terça-feira, 1 de novembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)

Espero um dia contar que tomei uma das melhores decisões da minha vida bêbada às 3h da manhã.
Não foi tão súbito quanto possa parecer - ainda tirei alguns dias para pensar quando fiquei sabendo que poderia optar por começar o doutorado apenas em março, e fui checar meu saldo bancário e conclui que sim, mochilar pela América Latina era uma possibilidade real. Atrás de um amor antigo, já fui até à Coréia; mas não conheço a Argentina. Mochilar a América Latina em busca de si mesmo é mais clichê da minha geração do que sonhar em largar tudo e ter seu próprio negócio trabalhando em casa ou na praia; mas nunca prometi ser um primor de criatividade. Acostumada que estou a fazer tudo em moto-contínuo, emendando uma coisa na outra e sem muito tempo para pensar, resolvi aproveitar meu privilégio e me dar de presente um período sabático - no qual, como bem me disseram, tudo pode acontecer, inclusive nada.
Meu plano inicial era sair da casa dos meus pais em Belém em janeiro e descer por todos os países, culminando no Uruguai e então subir para Florianópolis, onde irei morar ano que vem. Um amigo que passou um ano fazendo essa viagem disse que meu plano era insano e que em dois meses eu mal chegaria na Bolívia. Na verdade, tudo depende da verba disponivel e do ritmo de viagem; e eu não quero nem posso exigir muito de nenhum dos dois. Não gosto de viagem de agência, daquelas que todo dia tocam o despertador e o cronograma é seguido como se em vez de viajantes fossemos pacientes com medicação controlada. Tenho vinte e oito anos, alguma grana no banco e absolutamente nenhum vínculo que não os afetivos. Nunca fui tão livre na vida; não sei se jamais o serei novamente. Um moço me disse que as pessoas são livres para desperdiçar suas vidas como melhor lhes aprouverem; e não quero desperdiçar o meu clichê da viagem em busca de mim num ritmo de linha de produção.
Pensei então em parcelar a viagem - parte de cima antes, parte debaixo depois do Natal. Não tenho vínculos além dos afetivos, mas estes são fortes; e passar o Natal perdida no mundo me pareceu demais. Estava com isso na cabeça numa fatídica madrugada em Santarém. Estava quente; lá sempre é quente, e eu tinha ido parar numa festa de aniversário num quintal, onde eu era a pessoa mais nova com uma folga duns vinte anos e proeminentes medicos e doutores tocavam violão e cantavam lindamente enquanto eu experimentava as iguarias dos anfitriões e bebia latinhas e mais latinhas de cerveja pelo calor e pela boniteza do som. Chegou no meu e-mail uma dessas mensagens de promoção aérea que eu normalmente ignoro, mas decidi ver mais tarde, na minha ebriedade recém-chegada ao hotel. As passagens de fato estavam baratas e a honestidade etílica converteu-se em auto-honestidade - sim, eu queria começar a viagem em dez dias; sim, eu quero passar uns dias em Campinas antes, porque os preços são os mesmos e eu sou livre para fazer o que eu quiser, inclusive para voltar para Campinas menos de um mês depois de ter ido embora, antes de começar meu mochilão latino-americano. E assim eu comprei as passagens e mandei mensagens avisando e no dia seguinte as pessoas demoraram para entender que eu estava falando sério, bêbada 3h da madrugada.
Meus trechos aéreos são Belém-São Paulo/ São Paulo-Montevideo / Montevideo-São Paulo / São Paulo Belém; todos em semanas diferentes. Minha estadia fora do Brasil está programada para durar 5 semanas; mas, pelo preço que eu comprei as passagens, não estou brincando tanto quando digo que posso até desistir de voltar. Tudo pode acontecer, inclusive nada; e avião é o meio de transporte mais chato que existe, com esses preços proibitivos de espontaneidade e ritmo de teletransporte. Não tenho pressa. 
- É importante ter um planejamento para não cumprir. - Me disse minha prima que viajou o Brasil de carona. 
E assim eu comecei a pesquisar quais lugares eu gostaria de conhecer e como faria para chegar neles. Quanto mais eu perguntava, mais lugares surgiam; e as distâncias percorridas ficavam cada vez menores, porque há muito a se descobrir em arredores. 
- Marina, você não conhece nem Belém direito! - Disse a mesma prima - Não acha que dá pra conhecer tudo de uma vez, não dá. Mas as pessoas ajudam, indicando onde você tem que chegar.
Foi muito legal começar a pensar o que afinal eu tenho interesse de ver - "um pedaço da Europa na América Latina" não me brilha os olhos; nem nada que me exija alugar um carro ou pareça programa de casal. Quero conhecer história andina, latina; quero ver mais gente jovem e sozinha perdida em busca de si. No fim, meu rascunho de roteiro tem apenas Uruguai e Argentina; e como eu acredito em destino e tenho o super poder de encontrar quem eu preciso, acredito que a vida vai me levar onde eu precisar chegar. Tenho hostels reservados para a primeira semana; alguns contatos de Couch Surfing; aplicativos de ônibus e hospedagem; um seguro saúde e um roteiro tão aberto quanto minha cabeça e coração.

                                                                                                 Capítulo seguinte

Um comentário:

Unknown disse...

Marina, que lindo