quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 5: De como o destino quis que eu passasse uma tarde em Valizas

Capítulos anteriores:

Capítulo 1: Dos planejamentos (ou da falta deles)
Capítulo 2: Da (breve) volta à Campinas
Capítulo 3: Da poesia nublada e molhada de Montevideo
Capítulo 4: De mís diablos en Punta


O ônibus de Punta del Diablo para Cabo Polonio, minha cidade seguinte do mochilão, sairia 9:20h, pelo que me explicou o atendente do hostel. Eu deveria ter saído mais cedo, mas  café da manhã só começava a ser servido 9h, e eles tinham um café bem decente (brasileiro, cafeteira); e começar o dia sem uma dose de cafeína me seria doloroso demais.
(Parêntese: só eu acho 9h muito tarde para começar a servir café numa cidade de praia? Ao contrário da maior parte do universo, eu sou um serzinho bem diurno; e em praia, especialmente, sigo horários de vó.)
Consegui sair do hostel 9:10h, depois de fazer shot da caneca de café e sem nem escovar os dentes. Mochilão atrás, mochila pequena na frente, lá vou eu procurar a parada do ônibus.
Eu já disse que é bem idiota sair atrasada com quase 20kg de bagagem sem saber onde é a parada de ônibus? Fica a dica: é bastante. Bastante mesmo. Especialmente para quem, como eu, tem um senso de direção sofrível; e está numa cidade meio hippie onde as ruas são de terra e não há placas. Acrescente a isso o fato de estar fora de temporada, com quase ninguém na rua, e a língua local ser uma na qual você até se vira, mas não é a sua. O resultado disso é que eu desisti de procurar a parada e fui até o terminal, que pelo menos o Google Maps sabia me dizer onde ficava.
(Outro parêntese: eu quero beijar a boca de toda a equipe que desenvolveu e desenvolve o maps. Sério.)
Foram 3km debaixo do sol quente com quase 20kg a mais distribuidos atrás e na frente, e eu até entendi porque esportistas se preocupam tanto com peso, porque de fato aqueles 20kg não estavam confortáveis e se pá eu devia ter sido menos mão de vaca e ter comprado um mochilão melhor, que distribuisse melhor o peso nos meus quadris. Quando enfim cheguei ao terminal, obviamente já tinha perdido o ônibus. Fui pedir informação. A atendente fez uma cara infeliz e me disse que eu teria que esperar 1h até o próximo ônibus, para ir para uma cidade cujo nome eu não entendi e lá tentar descobrir como chegar em Cabo Polonio, porque fora de temporada o próximo ônibus deveria sair só 19h. Ou - ela sugeriu muito naturalmente - eu poderia pedir carona para tentar chegar na tal cidade a tempo de pegar o ônibus que sairia meio-dia.
Pensei que meu cosplay de mochileira realmente estava bom, se eu parecia que tinha coragem de ir à estrada pedir carona.
Eu não tinha nenhum compromisso além de pensar na vida, ler, bater fotos bonitas e eventualmente lembrar de comer alguma coisa, como prometi à minha mãe; então fui escovar os dentes e depois sentei no chão da estação e fiquei esperando o ônibus para a cidade cujo nome eu realmente não conseguia entender. Nessa espera eu escrevi, brinquei com um cachorro, ouvi Wesley Safadão na rádio uruguaia que tocava e quase peguei ônibus errado - para o Chuy, rumo ao Brasil. Enfim chegou meu ônibus. A cidade era Castillo, que no meu espanhol deveria soar "castilio" ou "castidjo" e no espanhol uruguaio, chiado como o argentino, soa "castixo", tão rápido que é quase "qstixe". Vi que um casal de franceses também estava indo a Cabo Polonio, mas fiquei sem jeito de abordá-los. Desci em Castillo, comprei minha passagem para Cabo Polonio (a atendente de Punta estava errada, o próximo ônibus saia 14h), pedi para deixar meu mochilão na companhia de ônibus e fui dar uma circulada na cidade. Tudo estava fechado porque era sábado e já passava do meio-dia (e assim eu continuei sem carregador de celular e sem fone), e a cidade era bem normalzinha, com umas construções meio bonitinhas antigas. Almocei um sanduiche típico do Uruguai (e que era típico também no Paraguai e não sei sobre os outros países latinos), um pão com uma milanesa gigantesca dentro, bem barato e gostoso por ser num carrinho de lanche. E esperei.
Quando enfim peguei o ônibus seguinte, o motorista me disse que eu teria que trocar de ônibus para ir para Cabo Polonio. Pedi para ele me avisar na hora. Vi que estávamos numa cidade chamada Valizas quando ele avisou que era hora de trocar (todos os ônibus de viagem que peguei até agora tem wi-fi, o que tem sido muito prático). Desci e fui seguir as pessoas, achando que teriamos de ir a alguma estação ou algo assim. Um dos caras que ia a Cabo Polonio estava com um monte de papel higiênico, o que me fez repensar minhas provisões para a cidade - eu tinha lido que era um lugar isolado, sem energia elétrica; mas papel higiênico? - Quando eu vi, todo mundo tinha sumido e eu estava sozinha no meio da estrada. Sem internet. Com 20kg de bagagem. Debaixo do sol.
Estranhamente eu não entrei em pânico. Andei até achar um mercadinho, comprei uma água e expliquei o que tinha acontecido, perguntando como chegar em Cabo Polonio. O atendente do mercado disse que eu deveria ter pego outro ônibus. Simples assim.
Fiz o caminho de volta, procurando uma parada de ônibus ou um rosto que estivesse no meu ônibus. Nada. Aí eu enfim entendi o que eu tinha acontecido: tinha outro ônibus do lado do nosso quando o motorista disse para descer. Óbvio. Aquela era a troca de ônibus! Eu segui as pessoas erradas, que iam ficar em Valizas!
Ok. Mistério resolvido. Solução...?
A moça do uber que me buscou no aeroporto em Montevideo tinha me perguntado, quando eu falei que ia para Punta del Diablo e Cabo Polonio, se eu não ia para Valizas também. Ela disse que era um balneário muito bonito, cheio de gente que não se importava com aparência - ela era linda e loira e estava impecavelmente arrumada e maquiada, mas disse que na realidade gostava era de ficar de chinelos e cara limpa, que aquele era só seu uniforme de trabalho. Eu tinha mesmo pensado em ir para Valizas depois de Cabo Polonio. Chato só que eu tinha um hostel reservado em Cabo Polonio, e ninguém gosta de queimar dinheiro; mas se era Valizas que tinha pra hoje... Resolvi só andar sem rumo para explorar a cidade e decidir o que fazer, e em poucas quadras encontrei por acaso o lugar de onde saiam os ônibus. O casal de franceses estava lá, coitados, achando que estavam em Cabo Polonio, mais perdidos do que eu. Depois me arrependi de não ter ido falar com eles, mas uma moça já os estava ajudando e eu estava desorientada também e fiquei com medo da responsabilidade. Vi na parede da estação que sairia ônibus para Cabo Polonio às 19h, confirmei a hora com a atendente e decidi que, se o destino tinha me dado uma tarde em Valizas, eu iria aproveitá-la. Tirei meu tênis, pus minha havaiana e fui à praia, que ficava há cerca de 1km dali.
A praia era linda! Gostei muito mais de Valizas do que de Punta del Diablo, com mar azul e dunas. Não me aguentei e peguei minha câmera. Tinha pouquíssima gente. Uma placa dizia que não eram permitidos animais na praia, mas ninguém parecia levar iso a sério. Clima super família. Eu estava morrendo de calor. Fiz mentalmente uma oração para a deusa protetora das viajantes, deixei minhas coisas na areia e entrei na água, de roupa e tudo, num mergulho delicioso na minha tradicional oração para o mar: "leve tudo de ruim e traga tudo de bom". Depois, encharcada, deixei meu mochilão em cima da minha canga num canto e dei uma caminhada batendo fotos, contando com a divindade que me acompanha para que ninguém roubasse uns 13kg de roupa jogada na praia (todas as coisas de valor, tipo câmera e carteira, ainda estavam comigo, na mochila - seria chato ficar só com a roupa do corpo e descalça, mas não me arrisquei a ficar sem dinheiro e documentos. Mas talvez meu amigo que já mochilou a América Latina por um ano esteja certo, talvez seja só esperar o melhor do mundo e torcer pro mundo devolver o melhor de volta). Fui abordada por um australiano, também viajante, que me disse que eu poderia ir andando dali a Cabo Polonio, mas eram 8km e eu não me arriscaria pela mochila. Li, sequei ao sol, sorri. E, 18:30h, voltei para enfim pegar o ônibus certo, depois do perdido mais gostoso da vida.







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