Espero um dia contar que tomei uma das melhores decisões da minha vida bêbada às 3h da manhã.
Não foi tão súbito quanto possa parecer - ainda tirei alguns dias para pensar quando fiquei sabendo que poderia optar por começar o doutorado apenas em março, e fui checar meu saldo bancário e conclui que sim, mochilar pela América Latina era uma possibilidade real. Atrás de um amor antigo, já fui até à Coréia; mas não conheço a Argentina. Mochilar a América Latina em busca de si mesmo é mais clichê da minha geração do que sonhar em largar tudo e ter seu próprio negócio trabalhando em casa ou na praia; mas nunca prometi ser um primor de criatividade. Acostumada que estou a fazer tudo em moto-contínuo, emendando uma coisa na outra e sem muito tempo para pensar, resolvi aproveitar meu privilégio e me dar de presente um período sabático - no qual, como bem me disseram, tudo pode acontecer, inclusive nada.
Meu plano inicial era sair da casa dos meus pais em Belém em janeiro e descer por todos os países, culminando no Uruguai e então subir para Florianópolis, onde irei morar ano que vem. Um amigo que passou um ano fazendo essa viagem disse que meu plano era insano e que em dois meses eu mal chegaria na Bolívia. Na verdade, tudo depende da verba disponivel e do ritmo de viagem; e eu não quero nem posso exigir muito de nenhum dos dois. Não gosto de viagem de agência, daquelas que todo dia tocam o despertador e o cronograma é seguido como se em vez de viajantes fossemos pacientes com medicação controlada. Tenho vinte e oito anos, alguma grana no banco e absolutamente nenhum vínculo que não os afetivos. Nunca fui tão livre na vida; não sei se jamais o serei novamente. Um moço me disse que as pessoas são livres para desperdiçar suas vidas como melhor lhes aprouverem; e não quero desperdiçar o meu clichê da viagem em busca de mim num ritmo de linha de produção.
Pensei então em parcelar a viagem - parte de cima antes, parte debaixo depois do Natal. Não tenho vínculos além dos afetivos, mas estes são fortes; e passar o Natal perdida no mundo me pareceu demais. Estava com isso na cabeça numa fatídica madrugada em Santarém. Estava quente; lá sempre é quente, e eu tinha ido parar numa festa de aniversário num quintal, onde eu era a pessoa mais nova com uma folga duns vinte anos e proeminentes medicos e doutores tocavam violão e cantavam lindamente enquanto eu experimentava as iguarias dos anfitriões e bebia latinhas e mais latinhas de cerveja pelo calor e pela boniteza do som. Chegou no meu e-mail uma dessas mensagens de promoção aérea que eu normalmente ignoro, mas decidi ver mais tarde, na minha ebriedade recém-chegada ao hotel. As passagens de fato estavam baratas e a honestidade etílica converteu-se em auto-honestidade - sim, eu queria começar a viagem em dez dias; sim, eu quero passar uns dias em Campinas antes, porque os preços são os mesmos e eu sou livre para fazer o que eu quiser, inclusive para voltar para Campinas menos de um mês depois de ter ido embora, antes de começar meu mochilão latino-americano. E assim eu comprei as passagens e mandei mensagens avisando e no dia seguinte as pessoas demoraram para entender que eu estava falando sério, bêbada 3h da madrugada.
Meus trechos aéreos são Belém-São Paulo/ São Paulo-Montevideo / Montevideo-São Paulo / São Paulo Belém; todos em semanas diferentes. Minha estadia fora do Brasil está programada para durar 5 semanas; mas, pelo preço que eu comprei as passagens, não estou brincando tanto quando digo que posso até desistir de voltar. Tudo pode acontecer, inclusive nada; e avião é o meio de transporte mais chato que existe, com esses preços proibitivos de espontaneidade e ritmo de teletransporte. Não tenho pressa.
- É importante ter um planejamento para não cumprir. - Me disse minha prima que viajou o Brasil de carona.
E assim eu comecei a pesquisar quais lugares eu gostaria de conhecer e como faria para chegar neles. Quanto mais eu perguntava, mais lugares surgiam; e as distâncias percorridas ficavam cada vez menores, porque há muito a se descobrir em arredores.
- Marina, você não conhece nem Belém direito! - Disse a mesma prima - Não acha que dá pra conhecer tudo de uma vez, não dá. Mas as pessoas ajudam, indicando onde você tem que chegar.
Foi muito legal começar a pensar o que afinal eu tenho interesse de ver - "um pedaço da Europa na América Latina" não me brilha os olhos; nem nada que me exija alugar um carro ou pareça programa de casal. Quero conhecer história andina, latina; quero ver mais gente jovem e sozinha perdida em busca de si. No fim, meu rascunho de roteiro tem apenas Uruguai e Argentina; e como eu acredito em destino e tenho o super poder de encontrar quem eu preciso, acredito que a vida vai me levar onde eu precisar chegar. Tenho hostels reservados para a primeira semana; alguns contatos de Couch Surfing; aplicativos de ônibus e hospedagem; um seguro saúde e um roteiro tão aberto quanto minha cabeça e coração.
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Um comentário:
Marina, que lindo
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