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A primeira vez que vi macho escroto sendo exposto em grupo de mina, eu fiquei bem sem saber o que fazer. Era uma lista de nomes e fatos em um grupo secreto, e no meio tinha vários rapazes que eu conhecia. Alguns eu não esperava nada diferente, outros me surpreenderam. Um deles era meu amigo. Não melhor amigo, mas uma daquelas muitas pessoas com quem eu gostava de parar para conversar quando a gente se esbarrava pela universidade. Eu tinha um crush nele há anos. A gente meio que flertava quando se trombava nas festas, especialmente quando passava de duas e meia da manhã e as festas estavam começando a ficar chatas. Numa dessas a gente já tinha ficado.
"Agressão física", dizia a denúncia. Não lembro o que mais, mas tava lá: "agressão física".
E eu imaginei a mão dele deixando marcas nos meus punhos, me puxando e não respeitando um "não".
Comigo ele sempre foi legal. Nunca soube detalhes da denúncia, mas "agressão física". Eu de repente eu não sabia mais como lidar com ele quando a gente se trombava. Eu não podia contar o que tinha lido no grupo; e nós não éramos próximos nem distantes o suficiente a ponto de me afastar se uma ação possível. Então tudo continuou igual: a gente às vezes se encontrava por acaso e batia um papo inofensivo.
Alguns meses se passaram e nos trombamos na universidade num dia qualquer das férias. Quem já passou por Barão Geraldo ou outra cidade universitária sabe, mas explico para quem não passou: nas férias quase todo mundo vai embora, e é como se todos os dias fossem duas e meia da manhã.
- Tá a fim de dar um rolê mais tarde? - Ele convidou.
Eu e ele não nos convidávamos nunca. Éramos amizade de esbarrar e só.
Eu estava morrendo de tédio e ele era bom de papo e tinha algo de bem bonito.
Topei encontrá-lo naquele dia mais tarde. E aí entrei em pânico.
- Eu deveria ir? - Perguntei pra uma amiga.
- Você quer? - Ela perguntou.
- Se não fosse a história da denúncia, sim; mas é o Espancador De Mulheres!
Nota: eu e minhas amigas temos apelidos internos para quase todas as pessoas. Depois que eu li a denúncia, ele virou o Espancador De Mulheres. Uma piada de péssimo gosto, provavelmente.
- Eu normalmente sou contra linchamento, mas eu não sei o que fazer! - Continuei
- Ah, Marina, acho que essas denúncias servem mais pra gente ficar atenta, não tem como fazer nada...
Eu fui.
"Vamos estar num lugar público", pensei, "não tem como ele forçar nada".
Eu sabia que ele tinha agredido uma mina, e mesmo assim eu fui.
Conversamos.
Curtimos o rolê.
Ele me beijou.
Retribui.
"Agressão física".
Pensei no meu 1,75m; e mesmo assim ele era visivelmente mais forte que eu. Pensei numa moça de 1,5m.
Achei que os beijos estavam indo longe demais e empurrei ele de leve, pra parar. E, por um período de tempo curto porém assustador - nunca saberei se porquê não percebeu ou não me respeitou - ele continuou.
Depois disso, conversamos mais algumas amenidades e ele me levou em casa (beijo de despedida) e foi isso.
Até hoje eu não sei como lidar com ele e com essa história.
[Obs: escrevi a história do modo mais genérico possível, para o cara não poder ser identificado. Se você achar que é sobre você, pense sobre como você vem tratando as minas. Talvez seja, talvez não seja, sei lá. Por respeito à moça que fez a denúncia - que honestamente eu nem sei que é -, eu negarei até a morte.]
[Obs 2: "Mas você acredita na denúncia de uma mulher que você nem conhece? E se ela só queria queimar o cara?"
Se você já tem alguma leitura de feminismo, volte três casas. Vamos lá: eu sempre parto do princípio que a vítima está falando a verdade. Acreditar mais nas palavras das mulheres - sempre vistas como exageradas ou loucas - é o primeiro passo. E se ela estiver mentindo? Bom, nesse caso serviu pra me deixar mais atenta e o cara continua lindo passeando por aí. Ainda assim eu o beijei de volta. Devia? Talvez eu seja hipócrita ou irresponsável. Talvez eu me ache invulnerável. Talvez eu ache que comigo ele seria diferente.
Eu sou uma ótima vítima em potencial.]
[Obs 3: "Mas se for verdade e ele for realmente um agressor, a mina deveria falar pra polícia, não prum grupo secreto!". Talvez até sim, mas você já foi denunciar algo na polícia? Você confia? Você acha que será bem recebido(a)? E como provar?]
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Tirando o (grandessíssimo) fato de ser mulher, eu sou uma pessoa bastante privilegiada - branca, classe média, essas coisas. Talvez por isso eu tenha um histórico de ideário babaca do qual eu me envergonho (e estou sempre tentando melhorar). Talvez por isso eu pregue
militância amorzinho. A gente não pode confundir violência do opressor com reação do oprimido e ninguém que sofre opressão tem obrigação nenhuma de ser didática(o). Mas, tirando casos de extremismo que devem sim ser combatidos duramente (discurso de ódio não é opinião e eu não vou defender direito de ninguém sair propagando preconceito por aí sob pretexto de liberdade de expressão), é fundamental que a gente consiga conversar. A sociedade está estruturada sobre opressões; e se como mulher e feminista (ou seja, vítima da opressão e em tese consciente dela) eu ainda me pego reproduzindo machismo, imagina um cara que nunca teve acesso à essa discussão... O pulo do gato é estar disposto a desconstruir. Daí eu acho que existem dois tipos de babacas:
1- O que nunca teve acesso à discussão, e como esse eu quero conseguir conversar;
2- O que teve acesso e continua sendo babaca, e desse eu quero no mínimo uma distância salutar.
Acredito que as pessoas podem mudar e sou contra linchamentos. Mas... E quanto a expor macho escroto? Essa é uma discussão que me pega, o causo acima foi pra ilustrar.
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Escrever pra mim sempre foi muito terapêutico - eu tenho diários desde criança, o Riscos há mais de dez anos e o
Talvez Fosse Amor há dois. Colocar algo em palavras é como fazer backup e então esvaziar o HD do coração. Quando leio o que escrevi, consigo olhar com o distanciamento necessário para encarar os problemas como uma paisagem, a tal da big picture. Por isso, se tem alguém que vai defender escrever sobre algo ruim, esse alguém sou eu. Se tem alguém que vai defender publicar isso, esse alguém sou eu. Tenho vários e vários posts assim.
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Como mulheres, é fundamental a gente dividir as nossas vivências. Quando algo ruim acontece comigo, eu acho que é problema meu. Quando descubro que esse algo acontece com todas nós, descubro que o problema não sou eu, o problema é estrutural. Por isso, por exemplo, achei o
#meuamigosecreto tão bom. Vi críticas falando que se tratava de feminismo individualista e revanchista; mas eu pelo menos me vi em vários e vários dos relatos que não eram os meus. Para os homens, acho que foi pedagógico - algo "como não ser um babaca". Caras, vocês foram criados pra serem uns babacas. Por favor, não sejam.
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Não que eu ache que o papel do feminismo seja só fazer os boyzinhos universitários pararem de fazer piadinhas machistas, quando tem menina preta pobre sendo estuprada agora nesse exato instante. Eu não quero um feminismo só pra mim e, como já dito acima, eu tenho plena consciência que de uma maneira geral eu sou extremamente privilegiada. A questão é que sábado agora eu estava numa festa universitária e tinha um cara passando a mão na vagina de uma mina bêbada demais pra consentir. Estupro.
O estupro está em todo lugar e as piadinhas universitárias naturalizam isso. A violência é pior pra algumas, sim; mas o machismo está em todas as classes. A gente tem que lutar em mais de uma frente; elas não são mutuamente excludentes e infelizmente pra mim na maioria das vezes é mais fácil tentar atuar na minha bolha universitária; embora privilégio de classe seja algo para o qual a gente, privilegiada, tenha sempre que tentar se atentar para não cair no temido feminismo excludente liberal do qual o capitalismo se apropriou.
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- Se fosse opção sexual, eu não era hétero - eu falo sempre, meio brincando e meio séria.
Nunca me relacionei romanticamente com mulheres, então não tenho propriedade nenhuma pra falar sobre relacionamentos lésbicos. Tenho, por outro lado, mais de treze anos de experiência em relacionamentos hétero. Por sorte, nenhuma história muito horrível. Por naturalização, várias pequenas agressões que "nem contam". As tradicionais objetificação e irresponsabilidade emocional que me tornaram hoje um bichinho bastante assutado para o amor.
Comecei a namorar de novo recentemente, depois de ter passado quatro anos solteira. O rapaz mais doce. Estou aprendendo a não pedir desculpa por ter sentimentos. Estou tentando perder o medo que o rapaz vá embora sem nem se despedir.
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Houve na minha vida caras legais também. Não todos, mas ouso dizer que até que maioria. Ainda assim, sempre houve e sempre haverá machismo. Porque é estrutural.
(Na verdade, sendo muito honesta, agora me ocorreram alguns rapazes dos quais não tenho nenhuma crítica machista. Espero não ter esquecido apenas. Acho que eu deveria anotar seus nomes e divulgar entre as amigas)
Um dos caras mais desconstruidões com quem fiquei só me respondia quando tinha vontade e veio me "ensinar" a limpar mancha de menstruação. E ele é uma ótima pessoa. Quando partiu meu coração, escrevi o meu texto com mais acessos,
Leidenschaft. É uma reflexão sobre responsabilidade emocional na vida universitária. Quando o publiquei, algumas amigas sugeriram eu compartilhá-lo em grupo feminista, e eu compartilhei. A repercussão me surpreendeu, e de repente eu estava me sentindo culpada - será que eu estava roubando pauta feminista pra chorar um simples pé na bunda? No fim nem era culpa dele não ter retribuído meus sentimentos; será que eu estava sendo uma menina mimada e sujando um cara gente boa?
Acho que não. Primeiro porque eu nunca falei (nem falaria) o nome do moço. Segundo porque, se tanta gente se identificava com a história de irresponsabilidade emocional, o problema não podia ser só dele ou meu. É estrutural. Sequer exclusivamente masculino, mas, num mundo onde mulheres são criadas para ter sentimentos e homens para trepar, sem dúvida os machos se beneficiam mais da possibilidade de "nós não temos nada". E, porra, eu quero um mundo onde as pessoas sejam mais cuidadosas com os corações das outras. E quero minas com auto-estima para saber que não estão fantasiando coisas e não merecem ser tratadas como lixo.
Repetindo: o cara é uma pessoa ótima. E obviamente o feminismo tem pautas mais importantes do que corações partidos. Mas tem erros e erros. Nem abuso, muito menos agressão, são casos de coração partido.
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Por isso de uns tempos pra cá eu já vinha pedindo pras amigas a ficha dos caras com quem eu ficava. Pra evitar furada. Por isso eu confesso que gosto sim da ideia de uma lista de machos escrotos. Pra saber onde estou me metendo. Errar todo mundo erra, mas existem erros e erros.
Ainda assim, eu saí com o cara acusado de agressão.
... mas eu não o convidei para entrar em casa.
Talvez seja esse o meu ser contra linchamentos: eu quero sim que as minas saibam, eu quero saber o que aconteceu e quero decidir o que eu faço com isso.
O medo é que, se a gente for apurar todas as denúncias, não sobre um.
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Tanto tempo depois da história do Espancador De Mulheres, voltei a pensar no tópico por conta daquela
lista de denúncias contra músicos que eu até compartilhei no FB. Eu era fã de algumas daquelas bandas. Eu só não fui no show do Boogarins semana passada porque não arranjei companhia.
Pois bem, post compartilhado, me deparo com
esse texto. E fico pensando e pensando.
O que mais me pegou foi a questão dela ter pedido ou não autorização pras mulheres. Se não pediu, foi de fato irresponsável, para dizer o mínimo.
Mas... E se pediu?
Acho até pretensioso a gente achar que o feminismo tem algum poder real de minar a carreira de um cara (Olá, Woody Allen e Johny Deep, pra ficar nos dois gringos que me ocorreram), queria eu que tivesse.
Eu sou contra linchamentos e entendo a necessidade legal de não divulgar nomes em alguns casos; mas será que é justo a vítima ter que proteger o agressor da exposição?
"E se foi um mal entendido?" - Pra mim isso é discurso que deslegitima vítima.
"Ah, mas e se as histórias já se resolveram?" - Olha, aí eu vou ficar super feliz e quero saber o desenrolar. Por favor, divulguem. E até bonito, "olha, fulano já foi babaca e agora é legal". Passado a gente não apaga e finge que não aconteceu; a gente se melhora no presente. De novo: talvez a matéria de denúncia tenha sido feita de maneira irresponsável, mas quantos caras você conhece que tiveram sua vida arruinada por denúncia de machismo?
Na prática a teoria é diferente. Eu sou feminista e beijei um cara acusado de agressão.
Não mais, repito a mim mesma. Não mais.
Pra mim, o que ficou da história foi a necessidade de apoiar mais o trabalho de mulheres, e não comprar caras se apropriando dos nossos discursos.
Edit: Um ano e meio depois, postei uma continuação deste post, que pode ser lida aqui.