Se tivessem me dito que chovia tanto nessa cidade, eu teria repensado minhas escolhas.
Não me entenda mal, sou paraense e portanto em vez de pulmões tenho brânquias. Mas lá no Norte a chuva tem suas lógicas próprias de floresta, e conhecê-las nos torna deuses da chuva (embora em ônibus abafados com as janelas fechadas para proteger dos respingos pós-almoço). Lá a chuva tem até hora marcada, duas da tarde.
Nem sempre tão pontual assim, verdade; não somos ingleses e Big Ben é uma rede de farmácias amarela que até onde eu sei está indo à falência. Mas é à tarde, sempre à tarde, toda tarde. Vem, desagua, ensopa e vai-se, como um amante que me possui, veste-se e volta ao lar e à esposa; deixando-me ainda nua. A chuva da tarde de Belém é rápida e intensa como uma paixão, mas sempre volta.
Temos duas estações: a que chove todo dia e a que chove o dia todo. Assim, quando chega novembro, nosso amor molhado me engole num beijo de três meses, e os cachorros de rua ficam todos cor de barro. Em julho são nossas férias mais longas e as paixões mais curtas; e as chuvas às vezes demoram três ou quatro dias para vir e os mais abastados vão pra Salinas flertar enchendo a praia de lixo e carros-som.
Gosto das chuvas do Norte porque são ritualísticas.
Aqui em Florianópolis os dias mudam de cor tão depressa que eu sempre pareço que não li o traje recomendado para a festa; short em polícia federal (que crime são nossas pernas!). Desprevenida, comprei dois guarda-chuva em umas duas semanas (e daria o troféu "empreendedor do ano" ao cara vende guarda-chuva na saída do RU). É quase novembro e ainda há noites em que durmo de moletom; e as praias da ilha ficam à distância de um temporal.
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