O reitor se jogou do quarto andar do shopping. Estatelou-se como um saco de batatas, mas com sangue. Cobriram o cadáver com uma tenda para o trabalho do IML. O shopping passa bem.
A universidade está de luto por três dias. Meus amigos de laboratório alternam papos sobre causos não relacionados da graduação e o placar dos esportes do final de semana. Tenho um PDF de paper aberto na minha frente e uma caneca cheia de café como em todos os dias.
Fito as paredes.
A comissão de mobilização da pós-graduação contra os cortes do CNPq está apagando os vídeos do reitor das redes sociais. Tinha um bem engraçado que fazia memes do absurdo dele falando:
- A cobrança da pós-graduação em universidade pública não se opõe a uma universidade pública gratuita.
Ideias e pessoas são maiores que memes.
Ideias e pessoas são maiores que memes.
- Nós estamos do mesmo lado. - Ele nos disse na audiência pública que eu fui mês passado. Não houve consenso, mas o homem falava bem. E o vi lá, tão humano. A gente esquece isso: que está lidando com gente. Poderia ser uma versão um pouco mais a direita do meu pai.
Ele passou uns dias preso há umas duas semanas. Acusado de obstruir investigação de desvio de verbas. Numa história meio mal contada, ou eu não me informei direito - o tal desvio vem de antes do início da gestão. Fato é que não quero ninguém morto. Se desviou, quero afastamento, dinheiro de volta, punição construtiva. E se não desviou tudo fica pior. Toda a exposição, a prisão. O que isso faz com a cabeça de alguém?
Este poderia ser um post para discutir política. Eu poderia falar sobre prisões arbitrárias, sobre julgamento midiático. Eu poderia contar que tenho R$3,90 na minha conta corrente e espero ansiosamente que o CNPq não me dê calote e minha bolsa caia essa semana; que estamos vivendo num momento de claro desmonte da ciência e educação superior pública; que a gente tem que lutar para ficar vivo enquanto universidade - um vivo metafórico. Mas eu não dou conta de metáforas agora; eu só consigo pensar nele, morto.
Estatelado como um saco de batatas, mas humano. Com família e amigos; e me dá um aperto tão grande que quero me deitar na minha cama e me enrolar em mim mesma; me enrolar ao redor do meu peito para garantir que o coração não vai sair de dentro de mim - seria tão mais fácil se saísse, coração. Comecei terapia semana passada e ela me disse que eu tenho tanta dificuldade de ser eu que me afasto de quem amo para deixá-los fora de mim.
O shopping fica há poucos minutos a pé da minha casa, e parece que nada aconteceu.
Penso no salto dele, no meu medo de altura e nas pessoas que eu amo que se cortam e andam com cordas.
Eu tenho tanto amor e medo e poderia submergir na minha xícara de café.
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