terça-feira, 25 de outubro de 2016

Em Santarém e arredores

Eu já conhecia Santarém de outros carnavais (na verdade, de um casamento), mas não ia à cidade desde 2013. Dessa vez o que me levou lá não foi festa, mas concurso para docente - eu lembrava que a cidade era linda, e me surgiu feito sonho a ideia de ter uma vidinha lá. Depois bateu insegurança; depois o concurso deu bem errado; mas a viagem - ah, a viagem! - essa deu muito certo.
Cheguei num domingo e fiquei até a madrugada de sexta para sábado. Devo um muitíssimo obrigada ao amigo do meu pai que me buscou no aeroporto e levou a vários dos passeios. Achava que faria prova quase todos os dias; fui desclassificada na primeira etapa, na segunda. Daí passei os dias seguintes pensando na vida, conhecendo arredores, batendo fotos, planejando o mochilão que farei pela América Latina, e torcendo para o único short que eu levei não se desfazer de sujeira, já que eu achava que usaria roupinhas mais sociais e não algodão.
(Quem eu quero enganar? No que dependesse de mim, eu nem usaria roupas - meu antepassados indígenas tinham toda razão. E, já que a sociedade me obriga, eu amo malha levinha e algodão).
Vamos às fotos e aos causos então.

1. Santarém

Santarém fica no Sudoeste do Pará, há 800km de Belém. Dá pra chegar de carro (20h), barco (dois dias) ou avião (uma hora). Dessa vez, fui de avião; mas ainda hei de fazer o trecho de barco. A lonjura da cidade foi uma das coisas que me deu desespero, já que o trecho aéreo foi mais caro que Belém - São Paulo. Como meu pai foi comigo, a trabalho, ficamos num hotel bom e com preço honesto, na frente do Trapiche. No primeiro dia a internet estava péssima e meu desespero aumentou, menina de cidade grande. Tinha que ir ao banco e fui pedir informação na recepção:
- Eita, só tem laaaá no centro. - Respondeu a moça, simpática, mas com cara de preocupação com aquele "lá" tão extendido. - Segue por essa rua de trás aqui, sobe duas quadras, é na rua em que passam os ônibus.
Eu adorei as referências: longe = duas quadras; ponto de referência = a rua em que passam os ônibus. As ruas são largas, e a cidade não é tão inha. Por outro lado, no meio duma dessas ruas largas dois meninos disputavam quem jogava a havaiana mais longe, o que eu achei divertido de ver.
Aproveitei para esticar as pernas, descobrir onde faria a prova no dia seguinte, admirar a orla e procrastinar estudo. A beira do Tapajós é linda; o encontro com o Amazonas era visível da janela do restaurante do hotel. 
Nos meus dias sem prova, comi muito peixe (tambaqui, pirarucu, filhote...), andei muito na orla (Santarém é mais quente de Belém - sim, isso é possível - e tem menos árvores, o que sem dúvida é um erro. Voltei vermelha feito pimentão), conversei com vendedor de artesanato (que me contou que a cerâmica marajoara vem de Icoaraci, em Belém mesmo; mas a cerâmica tapajônica é feita por artesãos locais e quase me convenceu a comprar uma daquelas taças com figuras antropomórficas nas quais a mulher mais velha da tribo servia as cinzas dos mortos com ayahuasca, para adquirir-lhes força e sabedoria) e com a vendedora de sorvete (que era de um interior bem mais interiorano e se mudara para Santarém para acompanhar as filhas universitárias - a mais velha agora está no Rio Grande do Sul). E fotografei:

Igreja matriz e feira livre em frente à Orla do Tapajós

Produtos chegando




Pessoas caminhando na Orla, que é ponto de encontro. Ao fundo, o Porto da Cargil, que destruiu a praia urbana.

Pescadores e estudantes aproveitando o por-do-sol no trapiche


Ipê perto do Mirante


Encontro das águas - o marrom é o Amazonas, o azul é o Tapajós. Foi interessante ver o local onde o encontro ocorre mudando ao longo da semana, devido à vazão dos rios.

Essa garça posou pra mim. Sério, essa é uma foto de celular. A gente quase se abraçou. Atrás, o encontro das águas.



2. Óbidos

Como a semana seria longa, aceitei a sugestão de pegar uma lancha rápida saindo de Santarém para alguma cidade vizinha. Óbidos foi a escolhida pela possibilidade de fazer bate-volta e porque falaram que as construções eram bonitinhas.
A lancha é bem chiquetoza, com poltronas numeradas acolchoadas, TV, ar-condicionado e janelas com insulfilme para barrar o sol. Sem dúvida um conforto para quem faz a viagem com regularidade; mas para mim, que turistava, era um desperdício de Amazonas. Fui na parte de trás da lancha, aberta, pegando respingo e sentada no chão em parte do percurso porque a vista era mais bonita (depois minha bunda começou a doer e fui à cadeira). Dada hora o bebedouro, que estava preso à parede com um cinto, virou em cima de mim e o galão caiu na água. Achei que fosse haver alguma comoção pelo galão, mas a tripulação só se preocupou comigo. Eu estava ótima, só meio chocada com como aquilo era só um fato da vida - galões d'água caindo no Amazonas.
Foram 3h de ida e 3h de volta. Achei que fosse morrer de tédio, mas o Amazonas me hipnotizou de tal maneira que eu tive que perguntar se já era Óbidos quando atracamos. Posso passar uma vida olhando rio.
Cheguei em Óbidos quase meio dia, e acho que andei a cidade toda a pé. Eu era quase a única alma viva em vários cantos da cidade, o que se explica pelo clima - se eu morrer de câncer de pele, esse diazinho em Óbidos terá parte da culpa.
A cidade de fato é cheia de construções no estilo colonial, mas infelizmente está bem mal-cuidada. Tem um carnaval famoso, e com alguns demãos de tinta, tornar-se-ia São Luis do Paraitinga, onde passei meu melhor carnaval paulista - tem até as ladeiras. Fotografei só a igreja e o coreto, que achei divertido por não ter colunas em um dos lados. Há também um forte famoso, pois protegia a garganta do Amazonas - o ponto onde o rio é mais estreito e mais profundo.
Em cidade pequena, as pessoas te veem - diferente da invisibilidade paulista. Em toda esquina que eu parava, as pessoas me perguntavam se eu precisava de ajuda. Uma senhora estava almoçando e perguntou se eu queria um pouco.
Por outro lado, tive o desagradável lembrete que ser uma mulher viajando sozinha pode ter seus perrengues. O assédio de rua esteve presente em toda a viagem, mas foi em Óbidos que um senhor sem os dentes da frente veio puxar papo comigo enquanto eu almoçava, falando que nunca tinha visto uma mulher bonita como eu, perguntando se eu era solteira, se tinha vinte anos, se iria passar a noite. Ele não foi agressivo, mas eu só queria almoçar em paz, e não ter que justificar minha estadia. Fui gentil, sou classe-média universitária, não cabe escracho em senhor sem os dentes da frente em cidade de interior. Mas inventei namorado chegando para não ter que explicar que eu sozinha estava e sozinha queria ser deixada, e me senti mal.


Saída de Santarém

Interior da lancha chique

Pra quê eu quero insulfilme???






Transporte escolar

Coreto diferentão



Fortaleza


3. Alter do Chão

Alter-do-chão fica em Santarém, mas exige uma estradinha. Já foi considerada a praia mais bonita do Brasil pelo The Guardian e, embora haja controvérsias quanto a título, eu de fato acho linda. O local é cheio de gente de fora, "se procurando" ou seja lá o que a gente faz nessas viagens longas pra longe de casa e pra dentro da gente. A praia só existe em parte do ano, ficando encoberta pelo Tapajós na outra parte. Agora estava bem vazia, sendo possível ir até ela a pé. Recomendo a todo mundo comer um hambuguer de Piracuí nas barraquinhas de lanche.








4. Pindobal

Fica em Belterra, uma cidade vizinha de Santarém. Eu nem sei o que dizer, só compartilhar as fotos para, quem sabe, vocês conseguirem sentir. Água calma, doce. Areia vermelha. Botos que eu não consegui fotografar direito. Botos!!! Um por-do-dol espetacular. E ainda era noite de lua cheia!












2 comentários:

Geliquinha disse...

Caraleoooo Marina, suas fotos são incríveis

Geliquinha disse...

Caraleoooo Marina, suas fotos são incríveis