I
Já era vinte de dezembro, mas eu iria passar mais um final de semana inteirinho estudando para a prova de segunda-feira, já que afinal eu sou uma aluna de mestrado agora. Estava muito focada em arrumar a mesa para tal intento (ou seja: tirar as coisas de cima dela e jogar em cima de uma cadeira para ter algum espaço) quando a minha vizinha apareceu na janela:
- Vamos na feirinha de Natal lá no centro de convivência, Marina?
Obviamente eu fui sem nem parar pra pensar.
E vendo-a comprar presentes me lembrei que iria para Belém na terça, e achei que era de bom tom levar algo para os meus.
O quadro para minha mãe foi uma escolha óbvia - tinha nele a frase "você é uma mãe tão boa que às vezes sinto inveja de mim". O que não havia era o equivalente para o meu pai, e fiquei com medo de provocar uma crise familiar até trombar com a divertidíssima camisa "você pra mim é problema seu".
- E isso aí não vai provocar crise familiar? Levar um quadro todo fofo pra sua mãe e essa camisa pro seu pai? - Perguntou a vizinha. Eu respondi que não. Meu pai é cheio dos dizeres ("o caminho do inferno é sempre o mais florido"; "rapadura é doce, mas não é mole"; "existem dois tipo de pessoas no mundo - as que se garantem e as que não se garantem"; "eu não vou namorar com nenhum de vocês, então vocês não tem que gostar de mim"; etc). E ainda me lembrei da música do Felipe Cordeiro!
II
Daí dia 22 de dezembro enfim o semestre acabou e eu fiz a tradicional faxina pré-viagem - descobrir restos de sabe-se-lá-o-quê na geladeira, limpar a caixa de viagem da Vivi; jogar as coisas aleatoriamente na mala e constatar que não teria roupas limpas para sobreviver em Belém, etc. O mundo desabou em chuva umas 20h e eu deitei para, na ausência de sinal de internet e tv, pensar na vida; e quando me espantei era de madrugada e minha casa estava escancarada com todas as luzes acesas. Fechei tudo e voltei ao sono dos justos até a manhã seguinte.
Chegar em Belém é aquela viagem internacional - chegar em Guarulhos debaixo de chuva passando por aproximadamente 9120128102 acidentes; pegar fila gigantesca de check-in e conquistar todos os corações com a Vivi; esperar para sempre até a hora do voo porque eu sou paranoica e sempre chego muito cedo no aeroporto - aliás, acho que é a minha única pontualidade da vida -; finalmente embarcar e ter ao meu lado um casal com uma criança pequena que foi a viagem inteira tocando aquelas irritantes musiquinhas infantis em um tablet; desembarcar e esperar ansiosamente a Vivi ser desembarcada, achando que ela morreu e ninguém quer me contar antes de todos os passageiros serem desembarcados para eu não fazer escândalo; enfim receber a Vivi, felizmente viva e bem; abraçar minha família e chegar em casa. Casa! Distribui presentes, contar as novidades e dormir na minha velha caminha.
III
Eu nunca tinha chegado em Belém tão tarde. Foi estranho já acordar na véspera de Natal.
Todo ano meus pais compram brinquedos para doar na estrada no dia 25, quando vamos para Bragança. Neste ano, porém, levaríamos conosco dois cachorros - Vivi, minha viralatinha campineira polidáctila; e o Zuck, vira-lata meio dálmata daqui de Belém. Então achamos que não daria para ir parando na estrada, e meus pais decidiram dar os presentes para uma Ong que desenvolve projetos em um aterro sanitário. Dia 24 fui com meu pai acompanhar a entrega. Luana, uma prima, foi junto.
A Luana para mim é uma daquelas pessoas que existem para o mundo ver que não precisa ficar onde está. Ela estudava geografia na UNB; aí um dia resolveu viajar e não voltou nunca mais. É uma menininha de menos de um metro e meio de altura, e já rodou o Brasil de carona de caminhão fazendo arte de rua.
No dia da entrega dos presentes, ela levou seus malabares. Brinquei -sem muito sucesso - um pouco com eles enquanto esperávamos no ponto de encontro antes de irmos para o aterro.
- Qual o segredo? - Perguntaram, ao vê-la fazendo suas artes,
- Não se irritar quando cai no chão. E não ter vergonha de ser ruim.
Acho que é o segredo da vida, na realidade.
Fui com a Luana comprar um café e quando voltei prestei atenção na camisa do meu pai.
- Pai! Isso lá é ocasião pra usar essa camisa?
- Ué, filha, você me deu de presente...
Exatamente. Meu pai estava indo entregar presentes em um aterro sanitário usando uma camisa onde se lia "você pra mim é problema seu". Talvez eu devesse ter pensado melhor no presente, afinal.
- Pai!
Ele virou a camisa do avesso, e com a camisa do avesso seguimos viagem.
No aterro, a Luana, vestida de duende, fez todo o sucesso com seus malabares e tiradas de palhaça.
- Ela é boa, né? - comentou meu pai.
- E vocês queriam que essa menina fizesse geografia! - retruquei.
Era de fato mágico vê-la. Pediram para tirar foto. Os olhos das crianças brilhavam como se aquela fosse uma das coisas mais incríveis do mundo. Talvez tenha sido. Acho que a Luana roubou as atenções da festa; e olha que a estrela da festa era ninguém menos que a Gaby Amarantos, que era amiga de alguém da Ong e ganhou meu selinho "estrela-gente-como-a-gente" ao andar no meio de todo mundo, cantar no palquinho improvisado, distribuir os presentes, falar o tempo todo que só estava ali de convidada e que quem merecia parabéns era a organização e abraçar todo mundo.
Saí de lá com aquela sensação de Natal - não, todos os problemas não vão se resolver do nada; há tanta coisa a ser feita no mundo! Mas é importante que haja um dia de alegria absurda, um dia diferente e incomum; um dia para rever quem se gosta e ter boas surpresas. Um dia de Natal.
IV
Cheguei em casa mais vermelha que pimentão por causa do sol. Cochilei (morri?). Andei de bicicleta com os cães. Me arrumei para a ceia. Revi todo mundo, soube fofocas de todos, abracei e sorri e comi desesperadoramente. Ah, gente, eu adoro o Natal. Ano novo é chato, mas Natal é lindo.
No dia seguinte, esprememos em um carro quatro humanos adultos, três cães vira-latas (dois deles - Vivi e Zuck - com mais de 20kg; a da Luana juntou-se a nós) e trinta presentes (pedidos pela minha tia) em uma viagem de 3h rumo a Bragança. Chegou-se a cogitar deixar os presentes, mas não deixei. Era Natal...
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