Até hoje eu não sei o que responder quando as pessoas perguntam a minha profissão. Quando são aquelas fichas de cadastro genéricas eu coloco "engenheira". O mesmo vale para desconhecidos randômicos fora do horário comercial, "você faz o que?". No horário comercial eu digo que sou estudante, para justificar ser 9:30h de uma terça-feira e eu estar passeando com a cachorra.
Há uns anos atrás eu dizia "faço mestrado", mas hoje, fora do meio acadêmico, acho que soa pretensioso ou só louco. "Doutorado". Que raios é um doutorado?
Não que seja da conta de ninguém, mas enfim, eu já tenho trinta anos e uma ruga na testa. As bochechas redondas e o cabelinho hipster não vão me garantir aparência de juventude eterna. Eu não queria que os vizinhos achassem que eu sou uma dondoca sustentada pelo marido. Aí eu perco uns minutos explicando que eu sou pesquisadora, que eu recebo uma bolsa do governo para estudar combustíveis limpos. Parece bonito.
(Eu nunca me dei ao trabalho de falar que eu e o David não somos casados, eu acho divertido perguntarem do "meu marido".)
Como eu passeio com a cachorra 9:30h de uma terça-feira, eu fico trabalhando até mais tarde. E no sábado. E no feriado. E aí eu entro naquele ciclo maligno do dito "horário flexível", que na prática quer dizer que você nunca terá um segundo de folga honesta para você mesmo.
Prometo a mim mesma que amanhã passearei mais cedo com a cachorra. Amanhã eu lembro que mais cedo o trânsito é uma droga, então vale a pena deixar para ir mais tarde para a universidade e aproveitar os horários flexíveis. Aí no sábado eu estou trabalhando mais uma vez. Prometo a mim mesma que não trabalharei mais no sábado, mas eu preciso entregar isso segunda...
Não é possível que os outros sejam tão mais inteligentes e produtivos do que eu. Tudo para mim toma muito, muito tempo.
Há uma competição não-declarada no meio acadêmico de quem está mais disposto a abrir mão da própria vida.
Na adolescência/início da vida adulta, é comum exibir atitudes auto-destrutivas como troféus. "Aquele dia que eu passei mal de tanto beber". Na academia (e em outros ramos profissionais) isso é transformado em "aquela noite que eu passei sem dormir".
Precisamos falar sobre isso.
Minha geração cresceu com crença muito forte em "fazer o que ama". E é claro que fazer o que ama é um privilégio para poucos, mas ninguém conta isso. E ninguém conta também que amor por si não sustenta nada, nem um emprego, nem uma relação afetiva. Amor é só um ingrediente.
Na academia isso tudo é bastante extremado. Fazer o que ama é uma obrigação; por que você vai fazer um doutorado em algo que não ame? E, se você ama, por que está reclamando?
Doutorado pode ser um relacionamento bastante abusivo.
Daí eu repito a mim mesma que amar ideias é um erro. A ciência é feita de destruir teses. A ciência está bem longe de ser neutra, mas ideias se protege com fatos, não com afetos.
Eu não escolhi estudar combustão especificamente. Eu queria estudar energia, combustão foi o que veio. E eu peguei.
Homens, sempre eles, costumam vir me ensinar como fazer meu trabalho.
- Ainda vale a pena estudar combustão?
O dia em que não valer eu saberei estudar todo o resto. Pesquisa é sobre aprender, não prender.
Revejo meus objetivos. Combustível limpo. Os principais biodieseis do Brasil: combustível de soja e sebo bovino. Soja é essa monocultura destruindo a Amazônia. Ninguém há de aplaudir como vivem e morrem os bois, mesmo sebo sendo só o rejeito. Será mesmo combustível limpo? A quem serve meu conhecimento?
Anoto no meu caderno de laboratório: pesquisar produtos de agricultura familiar.
Estou tão longe da minha família. Eu nunca teria me tornado a pessoa que sou se não tivesse passado a última década longe de Belém, e eu gosto de quem sou; mas eu sinto saudades. E sinto que toda essa história de formação é uma grande mitologia. Qual a importância de estudar em uma universidade "melhor"? O que é uma "universidade melhor"? Os critérios de avaliação produtivistas servem a quem? Não a mim, trabalhando no domingo.
Meu caderno de laboratório está virando meu diário.
O problema não é a engenharia, é o sistema. Como mudar o sistema?
Fazer doutorado dá vontade de fazer uma revolução.
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