Prometi a mim mesma que não repetiria o processo, que pensaria no meu futuro com calma e não impulso. Agora vejo que pensar com antecedência para mim não tem nada a ver com calma, e sim com crises de ansiedade. Pensei, repensei, dormi mal; as borboletas do estômago tiveram todo seu ciclo de vida - nasceram lagartas tímidas, arrastaram-se, deram-me um pouco de paz em seus casulos e então eclodiram; belas borboletas de ansiedade comendo-me por dentro, reproduzindo-se, mais lagartas mordendo-me as entranhas, cadáveres de borboletas pesando em mim; tantas borboletas voando que me entupiam a garganta e zonzeavam a cabeça. Ansiolítico deve ser veneno de borboleta. Álcool as dopa. "Farmácia é biqueira com CNPJ", já dizia o muro. Muros são sábios quando não aprisionam. As borboletas querem voar para longe, mas nasceram dentro de mim. Tenho medo de virar muro, estátua, pedra. Tenho mar em meu nome; do tipo que tanto bate que fura a pedra. Tenho água em mim e tenho medo de virar gelo. Não gosto de frio.
Fora de mim há tanto mundo. Dentro de mim há tantas cores. Amo o mar; o mar está tão longe. Amo um distrito de alguns quarteirões facilmente percorriveis de bicicleta. Sou paraense, mas não na certidão de nascimento. Aprendi a ler em Campinas. Aprendi a amar Campinas.
Tenho medo de envelhecer num sofá mofado olhando pela janela as crianças brincando na rua e me crendo uma delas, achando que meu olhar me faz parte. Tenho medo de ter uma vida feita de partidas. Jogos. Despedidas. Quero ser parte, mas não do verbo partir. Ele parte. Eu parte. Tenho medo de virar muro, mas quero construir algo. Talvez sejam os trinta se aproximando. Talvez seja meu histórico de despedidas. Nisso sou vitimista. Pela primeira vez me olhei no espelho e vi que fiquei boa demais em dizer adeus. A vida bate e eu sempre desando, entre mole e dura demais. Cozinho para subsistência e sempre erro meu ponto. Tá na hora de puxar a cordinha?
Indecisão é privilégio de quem sabe que não vai passar fome e tem o estômago cheio de borboletas.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Fome
Rabiscado por
Marina
às
15:18
Temática(s): Eu sinto muito
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário