segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Estrada

Dia desses minha mãe me contou que viajou gravidíssima de mim de ônibus do Rio de Janeiro a Belém, e que mamando no peito fui também de ônibus do Rio a Salvador. Deve explicar minha naturalidade com estrada. Sou paraense nascida no Rio de Janeiro, já nasci desterrada. Sempre penso em raízes, mas talvez seja a parte errada da planta. Talvez eu seja daquelas sementes felpudas, transportadas pelo ar.
Afasto-me num espirro.

Assim sendo, este foi só mais um feriado na vida.
Seis dias. Ao todo uns mil e quinhentos quilometros. Um dia de volante. Muita cafeína. Seis caronas.

De Floripa a Curitiba foram uma moça de poucas palavras e dois rapazes: um curitibano que mora em Florianópolis e um florianopolitano que quer se mudar para Curitiba. O curitibano de shorts, tatuagem a mostra e uma flauta na mão. O florianopolitano de roupa social, indo para entrevista de emprego.
- Não aguento mais morar em Floripa. Nada muda, nada acontece. O transporte público é uma droga e a vida cultural não existe.
- Sou o único curitibano que você vai ouvir falar mal de Curitiba. Estou Sempre quis me mudar pra Floripa, acho que a Ilha me prende e não quero sair por nada. Agora vou cuidar da casa de uma amiga que é palhaça e está fazendo um curso na Itália. É uma casa maravilhosa, no meio do mato, com banheiro seco, carro não chega.

De Curitiba a São Paulo foram minha irmã, um amigo e duas moças. Eu não queria lotar carro em viagem longa porque no carnaval eu fui caronista de Floripa a São Paulo e foram dez horas em três pessoas no banco de trás com nossas mochilas no colo e um dos caras tinha um monociclo e ficou meio desconfortável; mas uma das moças insistiu:
- Minha amiga está com medo de viajar sozinha com homem.
Aí eu tive que aceitar, porque sou mulher e sei o que é esse medo de homem que aprisiona.

De São Paulo a Campinas foram outras duas moças.
- São da Unicamp? - Perguntei, porque foi minha vida de viagem Unicamp-São Paulo que me introduziu no mundo das caronas.
- Eu fui. - Disse uma. - Mas estou indo visitar minha família mesmo.
- Eu estou indo ver meu namorado. - disse a outra.
- Eu também. - Disse eu, com um teco de orgulho.
- Você também estava indo ver o namorado dela? - Perguntou meu namorado, rindo, quando contei a conversa. - Disse "estou só esperando você ir embora"?.
- Não, disse que ia ficar com os dois juntos e estava avaliando ela, oras.

Gosto da sensação de tempo de viagem. Os dias viram aquelas borboletas de vida curta. Uma vida em alguns dias coloridos.

A volta foi parcelada. De Campinas a São Paulo numa manhã de domingo preguicenta e de caronistas silenciosos que acordaram ao ver que eu e meu namorado não conseguiamos seguir o GPS e corriamos o risco de rodar São Paulo inteiro cinco vezes antes de chegar ao metrô da Liberdade. De São Paulo a Curitiba à tarde, transportando um nó no peito de despedida, novamente minha irmã e o amigo e uma moça simpática e seu gatinho de estimação.
- Já namorei um maluco da BR. - Ela contou. - Eles não gostam que chame de hippie, hippie era outro rolê. Eu tinha 18 anos e ele 32, e ele queria que eu largasse tudo para virar a esposinha dele. Mega controlador. Sair do sistema não salva ninguém do machismo.
E enfim de Curitiba a Florianópolis na manhã de segunda, com um metaleiro dorminhoco e o mesmo curitibano da casa da montanha, que me contou que tem um primo pajé lá no Pará e pelo outro lado da família herdará um terreno de cinco milhões. Devo visitá-lo em breve.

Que viagem.

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