segunda-feira, 27 de abril de 2020

Date

Queria saber com que eu trabalhava, e perguntou-me à sua moda antiga:
- Com o que você ganha a vida?
Respondi que ganho a vida entre 15h e 17h - dependendo se era verão ou inverno - quando o sol bate na minha baia. Ainda melhor, ganho a vida quando chego em casa e tiro o sutiã e os sapatos. Ganho a vida aos domingos, quando meu despertador é o vizinho que começou a aprender a tocar guitarra e toca mal, mas eu sorrio porque me lembra a Gabi, quando a gente tinha uns 16, 17 anos. Ganho a vida quando ponho a ração da Joaquina, me faço um sanduíche e calço de novo os sapatos, para a gente passear e aproveitar o cheiro da grama no meio da cidade.
- E o trabalho?
"Nele eu perco a vida", eu pensei, mas em vez disso respondi o nome da empresa e terminei meu prato mais rápido do que precisava, para rachar logo a conta e não ser mais obrigada a ouvi-lo falar seus planos fadados ao fracasso sobre empreender e explorar gente.

Nenhum comentário: