Esses dias, não sei qual dia ao certo, completei dois anos de Florianópolis. É estranho, porque dois anos são muita coisa, mas, se me perguntarem, ainda estou aqui quase como intercambista. Sou de Belém e minha universidade é a Unicamp.
É interessante ver as fotos que bati por aqui nos meus primeiros dias. O objeto de fotografia sempre é algo de notável; e hoje o que me era notável na chegada me é cotidiano. O mar sempre lindo mas cujas fotos eu hoje procuro outros ângulos, os pixos perto da UFSC - "O caos habita em voz". O olhar da foto é o olhar do viajante, não de casa. É bom ver a casa pelos olhos do viajante porque viram novas galerias.
(E por falar em como se observa o que é notável, permitam-me uma digressão: neste final de semana me dei conta que existe um paradoxo das notícias. Se o mundo é bom por essência, o bom não é notável, então o bom não é notícia. O que é notícia são as tragédias, porque são elas que destoam da normalidade. Mas as tragédias noticiadas geram um mal estar, então o mundo não parece bom. Noticiar o que sai da normalidade torna o mundo o que não é, porque ser é um processo de auto-reconhecimento e as notícias são nosso espelho.)
Não sei se tenho dificuldades de criar raízes ou raízes muito fundas. Sei que há uma lenda que diz que a Ilha da Magia te acolhe ou não, e eu não tenho dúvidas que Florianópolis me acolheu, porque eu venho tendo boa sorte. Nesta terra, as bruxas sempre foram livres.
Demorei para identificar o sotaque de Floripa, talvez porque o chiado e o tu me sejam tão gostosos no ouvido. Hoje já sei que o cantado manézinho um dia me trará saudades.
Na verdade, é bom ser intercambista, porque intercambistas sabem como ninguém aproveitar os dias de sol. Sempre que lembro que não morarei aqui para sempre, olho o mapa turístico da ilha que tenho na parede e escolho uma nova praia, uma nova trilha, um novo passeio de final de semana que me fazem me sentir viajando. Se não ficarei aqui para sempre, preciso aproveitar tudo, cada instante. Talvez meu doutorado seja meu mochilão mais longo.
Quando eu ainda morava em Campinas, uma amiga começou a desenhar um mapa afetivo. Era um mapa normal, mas ela anotava os nomes verdadeiros dos lugares: os apelidos carinhosos dos bares, as casas dos amigos e dos pseudo-amores, o convento das carmelitas. Um dia ainda farei o mesmo para cada uma das minhas casas, mas será segredo. Desnudar minhas cidades é algo muito íntimo.
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