Eu tinha um diploma de mestrado da Unicamp, uma vaga ideia do que queria fazer da vida e cabelos pintados semana de verde, semana de azul. Eis que surge o concurso para docente de federal - aquele tal pote de ouro no fim do arco-íris pelo qual a gente tanto anseia durante a tão grande formação acadêmica (que sim, tem seus momentos arco-íris, mas em outros mais parece que é asfalto ou montanha ou areia movediça a ser percorrida a pé com sapato ruim). E lá fui eu prestar.
O concurso aceitava título de mestre, era numa cidade no interior do Pará e na área de energias renováveis. Parecia excelente pra mim, paraense expatriada e engenheira meio bióloga, meio de humanas, meio perdida. Percebi que eu não tava numa época muito atribulada da vida, fiz um cronograma, peguei livros na biblioteca e prometi para mim mesma que daria o meu melhor.
Eu preciso melhor meu conceito de "uma época não muito atribulada da vida".
Verdade, eu já tinha defendido e homologado meu mestrado; e consegui até explicar para meu grupo de pesquisa que meu paper teria que esperar um mês para ser escrito. Eu tinha acabado de ser aprovada para o doutorado na UFSC, em Floripa; então podia abandonar as disciplinas da Unicamp sem dó. Parece bem tranquilo, não?
Aí veio o
golpe. Eu queria estudar, mas quem estuda em dia de manifestação? Talvez tenha sido irresponsabilidade pura e simples, mas não consegui. No fim, brasileiros-universitários que somos, a situação toda acabou virando piada entre meus amigos; resposta padrão:
- A gente não deveria estar estudando em vez de estar nessa palestra?
- Quem se importa, teve um golpe nesse país...
- Você já começou a lista de exercícios?
- Quem se importa, teve um golpe nesse país...
- Pode estacionar o carro aqui?
- Quem se importa, teve um golpe nesse país...
- Será que a gente devia tar tão bêbado 3h numa terça-feira?
- Quem se importa, teve um golpe nesse país...
Depois do golpe, teve a questão que em tese era a responsável pela minha tranquilidade: eu tinha sido aprovada para o doutorado na UFSC, em Floripa. Pera. Leia de novo: eu tinha sido aprovada para o doutorado na UFSC, em Floripa. Legal, né?
Muito, sem dúvida. Mas nem um pouco tranquilizador, porque implicava que:
1- Eu tinha que arrumar a minha mudança. Você já arrumou mudança alguma vez na vida? É o caos, o caos!
2- Depois de quase oito anos, minha estadia em Campinas estava chegando ao fim. Era o fim de uma era, o fim dos meus vinte e poucos anos. Eu ia me despedir da Unicamp e de tudo que ela representa, e dos amigos que são tão família. Eu precisava aproveitar cada segundo.
Daí certamente foi irresponsabilidade, mas eu comecei a sair de segunda a segunda, emendando rolês. O que dificultou um pouco o projeto estudo sério. Mas eu não sei se vou te encontrar de novo na vida; vamos sim ficar 3h batendo papo em pé no estacionamento; sim, eu preciso ir mais uma vez no sorvete vegano; adoro aquela coxinha; esse é meu bar favorito; eu vou sentir tanta saudade dessas festas todas iguais da universidade!
Para completar: depois do golpe; em meio ao frenesi das despedidas; vendendo, doando e empacotando coisas; planejando viagem bate-volta Campinas-Curitiba; fazendo uma lista mental do que ainda faltava fazer em Campinas; passando adiante o resto dos meus reagentes e explicando meus códigos e minhas planilhas para quem vai continuar meu trabalho; renovando empréstimo de livros sem tê-los aberto - em meio a tudo isso, eu ainda conheci um cara muito, mas muito mesmo, legal. O universo nos deu de presente duas semanas juntos, e
nessas duas semanas eu fui desesperadoramente feliz e não estudei absolutamente nada.
E assim eu fracassei miseravelmente no meu tão bonito cronograma de estudos.
Despedi-me de Campinas e cheguei em Belém faltando uma semana para o concurso. Eu ainda precisava:
1) Terminar de estudar e revisar (faltavam cinco dos dez itens; sendo que eu tinha estudado os cinco primeiros há três semanas ou mais);
2) Escrever meu memorial e projeto de atuação profissional;
3) Pintar meu cabelo de uma cor socialmente aceita para uma professora de engenharia em universidade federal.
Obviamente comecei pelo item 3. Meu cabelo estava de um azul desbotado e eu pensei no estrago que era descolorir e no quanto eu gostava de ter cabelo colorido. Desisti assim de comprar tintura preta para tacar por cima. Comprei um tonalizante sem amônia, chocolate (tradução para leigos: uma coisa que tecnicamente não é tinta, marrom claro avermelhado). O resultado é que meu cabelo ficou castanho esverdeado.
A minha falta de dedicação em relação à prova pode ser sintetizada por aquele tom esquisito de cabelo.
Em seguida, fui para o item 2. Para quem não sabe, memorial é tipo uma historinha do seu currículo, contando o que você fez e o que aprendeu com isso. Modéstia à parte (literalmente) eu sei me vender bem, então achei que pareci importante e nem minha mãe conseguiria escrever tantas páginas falando bem de mim. Foi estranho.
O projeto de atuação profissional foi a parte mais divertida de fazer. Eu realmente acredito em educação pública, gratuita e de qualidade. Eu realmente acredito em universidades federais. Eu detestei pelo menos 90% das minhas aulas de graduação e acho que educação deve ser algo totalmente diferente daquelas malditas aulas expositivas sonolentas com data-show. Acho que, se o inventor do power point soubesse as consequências negativas de sua criação, sentir-se-ia culpado, como Einstein pela bomba atômica. Também não acredito em provas. Acredito em troca de saberes, em estimular criatividade, em projetos, em troca com a comunidade através da extensão, em reflexão sobre a aplicação do conhecimento; em ciência e tecnologia desenvolvidas localmente e não importadas. Tive e ainda tenho altas crises em relação à engenharia, mas no fim sempre concluo que o problema não é a engenharia, é o sistema.
Por fim, fui ao item 1. Dediquei bastante tempo (ok, "bastante" talvez seja uma palavra forte. "algum"?) a revisão; achei que não adiantaria nada descartar o que já tinha aprendido. Depois, dei uma lida global nos outros tópicos e esquematizei o que escreveria na prova escrita.
Enfim chegou a véspera da prova e eu peguei o avião de Belém rumo a Santarém, a cidade da UFOPA, que é a universidade em questão. Era círio (para não-paraenses: tipo viajar no Natal), o avião estava bem vazio e parecia que todo mundo nele ou estava indo prestar o concurso ou acompanhar alguém que ia prestar.
Enquanto esperava o aviso de fechar as portas, mandei mensagens para meus amigos pedindo good vibes e fiquei com meu estômago dando suas tradicionais cambalhotas. Eu devia ter pintado o cabelo de preto, ele estava cada dia mais verde. Ah, claro, devia ter estudado mais, também. No dia anterior eu tinha ido ao Ver-o-Peso (uma feira típica de Belém), aproveitar um show de Carimbó da programação típica de círio. Um cara jogava banho-de-cheiro (magia típica paraense) em todo mundo, o que era agradável não só pelas energias boas envolvidas, mas pela questão térmica mesmo - cheguei em casa queimada de sol. Pensei nas coisas boas que queria para minha vida e cogitei comprar um banho para passar em concurso, mas não comprei. Eu queria que aquele concurso desse certo? Se quisesse mesmo, teria estudado direito. O país não vive uma boa fase e, com essa perda de direitos, há o medo de não haver mais concursos. Eu sempre digo que não quero ficar na região Sudeste - em parte, confesso, por uma falta de crença em mim mesma; há gente demais no Sudeste e eu sempre fui perfeitamente mediana na graduação e na pós. Acho que a competição extrema não é para mim, se matem entre vocês, não tenho saúde pra isso. Outra parte é algo que meu pai me disse e eu sempre conto: chega uma hora que você tem que decidir se quer ser o cu da baleia ou a cabeça da sardinha. Tem gente demais no sudeste, se matem entre vocês. Cu de baleia. Eu prefiro ser cabeça de sardinha. Quero voltar pro Norte; se todo mundo que puder ir embora nunca mais voltar, sempre continuaremos sendo considerado atrasados. Acho que posso fazer mais diferença no Norte, cabeça de sardinha. Mas... e se eu for o cu da sardinha? E o que é ser considerado de excelência? Eu quero trazer parâmetros que adoecem comigo?
Eu queria que o concurso desse certo? Eu estava muito animada com a ideia de morar quatro anos em Florianópolis. Agora, não depois de um probatório. Tem praia e é perto de Campinas ainda. Critérios bobos. Eu nem conheço Florianópolis; passei uma tarde lá aos 15 anos e só. Mas falam bem e estou com uma sensação boa. Ah sim, o doutorado é CAPES 7 e meu orientador foi minha banca de mestrado e fiquei deveras animada.
Santarém é uma gracinha e eu teria um emprego de verdade, olha que luxo - eu, acostumada que sou a viver de bolsa, teria um salário de verdade, com férias e décimo terceiro!
Avião. Paguei mais caro na passagem Belém-Santarém do que costumava pagar em Campinas-Belém. Tão inacessível!
Cheguei no hotel e me lembrei o quão bonita é a cidade. Eu deveria ter estudado. Estou desempregada. Dei uma lida nos tópicos, mas concentração é artigo de luxo e eu não tenho.
No dia seguinte o concurso começou. Eu estava caminhando rumo à universidade quando um conhecido, também aluno de pós da Unicamp, estacionou o carro a meu lado e ofereceu carona. Achei extremamente gentil. Eu tinha ficado bolada ao ver, logo que as inscrições foram homologadas, que ele era meu concorrente - está terminando o doutorado e tem família em Santarém; a vaga parecia encaixar tão certo na vida! No dia seguinte, no café da manhã do hotel, conversando com um baiano que viera concorrer a uma vaga de direito, fiquei sabendo que os seis concorrentes daquela vaga haviam criado um grupo de whatsapp e saído para beber juntos depois da prova. Em engenharia, precisamos ainda aprender simpatia: eu e o outro moço da Unicamp fomos os primeiros a chegar na sala de prova. Ansiosa que sou, fiquei em pé do lado de fora.Um rapaz chegou, me cumprimentou rápido e entrou na sala, para então perguntar ao outro unicamper se ali era o nosso concurso e puxar papo. Passou por mim como se eu não fosse candidata também. Entrei, me apresentei, e o papo morreu. Todos com seus smartphones e um silêncio sepulcral.
Outros dois candidatos chegaram. Um faltou. Logo a banca estava lá, e então deu a hora. Pediram para alguém ir ver se os nomes dos tópicos estavam adequadamente escritos; o moço simpático que não me achou com cara de engenheira foi lá. Estavam. Hora de sortear o tópico para a prova escrita. Me voluntariei.
Os tópicos disponíveis poderiam ser divididos em energia eólica (que estudei) e energia hidráulica (que não estudei direito).
Claro que sorteei um tópico de energia hidráulica.
E assim passei as quatro horas seguintes tentando lembrar de tudo o que tinha lido por alto, enquanto as outras pessoas pediam mais folhas de almaço e aquilo me dava desespero.
A segunda etapa da prova foi a tarde: a leitura. Que é exatamente isso: ler, em voz alta na frente da banca e dos outro concorrentes, o que você escreveu na sua prova.
Humilhação pública que não desejo a meu pior inimigo.
Sorteamos a ordem de leitura das provas. O moço simpático que achou que eu não fosse engenheira disse, sorrindo:
- Marina, primeiro as damas. Sorteia você primeiro.
Dei um sorriso amarelo e fui pegar o papel. Que preguiça de discutir relações de gênero, que chato ser a única mulher do rolê.
Fui a terceira de cinco, e a vontade de me enfiar num buraco e nunca mais sair só crescia. Para não dizer que a experiência foi apenas traumática, ouvir provas melhores que a minha e fez ver que sim, eu poderia ter desenhado esquemas a vontade e que ser direto é muito válido. Mas lendo em voz alta percebi dois erros chatos e ouvindo o dos outros vi que tinha esquecido coisas.
O resultado disso é que eu não passei nem pra segunda fase do concurso. Fiquei com 6,7. Precisava de 7.
E assim terminou meu primeiro concurso - com um enorme (e merecido) não na cara. Analisando de longe, o esperado. Eu gostaria de ter feito pelo menos as outras etapas, mas pelo menos posso dizer que tenho em outros contextos experiência de sala de aula; e já tenho um memorial rascunhado para toda a eternidade.
Vamos então ser felizes.
Chegando em Belém, descolori meu cabelo e pintei de rosa.