Se jogassem uma bomba, acabava a pesquisa em combustão no Brasil, porque não sobrava quase ninguém.
Faz oito anos que entrei na engenharia, e foi uma das poucas, se não a primeira, vez que achei de verdade que estou no lugar certo.
Era um encontro de especialistas, e os doutores não paravam de fazer piadas um com os outros.
Entre curso, palestra e conversas, eu quis jogar meu mestrado no lixo umas três vezes; e essa é a prova maior de que ele foi útil - só não aprendendo nada para achar que um trabalho foi feito da melhor maneira existente.
Quando arrumei a mala achei que havia algo de desafiador no meu cabelo rosa, e lá eu percebi que não precisava nem usar sutiã (e não usei). Uma rede científica composta majoritariamente por engenheiros agora tem uma coordenadora, apesar da predominância masculina gritante no evento, metade das vagas do comitê científico são de mulheres.
No jantar principal dividi mesa com o organizador do evento, que foi aluno de doutorado do cara que escreveu dois dos meus livros-texto. Ele ficou contando causos e discutindo o significado do número de Reynolds.
Conversei no bar duas noites seguidas com um doutorando equatoriano que deixou Portugal e foi trabalhar de novo em seu país depois de ler um sociólogo falando sobre colonialismo científico:
- E ele fala que fuga de cérebros não é apenas sairmos de nossos países, mas também continuarmos reproduzindo o padrão dominante na nossa ciência.
Tapa número um.
- Acho também absurdo o medo que temos do erro na academia. - ele continuou - É um absurdo passarmos dois anos sem divulgar nossos trabalhos! A gente desenvolve muito mais ouvindo críticas e melhorando continuamente. Se quer algo 100% certo, procure uma religião.
Tapa número dois.
Conheci uma mestranda feminista e vegetariana e maravilhosa e ficamos conversando sobre como poderíamos fazer um bom uso da nossa ciência. Repeti o que conclui no ENEDS da Bahia, lá em 2015:
- Nós temos que fazer ciência, mas o problema não é a ciência. Temos tecnologia pra resolver os problemas, a questão é vontade política. O problema é social; a desigualdade é social. Eu tento posicionar minha ciência de modo a pelo menos não escravizar crianças e matar golfinhos diretamente; mas no capitalismo indiretamente sempre estamos e na acadêmia é bem difícil quebrar algumas regras. Mas eu acredito que a pós-graduação me dá um tempo que eu não teria se trabalhasse em uma empresa 40 horas por semana, essa flexibilidade de horários. E eu tento fazer bom uso disso, me envolvendo com extensão e lutas por democratização da universidade. Preciso fazer mais, alias, ando meio distante...
Noutra hora, outro rapaz fantástico mostrou orgulhoso o grupo de whats composto só dos brothers dando ban no cara que fez piadiinha machista.
Quando eu vi, estávamos numa mesa de pós-graduandos em engenharia discutindo ayhuasca e retiro espiritual e por fim planejando a revolução.
Se cuidem, nós estudamos o fogo e não estamos pra brincadeira.
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