segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dez anos (Ou: Sobre término, desemprego e o arco-íris depois da chuva)

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Há algumas semanas atrás assisti um filme que fala sobre o reencontro de seis amigos depois de dez anos. Fiquei me perguntando o que mudou em mim em dez anos - muito, sem dúvida; mas cri estar tão perdida quanto a menina de dezesseis anos que era em 2004.
Na dúvida, fui em busca dos meus velhos diários.

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Há dez anos eu... estava terminando com meu primeiro namorado.
E devo dizer que me senti orgulhosa de reler o que se passava na minha cabecinha adolescente. Mesmo antes de conhecer o feminismo, eu já sabia que algumas coisas eram inadimissíveis ou simplesmente ridículas. Meus namoros formais depois desse também terminaram em términos (e não em "e viveram felizes para sempre"), mas creio que todos me acrescentaram coisas boas. Nutro carinho pelos rapazes. Diferente do primeiro, do qual sempre que me lembro, me pergunto "onde, diabos, eu estava com a cabeça???"
Então lembro porque tudo é aprendizado. Eu sei exatamente onde eu estava com a cabeça.

3

Dez anos depois, acabo de ficar desempregada. Pedi demissão do meu primeiro emprego. E posso traçar tantos paralelos entre esses dois começos - namoro e emprego - que chega a ser espantoso.

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2004: Todos os meus amigos já tinham namorado, menos eu. É claro que eu era uma aberração feiosa.

2014: Todos os meus amigos já trabalhavam, menos eu. É claro que eu era uma aberração folgada.

2004: (Na verdade, nem todos namoravam. Outros tinham uns relacionamentos destrutivos. Mas, na minha cabeça, eu estava errada e solitária; e ainda demorariam muitos anos para eu me dar conta que, mesmo sem perder um quilo ou tirar os óculos, eu poderia ser bonita - inclusive do modo convencional)

2014: (Na verdade, nem todos trabalhavam. A maioria tinha empregos informais. Mas, na minha cabeça, eu estava errada e desempregada - apesar de desde os dezenove ter passado mais tempo com renda do que sem - em laboratórios, monitorias e bolsa de estudos; coisas que ninguém considera trabalho)

2004: A oportunidade surgiu pela primeira vez! Um rapaz novo entrou na escola; e por ser novo não sabia que eu era esquisita, e por ser bonita resolveu me cantar.

2014: A oportunidade surgiu pela primeira vez! Acabei finalmente as matérias mais difíceis do curso, mandei currículos e fui chamada para uma entrevista em multinacional.

2004: Verdade seja dita, o rapaz parecia meio maluco. Escrevia cartas falsamente melosas e prometia coisas que não se promete a quem você conhece há uma semana. Mas era meu primeiro contato mais sério com o sexo oposto, eu não sabia o que esperar.

2014: Verdade seja dita, o emprego era na área automobilística, que eu nunca curti muito; e eu teria que viajar mais de 2h de carro todo dia, por minha conta e despesa. Mas era o meu primeiro contato mais sério com o mundo corporativo, eu não sabia o que esperar.

2004: Arranjei um namorado! Sucesso! Meta concluída! Na época, eu nunca tinha me apaixonado, mas me encantei com a ideia de amor.

2014: Arranjei um emprego! Sucesso! Meta concluída! Eu achava que nunca tinha trabalhado, mas me encantei com o salário.

2004: Mas sair com o namorado era meio chato. Ele era bem chato, fazia umas piadas sem graças. E era machista. Mas como eu ia saber que não era normal ser machista?

2014: Mas o emprego era meio chato. O trabalho era bem chato, e o ambiente era cheio de piadas sem graças. E era machista. Era normal ser machista?

2004: Um dia, ele pegou meu celular e quis ver quem eram os contatos e deletar os meus amigos homens. Perguntei porque ele achava normal fazer isso e chamar outras meninas de gostosa. Ele disse que era instinto de preservação da espécie. Eu gritei, bati na mesa, chamei ele de imbecil e fui embora. Hoje me orgulho disso, mas ainda não foi dessa vez que terminei com ele.

2014: Um dia, os caras estavam zoando "coisas de mulher" e olhando as "gostosas" que passavam - as moças que trabalhavam com a gente. Pela primeira vez, tomei coragem para falar que aquilo não era legal. Um dos caras achou muito engraçado e ligou as piadas no máximo. Me fiz de surda. Não soube reagir.

2004: Um belo dia, me dei conta que não gostava dele. Ele apenas ocupava meu tempo, e me envergonhava na frente dos meus amigos. Pra que eu precisava de um namorado?

2014: Um não tão belo dia, me dei conta que não estava fazendo nada direito. Não tinha mais tempo pra nada nem ninguém, o tal do salário estava indo todo em gasolina e estava sempre triste. Pra que eu precisava de um emprego?

2004: Claro que eu ainda queria gostar de alguém. Quem não quer? Mas eu queria algo que fosse de verdade. Olhei minhas reservas emocionais e vi que nada daquilo valia a pena. Terminei.

2014: Todo mundo precisa trabalhar, eu não sou especial. Mas vi que o sofrimento era maior - que, além de gastar tudo em gasolina e comida, logo eu teria que gastar tudo em antidepressivo e cirurgia bariátrica. Olhei minha poupança - e nisso eu sei que sou privilegiada - e vi que não precisava viver daquele jeito meus últimos três meses de universitária. Me demiti.

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O rapaz é um monstro? Não, mas é alguém com valores diametralmente opostos aos meus.
O emprego é um lixo? Não, mas a empresa não valoriza o que eu valorizo. Tem quem adore; eu não.

6

Outros amores vieram. Outros empregos virão. Tem experiências pelas quais a gente precisa passar para aprender do que não gosta e ver o que nos importa de verdade.
Cada um é mundo único.

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