terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sobre muitaquitã e mortes

Eu já estava deitada na cadeira do tatuador, short um pouco abaixado para deixar bem amostra o ossinho do quadril. Para minha segunda tatuagem, escolhi um muiraquitã, amuleto de sorte amazônico, coisa de índia guerreira.
Estava nervosa quando fiz minha primeira tattoo, tenho medo de agulha; mas não foi nada demais. Para a segunda eu já estava mais tranquila, mas dizem que tatuar ossinho dói mais. Se bem que sou um tanto acolchoada...
Estava pensando em tatuagem e sorte e ossinho do quadril quando me chegou um e-mail (eu estava com celular na mão para ficar batendo papo furado no whatsapp e vendo aleatoriedades e não olhar para a agulha na minha pele) do meu orientador, com o título "Falecimento do Vitor". E meus olhos se arregalaram e abri o e-mail num choque, porque o "Vítor" não podia ser o Vítor... Mas era.
Aí eu não sei se a tatuagem não doeu porque, como o tatuador disse, "hoje tatuagem não dói muito, pelo material que a gente usa". Ou se foi porque ela é tão pequena que parece tatuagem de chiclete. Acho que não doeu porque eu estava toda meio amortecida de surpresa.
Era um moço de vinte e tantos anos e não era meu amigo próximo, mas fazia mestrado feito eu, e sempre foi educado quando em respondeu e-mails. Almoçamos juntos uma semana inteira e ele me deu carona por meia São Paulo num dia que eu precisei. E então morreu, sabe-se lá do que. E de repente eu me senti uma tia velha, daquelas que só dão más notícias, mandando mensagens a torto e a direito para tentar entender o que aconteceu.
Neste ano, a morte resolveu me lembrar que existe.
Primeiro em um feriado meio à toa no qual eu estava em Campinas e tomei um bolo de um moço e que, depois de uma bronca passiva-agressiva, me disse que não estava no ânimo de sair porque descobrira que a mãe, que mora em outro estado, estava com um câncer terminal. Eu me senti péssima e ofereci ouvidos e abraços. Lembrei-me que pais morrem.
Depois eu mesma acordei com notícia de morte. Foi-se minha madrinha, jovem e saudável de tudo, do nada. Família morre e nem avisa antes. E eu lá, morando há quase três mil quilômetros, perdendo os almoços de família, reclamando de picuinha de whatsapp, dizendo-me cientista e sendo estimulada a ambicionar o mundo; mais longe, como se o que houvesse perto não fosse mundo, como se a vida fosse um eterno ir-se embora em busca de algo, perdendo alguéns pelos caminhos. Antes eu achava que a distância só me roubava namorados. Hoje acho que rouba a mim mesma.
Daí agora o Vítor. Um lembrete da minha própria mortalidade. Como se minha ansiedade precisasse de lembretes! Como o tempo escorrendo em uma ampulheta cujo tamanho eu não vejo. O que realmente importa? O que eu quero da vida? Será que algo faz sentido?
Fiquei mal. Ainda não achei respostas. Fiz uma oração. Decidi que formalmente sou alguém que fica. Decidi que sempre priorizarei as pessoas. Decidi que preciso decidir minha profissão sem sofrimento. E agradeci pela família e amigas.
O muitaquitã ficou bonito. Tatuagem de chiclete. Amuleto de sorte amazônico. Lembrança de onde eu venho, e pra onde quero ir. Na minha pele pra sempre, seja lá quanto "sempre" dure.


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