sexta-feira, 11 de julho de 2014

Viajando com a Vivi

- Quem arranja filho tem que cuidar - me disse a minha mãe, quando eu comentei que estava gastando mais com a comida da Vivi do que com a minha durante a semana (afinal, eu como no bandejão e ração de filhote é caro!) e estava comprando a terceira roupinha dela, enquanto não comprava uma para mim há meses (comprei a segunda porque ela cresceu; mas a terceira foi porque, segundo a minha irmã, a Vivi é fashionista - eu dormi ela estava vestida normalmente; acordei ela estava de um ombro só - outro rasgado; saí de casa e quando voltei para o almoço ela estava pelada. Até cogitei deixá-la sem roupa, mas ela passa parte do dia fora de casa e imagino que sinta frio com aquele pelinho curto. Quando chego à noite, as orelinhas estão geladas...)
E como quem arranja filho tem que cuidar, eu não podia deixar a minha filhote para trás quando eu vim passar quase um mês de férias em Belém.
Saiu mais caro que a minha passagem - a casinha já foi bem cara, e por isso eu comprei uma enorme porque ela ainda está crescendo; o que eu não lembrei é que eu pago a viagem dela por quilo e uma casinha maior é também mais pesada; nos aeroportos todos achavam que eu estava transportando um dog alemão e riam quando eu abria a caixona e de lá saia uma viralatinha de uns 10kg só, com carinha de filhote assustado ainda e que eu carrego no colo. Aí além da casinha teve o atestado médico de viagem, que foi o A4 com tinta de bic mais caro que já comprei. E por fim a passagem em si, cujas regras eu tinha entendido errado e daí quase tive que declarar falência. Mas, como disse um amigo, a Vivi é uma fonte inesgotável de dinheiro fora e amor, e o amor compensa.
Eu ia sair de Viracopos 10h, e tinha que chegar no máximo 8:30h. Estava pensando em chegar às 8h; mas minha única carona disponível só podia me deixar às 6:30h e, dado o preço dos táxis, topei. Chegamos no aeroporto eu e a Vivi e de tão pesado eu mal conseguia empurrar o carrinho. Fiquei chateada por estar chovendo e eu não poder passear com ela; daí a tirei da caixinha e fiquei brincando com ela sentada no meu colo.
É bonitinho ver as pessoas se encantando com meu bichinho.
- Qual a raça dela?
- Vira-lata.
- Sério?
Claro que é, olha a carinha dela. Mas parece que ser vira-lata não é chique o bastante para viajar de avião.
Na hora do check-in, as moças do balcão foram umas fofas:
- Oooooh!
- Parece a sua!
- Eu quero muito ter um cachorro! Você adotou? Quero adotar também...
E aquela vozinha de bebê.
Já na sala do embarque, eu, caindo de sono (tinha dormido menos de 4h porque tinha ficado arrumando a mala e a casa), achava que estava tudo resolvido. Coração apertado de imaginar a Vivi no porão. Eu sempre sou uma das últimas a entrar no avião, aí quase tive um treco quando fui interceptada ao entregar meu bilhete:
- Era a seis delta, né? - para a outra funcionária. E então para mim - Você está levando o AVIH?
O "AVIH" era a Vivi.
- Sim...
- Houve um problema, por favor se dirija ao balcão de check-in...
Meu coração parou. Problema? Meu Deus, será que a Vivi morreu no caminho até o avião????
(Afinal, eu jamais pensaria em algo mais leve do que morte, não é mesmo?)
Cheguei lá meio zonza, e a atendente fofa me explicou:
- Tivemos um problema, o avião não tem aquecimento no porão, daí sua cachorrinha não pode ir. Estamos mudando vocês de voo.
- Mas eu tinha marcado com antecedência!
- Foi um problema de última hora, sua cachorrinha poderia congelar... Mas vamos realocar vocês, fica tranquila.
Aí eu fiquei, porque ela parecia realmente preocupada com o bem-estar da Vivi.
- Tem que pegar as duas bagagens dela no embarque - disse o chefe da moça, que estava tentando me realocar.
- Cachorrinho não é bagagem! - Ela disse, e eu decidi que era mesmo a minha atendente aérea favorita. Ele riu.
- Certo, tem que pegar a bagagem e o cachorro.
Em alguns minutos a Vivi estava comigo, todos preocupados que ela estava com sede. Tirei ela da caixa, dei água e ela logo começou a fazer xixi no tapete da companhia aérea... corri com ela para fora do aeroporto, mas ainda estava chovendo e ela fez xixi na calçada.
Daí foi-se uma hora sentada no chão brincando com a Vivi e ouvindo os "oooh" dos passantes até me realocarem para um voo em Guarulhos, saindo 19h... Ganhei táxi para casa e de casa para Guarulhos. Foi um dia bem perdido na minha vida, mas fomos super bem tratadas.
Finalmente, no embarque em Guarulhos, o rapaz também parecia encantado com a fofura da Vivi:
- A pelagem dela é dourada, né? - Disse, preenchendo o formulário.
Concordei. Dourada, que luxo! Eu sempre achei que fosse cor de terra suja. No máximo, cor de palha.
Ele deixou eu ficar passeando com ela na frente do aeroporto até 10 minutos antes do embarque. E eu fiquei aliviada de ver a carinha dela assustada porém muito saudável na caixinha na esteira rolante do desembarque em Belém. E os "ooh, um cachorro!" também.

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