segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Sobre o "ele não"

Uma amiga me disse que acha o Bolsonaro tão absurdo que é difícil para ela acreditar que ele é um candidato real, e não uma farsa. Eu gostaria de ter a paz de espírito de acreditar que ele é impossível; mas o golpe que tirou a Dilma da presidência quebrou minha noção de possibilidades políticas. Foi realmente uma quebra democrática, e por isso, depois do golpe a mim tudo pode se tornar real.

Nasci no mesmo ano que a atual constituição brasileira; minhas memórias de infância e adolescência de país são sempre de crescimento - em parte porque coincidiu com a acensão econômica dos meus pais; que me tiveram antes dos 30 anos e, como eram jovens de família pobre que acessaram profissões tradicionais no ensino superior e seguiram se especializando (minha mãe concluiu a medicina e depois os anos de residência; meu pai é engenheiro e fez mestrado e doutorado), demoraram para se estabelecer financeiramente. Mas inegavelmente em parte pelo próprio Brasil, saindo da hiper-inflação a qual não me lembro, consolidando sua democracia, entrando na era Lula com acensão da classe C e aumento do acesso a bens de consumo e ensino superior. As coisas pareciam ir bem.

Na primeira eleição que o Lula ganhou eu tinha 14 anos, e lembro da comoção familiar; eu mesma vestida de vermelho - embora ainda tivesse bem pouca leitura política. Na segunda, minha primeira eleição presidencial, votei no barbudo. Na Dilma eu nunca votei - em 2010 porque eu já estava estudando na Unicamp e ainda não tinha transferido meu título de Belém, e morri de vergonha da minha omissão; em 2014 porque Belo Monte e a copa com sua lei antiterrorismo e desapropriações já me estavam entalados na garganta e no primeiro turno eu fui de Luciana Genro (que depois me decepcionou ao dizer que o golpe não foi golpe). No segundo turno eu não votei porque estava em um casamento em Fortaleza, mas teria ido de Dilma se não estivesse.

Aí veio o impeachment, e só então eu vi que o buraco da política era bem mais embaixo. Que a democracia não estava consolidada como eu achava que estava; e que talvez fosse impossível fazer política sem comprar deputados, sem acordos com o que há de pior. Mas o que há de pior sempre teria uma faca nas costas; e legislar é andar numa corda bamba.

Foi pelo golpe, e não pelas pesquisas atuais, que eu soube que o Bolsonaro podia ganhar as eleições presidenciais de 2018. Foi ouvindo aqueles deputados votando a favor do impeachment por Deus e pela família e não pelo que estava sendo votado de fato.

Eu entendo meus amigos de direita econômica. É fácil acreditar que privatização é a solução quando os jornais só mostram os problemas nos quais os impostos não estão sendo revertidos para a população. Eu ainda estou estudando para entender melhor economia; entretanto a engenharia me ensinou que existe tecnologia para um mundo melhor para todo mundo, mas que as empresas só as aplicarão ou se houver lucro, ou se o governo mandar. Por isso privatizar recursos básicos como água e energia é um contrasenso. Devem ser direitos da população, dando lucro ou não.

Minha leitura recente sobre o comunismo soviético (o livro "Mulher, Estado e Revolução", da Wendy Goldman) vem me mostrando que de fato é difícil para o estado regir todas as coisas práticas da vida das pessoas (como por exemplo, substituir totalmente o trabalho doméstico por lavanderias, restaurantes e creches públicas e estatizar a educação das crianças). Por isso eu acredito cada vez mais em pequenos grupos cuidando de seus assuntos internos; da democracia direta de associações e do olho no olho para o bem comum. E que esses grupos pequenos estejam representados verdadeiramente nas decisões regulatórias grandes.

Recentemente li para a minha tese (eu estudo biocombustíveis) um relatório publicado em 2011 pelo World Energy Council, chamado "Global transport scenarios 2050". Ele contém estimativas para dois cenários: cenário "Freeway", regido apenas por forças de livre mercado, sem regulações governamentais; e cenário "Tollway", que prevê intervenção governamental no desenvolvimento de infra-estrutura e avanços tecnológicos a favor do bem comum. Em ambos cenários, há a previsão de aumento na demanda mundial por diesel e óleo combustível, mas a diferença é gritante: 200% em relação a 2010 no Freeway e 46% no Tollway. A discrepância se deve ao investimento em energias renováveis e ao controle do consumo. Não sou eu nem os comunistas que estão falando.

É algo entre engraçado e assustador ver a tentativa de social democracia promovida pelo PT ser tachada de comunista.

O Bolsonaro não está com tudo isso de votos pela direita econômica.

No grupo de estudos do Mulheres na Engenharia, coletivo feminista que faço parte, uma amiga disse que acha que o Bolsonaro dá voz a uma parcela da população que realmente acredita que a solução para os problemas do Brasil é aplicar as leis a risca e punir rigorosamente quem delas foge. Só que isso não é verdade. Homens que não conseguem manter uma ereção estupram com objetos esdrúxulos. A arma do cidadão de bem não serviria só para o cidadão de bem proteger sua família. Se o jovem de 16 anos for para a cadeia, o tráfico irá usar o de 14.

Outra amiga, em outra conversa, ressaltou que existem leis boas que estas pessoas não quererm seguir. Como os casos em que o aborto é permtido, ou querer autorizar a cura gay.

Eu tenho medo da misoginia, homofobia e racismo dos cidadãos de bem.

Ele não. Mas então quem?

É triste viver um momento político em que a maior força é uma negação; e que as manifestações são não por um direito a mais, mas por medo de perder um que já tenho. É desesperador um "qualquer coisa menos ele", porque qualquer coisa podem ser coisas demais.

- Eu me sinto sitiada. - disse uma amiga.

Ele não, mas eu quero mais da política e do Brasil.

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