Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Monumento na Plaza da Independência e Palácio Salvo, que já foi o prédio mais alto da América Latina. E o clima chuvoso que acompanhou quase toda minha estadia
Comecei meu mochilão como criança com medo de entrar na água. Aliás, criança não; crianças ainda não sabem que podem se afogar ou quebrar o pescoço numa pedra, e mergulham sem pensar. Eu não mais. Comecei colocando a ponta dos pés. Conexão de alguns dias em Campinas - cidade mais que conhecida, minha antiga casa, mas sem casa. Então Montevideo, cidade a ser descoberta, mas ainda em uma casa familiar - uma tia minha mora na cidade e, apesar de estar viajando, hospedou-me em seu apartamento - lugar belíssimo, com tantos livros que eu quase desisti de viajar para ficar apenas lendo naquele sofá com vista pro mar. Em Montevideo tive um caso de amor - com o Leminski. Entre um passeio e outro, bebendo bons vinhos uruguaios comprados no mercado por menos de R$15, devorei-lhe parte da poesia completa - quase toda que ele publicou em vida; e pensei o quão assustador é ter em mãos num único volume toda a vida poética de alguém, como se a pessoa toda coubesse e se materializasse naquele livro. Lembrei de uma amiga que, como artista que é, tem aquele dom de ocultar quando brinca e quando fala sério; e que me disse, enquanto colhiamos flores como donzelas de conto para embelezar um ateliê cheio de jovens auto-destrutivos como nós mesmas, que queria que após sua morte toda sua obra fosse destruída, como pediu e não teve atendido Kafka:
- A humanidade não merece que eu lhe deixe nada. - Ela me disse.
Agradeci ao Leminski por não ter feito o mesmo, ou a poética que ainda me restaria para ler dele seria ínfima e eu teria saudades mais depressa. Senti-me meio alcoolatra ao andar na praia de Malvin com um vinho, um livro e minha máquina fotográfica enquanto as pessoas corriam, atléticas e saudáveis, numa quarta-feira, o dia em que fez sol. Mas conclui que é minha vocação: nasci para ficar deitada ao ar livre tomando vinho bom e barato e lendo poesia - mesmo depois de ter descoberto que o Leminski era faixa-preta e dava aulas de judô.
Praia de Malvin
Minha tia que me abrigou não o é por sangue, mas por afinidade. Ex-esposa de um irmão do meu pai; mãe de uma prima; fez faculdade com a minha mãe. Uma das pessoas mais doces da vida; ligou-me para perguntar se eu já tinha me entendido com a cafeteira e dizer que tinha comida na geladeira. Prometi-lhe que não morreria de fome, como já tinha feito à minha mãe. A cafeteira tonou-se minha companhia nesses meus primeiros dias uruguaios - porque todos tem seus vícios e cafeína é um dos meus, e desde o avião todos os cafés que eu tomei fora de casa são horríveis. Uma tarde me perdi levemente andando na Ciudad Vieja, bairro turístico, e fui parar em uma padaria perto do porto. Estava desesperada por um café. Perguntei o preço e o atendente me disse "dois pesos", o que são uns sessenta e poucos centavos. Pedi e ele me entregou um sachê de café solúvel, o que explicava o gosto ruim constante. Perguntei se não havia água e ele demorou a me entender; até que outro cara, aparentemente seu chefe, fez-me o café e me cobrou sessenta pesos (uns sete reais) e eu pensei que água quente vale muito nesse país e preciso melhorar meu espanhol pra deixar de ser turista otária. Enquanto eu tomava meu café, na mesa do lado uns caras muito bêbados numa terça-feira à tarde (não que eu esteja em condições morais de julgar alguém por estar bêbado numa terça-feira à tarde) assediavam umas meninas; e eu passei a mão na minha cabeça raspada. Foi o dia em que sai mais andrógina, toda de preto e cinza com calças e camisar largas, e vi que tinha passado incólume - que grandessíssima bosta, que cultura de estupro; ter cabelo é pedir assédio.
Praia de Malvin
A cozinha da minha tia tinha tantos temperos que eu não fazia ideia do que eram nem pra que serviam que por um instante me deu vontade de virar gourmet como a prima cujo quarto vazio eu ocupava; mas por fim não me aventurei em nada mais complexo que macarrão. Contenção de gastos para a viagem poder ser mais longa, só comi num restaurante um dia; uma carne deliciosa e enormente infinita. Antes de embarcar no mochilão, pensei em vários possíveis mudanças - deletar facebook, virar vegana. Não fiz nada disso, mas, tirando o desepero de se perder e não poder acessar o maps, tem sido bom não ter sinal de internet na rua. Obriga-me a ver mapas e rotas antes e me dá mais tempo em companhia de mim mesma e da cidade. Por outro lado, carne e doce de leite são comidas típicas destas terras e achei que experimentar alguns sabores fazia parte da viagem.
Praia de Malvin
Para quem tiver curiosidade, não vi onde se vende maconha. Um conhecido falou-me que não se vende, dá-se. Montevideo não é Amsterdã, não parece haver turismo ligado à cannabis. Vi só umas duas lojas no centro que me lembraram a cidade européia, com várias coisas com estampas de maconha e acessórios pra becks; mas ambas com placas de "no se vende marijuana". Achei divertido ver nos lugares palcas de "ambiente livre de fumo de tabaco". Ao contrário do que os conservadores possam penar, senti pouco cheiro nas ruas - chamem-nos de maconheiros; senti menos que na Unicamp, por exemplo. Legalizar maconha não transforma o país num "país de drogados", legalizar maconha elimina tráfico de maconha, só isso - e só isso, no Brasil, salvaria muita gente de favela que tá morrendo de tiro enquanto eu to aqui, lindamente universitária e metida a hipster discorrendo a respeito.
Praia de Malvin
Passei ao todo três dias em Montevideo e passaria mais; mas apenas para esta primeira semana de viagem eu já tinha reservado hostel para a cidade seguinte e havia taxa de cancelamento envolvida. Talvez na volta ainda passe outros dias na capital uruguaia; o sol só apareceu no meu dia de partida e gostaria de ter fotos menos melancólicas e de fazer a visita guiada ao Teatro Solis e ver a feira de Tristan y Navaja. A simpaticíssima motorista de Uber que levou-me do aeroporto à casa de minha tia me alertou a não andar minha câmera pelo centro, então infelizmente as fotos de lá foram de celular e ficaram meio ruins. Achei a cidade bonita e fácil de se locomover a pé e de ônibus. Não peguei engarrafamento, consegui enteder a cidade - mas essa praga de colocar o motorista para ser também cobrador espalhou-se pelos três países que conheço de América Latina (Brasil, Paraguai, Uruguai). O dinheiro me é confuso; 1 real vale mais que 8 pesos uruguaios e tente você ficar fazendo conversões de cabeça na tabuada do 8,5. Nesse caso quem converte não se diverte porque está com dor de cabeça. Mas até já reconheço as moedas - grande desafio com dinheiro que não é o nosso; lembro do intercâmbio pros EUA, quando eu quase surtava de tanta moeda que nunca conseguia identificar pra usar. Sou quase uma uruguaia.
Por do Sol na Rambla-que-esqueci-o-nome
Vi stencil em parede contra Uber em prol de um transporte popular; vi stencil sobre direito à moradia no centro histórico; vi exposição sobre assédio sofrido por minas. Vi também o por-do-sol perturbadoramente bonito na Rambla; e alguns dos museus pontos turísticos, que não cobram entrada e tem aviso proibindo de entrar com mate: o Museu do Governo, onde tem um cachorro vira-lata de um ex-presidente empalhado (um tanto perturbador) e onde vi que alguns presidentes vão e vem - acho que reeleição não é permitida, mas volta depois que outro cumpriu mandato sim; o Museu Romântico, meio sem graça com aquelas peças clássicas que já conheço de outros museus; o Museu Pedagógico, pequeno e muito interessante sobre as reformas educacionais realizadas por José Pedro Varela (o brother colocou minas pra mandarem em colégios masculinos e alterou o modo default de decoreba para outra coisa - mesmo em rotinas rígidas. Bem legal ver que meninas tinham aulas com modelos de mecânica e anatomia, embora eu tenha achado divertido ver que o modelo de sistema muscular não tinha genitália); o Mercado del Puerto (não achei nada demais), feiras de artesanato (adoro). Num dos dias teimei de sair apesar do nublado e fui forçada a comprar um guarda-chuva, que se desfez em menos de vinte minutos e me deu vontade de desistir. Encharcada passei na frente do jornal El País, que passa manchetes em letreiros e dizia que o país estava em alerta por temporais. Chegando em casa, bem mais tarde, vi a mensagem da minha tia me pedindo pra voltar. Tirando o tênis ensopado e o medo de gripe, tudo certo. Comprei um gorrinho para proteger mnha careca e minhas orelhas do frio. Sobrevivi a tempestade em Montevideo e ainda consegui andar no dia seguinte na beira da praia, que me respingava e ventava tanto como se quisesse me abduzir. E no último dia houve o por-do-sol com vinho e a companhia do Leminski; ah Lemisnki... todos tem suas paixões de viagem.
Inovações educacionais apresentadas no Museu Pedagógico - um avanço em relação às práricas anteriores
Praticas educacionais anteriores
Ao por-do-sol embreaguei-me de vinho barato, lembrança e Leminski








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