segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Sobre expor macho escroto - parte 2

Há um ano e meio atrás eu escrevi um texto com várias digressões sobre expor caras babacas. Até hoje volta e meia alguém o acessa; e relendo-o achei que valia a pena dividir minhas novas conclusões a respeito.

Primeiramente, há que se definir o que é escroto: ser uma pessoa desagradável é uma coisa, ser criminoso é outra. Nós de esquerda as vezes atrapalhamos as lutas ao colocar na mesma categoria de "macho escroto" as duas coisas. Todas as barbaridades propagadas sobre feminismo na campanha do Bolsonaro me fizeram ver o quanto é importante definir bem os conceitos em vez de usar termos genéricos e guarda-chuva, que não são compreendidos fora do circulo (e muitas vezes nem dentro dele, quando politica vira dogma e presume-se que todos e todas já tenham amadurecido um debate que muitas vezes nem tiveram ainda). 

Para facilitar a discussão, listei coisas desagradáveis e coisas criminosas. Há outras expressões de machismo além das citadas.

É bem desagradável:
- Trair a companheira/namorada/esposa.
- Ser emocionalmente irresponsável, o que geralmente se traduz em dizer que não se tem relação nenhuma e que a mulher está exagerando. A humanidade se baseia em relações. Sexo casual não é contrato de casamento, mas é uma relação. Ninguém tem o direito de legislar sobre o direito alheio de sentir o que sente; e não é porque uma relação é casual que é ok ser grosseiro ou desrespeitoso.
- Taxar de "louca" a mulher que não atenda suas expectativas.
- Só confiar em homens.
- Não dividir as tarefas domésticas.

É criminoso:
-Assediar e/ou estuprar, e vale lembrar que depois do não é tudo assédio, e quem cala não consente. Consentimento tem que ser expresso, e quem não está em condições de consentir (crianças; ou mulheres bêbadas, por exemplo) não consente. Na dúvida é não. Forçar a pessoa a fazer alguma prática sexual que ela não quer, mesmo que ela tenha consentido em transar, também é violência sexual.
- Agredir fisicamente. 
- Ameaçar. 
- Perseguir.
- Vazar nudes ou difamar de outra maneira.
- Não pagar pensão.
- Ter relações sexuais com menores de 14 anos.

Tendo diferenciado o desagradável do criminoso, há que se pensar nas abordagens. Minhas conclusões caso a caso:


Sobre artistas:

Há que se levar em consideração questões históricas. Todos somos parte de nossas épocas, e portanto dificilmente alguém do tempo da escravidão não será racista, por exemplo. Sou contra o banimento dessas obras, mas a favor de uma leitura/observação critica. Não vejo sentido em crucificar mortos, mas devemos sim apontar seus erros - os expressos nas obras, principalmente; mas também os de princípios, quando estudando obras mais a fundo ou biografias.

Com os vivos é diferente. Na nossa época, não é mais aceitável ser machista/racista/lgtbfobico/etc. Por outro lado, sei que todos temos nossos prazeres culpados; aqueles gostos que nos envergonham. Então na minha opinião a questão em si nem é gostar de algo problemático (desde que haja a consciência que o objeto em questão é problemático); e sim outras duas:

1-Vida e tempo são limitados, portanto, não teremos tempos de apreciar todas as obras de arte. Nesse sentido, acho que vale a pena buscar obras que agreguem mais ou que sejam menos ofensivas (eu particularmente adoro um besteirol, eu só prefiro que ele não me ofenda).

2- O dinheiro também é limitado. Tenho alguns gostos duvidosos e por isso não sou terminantemente contra consumir obras de criminosos, mas sou contra sustenta-los. Então sou a favor sim de boicotar shows e outros eventos pagos e ficar nas mídias onde eles ganham menos do meu dinheiro, e não os divulgo. Boicote individual não é a melhor estrategia para mudar a sociedade (afinal, eu sou só uma e não é como se eu fosse uma grande investidora e meu dinheiro fosse fazer muita falta); mas nesse caso eu pelo menos fico mais em paz com o meu travesseiro. As pessoas desagradáveis eu analiso caso a caso.


Sobre pessoas com quem convivo:

No caso de sofrer "apenas" algo desagradável de alguém conhecido, eu não acho que expor abertamente (em redes sociais, por exemplo) é o melhor caminho, porque não sei o quanto a exposição é efetiva em alertar outras mulheres ou só coloca a mulher em posição de vulnerabilidade de processo por danos morais ou ser mais uma vez taxada de louca. Por outro lado, não julgo quem expõe. Acho que o melhor a se fazer é avisar as amigas mais próximas, que se encarregarão de alertar as outras amigas. 

No caso de ser vítima de crime, a abordagem é parecida, mas cabe denúncia à justiça. Que ninguém é obrigada a fazer; mas que é também considero um favor às outras vítimas em potencial. Além disso, acho a exposição em redes sociais mais justificada.

No caso de ver um amigo sendo desagradável, é hora de falar com ele sobre isso e tentar salvar essa alma, ou se afastar (amigo é uma coisa e conhecido ou colega é outra. Em amigo a gente confia de verdade, por isso não dá para continuar sendo amiga de cara que continua sendo desagradável depois de conversar. Conhecido ou colega dá mais preguiça de salvar a alma e mais vontade de se afastar só, nem que seja por uma tarde e depois o coleguismo persiste. Nem toda conversa problematizadora vale a pena, vivemos em sociedade e somos obrigados a conviver e dar bom dia para várias pessoas que não gostamos, algumas pessoas são até ótimas companhias para um café rápido). No caso de ver algum amigo, conhecido ou colega sendo criminoso, cabe conversar com a vítima e apoiá-la. No caso de saber de alguma denúncia de conhecido, a sororidade clama para não comentar com o homem em questão. 

No caso de estar se envolvendo com alguém desagradável, eu ficaria bem atenta e pronta para sair correndo. No caso de criminosos, eu sairia correndo antes de começar a me envolver (a não ser que o caso tivesse ocorrido há muitos anos atrás e eu realmente acreditasse na mudança. Aí eu ficaria bem atenta e pronta para sair correndo).


PS: Um texto que considero muito bom sobre o assunto é este aqui.

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