quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ouvindo boquiaberta: as fantásticas histórias do meu dentista

“E a aí, Marina, que tal os dentes? Ah, pelo sorriso já vi que estão mais brancos, vamos começar de novo então... Nossa, acabei de voltar do Suriname. Égua, cada vez que eu vou lá é uma história; ainda vou escrever um livro. Dessa vez entrou um cara baixinho, de uns 50 anos no máximo, brasileiro, e me perguntou:
- Doutor, você se importa se meus seguranças entrarem?
E eu disse sim, que podiam entrar, eu lá vou barrar segurança, nem são meus. Aí vieram uns três armários deste tamanho, ficaram dois nas portas e um dentro do consultório comigo. Eu vendo aquela arrumação. O senhor me disse então:
- Doutor, deixe eu lhe explicar. Eu sou traficante, e sou dos grandes. Eu fui indicado por uma pessoa, acho que o senhor sabe quem.
E eu disse que sim, porque sabia; porque tem outra traficante que eu atendo lá, né? Esse foi o primeiro brasileiro só.
- É, foi ela mesmo. Ela disse que o senhor faz um trabalho bom. Então eu preciso que o senhor faça seu serviço nos meus dentes, mas os meus seguranças tem que ficar por aqui. Pela minha segurança e pela sua, né? Eles sempre estão comigo, e eu só ando de blindado. Eu tenho um helicóptero blindado. Então o senhor vai fazer o seu trabalho direitinho, e eu não posso ficar mais de uma hora aqui. Não se preocupe com dinheiro, que quanto custar não vai ser nada pra mim – nessa hora eu fiquei meio ofendido, égua, o cara tem helicóptero blindado, mal aí; e diz que meu trabalho é merreca. Mas continuando – eu não vou lhe dizer meu nome nem onde eu moro nem telefone; pela minha segurança e pela sua, né? Mas a gente marca os horários aqui e o dinheiro eu pago normalmente. Afinal é um trabalho com outro qualquer, e o senhor vai fazer direitinho, né?
E nem se eu não soubesse fazer direitinho eu aprendia, com aqueles armários comigo. Nossa, cada vez é uma história! Sabia que eu atendi até o presidente do Suriname? Eu fiquei besta de ver, veio cheio dos seguranças também, fizeram plano de fuga até. Depois que eu fui perguntar para a menina que trabalha comigo que palhaçada exagerada toda era aquela, quem ia atacar o presidente do Suriname? E ela me explicou que era porque ele é condenado por uma penca de crime de guerra, que matou gente pra caramba, daí tem muito lugar onde ele não pode pisar. Só de familiar de gente que ele matou... Ele veio aqui no Brasil pra abertura da copa, a Dilma convidou todo mundo e ele veio também. Mas só pode vir porque tem um lance de imunidade diplomática nesses eventos, porque senão ele ia preso. Na Europa e nos Estados Unidos ele nem pisa. Diz que quando ele vai viajar, ele pega voo comercial. Ele decide que vai pegar o voo e ninguém pode embarcar, fica todo mundo, o voo dele. Eu fiquei abismado com isso; o país tem dinheiro pra um jatinho, né? Aí a menina me explicou que é porque ele precisa de avião de longo alcance, porque tem uma penca de lugar que ele não pode parar pra abastecer e tal. Ele anda desviando de lugares no espaço aéreo onde poderia ser preso ou abatido... daí ele precisa de avião de longa distância mesmo. Ah, o filho dele também não é boa figura, está preso no Panamá por tráfico. O cara vem de um país onde o que mais se tira é ouro é vai se meter com tráfico. Diz que tão querendo mandar ele pros Estados Unidos, pra acusar de terrorismo, aí não sai mais né?
Nossa... ah, eu fui checar no Google a sua ponte! É, você acha que eu não iria? Marina, eu sou um curioso; eu queria era ir no show do milhão, iam me perguntar onde eu aprendi tanto e eu diria que na internet. Achei o máximo a ponte de palitos de picolé que vocês fazem!” (Na consulta anterior, minha mãe tinha contado que eu estava me formando em Engenharia mecânica na Unicamp e ele perguntou se eu fazia robôs; eu falei que eu não, embora houvesse equipe de robô e carro e tal; eu só tinha feito barquinho a vapor e uma ponte de palito de picolé – bom, na realidade depressor bucal, aquele palitinho que os médicos usam para abaixar a língua e ver a garganta – que aguentava mais de 100kg. Aí ele ficou bastante impressionado e disse para eu lembrar dele quando estivesse na Nasa ou na Fórmula 1, porque ele adora Formula 1, inclusive já tinha ido algumas vezes em Interlagos ver. O problema da Formula 1 brasileira, ele me garantiu, é o espírito do Ayrton Senna, que era um cara muito competitivo e o Galvão Bueno não deixa desencarnar e ir para o outro plano, aí ele fica provocando acidentes e impedindo pilotos brasileiros de prosperarem.)
“Vi também  que tem cadeira de papelão, premio de design e tal... nossa, muito legal! E aquelas construções enormes, meu programa favorito agora é Grandes Construções! E as pontes... eu tenho um paciente que constrói ponte, ele disse que é muito besta fazer ponte. Eu não acreditei e ele me explicou, eu disse:
- É?
Incrível. E é fácil cair também, nossa, dá medo de andar em ponte.
Pode cuspir... Tá sentindo algo? Não? certeza? Ah, que bom, vamos continuar.
Meu filho fez um ano agora, o moleque é uma figura! Tu acreditas que ele já sobe escada? E não é escada de degrau não, é escada de subir em parede, sabe? Minha mulher me olhava desesperada. Porque eu sempre gostei de esporte, sabe? Eu sou meio doido, eu gosto dessas provas longas, que duram umas oito horas, que é pra sofrer mesmo. Já a família da minha mulher é todo mundo preguiçoso. Eu te contei da última vez que a minha sogra faz caminhada e podia competir com lesma, né? Todo mundo é preguiçoso! Eu tenho um sobrinho, e eu não quero que meu filho seja como ele, tadinho, ele não tem culpa, foi sempre acostumado assim, não larga o tablet. Eu digo, vamos fazer qualquer coisa, e ele diz depois; égua, eu pergunto:
- Tem alguma hora que tu sais dessa cama e desse tablet?
- Ah tio, só pra estudar mesmo...
Ele corre e você vê que é todo molinho, tadinho. Moleque preguiçoso.
Meu filho não, eu quero que seja esportista. Eu já disse pra minha mulher que eu quero que ele seja um tripinha, esses moleques que a gente conta as costelas, só tripa.
- Ai, credo! Meu filho vai ser gordinho... – ela disse; mas nada, vai é ser tripinha. Basta ver agora, um ano, já subindo a escada, escalando, sabe? Ele subia e olhava pra mim e subia; ela em pânico; eu disse pra deixar o menino e ele conseguiu! Andar todo moleque anda, mas escalar? Agora ainda é mais difícil que ele tá aprendendo, mas logo tá correndo e se esfolando. Quero mais é que fique sempre todo esfolado! Eu quando era criança tava sempre machucado. Eu não queria só andar de bicicleta, eu tinha que fazer cavalo de pau e descer rampa. Eu não podia só andar de skate, tinha que fazer manobra. Tadinha da minha mãe, ela perguntava:
- Moleque, tu não podes só andar?
- Não tem graça, mãe. Tem que fazer o melhor.
Abri a cabeça umas cinco vezes, eu só chegava em casa e avisava:
- Mãe, abri a cabeça!
- Queres ir tomar ponto?
- Não precisa...
E ficava por isso mesmo.
- Mas quebraste como, menino?
- Meu amigo me jogou uma pedra.
- Menino, como teu amigo te jogou pedra?
Era nossa brincadeira, jogar pedra um nos outros!
Mas, sabe eu nunca quebrei nada. Perna, braço. Quer dizer, teve só a vez que eu quebrei quatro dedos de uma vez só, mas foi besteira minha. Eu curtia lavar a bicicleta, ai um dia eu prendi os dedos. Saíram todos tortos...
Teve também a vez que eu desmaiei caindo de rampa de skate. Nossa, eu adorava skate. Eu morava perto da Praça Brasil, naquela época não passava carro lá final de semana e a gente construía rampa. Moleque não presta, né? A gente ia à noite em construtora roubar compensado. A gente olhava e decidia que tava velho e eles não precisavam mais, aí roubava pra fazer rampa. Sei fazer até hoje! Meu sobrinho ganhou um skate e veio me contar todo feliz. Fui ensinar ele a andar, ele não acreditava que eu sabia fazer as manobras... eu assisto programa de skate até hoje, aí eu sei os nomes. Ele disse que não acreditava e eu subi no skate fiz umas besteirinhas que anda lembrava, ele ficou impressionado. Aí eu disse que ia ensinar ele a pular rampa. Fomos comprar... é, a gente cresce, dessa vez eu comprei o compensado e fiz a rampa, meu concunhado ficou besta:
- Como tu saber fazer isso?
- Ei, tu não tiveste infância?
- Tive, mas disso eu não lembro...
- Pois é, eu aprendi.
Fiz uma rampa baixinha e fui ensinar o moleque. Na primeira tentativa ele se esfolou todo e começou a chorar e eu disse que era normal, que a gente se esfola e continua.
- Tio, é muito difícil, eu quero só ficar no chão...
Mas eu segurei ele e ele aprendeu, ficou todo feliz. Sabe pular de rampa.
Eu sempre gostei de esporte, de todos. Teve uma vez que eu tomei um pé na bunda, eu fiquei arrasado. A gente já namorava há um tempão, era muito legal sabe? O pai dela era médico, era ginecologista e obstetra, mas ele fazia aborto. Aí ele era muito rico por isso, tinha um monte de carro, carro parado que ele nem usava, sabe? Uma vez ele veio comigo, eu não tinha carro na época:
- Quero te pedir um favor. Eu tenho um carro parado lá no sítio, que se continuar parado estraga. Tu podes ficar usando ele um período pra mim?
Eu não entendi como isso podia ser um favor, eu fiquei meio besta. Mas ele ligou pro meu pai explicando que precisava vender o carro e que ele não podia estar parado, e que era um favor mesmo! Ai eu fiquei cuidando do tal carro, era um carrão! Top de linha! Cheguei lá em casa oferecendo carona pro meu pai... acho que eu gostava mais do que o namoro me proporcionava do que da menina!!! É, eu sentiria falta de ir tomar minha coca-cola no sítio...
Mas ela terminou comigo e eu fiquei arrasado, e pensei: égua, eu preciso de um esporte novo pra esquecer. Aí eu resolvi que ia fazer wind surf e comprei o equipamento. Sem fazer aula nem nada, eu só fui. Fui pra Mosqueiro, que é perto. Subi no equipamento e fui indo, indo... ir é fácil, o vento vai levando. Mas eu não sabia voltar! E eu fui indo e indo e indo... aí eu torci pras pessoas que tavam comigo repararem que eu não tava voltando e irem atrás de mim. Fiquei seis horas a deriva! Só me acharam porque um cara passou numa canoa e achou estranho ver um cara sentado na prancha de wind surf e ligou pros bombeiros, deu a indicação de como me achar. Os bombeiros me resgataram e se abriram de mim, riram mesmo! Mas o que eu ia fazer, eu não sabia voltar... no máximo eu chegava no Marajó.
Quando eu cheguei em casa e a minha mãe perguntou porque eu tinha demorado, eu disse:
- Égua, nem te conto...
E ela não queria mais que eu fizesse wind surf.
- Égua mãe, mas agora é que ficou emocionante...
Eu continuei, e a primeira coisa que eu aprendi foi a voltar.
Eu já surfei também. Eu morei em São Paulo um período. Eu fiz mestrado em Campinas, mas morava em São Paulo. Aí eu precisava de um esporte novo e o pessoal ia surfar. Na época eu era estudante pobre, comprei uma prancha surrada velha e acabada e todo sábado a gente descia pro Guarujá. A gente ia pra uma praia escondida que diziam que tinha cação, sabe, tubarãozinho? A gente dizia que eles iam comer a gente, mas eu só vi uma vez. O pessoal gritou apavorado, mas eu nem me assustei. Quer dizer, é um peixe grande, mas não faz mal.
Outra vez naquela praia eu vi uma sombra, sabe, alguém passando por baixo da minha prancha. Aí eu fui pegar quem tava de brincadeira, e não era uma pessoa! Era um bicho enorme, tão grande que parecia as costas de alguém, mas era tipo uma água viva, não sei o nome, amarelo, e ele foi se enrolando no meu braço... Dessa vez eu me desesperei e ia puxar, mas por sorte tinha um surfista mais experiente por perto, que gritou:
-Não!
E me mandou ir desvirando o braço devagarinho, e o bicho soltou. E depois ele disse:
- Bicho, tiveste muita sorte, porque se tu puxasses ele ia soltar veneno e tu podias perder braço até.
Aí eu não voltei praquela praia nunca mais, apavorado.
Mas eu adorava surfar. Ia todo sábado às seis e voltava ao meio dia, para passear no shopping com a mulher.”
 Nisso o relógio despertou.
“Nossa, Marina, já passaram os minutos! Que rápido, não?”


Bônus: Eu, no dentista. Para vocês acreditarem no que eu digo.

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