terça-feira, 8 de novembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 4: De mís diablos en Punta

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Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo


Seguindo a recomendação da minha prima que já morou no Uruguai, minha parada seguinte do mochilão foi Punta del Diablo - que, pelo que eu tinha lido na internet, era um vilarejo de praia meio hippie. Minha saída de Montevideo foi o primeiro momento no qual me senti realmente mochileira - o mochilão atrás, minha mochila normal na frente, minha careca no sol. Eu poderia conquistar o mundo!


A viagem foi longa, quase seis horas de ônibus. Senti que conheci o Uruguai, já que paramos em várias cidadezinhas para embarque e desembarque de passageiros. Vi também muito pasto, eucalípto e algo de mar e montanha no fundo. Os cenários eram muito bonitos e eu poderia ter batido fotos, se não tivesse me distraído no que deveria ter sido uma surpresa boa - o ônibus tinha wi-fi. Entre mensagens para família e amigos, perdi-me numa DR quase filosófica com um rapaz com quem tive um caso de amor feito de nuvem, e para mim a conversa acabou em chuva - e nuvens não chovem por bondade ou castigo; nuvens chovem porque é de sua natureza chover e ainda assim chuva pode me trazer lágrimas. Quando enfim cheguei a Punta del Diablo já era noite, e na minha falta de atenção tipicamente pisciana agravada pelo meu coração ligeiramente empoçado eu quase perdi minha carteira no ônibus - já tinha desembarcado e só percebi a falta dela porque tinha que entregar o ticket para pegar o mochilão no bagageiro. No hostel percebi que perdi meu fone de ouvido e o cabo USB do carregador do meu celular; o que foi chato, especialmente porque o recepcionista me disse que não havia lugar em Punta del Diablo que vendesse essas coisas. Por outro lado, ao menos a carteira com quase mil pesos (mais de R$120) e todos os meus documentos estava comigo, então só tenho a agradecer à divindade protetora das viajantes que me acompanha.


O hostel era badaladinho, daqueles com um recepcionista perturbadoramente bonito com aquele ar descolado praiano e mensagens divertidinhas, tipo uma porta de vidro com cartaz em inglês dizendo "Cuidado, sou um vidro! Não tente passar por mim, ou baterei na sua cara e no seu ego!" ou aqueles típicos avisos a hospedes que se coloca nas portas, que falava que o check-out era 12h e, caso você tivesse tido uma noite muito louca, seria acordado por um dos recepcionistas lindos e simpáticos e teria que pagar uma diária extra depois das 12h. Havia gente bebendo e fazendo música, e meu coração empoçado sentiu uma puta duma preguiça de socializar. Senti saudades do Leminski:

"Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.

Com isso ninguém nasça,
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha,
E é melhor encher a cara."

Pus na mochila a garrafa de vinho que tinha trazido e uma canga, coloquei chinelo, gorrinho e casaco e fui pra praia, ficar bebendo sozinha olhando as estrelas e curtindo a bad. O mochilão é meu e eu posso fazer o que eu quiser - até desistir, até fugir daquelas pessoas irritantemente felizes do hostel; as pessoas viajam para se libertar da rotina, eu sou universitária; talvez minha rotina já tenha festa demais, talvez eu precise mesmo de um tempo pra ficar lendo, tenho lido tão pouco e gosto tanto de palavras. A praia estava deserta, a baixa luminosidade da cidade revelava um sem número de estrelas, e deitada na areia fiquei procurando uma cadente, pensando em desejos. Mas as estrelas continuaram paradas na sua memória de existência de anos-luz. Vi apenas alguns brilhos movendo-se naquela velocidade lenta de satélite ou disco voador - jamais sabereio que; e por fim conclui que não era uma boa noite para desejos serem atendidos e estava frio demais para ar livre. Decidi voltar para o hostel, pensando em como me esconderia das pessoas no meu quarto com oito beliches e que talvez o melhor fosse dormir e torcer para no dia seguinte o sol evaporar minhas poças e melhorar meu humor. 



No caminho, um cachorro começou a me seguir. Depois de alguns metros, virei-me pro bicho:
- Olá! Você fala português?
Ofereci minha mão para ele cheirar, no protocolo de apresentações. Ele passou a cabeça nela. Dei-lhe algums fatias do pão que eu tinha na mochila, ele comeu e depois pediu carinho, quando dei por mim estava brincando com o cachorro e com o coração bem quentinho. Virei um personagem de sessão da tarde, gosto mais de bicho que de gente.
- Como tá a viagem, Ma? - Perguntou-me uma amiga por mensagem na manhã seguinte. Fiz-lhe um resumo.
- E as pessoas? - Ela me perguntou.
- Não gosto de pessoas. - Respondi, e emendei com um "rs", o código para quando a gente quer amenizar algo muito absurdo que disse. Depois conclui que nem é que eu não goste; só realmente estava com preguiça de apresentações e conversas superficiais. Português era quase a língua oficial do hostel (talvez porque Punta Del Diablo fique em Rocha, que é o distrito uruguaio que faz fronteira com o Brasil) e havia um clima constante de flerte de balada que na minha bad não me era convidativo. Os cães, por outro lado, pareciam sempre dispostos a um afago sincero, sem que eu tivesse de dizer meia dúzia de fatos supostamente sexys e interessantes sobre mim mesma e depois sumir sexy e misteriosamente transformando-me em mais uma lembrancinha do mercado consumista do sexo casual de viagem. Para mim sem dúvida os cães foram os seres vivos mais interessantes que conheci em Punta del Diablo, todos grandes, soltos, bonitos, bem cuidados e com vidas melhores que a minha (que, para a média humana, já é bem boa), e, por isso mesmo, com bem mais fé do que eu na humanidade.


No dia completo que passei em Punta del diablo, passei protetor solar literalmente dos pés à cabeça (meu cabelo está crescendo rápido, acho que logo logo isso não será mais necessário, mas achei por bem ainda fazâ-lo por hora) e fui, como de costume em viagens, andar sem rumo. As casinhas são coloridas e com teto de palha, as ruas são todas de areia. Gostei da vibe das pessoas que trabalham lá - de venda de peixe a loja de lembrancinhas, vi várias vitrines de lojas fechadas com placas de "Se quiser comprar, ligue para ...". Ficar parado à toa por que, né? Se me quiser, me liga em casa. Fiquei pensando se eu tenho alguma habilidade hippie; se eu não poderia, sei lá, vender umas fotos com uns poemas e de repente ninguém suspeitaria que eu tenho família e mestrado, eu seria só a careca solitária do mar. Mas não será para Punta del Diablo que eu irei, no dia em que decidir ir vender minha arte na praia. O lugar é bonito, mas não me tocou o suficiente - ou talvez fosse só meu coração empoçado. Prefiri as praias do Brasil. Peguei uma pena no chão da praia e pensei no quanto é curioso a mesma palavra servir para voar, enfeitar cocar, dividir dor e condenar.


O chão era quase feito de conchas. O mar estava marrom e, dada hora, sentada nas pedras, eu vi uma barbatana erguendo-se e mergulhando no mar. Será? Minha cabeça começou a tocar: fá - fá sustenido - fá - fá sustenido; será? De novo. De novo. Só no dia seguinte eu acreditei mesmo, vendo uma placa na estação - sim, há tubarões nas praias. Sim, eu vi um.


A água estava gelada, mas era questão de honra dar um mergulho. As praias estavam quase desertas, e me foi difícil acreditar que aquilo enche em temporada, como me disseram. Algas cobriam pedras pequenas como árvores cobrindo continentes e eu fiquei viajando pensando como tudo são pequenos e grandes universos, e como eu sou tão pequena e um universo em mim, e como é tão absurdo eu ter tanta ansiedade com horários e futuro e pressa de eternidade se - com sorte - em algumas décadas eu estarei morta e enterrada. Tirei o relógio. Por que diabos eu estava de relógio na praia? 



À noite, tentando não ser comida por mosquitos, comecei a ler um livro que comprei quando morei no Paraguai, "Madame Lynch y Francisco Solano López". Na época eu queria um romance sobre a Guerra do Paraguai, sobre a qual eu sei tão pouco e que marcou tanto o país onde eu estava morando - a avenida principal de Asunción chama-se Mariscal López, o chefe de estado da guerra; e há vários monumentos espalhados homenageando os mortos nas batalhas que destruiram o país. Escolhi esse livro por ter sido escrito por uma mulher, Concepción Leys de Chaves, e ser contado por uma ótica feminina, a tal Madame Lynch, que teve um caso de amor com o mariscal. O livro é bem romance mesmo, mas dada hora me vi: "...era la primera manifestación de unas de su cualidades predominantes, la necesidad de experimentar un sentimiento apasionado, que la posera totalmente". Abri um sorriso porque achei bonito.

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