segunda-feira, 22 de junho de 2020

Diário de quarentena - parte 11

Quando isso tudo acabar, a primeira coisa que farei serão planos.

Dois gatinhos, dois daqueles do início deste diário, ainda filhotes mas não mais tanto, apareceram dando rolê à noite na porta da minha casa. Os gatinhos sobreviveram, eu fiquei tão surpresa, alguma casa adotou os gatinhos e eles estão bem.

Na casa dos meus pais eles não assistem mais Jornal Nacional. 

Meus amigos do instagram estavam todos na praia. 
Era domingo, início de inverno, e estava sol depois de uma daquelas semanas tão cinzas e geladas. Coloquei a máscara e fui, um passeio de menos de uma hora na praia a 3 quadras de casa. O por-do-sol estava tão, mas tão lindo. Foi o dia em que batemos oficialmente as cinquenta mil mortes. Guardei a máscara no bolso do short e sentei na areia.

"Não se pode culpabilizar o indivíduo", eu pensei, "Não temos um pacto social que faça sentido. Por que essa galera que pode pagar duzentos reais num almoço pode sentar aqui e eu não? Porque as pessoas que trabalham aqui tem que vir trabalhar aqui, mas não podem passear? Eu ficaria em casa se todos estivessem, mas não faz sentido eu não poder andar a 3 quadras da minha casa enquanto a minha esquina engarrafa. Eu cansei de ficar com raiva das pessoas que não estão em casa, eu não aguento mais ficar em casa, eu acho injusto culpar só as pessoas se não temos um pacto social que faça sentido."

A praia estava lotada, e o céu azul-laranja.

E as pessoas continuam morrendo, mais e mais.

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