segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Leiam Angela Davis - parte 1

Um dos melhores livros que li ano passado foi o "Mulheres, Raça e Classe", da Angela Davis; e desde que terminei estou prometendo a mim mesma escrever sobre. Em tempos de ataques por todos os lados, entender como raça e gênero se relacionam com classe e entre si é fundamental para não achar que ataques à minorias são mimimis ou mera cortina de fumaça; e ao mesmo tempo não ceder à tentação do privilégio de protestar apenas escolhendo cor de roupa para selfie.

(Vale lembrar que isso aqui é um texto de blog pessoal, então, assim como outros posts que fiz sobre livros, não é nem um resumo, nem uma análise, nem uma resenha. É um conjunto de digressões.)

O livro é de fácil leitura e constitui-se de um conjunto de artigos. Vários dos conceitos apresentados são velhos conhecidos de textões de internet; mas ler um livro fundamentado com fatos históricos escrito por alguém que estuda o assunto qualifica -e muito- o debate. Dá um pequeno desespero de "a gente ainda está discutindo isso aqui?", já que o livro foi escrito em 1981; mas ajuda a entender tempo histórico e se instrumentar para a luta.

Começa narrando a experiência da escravidão dos negros e negras nos EUA; e os relatos da escravidão são terríveis como tem que ser. O modo como escravas eram estupradas e vistas como animais reprodutores me fez pensar em "The Handmaid's Tale" e no quanto foi fácil para mim empatizar com o terror da brancura de Offred, enquanto eu sei que houve a escravidão, apenas não consumo pensar a respeito. No momento político em que vivemos no Brasil, é comum a esquerda mencionar como não dicutimos ainda a ditadura militar o suficiente; e é isso que faz com que pessoas peçam intervenção militar ou repitam variações de "Nada de mal aconteceu com quem era bom" ou "Na época dos militares não existia corrupção". Pois a leitura do livro da Angela me fez ver o quanto ainda não discutimos escravidão o suficiente. A abolição ocorreu há 130 anos; isso quer dizer que netos de pessoas que foram escravizadas ainda estão por aí. É muito, muito recente; e essa proximidade histórica torna ainda mais absurdo o fato de não falarmos a respeito como se deveria. Como o mito da abolição pacífica pela princesa Isabel é repetido, assim como o da igualdade racial.

Obviamente o livro da Angela não discorre sobre as questões brasileiras; mas narra as questões de lá que também foram questões aqui: todas as torturas utilizadas como punição, incluindo o estupro não por "necessidade sexual dos senhores", mas como demonstração de poder sobre a mulher estuprada e também seu companheiro (é relatado também como o estupro foi utliizado como arma em outras guerras, como exemplo a do Vietnã, na qual soldados eram instruídos a "revistar mulheres com o pênis"); a miscigenação como produto do estupro; a exploração da força do trabalho de ambos os sexos feita da mesma maneira (e mulheres eram inclusive consideradas mais baratas, porque trabalhavam o mesmo que homens, mas requeriam menos comida); o término do tráfico da África fazendo mulheres serem vistas como animais reprodutores e ainda assim tendo sua mão de obra explorada duramente durante gestação e amamentação. Há uma história particularmente dramática de um escrava que fugiu e, após ser recapturada, preferiu matar a filha, para que ela não sofresse o mesmo. Em meio a tanto sofrimento, é relatada muita resistência; na forma de insubordinação, fugas e acesso clandestino à educação.

Enquanto narra a resistência do povo negro à escravidão, Angela fala também de como mulheres brancas se engajaram na luta anti-escravagista. A revolução industrial tirou do lar as tarefas como costurar, bordar, fazer velas, etc; fazendo surgir a figura da "dona de casa" - uma mulher rica e, muitas vezes, entediada. Estas mulheres começaram a se envolver com caridade, organizando eventos e abaixo-assinados, o que lhes deu uma valiosa noção de como fazer política. Nas primeiras décadas do século XIX, as sociedades femininas contra a escravidão foram sendo criadas. Envolver-se na luta anti-escravagista fez com que mulheres brancas percebessem que tinham menos direitos que os homens brancos, pois, embora muitas fossem engajadas, não lhes era permitido frequentar ou falar em vários espaços. A reivindicação do sufrágio feminino chegou a ser considerada radical demais para constar em uma convenção pelos direitos das mulheres em 1848.



[Este post começou a ficar longo e meu tempo de escrita por hoje acabou. Para tentar retomar a regularidade das postagens, encerro por aqui por hoje e deixo o resto para a próxima semana]

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