quinta-feira, 16 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 4

Ontem foi o primeiro dia em que saí de máscara. Fui a uma agropecuária aqui perto de casa, comprar ração. Comprei as máscaras de tecido de uma amiga da vizinha. Escolhi máscaras com motivos felizes, florzinhas e bolinhas.
A máscara é bem desconfortável para respirar, e se eu coloco errado o meu óculos embaça. O que talvez seja bom, já que indica que eu coloquei errado.
Eu nunca imaginei que a gente teria que usar máscaras. Faz todo o sentido usá-las, eu só nunca imaginei mesmo.

Dia desses conversei pelo muro com a minha vizinha de trás, uma senhora congolesa que mora no Brasil há mais de 30 anos. Ela disse que conversou com a mãe, que tem 90 anos e mora na França; e que a mãe não está impressionada:
- Lembra aquela doença de bolinhas na pele que dava em todo mundo quando vocês eram crianças? Tudo passa.
Minha vizinha tem mais de 60 anos e disse que não vai tomar vacina de gripe porque está com medo de sair de casa.
- Gripe não mata, corona mata.
Hoje teve vacinação de gripe na escola na esquina de casa. A vizinha da casa do lado, setenta e muitos, insistiu pra congolesa ir se vacinar, mas ela não foi.

Eu e o David descobrimos que tem uma família de gatinhos morando no terreno baldio a 3 casas da nossa. Comprei ração pra eles também. São duas pequenas fugas: de manhã, quando tiro o carro da garagem para termos espaço para pegar sol e então caminho até as esquina. No fim da tarde, quando damos a volta com a Vivi no quarteirão.
Eu queria ter um gato.

Nas minhas redes sociais pipocam pedidos de ajuda. É errado ter gastado o dinheiro com ração de gato? Ajudo as pessoas que posso. Me pergunto se isso é verdade. Eu posso ajudar mais? Penso na grana do casamento.

Eu sei que a saída é uma mudança de sistema e que eu estou longe de ser super rica. Mas antes as pessoas precisam comer.

Eu conto a passagem dos dias pelas poucas atividades de rotina. Segunda, quarta e sexta passa o lixeiro e eu rego as plantas de dentro de casa. Na quinta eu tenho que pegar os orgânicos que compramos de uma célula de consumo consciente que entrega na UFSC. No final de semana o David não trabalha, e eu passo raiva tentando acabar um trababalho que eu achava que teria acabado há um mês, e há um mês achava que teria acabado antes.
Na terça eu acabei metade do trabalho e mandei para o congresso desse jeito mesmo porque a deadline chegou. O congresso está marcado para setembro, na Alemanha. Eu não sei se as fronteiras estarão abertas até setembro, nem se o dinheiro da minha taxa de bancada ainda conseguirá pagar taxas em euro. A deadline para pagar a inscrição é maio, e eu duvido que tudo esteja normal mês que vem. Eu ouvi uma das entrevistas do Átila, dizendo que o mundo de janeiro não existe mais. Já tem algumas semanas que estou lendo que isso que a gente está sentindo é luto.

Começo a pensar que talvez tenhamos que adiar a data do casamento.

Como eu trabalhei finais de semana e feriados, dei-me alguns dias desta semana de folga. Ontem eu dormi de tarde, e também cedo à noite.

Eu tenho vários textos que queria escrever, mas ainda não consegui.

Hoje eu consegui me exercitar um pouco. Eu fico com inveja das pessoas se exercitando no instagram.

Hejo foi o segundo dia em que sai de máscara. O dia estava tão lindo. Eu queria caminhar na beira da praia. Tudo parece tão distante.

Conversei com a minha amiga que é minha nutricionista. Ela disse que o organismo usa a B12 para metabolizar o alcool, o que me fez pensar que essa minha deficiencia de B12 talvez date dos tempos de mestrado. E ela me diase que não é bom eu beber muito na quarentena.
Penso nas latinhas na geladeira e suspiro.
Ela sugeriu eu fazer um diário alimentar também, colocando os sentimentos junto.

Ontem eu desenhei a casa em que eu e o David vamos morar quando eu passar num concurso e a gente tiver mais dinheiro. Deu bastante trabalho e foi um ótimo exercício de sonhar futuro.

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