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Achei que me entediaria passando quase um mês na casa dos meus pais, mas a verdade é que embarquei no avião para São Paulo de peito apertado. Já moro fora de Belém há quase oito anos, e sinto que meu coração jamais será novamente completo - sempre com pedaços espalhados aqui e ali, feito fragmentos de explosão.
Tive também medo de pisar em Campinas e ter meu primeiro arrependimento de mudança, de não saber lidar com o fato da cidade que me fez quem sou não ser mais meu lar. Felizmente, ao menos por hora, só pensei que Barão é um lindo local para visitas. Digo que me torno a moça do táxi: em Belém temos uma série de lendas de visagens e assombrações, e a moça do táxi é uma das mais famosas. Uma vez por ano, se não me engano dia de finados, tal moça surge em frente ao Cemitério da Soledade, pega um táxi e pede para dar uma volta na cidade, comentando aqui e acolá as mudanças ocorridas nos últimos 356 dias. Ao fim da corrida, desculpa-se por não ter dinheiro, e dá seu endereço para o taxista fazer a cobrança. O motorista vai lá no dia seguinte e é informado pelo pai da moça que a mesma faleceu há anos. Tal qual a moça, ao retornar para cidades onde já morei, torno-me delas fantasma; e fico cheia dos comentários sobre as mudanças. Elas nunca mais serão as mesmas, e eu tampouco; e é por isso que doem as saudades e todas as mudanças são mortes; e toda morte envolve deixar e deixar-se partir.
Sou péssima em deixar partir.
Aproveitei a curta estadia para rever as mesmas pessoas de sempre e ir nos mesmos lugares de sempre; Barão, minha Terra do Nunca, estou deixando de ser menina perdida, estou tentando ir em busca de mim.
Aproveitei também para romper meu último paradigma capilar - raspei a cabeça.
- Você tem certeza que quer fazer isso? - Perguntou pelo menos cinco vezes meu amigo a quem eu pedi o favor.
- Tenho. Se você quiser, eu assino um termo de compromisso.
Passamos um tempo brincando de inventar desculpas do porquê eu tinha feito aquilo, caso perguntassem - "perdi uma aposta", "fiz uma promessa"; mas a verdade é que fiz porque quis. Para quem já teve cabelo de tudo que é tamanho e cor, não restavam mais muitas opções de mudança; e começar um mochilão me exigia uma mudança. Podem achar que eu raspei a cabeça porque não ligo pra cabelo, mas a realidade é que ligo tanto que quis que ele começasse de novo, e com tempo de estar dum tamanho ok quando eu voltar à vida de pós-graduanda. Todos os rapazes sempre me falavam que a sensação de não ter cabelo é ótima; e o cabelo está tão ligado à performance que a gente faz de feminilidade que eu achei até que, de uma maneira triste, machista e bizarra, eu estaria mais protegida viajando sozinha sem ele.
Contei meus planos de carequice para o rapaz que durante minha estadia me abrigou em seus braços e sua cama de solteiro:
- Vou fazer pela diversão, mas na realidade acho que vai ficar horrível.
- Acho que não. Esse comentário vai soar estranho, mas eu tenho uma queda por mulheres sem cabelo.
- Como assim? Você tem muitas referências de mulheres sem cabelo?
- Bom, na verdade uma ex minha raspava a cabeça.
Barão Geraldo: o lugar onde você acha que vai ser diferentona ficando careca, e descobre que a ex do cara que tá com você já fazia isso before it was cool.
- Você gosta de mulheres estranhas. - Eu disse, pensando em mim mesma.
- Gosto. E sempre tem a Natalie Portman em V de Vingança. - Ele continuou.
- Vou virar sósia da Natalie Portman. - Respondi.
Não virei, mas surpreendentemente me achei muito bonita sem cabelo. Gosto do meu rosto e a careca não me deu aspecto de doente, mas de poder. Não preciso de cabelo pra ser mulher. Descobri minha cabeça: achei a cicatriz dos pontos que tomei ao cair de patins, aos oito anos; e meu amigo engenheiro mecânico que raspou meu cabelo chamou os outros amigos engenheiros mecânicos para verem as linhas de corrente dos dois redemoinhos perfeitos que tenho. E por fim, as sensações são de fato maravilhosas: a água caindo no banho, passar a toalha, passar a mão, o vento batendo. Recomendo para todo mundo, pelo menos uma vez na vida. Depois o cabelo cresce, igual capim.
Não virei, mas surpreendentemente me achei muito bonita sem cabelo. Gosto do meu rosto e a careca não me deu aspecto de doente, mas de poder. Não preciso de cabelo pra ser mulher. Descobri minha cabeça: achei a cicatriz dos pontos que tomei ao cair de patins, aos oito anos; e meu amigo engenheiro mecânico que raspou meu cabelo chamou os outros amigos engenheiros mecânicos para verem as linhas de corrente dos dois redemoinhos perfeitos que tenho. E por fim, as sensações são de fato maravilhosas: a água caindo no banho, passar a toalha, passar a mão, o vento batendo. Recomendo para todo mundo, pelo menos uma vez na vida. Depois o cabelo cresce, igual capim.
No meu voo para Montevideo veio um cara vestido de noiva. Vou precisar fazer mais do que raspar a cabeça se quiser ser a pessoa que mais chama atenção num ambiente. E, no fim, é só uma careca e um vestido de noiva. Por que essas coisas importam?
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