quarta-feira, 9 de julho de 2014

Um diploma para chamar de meu


Essa era eu, com vinte aninhos na cara (alguns a mais do que a maioria dos meus coleguinhas de curso), chegando de muda em Guarulhos, rumo à Campinas. De lá pra cá, o que mudou? Na foto dá pra ver que mudou a resolução da câmera (aleluia; se bem que a câmera do meu celular continua uma bosta); e uns bons centímetros de cabelo que vieram e foram e vieram de novo, e as tonalidades de tintura - hoje o mesmo da época, misturado com loiro dourado. Como quase todo mundo que sai de casa, devo dizer que também ganhei uns quilos. Mas claro que o que mudou foi muito mais que isso, nesses cinco anos e meio que ao mesmo tempo passaram tão rápido e foram uma vida toda.
(Eu costumava me sentir mal ao ver que muitos dos meus amigos dos tempos de escola já estão casados e com filhos enquanto eu ainda tenho vida de estudante; mas agora percebo que minha vida também está sendo uma aventura cheia de realizações. E que cada um escolhe seus caminhos, e que o objetivo são os caminhos, não os fins)
Sair da minha terrinha para fazer engenharia há quase 3000km de distância, em uma das melhores universidades do país, me ensinou coisas muito, mas muito maiores do que cálculo, mecflu e resmat. Me ensinou a cuidar de mim - das coisas mais bestas, tipo usar uma máquina de lavar (é, eu não sabia) às mais profundas, como levantar, lavar a cara e seguir a vida sozinha, por minha conta e com um coração partido. Me mostrou que o mundo é muito maior do que a bolha que eu conhecia; e com isso me trouxe empatia e um desejo de mudança e melhoria. Graças à Unicamp eu conheci gente dos cinco continentes; mas o mais importante foi aprender a olhar as pessoas que estão do meu lado - aquelas que hoje me envergonho de dizer que não via, ou via como seres totalmente distintos de mim.
Ficar longe de casa me trouxe aquele amor doído de saudade; e também me fez criar uma família nova. Me fez me abrir para experiências e ideias que antes eu achava absurdas, ao mesmo tempo que me ajudou a construir novos e fortalecer velhos princípios.
Na Unicamp eu fiz de tudo: kung fu, musculação, tae kwon do, forró. Fui monitora, fiz intercâmbio e iniciação científica. Fui nas palestras mais nonsense. Me envolvi com coletivo feminista, movimento estudantil e cursinho popular. Fui em festa, dormi na biblioteca, li jogada na grama, passeei com minha cadelinha, dei beijos absolutamente apaixonados e outros nem tanto, virei noite construindo ponte de palito de picolé, fiz barquinho e foguete, conversei por horas a fio comendo batata frita, amei perdidamente e por isso viajei para o outro lado do mundo, roubei giz, tomei litros de suco, conheci algumas das melhores pessoas do mundo, distribuí panfletos e barquinhos de papel. Não sei como alguém pode não se apaixonar por aquele lugar. Mais do que as cinco casas em que eu morei na minha graduação (sem contar com a de Belém e a nova a qual acabei de me mudar!), a Unicamp é, há cinco anos e meio, meu lar.
Então hoje, depois de todas as noites mal-dormidas estudando a base de café e energético, de todas as listas feitas e as copiadas, de todas as notas vermelhas e azuis, de todas as vezes que eu chorei achando que eu era um fracasso e que jamais conseguiria, de todas as aulas que eu matei por preguiça, da prova que eu perdi porque não sabia que estava acontecendo, de todas as pilhas da minha HP, de todas as folhas de sulfite e grafites, de todos os resumos e trabalhos e provas, de todas as ajudas e abraços... Eu sou uma engenheira mecânica!
E, embora eu seja uma pessoa diferente daquela menina de vinte anos chegando em Guarulhos, eu estou absolutamente apavorada ainda. Depois de achar que eu nunca me formaria, posso dizer com certeza: se formar dá medo.
Mas, se deu tudo tão certo para ela, vai dar pra mim.
E, se é para o bem de todos e felicidade da nação, diga à Unicamp que fico!
Que venha o mestrado!

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