segunda-feira, 10 de julho de 2017

Sobre mudanças e leveza

Se eu tivesse que escolher uma única coisa para fazer o resto da minha vida, seria jogar dois dedos de prosa.
Semana passada uma vizinha me encontrou passeando com a minha cachorra. Me deu bom dia e quando eu percebi tinham se passado uns quarenta minutos, e eu sabia histórias da sua vida e da de cada um de seus cinco filhos. 
Ela, sessenta e poucos anos, acabou um mestrado e, para combater o tédio, resolveu pintar uns vasos de planta. Os vasos bonitos recém-pintados destoavam de uma parede onde as plantas estavam. Ela pintou a parede. Que ao ser pintada destoou da outra... e foi assim que essa mulher passou meses pendurada pintando a casa enorme à mão.
Cada filho tinha uma história, mas a que mais me interessou foi a da bióloga com pós-doutorado que hoje mudou de estado e é professora de yoga. Está muito feliz.
- São tudo mudanças e nada é perda de tempo. Me dei conta que de dez em dez anos mais ou menos minha vida muda inteira, mas as coisas vão se encaixando. - Me disse a vizinha, tão mestra e dona dos seus pincéis. E eu agradeci de coração e pensei que na vida a gente começa mesmo pintando uns vasos e no fim muda a casa. Ou cansa e muda de casa. E tá tudo bem, sem certo ou errado.
Eu, que vestia minhas escolhas como tornozeleira de condicional.
Antes eu achava que leveza era andar na superfície das coisas, mal tocando-as; e me frustrava porque jamais seria leve. Eu gosto de me encharcar. Neste ano estou aprendendo que leveza é me jogar e ter a segurança que não vou me quebrar toda ou me afogar; e sim flutuar.