Capítulos anteriores:
Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta
Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas
Capítulo 6: Da vontade de virar um leão marinho em Cabo Polônio
Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol
Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis
Dormi a viagem toda de Piriápolis até Montevideo (curta, uma horinha só). Cheguei na rodoviária de Montevideo e descobri que tinha ônibus para minha próxima parada, Colonia del Sacramento, em menos de meia hora. Ótimo! Comprei, embarquei e pensei que ficaria entediada nas três horas de viagem, mas... dormi tudo. Dormi antes do ônibus sair da rodoviária, para ser exata. Eu até queria ver o caminho, mas meu organismo ainda estava cobrando a conta das longas caminhadas e da alimentação desregrada. Dormi tão pesado que cheguei em Colonia meio desorientada, onde-estou-pra-onde-vou. Vi um outro mochileiro desembarcar e pensei em puxar papo - talvez estivéssemos no mesmo hostel (sites de reserva controlam nossas vidas, então isso é bem comum - lá vamos nós todos para o mais barato que não foi classificado como "lixo"), talvez ele soubesse o caminho; mas ele logo estava longe e eu estava zonza. Me dei conta que eram mais de 16h e eu só tinha tomado iogurte de e comido uma banana de manhã. Eu nem tinha bebido água direito. Fui buscar o hostel e decidi que naquela noite eu jantaria comida de verdade.
Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta
Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas
Capítulo 6: Da vontade de virar um leão marinho em Cabo Polônio
Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol
Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis
Dormi a viagem toda de Piriápolis até Montevideo (curta, uma horinha só). Cheguei na rodoviária de Montevideo e descobri que tinha ônibus para minha próxima parada, Colonia del Sacramento, em menos de meia hora. Ótimo! Comprei, embarquei e pensei que ficaria entediada nas três horas de viagem, mas... dormi tudo. Dormi antes do ônibus sair da rodoviária, para ser exata. Eu até queria ver o caminho, mas meu organismo ainda estava cobrando a conta das longas caminhadas e da alimentação desregrada. Dormi tão pesado que cheguei em Colonia meio desorientada, onde-estou-pra-onde-vou. Vi um outro mochileiro desembarcar e pensei em puxar papo - talvez estivéssemos no mesmo hostel (sites de reserva controlam nossas vidas, então isso é bem comum - lá vamos nós todos para o mais barato que não foi classificado como "lixo"), talvez ele soubesse o caminho; mas ele logo estava longe e eu estava zonza. Me dei conta que eram mais de 16h e eu só tinha tomado iogurte de e comido uma banana de manhã. Eu nem tinha bebido água direito. Fui buscar o hostel e decidi que naquela noite eu jantaria comida de verdade.
Check-in. Pela primeira vez, fui colocada na cama de cima do beliche. Ai deusa, tenho medo de altura. Ok. Tive que subir para já deixar a cama arrumada e conclui que talvez eu tivesse que morar ali, porque eu estava com medo de descer. Que medo mais idiota. Ok. Respira. Solta o corpo devagarinho... chão. Ufa. Não doeu. Mas decidi que só subiria ali de novo pra dormir, e olhe lá.
A menina da cama debaixo conseguia ser mais desorganizada do que eu, o que é realmente algo notável. Tive que tirar as coisas dela da frente da minha gaveta embaixo da cama. Mas enfim minha mochila estava guardada e eu estava pronta para conhecer a cidade, para aproveitar enquanto ainda tinha sol. Bebi muita água, comi um alfajor para dar uma glicosada até o jantar e fui pernar.
Claro que eu comecei indo para o lado errado, e Colonia pareceu uma cidade normal demais pra mim. Cadê as construções históricas que me falaram? Encontrei por acaso uma feira de artesanato, e uma prainha; mas depois de uns cinco quarteirões admiti minha derrota e peguei o celular para checar o maps. Aaaah... Virei para o lado certo e após algumas quadras, lá estava o centro histórico, super gracinha como tinham me dito que era, com igrejas e museus, bares, feirinhas e ruínas. O sol estava se pondo e estava lindo, e eu percebi que já estava acostumada com lindos por-do-sol porque nem fiz questão de fotografar. Minha prima que morou no Uruguai tem razão - o país tem o por-do-sol mais bonito do mundo. Lá no horizonte, depois do rio, via-se os prédio duma cidade. Presumi que fosse Buenos Aires e pensei como seria minha aventura Argentina.
Isso foi no dia seguinte à vitória do Trump, então havia restaurantes fazendo piadas dizendo que refugiados estadunidenses eram bem vindos. No hostel de Punta del Este todo mundo estava chocado comentando de manhã - uma menina estadunidense com cara de "desculpem meu país". Quando voltei para o hostel de Colonia (depois de parar num restaurante barato e pedir um prato com a primeira e única carne ruim que comi na viagem até agora e que eu não dei conta de terminar porque além de ruim era enorme, mas ao menos cumpriu a função de ser "comida de verdade" - eu realmente preciso aprender culinária vegetariana, porque minha relação com carne e seu sistema produtivo está cada vez pior e a carne pesa cada vez mais no meu organismo e na minha cabeça; e se eu compro eu quero comer tudo porque o bicho já morreu pra isso), estava ansiosa para conversar com seres humanos e, ao ver uma rodinha falando em inglês, me aproximei e perguntei se podia sentar com eles, porque estava entediada. Fui recebida com gentileza e uma dose de whisky, e um dos tópicos de conversa foi como a onda conservadora está crescendo no mundo (ou, ao menos no caso brasileiro, saindo do armário). Falei sobre Bolsonaro e tentei explicar o impeachment; mas todos estavam meio bêbados e explicar todos os ganhos sociais e acordos excusos e histórico de lutas versus governabilidade exigiria uma concentração e um tempo que ninguém me daria. Meus companheiros de mesa, romenos, contaram-me dos conservadores de seu país.
Além de falar de política, conversamos também sobre o tópico principal e padrão daqueles que se encontram em hostels: viagens. Eram dois casais de romenos, que não se conheciam antes. Um dos casais saiu para viajar o mundo por seis meses e outro por um ano. Nenhum deles tinha encontrado outro romeno antes de ouvirem a língua natal um do outro no Atacama. Tiveram de apresentar-se e descobriram que tinha itinerários e datas de regresso parecidos, então decidiram viajar juntos a partir daí. Não eram apenas romenos, mas também da Transilvânia - "mas não somos vampiros, juro", um deles logo me disse rindo, e contou que na verdade morava bem perto do castelo do Drácula que, segundo ele, deveria explorar mais o turismo. Disse que no castelo não se vê coisas do Drácula, mas da Queen Mary, que morou ali; e que quem sabia explorar turismo eram os bolivianos, que vendiam como atrativo a Estrada da Morte:
- "Por que estrada da morte?", eu perguntei, e me disseram que é porque é uma estrada numa montanha com muitas curvas sem nenhuma proteção, por isso muitas pessoas morrem ali. Isso é uma estupidez, todos os países tem estradas perigosas, aí a gente coloca proteção, oras! Não vou pagar pra ir aí. Eu sou engenheiro!!!
Contaram também da angústia dos pais pela viagem, que esperavam que eles estivessem usando essa grana para começar a comprar casa; e que os salários da Romênia não diferem muito dos do Brasil - na verdade, a desigualdade é menor, então quem ganha mais lá ganha menos do que os ricos brasileiros.
Uma das moças estava preocoupada com alguns aspectos da viagem ao Brasil, e começou a me fazer algumas perguntas. Foi nesse momento que eu me dei conta de algumas coisas que eu tenho tão naturalizadas que nem me passam na cabeça. Questionou se eu não me preocupara com zika, porque todo mundo falava muito disso pra ela; e como eu não tenho nenhum plano de gravidez pelos próximos cinco anos pelo menos, em momento nenhum da minha vida eu me preocupei com isso (até já avisei meus pais que essa história de procriação talvez não role, já que 1)Eu vou começar um doutorado e 2)Eu não quero cuidar de uma criança sozinha - e eu nem estou falando necessariamente de amor eterno; estou falando é de alguém que divida troca de fraldas e despesas). Perguntou sobre segurança, e eu disse que a gente evita andar sozinho em lugar deserto à noite e espera o melhor. Na verdade, quando eu fui à Coreia eu me dei conta do quanto o medo de violência no Brasil nos priva de aproveitar o espaço público e cerceia liberdade de ir e vir. Mas eu também não penso nisso a maior parte do tempo, apenas sigo regras não escritas que pretensamente ajudam a assegurar meu bem estar. Como mulher, meu medo sempre é maior que assalto. Como feminista, sei que o que ocorrer não será minha culpa. Mas tenho medo, e chamo privação de prevenção.
Trocamos facebook e dicas de viagem na Argentina, Uruguai e Brasil. Fiquei sabendo que em romeno eles tem uma palavra similar à saudade, que soa algo como "do-or".
Conversei rapidamente com um rapaz alemão loiro, cabeludo e magrelo que estava passando um mês inteiro em Colonia:
- Com tanta coisa pra ver na América Latina, por que você vai passar um mês aqui? - Perguntou uma das romenas.
- Porque quero me libertar dos conceitos de status que a gente tem na Alemanha. Não quero associar status com dinheiro. Quero ser livre. Também não preciso ver todas as coisas bonitas do mundo para ser uma pessoa completa. Quer dizer, elas são legais, mas não são tudo. Além disso, estou totalmente sem dinheiro e já tinha reservado o mês aqui, então vou ficar.
No dia seguinte, descer do beliche foi mais tranquilo. A moça bagunceira da cama debaixo foi me procurar no banheiro porque sem querer eu tinha prendido parte do carregador dela na minha gaveta - ajudaria se ela não deixasse tudo na frente da minha gaveta, mas realmente não primo por atenção.
No café da manhã pedi informações do ferry que vai a Argentina para um casal de franceses que iria fazer a viagem naquele dia. Eles estão viajando o mundo de bicicleta e falaram que existe algo similar ao Couchsurfing, mas para ciclistas, chamado Warmshower - porque um banho quente é tudo o que você precisa depois de um dia pedalando.
Fui reservar hostel em Buenos Aires e vi que tinham muitos mal-avaliados. Escolhi um que parecia badaladinho, porque estava viajando há duas semanas e começou a me dar vontade de festa. Ele não tinha vaga para aquele dia, só, o seguinte, então decidi passar mais uma noite em Colonia. Fui avisar isso na recepção e fiquei sabendo que o hostel onde eu estava não tinha mais vagas para aquela noite. Encarei aquilo como o destino me mandando passar a sexta em Buenos Aires. Reservei o hostel mais barato para aquela noite, sem ligar que ele estava avaliado como "lixo". Arrumei minhas coisas, fiz check-out e fui comprar passagem do ferry segundo as instruções dos franceses e dar meu último rolê sem rumo pelo Uruguai.
(Este cachorro estava na porta da Basílica del Santíssimo Sacramento. Na porta, lê-se "Binvenido!! Usted va a ingresar a una iglesia catolica. Hagalo con el debido respecho, Muchas gracias.")
Um comentário:
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