segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Observações pós-eleições - Parte II

Uma semana após as eleições presidenciais, já circulam os textos explicando como o Bolsonaro usou, continua usando e provavelmente não vai parar de usar as pautas-bomba - a estratégia do Trump para desmoralizar a mídia tradicional e tirar o foco de suas ações reais. Funciona assim:
1- Bolsonaro diz um de seus impropérios
2- Pessoas se chocam e dizem "olha que absurdo ele falou" e chamam os eleitores dele de burros
3- Bolsonaro diz em suas redes sociais que "não é bem assim"
4- Eleitores acham que a mídia e os opositores são alarmistas e mentirosos, e acreditam e defendem cada vez mais Bolsonaro.

A primeira vez que li sobre o uso de pautas bombas eu devo dizer que entrei um pouco em pânico. Depois de uma vida de internet a gente aprende a não alimentar os trolls e a fugir dos baits (aquelas postagens obviamente provocativas que só tem por objetivo irritar e não construir um debate real), mas como lidar com um presidente fazendo isso? Fingir que não está vendo para não dar ibope? Um presidente não precisa de mim para ter ibope, e se eu fingir que não vejo o risco é as pessoas acharem aquilo natural mesmo - afinal, embora Bolsonaro tenha sido eleito principalmente pelo antipetismo, a onda de aumento da violência contra minorias durante sua ascensão na campanha e após a vitória mostra que seu discurso mais virulento representa sim uma parcela significativa da população.

(Para deixar registrados, os casos de violência que aconteceram perto de mim ou com pessoas próximas até agora foram: 1) Minha prima de 17 anos estava andando no dia da eleição e foi abordada por um carro com adesivo Bolsonaro que ofereceu carona. Ela recusou, ele insistiu, ela se assustou e gritou e ele disse que se Bolsonaro fosse eleito ela não poderia mais resistir. 2)  Esta quinta, dia 01 de novembro, desde umas 20h vi que havia viaturas da PM dentro da UFSC circundado com sirenes, em um comportamento bastante incomum. Fui embora da UFSC 21h e as sirenes continuavam. Mais tarde, chegou a mim a informação que um samba que estava acontecendo foi dispersado com bombas de gás e balas de borracha [1] [2])

Enquanto meu facebook parecia estar se tornando uma intercalação de alguns comentários do G1 (xingamentos anti-esquerda difíceis de diferenciar entre robôs e pessoas) e outros vários amigos de esquerda extravasando a raiva xingando de volta, percebi com conversas de verdade ao vivo com gente de verdade que o caminho é justamente aquele que o feminismo me ensinou: Oprimido não tem obrigação de salvar alma de opressor; mas vivemos em sociedade e precisamos ser pragmáticas. Ou seja: ficar com raiva e responder ofensa com ofensa é plenamente justificável e inclusive importante dependendo do processo, mas é uma resposta individual (ganhar uma briga) para um problema coletivo (opressão, política neoliberal). Vitórias individuais são importantes, mas se buscamos uma saída coletiva precisamos convencer as pessoas a lutarem com a gente. Existem os maus e os mal-informados; e é preciso diferenciar ambos e informar os segundos. Não dá pra mandar meio país à merda. Isso serve para quebrar as notícias bomba porque a) Ajuda a gente a segurar a nossa onda saber que o futuro presidente é um bosta mesmo, mas está falando isso apenas para tirar o foco e b) Ajuda a construir um diálogo com o outro lado mostrar que tudo bem mudar de ideia e não defender tudo que o Bolsonaro defende.

Assim, pragmaticamente defendo que:

1- Precisamos estudar. A defesa dos direitos humanos e de uma educação de qualidade é uma premissa básica e precisamos mantê-la; mas para isso precisamos conhecer realmente as pautas - por que redução da maioridade penal é ruim, por que tirar investimento da universidade pública e cobrar mensalidades não resolve, por que lutar contra "ideologia de gênero" não faz sentido. Precisamos ter dados, números. Além disso, precisamos estudar economia, e ler algumas das referências de direita para saber conversar e não ficar repetindo falácias do lado daqui. Precisamos qualificar o debate e reconhecer quando não sabemos algo, em vez de defender algo cegamente.

2- Precisamos assumir que os debates não estão prontos e estar o tempo inteiro dispostos a recomeçá-los. Ninguém tem a obrigação de saber de nada, nem de entender nenhum termo específico. Precisamos perguntar quando não entendermos e explicar quando soubermos, para não comprar nem vender discursos prontos.

3- Precisamos acabar com a cultura do "lacre", ter conversas educadas e bem fundamentadas e fazer críticas construtivas e bem embasadas ("sou contra isso por isso isso e isso" em vez de "você é burro por acreditar nisso"; "ele disso isso nesse vídeo aqui e isso é ruim por isso e isso" em vez de "ele mesmo falou isso, não adianta se arrepender agora"). Precisamos discutir ideias e não ofender pessoas (exceto quando a outra pessoa nos ofende; aí ninguém é obrigado a ser gentil - ainda que mesmo nesses casos às vezes manter a educação seja uma vitória pragmática), e estar dispostos a rever nossas ideias. Precisamos lembrar que tudo o que se posta em redes sociais é como colocar em um outdoor, e pode sim ser bastante ofensivo e pessoas nas quais nem imaginamos que aquilo ia chegar. Precisamos sair das redes sociais e discutir na vida real, onde há tom de voz e afeto.

4- Precisamos promover locais de discussão e construir redes. Tenho o privilégio de ser doutoranda de uma universidade federal, que me permite trocar em ambientes maravilhosos como o coletivo Mulheres na Engenharia. Precisamos de mais espaços dentro e principalmente fora das universidades, e acho que cabe a cada um saber quais espaços pode ocupar. Tenho uma amiga que teve conversas maravilhosas sem falar em partido político durante as eleições sendo palhaço voluntária de hospital, por exemplo. Precisamos discutir modelos de sociedade, e nos organizar em grupos.

5- Precisamos escolher nossas batalhas, para não gastar tempo e energia com quem não quer conversar ou desgastar relações baseadas em outros pilares. Precisamos também proteger nossos afetos. Se você só convive com gente que pensa igual a você, sorte a sua. A maioria de nós, entretanto, possui em seu círculo de convivência algumas discordâncias. Não acho que nenhum laço ofensivo deva ser mantido, mas existem muitas pessoas com quem vale a pena conversar e buscar concordâncias. Por exemplo: acho que cada pessoa sabe o seu limite teórico. Por ser engenheira convivo com muitos caras de direita. Alguns eu considero completos idiotas por seu comportamento misógino e/ou xenófobo (lembrando que sou nortista) e/ou  racista e/ou contra pobres. Destes eu tento manter uma distância salutar, e nem compro briga porque é como falar com uma parede. Por outro lado, atualmente valorizo pessoas que defendem políticas de direita econômica sem desrespeitar direitos humanos. Espero que essas pessoas se posicionem a meu favor em casos de desrespeito a mulheres ou xenofobia. Em vários momentos acho que não vale a pena discutirmos nossos pontos de vista políticos para não desgastar a relação; em outros momentos acho um enorme aprendizado poder falar de pontos de vista diferentes com afeto.

6- Precisamos estar atentos para quais leis estão sendo votadas, e nos manter mobilizados para reagirmos de maneira enfática e bem embasada. 

É difícil usar armas qualificadas para combater um debate raso, mas creio ser essa a única estratégia honesta e funcional a longo prazo, para além de descarregar nossas frustrações e medos. Bolsonaro se elegeu batendo nos espantalhos tradicionais da direita contra a esquerda: feminismo, movimentos sociais, educação pública "doutrinadora", "ideologia de gênero", "ordem e progresso". É uma tarefa hercúlea explicar para as pessoas que as feministas não andam todas nuas quebrando igrejas, que o MST não taca fogo em cabanas com gente dentro, que professor mal consegue convencer aluno a ler texto e há muitos pais ausentes, que educação sexual não é erotização infantil e as pessoas devem ser livres para viverem seus afetos, que a ditadura torturou inocentes e que culpa não justifica tortura. É uma tarefa extenuante e não vale a pena perder tempo com quem quer acreditar nesses absurdos ou compartilha mesmo sem acreditar, mas não confundamos os maus com os mal-informados e nem nos julguemos superiores ou donos da verdade.

Não vamos desistir da gente nem dos nossos.

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