pós-graduação em universidade pública não se opõe a uma universidade pública gratuita.
Ideias e pessoas são maiores que memes.

- Nós estamos do mesmo lado. - Ele nos disse na audiência pública que eu fui mês passado. Não houve consenso, mas o homem falava bem. E o vi lá, tão humano. A gente esquece isso: que está lidando com gente. Poderia ser uma versão um pouco mais a direita do meu pai. 

Ele passou uns dias preso há umas duas semanas. Acusado de obstruir investigação de desvio de verbas. Numa história meio mal contada, ou eu não me informei direito - o tal desvio vem de antes do início da gestão. Fato é que não quero ninguém morto. Se desviou, quero afastamento, dinheiro de volta, punição construtiva. E se não desviou tudo fica pior. Toda a exposição, a prisão. O que isso faz com a cabeça de alguém?

Este poderia ser um post para discutir política. Eu poderia falar sobre prisões arbitrárias, sobre julgamento midiático. Eu poderia contar que tenho R$3,90 na minha conta corrente e espero ansiosamente que o CNPq não me dê calote e minha bolsa caia essa semana; que estamos vivendo num momento de claro desmonte da ciência e educação superior pública; que a gente tem que lutar para ficar vivo enquanto universidade - um vivo metafórico. Mas eu não dou conta de metáforas agora; eu só consigo pensar nele, morto.

Estatelado como um saco de batatas, mas humano. Com família e amigos; e me dá um aperto tão grande que quero me deitar na minha cama e me enrolar em mim mesma; me enrolar ao redor do meu peito para garantir que o coração não vai sair de dentro de mim - seria tão mais fácil se saísse, coração. Comecei terapia semana passada e ela me disse que eu tenho tanta dificuldade de ser eu que me afasto de quem amo para deixá-los fora de mim.

O shopping fica há poucos minutos a pé da minha casa, e parece que nada aconteceu.

Penso no salto dele, no meu medo de altura e nas pessoas que eu amo que se cortam e andam com cordas.

Eu tenho tanto amor e medo e poderia submergir na minha xícara de café.

sábado, 30 de setembro de 2017

Melhores Posts - Ano Oito

~  Com algumas horas de atraso (por motivo de: esqueci completamente que o mês acabava hoje), orgulhosamente lhes apresento os melhores posts do oitavo ano do blog! Neste antepenúltimo post de comemoração pelos  dez anos do Riscos, apresento meus posts favoritos entre 20 de julho de 2014 e 19 de julho de 2015. Foi o ano em que criei o Talvez Fosse Amor (conto a história neste post), então tem vários posts dele na lista - muitos escritos em outros anos inclusive, mas que só tive coragem de desengavetar naquela época. Tem também vários posts do Riscos mesmo. Na verdade, acho que essa é minha lista mais longa - não consegui escolher só 10, então tem 12 melhores posts; e incríveis 20 menções honrosas. Devo dizer que fiquei feliz comigo mesma; espero que vocês gostem :D


Links dos melhores Posts:










Link das Menção honrosas






segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Borbotões

Estava aqui pensando com meus botões.
Botões de rosa desabrocham. Botões da apple são touch, assim como hoje tudo.
Seria botão de camisa, se usássemos camisas de botão. Seria aquele botão na casa errada, que desalinha todo o resto.
Quase nunca usamos camisa de botão, então isso é irrelevante. Meu desalinho não é culpa de casa.
Pensei em casas como miçangas coloridas, colares invadindo o morro como um pescoço de manequim de exposição. Morro sem cabeça, coabitam lares.
Colar eu uso, também como verbo de junção.
Minhas questões não são botões nem habitações, são hábitos. E já faz um ano que parti, e ainda não estou sequer totalmente desnuda.
Desabotoo, desabituo, encaro minhas cicatrizes e as tatuagens e o teto de casa. Tomo mais uma nota em uma tarde de sol e penso que subi mais um degrau na evolução humana e tenho pavor de altura e saudades.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Procrastinação

Mente cheia,
pia vazia.

Ideias
com cheiro
de água sanitária e pinho.

Ao menos
o branco
da tese
se espalha
nas minhas 
meias.

Estendo meias
ideias
brancas
espremo
pinga
escorre

Talvez se eu fizesse aquilo,
mas tem aquela...
aquela receita que eu nem sei pronunciar o nome, que dirá fazer.

Amanhã é só mais uma segunda
ideia e feira e página do que falta anotado

Um bolo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Estrada

Dia desses minha mãe me contou que viajou gravidíssima de mim de ônibus do Rio de Janeiro a Belém, e que mamando no peito fui também de ônibus do Rio a Salvador. Deve explicar minha naturalidade com estrada. Sou paraense nascida no Rio de Janeiro, já nasci desterrada. Sempre penso em raízes, mas talvez seja a parte errada da planta. Talvez eu seja daquelas sementes felpudas, transportadas pelo ar.
Afasto-me num espirro.

Assim sendo, este foi só mais um feriado na vida.
Seis dias. Ao todo uns mil e quinhentos quilometros. Um dia de volante. Muita cafeína. Seis caronas.

De Floripa a Curitiba foram uma moça de poucas palavras e dois rapazes: um curitibano que mora em Florianópolis e um florianopolitano que quer se mudar para Curitiba. O curitibano de shorts, tatuagem a mostra e uma flauta na mão. O florianopolitano de roupa social, indo para entrevista de emprego.
- Não aguento mais morar em Floripa. Nada muda, nada acontece. O transporte público é uma droga e a vida cultural não existe.
- Sou o único curitibano que você vai ouvir falar mal de Curitiba. Estou Sempre quis me mudar pra Floripa, acho que a Ilha me prende e não quero sair por nada. Agora vou cuidar da casa de uma amiga que é palhaça e está fazendo um curso na Itália. É uma casa maravilhosa, no meio do mato, com banheiro seco, carro não chega.

De Curitiba a São Paulo foram minha irmã, um amigo e duas moças. Eu não queria lotar carro em viagem longa porque no carnaval eu fui caronista de Floripa a São Paulo e foram dez horas em três pessoas no banco de trás com nossas mochilas no colo e um dos caras tinha um monociclo e ficou meio desconfortável; mas uma das moças insistiu:
- Minha amiga está com medo de viajar sozinha com homem.
Aí eu tive que aceitar, porque sou mulher e sei o que é esse medo de homem que aprisiona.

De São Paulo a Campinas foram outras duas moças.
- São da Unicamp? - Perguntei, porque foi minha vida de viagem Unicamp-São Paulo que me introduziu no mundo das caronas.
- Eu fui. - Disse uma. - Mas estou indo visitar minha família mesmo.
- Eu estou indo ver meu namorado. - disse a outra.
- Eu também. - Disse eu, com um teco de orgulho.
- Você também estava indo ver o namorado dela? - Perguntou meu namorado, rindo, quando contei a conversa. - Disse "estou só esperando você ir embora"?.
- Não, disse que ia ficar com os dois juntos e estava avaliando ela, oras.

Gosto da sensação de tempo de viagem. Os dias viram aquelas borboletas de vida curta. Uma vida em alguns dias coloridos.

A volta foi parcelada. De Campinas a São Paulo numa manhã de domingo preguicenta e de caronistas silenciosos que acordaram ao ver que eu e meu namorado não conseguiamos seguir o GPS e corriamos o risco de rodar São Paulo inteiro cinco vezes antes de chegar ao metrô da Liberdade. De São Paulo a Curitiba à tarde, transportando um nó no peito de despedida, novamente minha irmã e o amigo e uma moça simpática e seu gatinho de estimação.
- Já namorei um maluco da BR. - Ela contou. - Eles não gostam que chame de hippie, hippie era outro rolê. Eu tinha 18 anos e ele 32, e ele queria que eu largasse tudo para virar a esposinha dele. Mega controlador. Sair do sistema não salva ninguém do machismo.
E enfim de Curitiba a Florianópolis na manhã de segunda, com um metaleiro dorminhoco e o mesmo curitibano da casa da montanha, que me contou que tem um primo pajé lá no Pará e pelo outro lado da família herdará um terreno de cinco milhões. Devo visitá-lo em breve.

Que viagem.