quinta-feira, 23 de abril de 2020

Diário de quarentena - parte 5

Quando eu era criança me disseram que os mortos falam com a gente nos sonhos.

Li que a quarentena está fazendo as pessoas sonharem mais com os mortos. O David tem sonhado com o pai. Nos sonhos, o Davis conta ao pai o que aconteceu com os livros da biblioteca dele.

Estou aguardando os sonhos com a Dorinha, mas só tenho pesadelos com perseguições e comigo dirigindo carros desgovernados. Eu penso o quanto ela estaria com medo de morrer agora, com todas as notícias. Aí lembro que morreu antes. Eu cuido dos panos de prato que ela bordou pra mim e penso que agora eu tenho que saber cuidar de plantas.

Semana passada passou aqui no bairro um catador de recicláveis que eu não conhecia (sou acostumada a outros dois). A prefeitura suspendeu a coleta de lixo reciclável na quarentena, por isso estamos acumulando em casa. A primeira vez que o vi foi quando eu estava passeando com a Vivi. O bairro em que moro é bem turístico e não é normal ver pessoas mexendo no lixo (e e´horrível dar uma localização geográfica para dizer que neste local específico não é normal ver pessoas mexendo no lixo). Eu quis perguntar se ele estava bem, mas fiquei com vergonha.

Vergonha de que?

Fui sair de novo logo em seguida, deixar comida para os gatinhos. Ele estava na minha rua, acho que o vi bebendo o resto de uma garrafa. Tomei coragem e me aproximei. Dei boa noite, ofereci as latinhas que tinha separado em casa e perguntei se ele estava com fome. Ele disse que sim. separei um rango e ele me agradeceu com a voz e as bençãos iguais as de um tio meu, mas mais velho.

- Deus te acompanha.

Desejei que o acompanhasse também.

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