sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Leiam Angela Davis - parte 2

[Os posts tardam, mas não falham]

Entre as muitas formas de resistência da população negra apresentadas no livro "Mulheres, raça e classe", destaca-se a educação; a habilidade de ler e escrever e portanto de entender a própria história. São narrados episódios de mulheres negras que transmitiam conhecimento clandestinamente; e também a contradição de abolicionistas brancos que eram contra o convívio d crianças brancas e negras na escola.

A história do envolvimento das mulheres brancas com a luta abolicionista é uma perfeita demonstração do porquê é importante conhecer nossos aliados e unir as lutas; e como omissão é conivência e rapidamente torna-se violência descarada. Inicialmente, a luta pelo sufrágio feminino e pela abolição estavam juntas e, mesmo que a maior parte das sufragistas fossem mulheres brancas de classe alta, havia negras em papeis de destaque (o discurso de Sojourney Truth, uma mulher negra que acaba com os argumentos machistas mostrando que ela era capaz de fazer tudo o que os homens faziam, e que era uma mulher, é maravilhoso). Após a abolição, era do interesse dos capitalistas do norte dos EUA que os homens negros pudessem votar (afinal, ex-escravos não elegeriam seus ex-senhores do sul); e, por isso, eles começaram a apoiar esta luta. As sufragistas brancas se sentiram traídas e se opuseram a causa, por achar que ou o sufrágio tinha que ser para todos ou para nenhum dos excluídos. É um tapa na cara ver feminismo e racismo de mãos dadas há tanto tempo; ressaltando a importância de um feminismo interseccional. As sufragistas brancas começaram não apoiando abertamente o direito a voto dos negros e impedindo mulheres negras de falarem em suas conferências; e, em pouco tempo, argumentos escancaradamente racistas surgiram - mulheres brancas seriam mais instruídas e inteligentes que homens negros; por isso, fazia mais sentido elas votarem em detrimento deles. A causa ganhou apoio de grandes senhores de terra do sul, não porque eles de fato se interessassem por direitos das mulheres, mas porque apoiavam o racismo e nos votos dos negros eles perderiam seu poder. Ressalta-se que as sufragistas eram em maioria mulheres ricas, enquanto os negros ex-escravos em sua maioria encontravam-se em situação de pobreza e contínua violência - após a abolição, quando o negro não era mais propriedade e portanto lucro, tornaram-se comuns os linchamentos. Portanto, igualar as opressões dos homens negros e das sufragistas era falso. O resultado da separação das lutas foi o enfraquecimento de ambas, com o direito ao voto dos homens negros sendo estabelecido e depois tirado e os apoios de quem realmente detinha o poder variando de acordo com os próprios interesses.

A questão de classe é apresentada como uma das alavancas da abolição (manter um escravo vivo tornara-se mais caro do que explorar um trabalhador ou trabalhadora) e como algo que aproxima as opressões de raça e gênero, que são sentidas de forma diferente dependendo da classe social a qual a pessoa pertence. As lutas do feminismo são diferentes de acordo com raça e classe das mulheres engajadas -  mulheres ricas podem explorar outras mulheres economicamente; mulheres  negras muitas vezes não são vistas como mulheres. Lutas comuns das feministas brancas, como pelo direito ao aborto ou contra os estupros, ganham outro ponto de vista de feministas negras (ou, nos EUA, não-brancas - latinas, asiáticas, etc). A lei contra o estupro surgiu tendo por objetivo proteger mulheres brancas; "frágeis e propriedades"; mulheres negras que foram escravizadas eram constantemente estupradas por homens brancos. Apesar disso, o mito que existe é o do estuprador negro, que homens negros seriam mais propensos a estupros. Isso era utilizado como desculpa para linchamentos e até a atualidade contribui para o encarceiramento da população negra (habitualmente também mais acusada de outros crimes); e faz com que mulheres negras de fato sejam mais sensíveis à possibilidade de falsas acusações de estupro. Um dos pilares do feminismo branco é nunca duvidar da vítima, porque crimes sexuais são subnotificados e frequentemente relativizados ou atribuem culpa à vítima. Porém, como as opressões se entrelaçam; o racismo nas falsas acusações a homens negros é real. O planejamento familiar também é diferente para brancas e não brancas. O aborto legal deveria ser um direito de todas; mas, enquanto as brancas são vistas como responsáveis por manter a raça e frequentemente pressionada a ter mais filhos, não são infrequentes as acusações às negras de "ter filhos demais", como se fosse isso a culpa da existência da pobreza; ou mesmo denúncias de esterilização forçada.

O último debate levantado pelo livro é como lidar com o trabalho doméstico. Angela tem um viés marxista, e portanto acredita que a solução para a exploração do trabalho feminino é a socialização do trabalho doméstico em restaurantes, lavanderias, etc. Neste ponto, a leitura de "Mulheres, Estado e Revolução" da Wendy Goldman me trouxe discordâncias - no livro de Wendy, vê-se como a tentativa de socializar o trabalho na Rússia pós-revolução falhou porque o trabalho doméstico nunca tem fim. A União Soviética não foi capaz de lidar com a questão de gênero e, em uma época em que não existiam anticoncepcionais, as mulheres continuavam as maiores responsaveis pela criação dos filhos e portanto menos empregáveis. A socialização do trabalho doméstico é importante, mas tem um limite - acho que todos tem que limpar o próprio banheiro, por exemplo - e é nesse limite que entra a importância da divisão do trabalho entre os que habitam a casa.

Um amigo meu dizia que é chato terminar livros que não são romances porque as páginas terminam sem climax; mas as ideias são muitas. Leiam Angela Davis, recomendo.

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