Se eu tivesse que escolher uma única coisa para fazer o resto da minha vida, seria jogar dois dedos de prosa.
Semana passada uma vizinha me encontrou passeando com a minha cachorra. Me deu bom dia e quando eu percebi tinham se passado uns quarenta minutos, e eu sabia histórias da sua vida e da de cada um de seus cinco filhos.
Ela, sessenta e poucos anos, acabou um mestrado e, para combater o tédio, resolveu pintar uns vasos de planta. Os vasos bonitos recém-pintados destoavam de uma parede onde as plantas estavam. Ela pintou a parede. Que ao ser pintada destoou da outra... e foi assim que essa mulher passou meses pendurada pintando a casa enorme à mão.
Cada filho tinha uma história, mas a que mais me interessou foi a da bióloga com pós-doutorado que hoje mudou de estado e é professora de yoga. Está muito feliz.
- São tudo mudanças e nada é perda de tempo. Me dei conta que de dez em dez anos mais ou menos minha vida muda inteira, mas as coisas vão se encaixando. - Me disse a vizinha, tão mestra e dona dos seus pincéis. E eu agradeci de coração e pensei que na vida a gente começa mesmo pintando uns vasos e no fim muda a casa. Ou cansa e muda de casa. E tá tudo bem, sem certo ou errado.
Eu, que vestia minhas escolhas como tornozeleira de condicional.
Eu, que vestia minhas escolhas como tornozeleira de condicional.
Antes eu achava que leveza era andar na superfície das coisas, mal tocando-as; e me frustrava porque jamais seria leve. Eu gosto de me encharcar. Neste ano estou aprendendo que leveza é me jogar e ter a segurança que não vou me quebrar toda ou me afogar; e sim flutuar.