segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Sobre a solitária vida na pós-graduação

Além do limbo não-profissional da falta de direitos trabalhistas, do não reajuste das bolsas e o medo constante de perdê-las; além da pressão por resultados e da síndrome do impostor sempre à espreita; além das questões existenciais de se dar conta da intrínseca pequenez de tudo e medo de apenas estar se tornando um desempregado super-qualificado; na pós-graduação, há que enfrentar a solidão.

Ficar trancada em uma sala matutando pensamentos.

Ler, escrever, ler, escrever, ler, escrever. Uma vez, há mais de dez anos atrás, quando eu pensava em largar a biologia, um professor me disse que tudo que qualquer um que quisesse ser pesquisador precisava era saber ler e escrever. Foi uma colocação muito sábia. 

Ler, escrever e não desesperar.

Às vezes acho que preferia uma profissão prática, daquelas que a gente conversa com as pessoas e vê o que está acontecendo e sendo feito. Revolução industrial particionou conhecimento, cá estou eu aprendendo tudo sobre nada.

Mais uma fatia fina de conhecimento.

Mulher num mundo masculino. Os rapazes se adoram. Na sexta fomos juntos o bar, foi divertido. Gosto deles. Falamos de filmes e histórias em quadrinhos e receitas de cerveja; e eu acho que tem hora na vida que tudo o que eu quero é falar dessas bobagens, mas a verdade é que eu não me importo com nada disso, nem um pouquinho. Eles deixaram escapar os vários rolês que fazem entre eles e meio que se desculpam de nunca terem me chamado, mas a verdade é que eu não gostaria de ser chamada; aquele bar estava ótimo mas era só. Na minha antiga universidade os caras me tratavam mal; então soa besta eu sempre elogiar que os caras aqui me tratam bem porque parece apenas o óbvio, mas não é. Os caras aqui me tratam bem e eu gosto deles; trocamos listas de exercício e códigos e rimos.

Às vezes eu me pergunto se não sou chata ou metida.

E eu sinto falta de falar de coisas com as quais eu me importe. Às vezes eu acho que é um comentário tolo, mas somos seres sociais, não é mesmo? Às vezes eu acho que eu preferia era ter uma bela rede de apoio, aí eu poderia fazer qualquer coisa. Porque eu sei ler e escrever. Às vezes eu realmente não queria passar tantas horas do meu dia sozinha em uma sala sem janelas matutando ideias.

Parece tolo, mas a parte mais importante de integrar um grupo feminista na engenharia me tem sido a rede de apoio. Fazer amigas, não me sentir tão sozinha.

Para querer mudar o mundo, a gente tem que achar que o mundo vale a pena.

Ciência deveria ser mais revolucionária, e revoluções precisam de mais abraços.

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