segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Diário de mochilão - Capítulo 8: Da minha exaustão em Piriápolis

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Capítulo 7: Da longa caminhada de Punta a Punta atrás de um por-do-sol


Já estava acostumada a ficar em quartos de hostel lotados quando cheguei em Piriapolis, então foi uma surpresa ver que eu era a única hóspede do quarto quadruplo. Ganhei até a chave! Financeiramente um lucro enorme, habitação individual a preço de compartilhada. Aproveitei para estender algumas roupas que tinham vindo úmidas da praia (dica: não guarde roupas úmidas da praia. Mofam.) e lavar umas calcinhas. Mas confesso que me senti sozinha - aquele "Hey, where are you from, how long have you been travelling?" já era uma parte agradável da minha rotina - aliás, apesar da minha viagem ser por dois países da América Latina, tenho falado mais inglês que espanhol: dinheiro europeu vale mais que o nosso e quando eles vem viajar, vem viajar mesmo - no mínimo três meses; muitos por um ano todo ou até mais.
Piriápolis é uma cidade praiana pertinho de Montevideo, e estava meio abandonada por não ser temporada. Muitas lojas fechadas com placas de "nos vemos de novo no verão!" e o teleférico, um dos pontos turísticos principais, estava desativado. O recepcionista do hostel deu-me um mapa com as principais atrações da cidade e pela primeira vez eu me dei conta que chegar com um mochilão no hostel faz as pessoas presumirem que você tem preparo físico de atleta - tudo é logo ali, dá pra ir andando, dá pra subir a pé. Foi o primeiro dia realmente quente da viagem e comecei a me sentir meio mal. Será que era fome? Comi uma maçã, não passou. Voltei pro hostel, deitei, então percebi - exaustão. Era pura e simples exaustão de ficar andando pra cima e pra baixo, saindo do meu sedentarismo; e eu estava tão desconectada do meu corpo que nem reconhecia a sensação. Descansei quase uma hora e decidi que era dia de andar de ônibus. Na estação, achei divertido ver uma balança que era também jogo de azar - por dois pesos, você sabia seu peso, seus números da sorte e a sorte do dia. Não resisti. Assim descobri que era meu dia de sorte, ganhei seis números para jogar na loteria e vi que em dez dias nesse sobe e desce eu tinha perdido dois quilos. E por um minuto me senti profundamente orgulhosa; e depois pensei que merda de sociedade gordofóbica em que perder peso faz a gente achar que ganhou um prêmio e se achar especial - e nem me venha falar de saúde, porque ninguém vai me convencer que almoçar amendoim seja um standard de vida saudável.
A parada em Piriápolis não foi particularmente interessante, na verdade. Me dei conta que os uniformes escolares uruguaios são muito bonitinhos, uns jalecos com gravata. Um restaurante tinha uma placa de "celular encontrado!" e eu pensei que seria difícil ver isso no Brasil (eu já tinha esquecido meu celular numa vendinha em Cabo Polonio e o vendedor saiu literalmente correndo atrás de mim). Uma casa tinha a lei dos gases ideias (PV=nRT) num canteiro de jardim. Deu pra ver o Castelo de Piria (que tem um jardim bonito que me deu vontade de piquinique), uma praia, subir o Cerro de Santo Antonio (a pé, no fim das contas) e ir a pé atrás das fontes - a de Vênus eu achei, mas não era nada demais; a do Touro não estava onde o mapa indicava e quando eu vi parecia um caça ao tesouro: eu estava seguindo mil setas que surgiam na estrada e, embora a caminhada estivesse agradável, minhas pernas doíam. Surgiram patos na rua. Cachorros soltos latiram pra mim, o que foi um susto até pra quem sabe que cachorro sente o nosso medo e o segredo é só não ligar. Então surgiu uma ovelha. Gente, nada turístico pode surgir depois de uma ovelha, e eu desisti. Voltei a tempo de ver um lindo por do sol na praia e foi isso.














Tomei um banho longo e fiquei mais um tempo jogada na cama descansando meus pés cheios de bolhas e reservando hostel para a próxima cidade. Alguém colocou Pink Floyd bem alto e eu entrei na viagem pensando como todas as cidades tem ruas com os mesmos nomes, como se fossem realidades paralelas.  Em alguma realidade paralela eu talvez não estivesse tão exausta. Dormi 10h de um dia para o outro. E então arrumei minhas coisas e fui pegar o ônibus para a cidade seguinte.

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