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Decidi parar em Punta del Este exclusivamente porque queria ver o por-do-sol na Casapueblo. Achei que a cidade era cidade demais, e estava certa - depois de Cabo Polonio, qualquer predinho me pareceria arranha-céu; e Punta del Este é uma cidade de verdade, com ruas grandes e prédios e shoppings (enfim consegui comprar carregador de celular e fone). Não era temporada e estava bem nublado, então foi dia de praias vazias e fotos em preto-e-branco.
Viajei com a menina alemã, que me deixou mega sem jeito ao dizer que eu era muito corajosa por ter raspado a cabeça - a menina tem 18 anos e está viajando o mundo sozinha, e raspar a cabeça é coragem? - e que eu ficava bonita sem cabelo. Ela já tinha estado em Punta, no mesmo hostel, o que foi de muita ajuda para mim e um casal de, veja só, paraenses chamados João e Maria (juro!) que viajaram no mesmo ônibus que a gente. Tentei adicionar no whats a brasileira que passou o dia comigo em Cabo Polonio e meu celular não aceitou - desde que saí do Brasil ele desconfigurou todos os números e tentei tirar e colocar o 55 e nada. Acabei decidindo dormir duas noites em Punta (e não só uma, como era o plano inicial) porque o hostel de lá era mais barato que o da cidade seguinte (Piriapolis) e tinha um café da manhã excelente; e trombei com ela por acaso no café antes de fazer o check-out. Concluimos que esses aplicativos de reserva de hospedagem controlam nossas vidas com seus rankings, o que na verdade pode ser bem assustador - é tudo bem na confiança, o que garante que nenhuma empresa está alterando os dados? Fora que eles sabem nossa localização, sempre.
Estava menos conversadeira, mas ainda assim troquei uma ideia com o pessoal do meu quarto. Primeiro, um californiano que morou alguns meses no Brasil e falava um português muito bom:
- Sou jornalista esportivo. Fui para a copa e depois quis dar um jeito de ficar. Gostei muito!
Mostrou-me orgulhoso a maconha que ia bolar:
- Camarões, né? Aprendi o termo agora, mandei foto pros meus amigos do Brasil, eles elogiaram. Muito boa! A de vocês é muito prensada. Maconha aqui é muito melhor, por ser legalizada. Mas sinto falta da californiana.
- Lá é legalizado também, né?
- Só pra uso medicinal. Quer dizer, na prática é legalizada. Fui no médico pra arranjar licença, falei de uma dor de estômago. Ele disse que com isso eu não conseguiria. Perguntou minha profissão, eu disse que era free-lancer. "Você tem ansiedade", ele disse. "Hã... tenho?", eu perguntei; e ele disse "tem, tem sim, não tem um emprego fixo, ansiedade". Escreveu a receita, 50 dolares, consegui maconha medicinal.
Depois falei com um arquiteto colombiano que estava em Punta para uma competição de natação. Ele disse que já esteve em Brasília e que achou a cidade ao mesmo tempo excelente e péssima, porque é esteticamente linda, mas ele não entende como uma cidade que foi planejada do zero não é feita para pessoas - não tem gente na rua.
Tirando esses gringos, parecia que só tinha brasileiro em Punta. Andando sem rumo, encontrei de novo uns motociclistas do Rio Grande do Sul que estavam em Cabo Polonio, todos de preto com jaquetas de couro e que gritaram sorrindo:
- Ei guria! - Porque nós tinhamos trocado algumas palavras na espera do ônibus e depois eu parei para ponderar que eu também não tinha dos visuais mais comuns - careca, malha florida. Achei legal que era um grupo bem heterogêneo - uns casais quarentões, uns mais novos.
Encontrei também os paraenses João e Maria e achei engraçado eles pararem para bater fotos de turista nos lugares meio nonsense que eu escolho bater minhas fotos. Minha mãe diz que eu não vim pra viagem, mas...
Mas falando em lugares turísticos: os de Punta del Este são as praias, basicamente. Dizem que em temporada fica impossível, deve ser divertido ir de galera, passei por placa em loja dizendo que precisava de gente pra temporada, fica a dica pra quem quiser se mudar pro Uruguai.
(Aliás, no hostel tinha um brasileiro que está tentando abrir um negócio no Uruguai e ficou falando mal do Brasil pruns gringos no café da manhã, enquanto uma americana reclamava para mim e para outra brasileira que não tem nada pra fazer em Punta.)
Tem uma imagem da padroeira da cidade em uma praia (cheia de agradecimentos, e alguém colocou conchas em suas mãos). Tem o porto, onde tem mais leões marinhos! Lá eles parecem levar uma feliz vida de cachorro, esperando os feirantes jogarem os restos dos peixes.
E tem a Casapueblo, que na verdade nem fica em Punta del Este, mas em Punta Ballena, uma cida vizinha. Vi no mapa: 14km. Eram 14h, o sol estava se pondo depois das 19h. Costumo andar uns 7km com a Vivi (minha cachorrinha) em finais de semana; é "só" o dobro. Eu não tinha nada pra fazer. Daí me veio a ideia meio louca de ir andando. E, se eu cansasse ou se começasse a ficar estranho, eu pediria carona. Dizem que é tranquilo pedir carona no Uruguai, não é mesmo?
E assim eu caminhei por 3h - parte descalça na beira do mar, parte de tênis na calçada, parando para ver o que pareceu legal no caminho. Foi cansativo. Faltou calçada em alguns pontos. Mas foi bonito. O sol até abriu rápido, depois fechou de novo (e mais uma vez me arrependi de não ter passado protetor; a essa altura eu já estava com orelhas descascando e cabeça ardendo - não é que cabelo serve pra alguma coisa?). E, quanto mais eu me aproximava, mais bonita a vista ia ficando.
Apaixonei-me perdidamente pela Casapueblo. No caminho eu pensei quanta grana o cara devia ter, pra ter construído aquilo; e me veio de novo aquela angústia de riqueza como pre-requisito pra arte - todo mundo tem que comer, afinal; quanto talento pra tudo escorrido em 44h semanais. Mas, nesse caso, eu estava errada - o Carlos Páez Vilaró construiu aquilo fisicamente. NO BRAÇO. Trocando arte por material de contrução. Evitando linha reta, para tornar a casa mais humana, é o que diz na parede. A casa é cheia de obras dele, e valeu minha parada em Punta del Este. Tem também gatos - é tão casa que tem gatos andando no meio das obras do cara, gente.
Todo dia, ao por do sol, uma gravação dele recitando um poema é reproduzida. Uma ode e despedida ao sol. Dizem que é lindo. Foi pra isso que eu fui pra Punta.
Estava nublado. Cinza. Cinza cinza cinza sem nada de cor como as fotos desse post, como fumaça. Nada de cores solares, nada das cores do Vilaró.
Mas ainda assim foi lindo. Fiquei para ouvir o poema no cinza. Eu gosto demais de cores e às vezes saturo a vida. Feito palco, feito carnaval, feito juventude e corante de bala.
Cinza. Há beleza no cinza, no nublado, na fumaça, no efêmero, no fim do dia que queima diferente, mas queima - porque tudo queima, porque tudo é fogo, porque tudo é vida, porque amanhã tem mais sol.
Despedi-me do sol sem vê-lo, como quem se despede de um sonho, como quem se despede de um amor que não foi.
Anoiteceu. Sai da Casapueblo. Fui para o lado errado - lembrei da minha técnica de Taekwondo que dizia que você nunca vai ser a única pessoa fazendo o movimento certo; todos foram para um lado e eu para o outro. Vi que estava perdida. Voltei. Achei a estrada. Pensei em pedir carona, mas havia mais gente esperando o ônibus. Eu era a única que não tinha espanhol como língua nativa, e consegui pedir informação e explicar pra todo mundo quais ônibus pegar - acho que estou ganhando prática de viagem.
Cheguei no hostel 20:55h, bem a tempo de pegar o mercado do lado ainda aberto pra comprar comida (meu "almoço" foi amendoim). Se isso não prova a existência da Deusa Protetora das Viajantes, eu não sei o que prova. Cortei dois tomates e joguei no prato a lata de ervilhas e a lata de atum. Te batizo jantar em nome do pai, do filho e do espirito santo. Em hostel geralmente tem um canto onde as pessoas que vão embora deixam a comida que sobra, e tinha queijo ralado. Queijo ralado! Taquei no prato também. Só depois vi que não era comida abandonada, era comida de alguém que ainda estava lá - eu estava tão exausta que confundi, juro. Fiquei super culpada. Se você se chama Victor e se hospedou neste mês em Punta del Este, fui eu que mexo no seu queijo, por favor me desculpa. Até pensei em comprar outro pra repor, mas encontrei minha amiga no café antes de fazer check out e tive que sair correndo pra não perder o ônibus. Espero que a Deusa te pague.
(Mas, se você for o brasileiro que estava falando mal do Brasil para os gringos, encare isso como karma. Migo, eu pegaria mais queijo, não dá pra te defender).
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Um comentário:
Muito feliz com teus escritos e tuas fotos! Uma linda travessia!
Vou ficar acompanhando.
Bjos!
Palo/Paloma/Pjoca
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